segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Como o mundo cria e alimenta Bolsonaros?





         
          Não se iluda, eu não tenho a resposta. Mas a pergunta é recorrente em mim, e tentarei aqui alguma reflexão.  
         O que me intriga não é a legião de bolsonarinhos anônimos que vivem por aí, nos constrangendo com seu comportamento inadequado à civilização.  O que me intriga é que tipos como esse consigam se transformar em "alguém" que desfruta de uma situação relativamente confortável - excetuando seu provável desconforto interno pela convivência consigo mesmo -, que tem um lugar no mundo, e que consegue ser "aceito", com toda sua asquerosidade, por gente que, por não rejeitá-lo, alimenta sua estadia nesse planeta sem condená-lo ao ostracismo, à solidão, à penúria, ao fracasso total. Pior: que esse "alguém" se infle, consiga seguidores, defensores, eleitores (!!!) e uma peçonhenta visibilidade, que acaba por contaminar fracos de espírito, desavisados, equivocados ou até mesmo simples desgostosos desse nosso mundinho que está pra lá de deixar a desejar. 
            Eu sei - o mundo está cheio de gente horrível, de fatos medonhos, de crimes hediondos, de barbaridades... Também sei que, se alguém tem uma péssima ideia, mas grande espírito de liderança, sempre conseguirá angariar militantes para sua causa. Vide Hitler.  Estamos cansados de ver nos noticiários crimes bárbaros sendo cometidos por grupos que compartilham da mesma crueldade. Também estamos fartos de ver grupos políticos defendendo líderes retrógrados e conseguindo fazer barulho. O ser humano nos surpreende todos os dias, para o bem ou para o mal. Entretanto, ao menos para mim, soa muito diferente o fato de um psicopata conseguir comparsas para realizar um crime - o que se faz às escuras -, do fato de alguém com um comportamento totalmente estapafúrdio fazer uma escalada na vida pública, entre pessoas que deveriam prezar pela civilidade, em uma época como a nossa - que, definitivamente, não é mais a de Hitler -, em que absolutamente tudo o que se faz está exposto na mídia e sujeito ao julgamento alheio. Apesar de ver muita gente destilando ódio por aí, parece-me que o senso comum ainda deseja um mundo onde prevaleça o bem. Porque, afinal de contas, se essa máxima deixar de valer, a vida será inviável. E é então que um personagem controverso como Bolsonaro ganha espaço - ao apresentar soluções extremadas e simplistas para problemas extremamente complexos. Talvez o que, para mim, pareça um enorme mal - como a defesa da pena de morte ou a diminuição da maioridade penal, sem falar em sua defesa à ditadura -, para muitos, mais imediatistas, pode parecer um enorme bem.  Mas deixemos essa ambiguidade teórica no campo da teoria. A meu ver, o mais preocupante é que as teorias de Bolsonaro ganhem força e adeptos, apesar de sua postura pessoal absolutamente repreensível. Fotografada, filmada, exibida nas redes sociais, enfim: uma postura grosseira de um homem que mais parece um selvagem, que faz daquilo que tem de pior seu marketing pessoal, que não respeita o ser humano, nem seu ambiente de trabalho, nem as mais elementares regras da boa educação, e que se perde no tom da voz, no discurso e nas atitudes, contrárias a tudo o que se pode esperar de alguém que ocupe sua posição e até mesmo de qualquer cidadão comum. Que lógica pode sustentar a paradoxal crença em que um produtor do mal possa ter boas ideias para combatê-lo?
           Quando, em determinadas situações, não combatemos o mal porque ele está além da nossa capacidade de combatê-lo - seja porque fisicamente distante de nós, seja porque não temos o menor poder sobre ele -, somos até capazes de perdoar a nós mesmos pela nossa inação.  Mas, e quando cruzamos cotidianamente com uma figura abominável e a toleramos sem ressalvas?  Eu tento imaginar a quantas pessoas essa criatura agrediu, ao longo de sua vida, verbal e fisicamente, ou simplesmente com a própria postura. E... no que deu tudo isso?  Eu não sei se ele foi admoestado por seus pais, eu não sei se ele foi expulso das escolas em que estudou, eu não sei se a mulher dele nunca o repudiou, nem sei se seus filhos nunca questionaram seu comportamento. Mas tudo isso não deveria ter acontecido? Não sei se teve ou tem amigos verdadeiros.  Mas sei que ele seguiu em frente e foi se mantendo no poder, cada vez provocando mais polêmica e a cada nova investida se mostrando mais descontrolado. Será que, em algum momento, esse homem quebrou a cara com seus relacionamentos pessoais? Ou será que TODOS com quem convive concordam com suas ideias?  Improvável, não? 
          Eu conheci cafajestes e me afastei deles. Nem sempre é fácil, e eles sempre encontram quem os acolha. Às vezes são tão fanfarrões que servem como bobos da corte, e as pessoas, em geral, adoram rir...  É um verdadeiro mistério o que estimula pessoas a se unirem. Nessa nossa pós-modernidade, normalmente os seres humanos não se importam muito com os valores morais, se usam como mercadorias, prestam favores uns aos outros, preenchem o enorme buraco que têm dentro de si com a presença alheia - seja ela agradável ou não -, se aborrecem mutuamente... e, infelizmente, não querem mais questionar o comportamento alheio. Isso dá trabalho. A pós-modernidade trouxe um componente de aceitação de tudo o que é diferente e parece ter esquecido que nem sempre o diferente é aceitável. O "diferente" que prega o atual discurso democrático de tolerância se refere a raças, religiões, crenças, posturas políticas, modos de vida. Mas está havendo uma confusão entre "tolerância" ao diferente - conceito que inclui o respeito ao próximo - e aceitação de tudo, sem questionamento - o que inclui aceitação do desrespeito ao próximo.
           Todas as vezes que nos calamos perante o desrespeito, o abuso, a falta de educação, enfim, perante ações que fazem nosso mundo mais feio, estamos sendo cúmplices. E, olha... o mundo está precisando desesperadamente se embelezar. Com a educação, com o respeito, com a gentileza, com o cuidado com o outro. 
            Se Bolsonaro chegou onde está - e pela sexta vez! - é porque uma legião de gente da mesma laia que ele o colocou ali. Porque não se pode negar que há quem pense como ele. Mas, antes disso, muita gente que cruzou seu caminho e o de seus eleitores os tolerou, fermentando esse nefasto substrato.  Eu não sei se por interesse, por covardia, por preguiça ou o quê. Sei que, se às vezes nossa voz é fraca demais para ser escutada pelos bárbaros, ao menos podemos lhes deixar falando sozinhos. Podemos privá-los da nossa companhia. Podemos nos negar a ser coniventes com sua deselegância. Podemos sair do ambiente quando eles entram. Podemos deixar sua vida mais triste e difícil. Podemos. E é por isso que assistir aos vídeos que mostram Bolsonaro barbarizando no Congresso me causa profundo horror, mais pela condescendência quase geral dos que ali estão do que por ele mesmo. Sei que uma parcela dos políticos se manifestou. Mas foi uma parcela muito, muito pequena... E todo o resto, rindo à meia boca, fingindo que não viu ou que não tem nada com isso, fazendo cara de paisagem? Alimentando, enfim, sua monstruosidade? São covardes? São tão horrendos quanto ele e se comprazem com seu discurso? Têm o rabo preso? Afinal, damos nosso voto pra que essa gente nos represente e depois precisamos constatar aterrorizados que há ali uma maioria que não consegue nem ao menos impor respeito dentro da casa em que trabalha? Se o Congresso é realmente representativo do povo que o elegeu, sua conivência com tudo de ruim que Bolsonaro representa significa que estamos muuuito mal. Ou começamos, por conta própria, a fazer algo pela educação em nosso país, ou estamos fritos.   
          
                                                       
                                                                           Ana Lucia Sorrentino
       

                      
    

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Elite fantasmagórica























Como os senhores de Hegel,
servos de seus servos.
Dependentes do trabalho
e do olhar alheio,
é nas vitrines que buscam
o que lhes falta - recheio.
É na grife, na pose,
na posse.
No carro do ano
 - prolongamento do pau -,
na pinta de rico,
na arrogância infernal.
Na bolsa Vuitton,
no erro no tom,
na fraca moral.
É no engano aristotélico
de achar-se melhor e mais
e querer que alguns lhes sejam
naturalmente serviçais.
É na louca insanidade
do viver só de vaidade,
manter-se só de fachada
e por dentro não ter é nada.
Vira-latas carentes,
imperialistas subservientes,
abanam seus rabos
e entoam em oração:
"Obama, Obama,
Obama nas alturas".
Sono de pílula,
sexo sem tesão,
glamour de fachada,
hipocrisia em profusão.
Muitas pseudo-aventuras
e nada, nada, nada, 
absolutamente nada
de compaixão. 
                                                                Ana Lucia Sorrentino






sábado, 25 de outubro de 2014

Reencontro

























E que a fortuna me venha

em inóspita visita,
sorriso aberto, pra variar.
Que traga consigo um presente
para me presentear:
em simples anotação,
dia, hora e lugar.
Que eu vá despreparada,
que o despreparo faz parte,
e que à meia distância
eu já possa adivinhar:
ali sentada, quietinha,
minha vida a me esperar.
Que tenha compreendido
a distância, a ausência
e essa vontade imensa
de ver o bem triunfar.
Que me perdoe a inocência
e essa tamanha crença,
tanta fé a me mover.
Que me olhe toda cúmplice
e segure minha mão.
Perceberei como é linda
e sairei pra balada
dançando toda colada
à minha vida querida,
que não me esperou em vão.
                                                                           Ana Lucia Sorrentino
                                                                                  19/10/2014
  

sábado, 16 de agosto de 2014

Não foi bem assim


















Desconheci a propalada
leveza da infância
mergulhada em austera
familiar herança.  
Me  distraí em fugazes
promessas joviais
de aventuras,
amores e que tais.
Perdi o bonde pro porto seguro  
e grudei no visgo da necessidade,
joaninha alada
presa em teia de contrariedade.
Procurei em tudo que vivi
os conceitos que antes conheci,
e nada.
Sobrevivo,
ciscando no que me aparece,
e agora, vez ou outra,
acho tudo uma piada.
                                                                                              Ana Lucia Sorrentino

domingo, 27 de julho de 2014

Genocídio no terceiro milênio


Na noite deste sábado, manifestantes israelenses protestaram em Tel Aviv pelo fim do conflito           Foto: THOMAS COEX / AFP

            Acabei de ler um artigo* de Mauro Santayana respondendo à pra lá de infeliz afirmação do porta-voz da Chancelaria israelense, Yigal Palmor, de que o Brasil é um anão diplomático. Antes dele nosso assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, já havia se manifestado. 
            Apesar de ter achado ótimas as respostas de Santayana e de Marco Aurélio, fiquei com a sensação de que responder a essa enorme bobagem é dar voz a um Estado que não deveria mais ter voz, tal o nível de barbárie que está promovendo. Barbárie, aliás, só imaginável na época do Holocausto, quando o que se praticava contra os judeus em campos de concentração não chegava ao conhecimento de todos. Hoje o mundo assiste em tempo real o que está acontecendo. E mesmo assim, incrivelmente, está acontecendo. Porque a linguagem dos interesses comerciais fala mais alto do que tudo. Porque há quem forneça armamentos, munição e tecnologia para que isso seja possível. Porque a mídia se refere a uma guerra totalmente desigual como "conflito" e usa todos os eufemismos possíveis e incabíveis para a situação. Fico absolutamente estupefata ao escutar frases como "é preciso 'minimizar' as mortes de civis" vindo daqueles que têm interesse nessa guerra (EUA, falando claramente). Ou afirmações de que Israel tem que “ser mais moderado" na resposta ao Hamas. Essa institucionalização do assassinato me causa horror.
           Todos os dias estamos vendo fotos e vídeos do que está acontecendo com os palestinos. São civis, doentes, idosos e crianças explodidas, morrendo, perdendo pernas, braços e qualquer ilusão de que a vida valha a pena. E a mídia comenta com a maior naturalidade, raramente enfatizando o despropósito que é Israel ter quarenta e poucos mortos enquanto os mortos palestinos já passam de mil. Fico tentando imaginar como é viver em um lugar do qual não podemos fugir porque nosso algoz nos mantém presos para poder nos exterminar. E como é estar dentro de nossa casa e receber um “pequeno aviso”, através de uma “bombinha” de que em três minutos virá uma bomba de verdade, que acabará com a nossa vida. Nada diferente das câmaras de gás de Hitler.  
            Quando Bin Laden explodiu as Torres Gêmeas fiquei profundamente decepcionada, porque, quando mais jovem, jamais imaginara que entraríamos no terceiro milênio ainda enfrentando esse tipo de terror. Acreditava, como Hegel, por ingenuidade, é claro, que a humanidade evoluiria e que aprenderia a negociar diplomaticamente. Que, talvez, por experiências anteriores, os governantes compreenderiam que o caminho para um mundo melhor para todos seria a colaboração mútua. Que por algum milagre a inteligência prevaleceria, e que ser inteligente era atuar para o bem de todos. Que menina tola, não?
            Entendi hoje algo que os mais experientes me diziam e que eu me negava a entender: a inteligência não é necessariamente algo positivo. Ela pode atuar para o bem, mas também para o mal. O que, para mim, constitui desinteligência. A mesma história sobre a qual tão bem escreveram os filósofos da Escola de Frankfurt: a racionalidade pode, sim, produzir irracionalidade.
            Como se não bastasse o desgosto da própria guerra, ainda somos obrigados a cruzar, vez ou outra, com quem a defenda. No começo desse ano, discutindo com um professor sobre Auschwitz, comentei que, para mim, observando a realidade atual, um novo Holocausto era sempre uma iminência. Jamais pensei que estaria tão certa, e que essa iminência estava tão iminente... Tenho medo de gente que defende isso. Tenho medo de uma facção de brasileiros que critica sistematicamente o nosso governo tendo em mente apenas seus próprios e miseráveis interesses. Tenho medo dessa gente que não se importa com os mais humildes, que segrega, que esperneia ao perder privilégios, que lamenta não ter mais a quem escravizar. Tenho medo dessa gente sem caráter que adultera fotos e vídeos para criar factoides contra o nosso governo, sem a menor preocupação moral, apenas porque se sente incomodada com a promoção da igualdade. Porque é esse tipo de gente que, julgando-se melhor do que os demais, tem em si a semente desse tipo de mal, como foi o Holocausto e como é hoje o genocídio dos palestinos.
            O mundo poderia abrigar a todos, fossem todos realmente bem intencionados. Se em vez de guerras tivéssemos cada vez mais alianças, haveria, sim, e ninguém me convencerá do contrário, espaço para todos em um mundo sem fome e pacífico. Mas sempre haverá quem, talvez por uma natureza má, e por má fé, critique as alianças e promova a discórdia.
            E eu continuarei, até velhinha, como a menina “tola” que fui, a afirmar o que sempre afirmei: se a inteligência não promove o bem e a paz, a inteligência não é inteligência, é burrice. E é isso o que Israel está fazendo. Fundamentando-se em uma fábula bíblica para, sob o comando de Netanyahu, com a colaboração dos EUA e a conivência dos que se calam, praticar uma gigantesca burrice. Eu não concordo em absoluto que o Brasil seja um anão diplomático, mas tenho certeza de que Israel está sendo um gigante em burrice.   
                                                                                                      Ana Lucia Sorrentino
*http://www.viomundo.com.br/politica/santayana-porta-voz-de-israel-mostra-o-grau-de-cegueira-e-de-ignorancia-que-chegou-telaviv.html

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Sobre “Filosofia, Auschwitz, Educação e Modernidade”, de Germano Xavier



         Caro Germano1: li seu post “Filosofia, Auschwitz, Educação e Modernidade”2.      Longe da intenção de comentá-lo por inteiro, pretendo aqui apenas explicitar as questões que mais me instigam sobre o assunto.
        Em “Experiência e Pobreza”  Walter Benjamin faz uma análise do início do século XX e das consequências da extremada valorização da razão, que culminou na  Primeira Guerra Mundial. Imagino que conheça o texto.  Ele se pergunta como a racionalidade produziu tanta irracionalidade e observa que, após a guerra, as pessoas estavam devastadas. Se refere a isso como "barbárie" e atribui a ela um valor positivo, no sentido em que, uma vez esvaziada, a humanidade teria que se reerguer do zero. Pois bem. No mesmo texto ele cita as várias “novidades” que surgem à época, como a ioga, o espiritualismo, a quiromancia, a Christian Science,  etc., e afirma serem elas “galvanizações” desse vazio interno, uma vez que apenas o mascaram, mas não o curam.               
        Eu creio que hoje, passado praticamente um século, estamos na mesma. Que de lá para cá, e ainda com o agravante da Segunda Grande Guerra, a humanidade só se galvaniza, mas a ferrugem interna acaba corroendo até mesmo essa galvanização, que precisa se renovar sempre, pra nos proteger da exposição de nossa miséria interna.           
        Depois de Auschwitz, Adorno escreve “Educação Após Auschwitz”  em um tom de perplexidade, mais colocando perguntas e sugerindo investigações do que arriscando respostas. O que pode ter produzido seres humanos capazes de promoverem e de se tornarem cúmplices de tal evento? 
        Hoje, olhando nossa realidade, intuímos que Auschwitz é sempre uma iminência. As pessoas parecem estar cada vez mais vazias e nossa miséria interna tem se exposto a céu aberto, à luz do dia, sem a menor vergonha. Vivemos uma terrível crise de valores e a animosidade entre os humanos parece só crescer.          
        É assunto filosófico, sim. Arrisco dizer que só a filosofia pode colocar as questões cujas respostas ou tentativas de respostas gerem algo de positivo para a educação. Ocorre que a própria academia não se move. Temos, no Brasil, um estudo de filosofia conservador, que forma, dentro da filosofia, os mesmos produtores/consumidores que qualquer outro curso forma. Objetos a serviço de um sistema.  Alunos repetidores de conteúdo, que escrevem sobre o que X diz de Y, mas não se aventuram a olhar para o mundo, falar dele diretamente, detectar problemas, propor soluções. Esse esquema é altamente alimentado pelas instituições, pelos administradores, pelos orientadores, pelos professores e – pasme! – pelos alunos. No semestre passado, apresentando um seminário sobre o livro de Gonzalo Armijos Palácios, De Como Fazer Filosofia Sem Ser Grego, Estar Morto ou Ser Gênio, meu grupo levantou essas questões. Surpreendi-me com as não-reações, com as reações de negação dessa realidade intensamente vivida por todos nós, e com a estranha afirmação de um aluno de que não poderíamos estar fazendo tal crítica DENTRO da universidade! Oras... Onde a faríamos?       
        Anterior à crise no ensino é a crise na educação familiar. Os jovens de hoje são filhos de uma geração que rompeu com os valores mais caros à dignidade humana e abraçou o capital. Que substituiu atenção, carinho, presença, orientação, por conforto material. Que, ressentida com a educação rigorosa que recebera e temendo não ter o amor de seus filhos, lhes deu um verdadeiro presente de grego: excesso de liberdade, não imposição de limites, falta de noção de hierarquia.    
        Se a crise começa na família, como a escola pode lidar com isso? Se os alunos já chegam à escola esperando algo estereotipado e se resistem a inovações que não parecem servir aos seus propósitos; se eles nem ao menos questionam o porquê de terem abraçado tais propósitos;  se nem sabem de onde brota o que pensam; se têm a submissão como prática habitual, apesar de toda aparente rebeldia, como se desconstrói isso?  
        Lembro-me de, certa vez, ter lido em um texto seu, provavelmente não com estas exatas palavras, que para aprender precisávamos antes desaprender tudo o que nos haviam ensinado. Não tenho dúvidas sobre isso. Porém, somos feitos do que nos ensinaram. Somos produto do meio. Como superar isso? Como trazer à tona aquilo que realmente somos sob essa aparência que se moldou para se encaixar em uma engrenagem? E como sobreviver fora da engrenagem?  
        Coloquei perguntas. Que elas sirvam como provocações para mais reflexões. E deixo aqui uma frase de Cioran, a que me reportei nesse último instante: 
        “O caos?  é rejeitar tudo o que se aprendeu, é ser você mesmo...”
                                       (Breviário de Decomposição)

1 – Germano Viana Xavier é jornalista, professor e, entre muitas outras coisas, autor do blog “O Equador das Coisas”.


                                                                                    Ana Lucia Sorrentino

sábado, 24 de maio de 2014

Não sei não, Hegel...




















Embora Hegel queira crer
que progrido em espiral
num próspero aprender
rumo ao absoluto,
parece-me que minha vida
se sucede sempre em ciclos:
início e fim,
nascimento e luto.
Cada ciclo que se encerra
encerra algum saber,
das vivências algum fruto
muda algo em meu ser.
Cada ciclo que se inicia
me apresenta novos fatos,
novas gentes e lugares,
um constante acontecer.
Sigo assim, sempre assustada,
pois aquilo que aprendi,
apesar de me alterar,
não me garante nada.
A vida é sempre espanto,
do início até o fim:
do berço ao túmulo
a sorte é quem cuida de mim.



                                                                                       Ana Lucia Sorrentino

domingo, 18 de maio de 2014

Sobre saúde, mídia e má-fé


 

            Como me aborreço demais com a guerra midiática e como tenho consciência de que lendo isso ou aquilo ou vendo esse ou aquele noticiário estamos sempre sendo manipulados de alguma forma, resolvi tentar só escrever sobre o que vejo de perto, o que sinto na carne, o que posso dizer que considero verdade.
            Assim, não estranhem se não recorro a dados estatísticos, matérias alheias ou citações de gente mais legitimada como porta-voz do que eu. Recorrerei apenas à minha realidade e à que posso atestar à minha volta. Longe de superestimar o valor da minha opinião, pretendo, com isso, provocar algumas reflexões que talvez sejam positivas neste momento em que se acirra a falta de compromisso com a verdade, a ira preconceituosa de quem vive bem, mas não aceita que outros também vivam e a falta de escrúpulos de quem levianamente levanta bandeiras tendo como referência apenas seu próprio umbigo e como objetivo apenas uma derrota do PT nas urnas.
            Semanas atrás me cortei em um objeto enferrujado. Fui a um posto de saúde perto de casa, e uma hora e meia depois já estava vacinada contra tétano. Esperei sentada, fui atendida por gente educada e não tenho do que reclamar. Problema resolvido. Jamais pensaria em recorrer a um posto de saúde pública há quinze anos. 
            Perdi meu pai há alguns anos. Ele tinha 84 anos, subitamente teve leucemia, foi internado em um hospital municipal, passou por quimioterapia e, enfim, não resistiu. Sofremos muito, enfrentamos inúmeros aborrecimentos, mas ele foi atendido da forma como era possível, nada nos foi cobrado e nada garante que se estivesse em um hospital particular - excetuando em relação ao conforto -, as coisas se dariam de forma diferente.
            Também há alguns anos, desconfiada da competência da saúde pública para resolver um problema de uma amiga querida, levei-a ao meu ginecologista particular, em quem confiava plenamente. Ele não conseguiu detectar um câncer de útero já em estágio avançado. Prescreveu-lhe uma reposição hormonal que poderia ter acelerado o processo de sua doença e ela só sobreviveu por mais 4 anos porque, ao passar mal, recorreu a um posto de saúde, onde fizeram o diagnóstico correto, a encaminharam para cirurgia e, a partir daí, todo o seu tratamento foi feito gratuitamente.
            Meu irmão passou quatro anos lutando contra um câncer em hospitais públicos. Difícil? Muito. Mas, no momento em que precisou se alimentar por uma sonda, para se recuperar de uma cirurgia dificílima, teve, no hospital público, duas vezes por dia, refeições de uma substância de custo absurdamente alto, que JAMAIS lhe seria fornecida em hospitais particulares, através de planos de saúde.   
            Minha mãe foi operada de uma fratura no fêmur, em hospital particular. O ortopedista que a operou a enxergava como um “fêmur”, ignorando todos os seus outros problemas de saúde. Falou, totalmente alterado, na frente dela, que ela “era velha e que velha dava trabalho” e se referiu ao seu fêmur como “podre”. Foi despachada para casa antes de poder sentar, totalmente debilitada, para liberação do leito. Uma senhorinha doce de mais de oitenta anos, totalmente fragilizada.
            Minha sobrinha faz plantões em um hospital particular. Estava em seu plantão quando um senhor com suspeita de enfarte chegou. Pediram-lhe que esperasse, sem lhe dar a menor atenção. Tendo esperado muito tempo e passando muito mal, tentou recorrer a um médico que passava por ali, e este lhe pediu que pegasse sua ficha no guichê de atendimento. Ao dizer à atendente que queria pegar sua ficha, ela lhe respondeu, ironicamente, que “pegasse, pois o médico não lhe dissera para pegar?” Os três homens que o acompanhavam pularam o balcão e começaram a quebrar tudo. Chamaram a polícia, mas antes que ela chegasse o doente e seus acompanhantes saíram enlouquecidos em busca de um hospital que os atendesse.
            Sei que o assunto não é nada agradável e peço desculpas por isso. Poderia ficar aqui contando casos e mais casos de sucesso e fracasso tanto da saúde pública quanto da privada. Mas vou poupar o leitor, terminando agora, com o de um colega de classe. Ele teve que passar por um transplante de rim, foi atendido em hospital público, faz acompanhamento permanente, está super bem e recentemente nos contou, em sala de aula, que recebe na porta de casa, através de um entregador, um medicamento caro que o governo fornece gratuitamente. E sendo, como eu, mais velho do que a maior parte da turma e tendo passado por outros governos, declarou publicamente que, embora soubesse que muitos não iriam gostar do que estava dizendo, a saúde no Brasil melhorara muito depois de Lula.
            Sempre que alguém faz um relato pessoal desse tipo na frente de opositores sistemáticos do PT, faz-se um silêncio. Porque fica difícil ao opositor refutar uma experiência pessoal positiva, e ele se sente incomodado, porque é movido a preconceito. Ter alguém fazendo-lhe repensar aquilo que afirma apenas porque ouviu tanto que se pôs a repetir -  que a saúde pública no Brasil é uma desgraça -  perturba. Será mesmo que é? Será que, baseando-nos apenas nos casos que cito acima, dá pra generalizar assim? Será que o problema é sempre e na saúde pública? Ou que todos os que dependem da saúde pública estão às traças? Não creio.
            O problema da saúde é um problema extremamente complexo, porque não se trata somente de infraestrutura, mas de material humano. De cultura. De convicções. De motivação interna. De tanta coisa... Há profissionais bons, medianos e péssimos tanto na saúde pública quanto na privada. Tanto na infraestrutura sofisticada quanto na escassez de recursos.
            Um dos grandes, enormes, problemas que o brasileiro enfrenta ao precisar da atenção de um médico é cultural. No Brasil, o médico se julga em um plano superior e espera do paciente uma postura subserviente, o que já mina essa relação e o bom andamento de qualquer tratamento. A vinda de médicos cubanos para cá trouxe à tona esse e outros problemas, que precisam ser pensados. A reação da classe médica brasileira ao refutar o programa Mais Médicos, alegando se tratar de trabalho escravo, se faz com a mesma lógica daquela que quer desqualificar o sucesso de Lula, depois de ter tirado milhões de brasileiros da miséria,  alegando que ele, quando jovem, queria se mutilar para receber benefícios.  Uma coisa nada tem a ver com a outra. Como poderiam os médicos brasileiros estar preocupados com o trabalho escravo de médicos cubanos, quando não se preocuparam nem em atender milhões de brasileiros carentes de saúde? Hipocrisia pura. Nós vivemos em uma República. O foco é o povo. As ações têm que beneficiar a grande maioria.  Tenho conversado com muita gente que se sente muito mais feliz hoje do que há dez, doze anos. E percebo que há, na outra ponta, uma turma de descontentes que, surpreendentemente, não parecem estar descontentes com sua própria vida, mas com a melhoria da vida dos outros.
            Precisamos deixar de acreditar que o mundo se resume ao que o telejornal mostra. Ele não mostrará o alimento caríssimo que o Estado forneceu ao meu irmão, garantindo sua vida. Mas terá amplo espaço para repetir inúmeras vezes alguma cena de terror em algum hospital público. A desgraça no telejornal é quase sempre pública, raramente privada. Seus objetivos são sempre em benefício próprio: aumentar a audiência, conseguir anunciantes, militar “disfarçadamente” em favor de seu próprio candidato. Dias atrás, em meu horário de almoço, liguei a TV e, depois de ouvir inúmeras desgraças, perguntei pra minha irmã: “Você já imaginou quanta coisa boa está acontecendo por esse Brasil afora enquanto estamos aqui, estragando nosso almoço, mergulhadas na desgraça que a mídia divulga propositalmente, com fins determinados?” Desligamos a TV, para preservar nossa saúde mental.
            Se tentarmos avaliar o mundo olhando à nossa volta, pensando em nossa própria vida e não apenas acreditando no que a má-fé propaga por aí e se deixarmos de repetir sem reflexão as frases soltas que se espalham como peste sem a menor responsabilidade, já estaremos fazendo uma grande coisa. Por nós, pela nossa saúde, por um Brasil e por um mundo melhor.               
                                                                     
                                                               Ana Lucia Sorrentino