terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Solidão

            
          














               Hoje, logo cedo, conversando com Solidão, desandei a me queixar. Que essa rua era pra ser tranquila. Que o mundo tá muuito zoado... Que o velhinho do 31 some com a correspondência. Que eu acho que não vou dar conta de tudo o que tenho pra fazer... Que eu acho que não vou dar conta de nada... Que, afinal, pra que tudo isso? Que como era possível ter vivido uma vida cuidando dos outros e ficar assim, sem ninguém pra cuidar de mim???
            Solidão me acompanhava, indo pra lá e pra cá, sem desgrudar um minuto. Não sei como me aguenta... De repente, o cão da casa em frente latiu. Nos debruçamos na janela da lavanderia e ali ficamos. Contei-lhe que todas as manhãs me divirto observando-o brincar, enquanto coo o café. Ela me olhou espantada, como que me lembrando: “eu sei!” Ah, sim... Ela mesma me sugere, às vezes, adotar um animalzinho. "Um monte de gente resolve a vida cuidando de bichinhos..." Mas diz isso de um jeito meio falso, querendo se fazer de desapegada. No fundo, percebo nela um medo enorme de que eu siga seu conselho e a afaste. De mais a mais, ela sabe que eu tenho compromisso com Liberdade, que é extremamente possessiva. Não dá muito certo me meter com ninguém... nem com bichinhos, apesar de gostar tanto deles...
            Solidão gosta de mim e eu gosto dela também. Mas não foi sempre assim... Suas primeiras visitas eu mal percebia. Depois, quando percebia, me aborrecia. Ela vinha como quem não queria nada e trazia um vazio com o qual eu não sabia lidar. Eu ficava pensando que se estivesse aqui ou ali, com amigos, ou se tivesse um amor... Pensava em encher o vazio com coisas de fora e não me ligava de que solidão me fazia um favor, abrindo esse espaço. Um espaço só meu que até então eu não fizera muita questão de acessar, nem sei por quê...  De repente, um dia, como sempre sem ser chamada, ela veio conversadeira. Pediu que me aquietasse e que lhe prestasse atenção. Que estava ali justamente pra me tirar de toda aquela agitação. Que a sentisse, que era amiga e interessada. Que aproveitasse sua companhia, pois uma solidão produtiva era para poucos. As pessoas todas viviam em meio a tantos ruídos que nunca conseguiam ouvi-la. Metiam-se nos mais variados afazeres e passavam por cima dela, sem notar sua presença. Trabalho, compras, trânsito, discussões... necessidades. Criavam muitas necessidades, para depois saná-las. E aí tinham que trabalhar muito. E, para compensar o desgaste, faziam as mais variadas coisas: academia, meditação, análise, yoga... Nunca sobrava tempo pra um bom bate-papo com ela. Percebi Solidão um pouco solitária. E, como quem cede a um desejo há muito guardado, sentei ao seu lado e a ouvi. Ouvi com os ouvidos da alma. E sua voz me pareceu tão doce e segura que me perguntei de onde é que poderia vir tanta doçura. Ela pressentiu minha questão e sorriu, sinalizando o óbvio. De mim? Sei não...
            Habituamo-nos a conversar. Sem TV, rádio, livros, sem nada pra atrapalhar. Às vezes papel e caneta. Porque solidão, vez em quando, solta umas pérolas imperdíveis que anoto, pra não esquecer.
            Certo dia, sutilmente, mas com a transparência de sempre, pôs-se a argumentar em favor próprio, fazendo- me lembrar de coisas que talvez explicassem minha inicial resistência a ela. Não exatamente uma antipatia, mas uma incompreensão. Ou uma impensada adesão ao senso comum, que prega por aí que é preciso estar com alguém para ser feliz, andar em turma pra se divertir, ter um bando pra se sentir pertencendo a algo... Mostrou-me, recordação por recordação, o quanto estivera ao meu lado, fiel, quando eu imaginava, inocentemente, viver uma relação amorosa. Quando eu frequentava a família, tentando encontrar nela alguma compreensão e, talvez, até - vejam só! - cumplicidade. Quando eu interagia direto com gente que eu pensava ter os mesmos ideais que eu, mas cujas práticas diferiam tanto das minhas... E pouco a pouco Solidão foi me ganhando. Carinhosa, realista, crítica, companheira... Comecei a gostar das suas propostas. E comecei a sentir sua falta, em dias mais agitados, e desejar sua presença. Passei a me planejar para recebê-la com carinho quando viesse. A reservar momentos pra ela, bloqueando interferências externas. E, de repente, percebi que solidão me cativara e que a iminência de tê-la comigo me punha em um especial estado criativo que, à sua chegada, se aguçava.
            Quanto mais íntimas ficávamos, mais à vontade e cheia de iniciativa Solidão se mostrava. Começou a insinuar que gostaria de acessar umas amigas, pra que nossos encontros fossem mais produtivos. Um dia veio Memória, no outro Saudade... Então Solidão teve até a ousadia de chamar Perturbação. Agora vira e mexe ela vem. E toda vez que vem, o bicho pega. Não se aquieta, instiga, zomba, ironiza... fantasia... Esses encontros estão virando verdadeiros saraus. Sei que, ultimamente, Liberdade anda meio ressentida. Deve temer que com tantas amigas eu a deixe de lado. Não entende, a pobre, que sem ela, esses ricos encontros seriam quase impossíveis. Que foi ela que começou tudo isso, com sua obsessiva monogamia. Sem Liberdade talvez eu não tivesse conhecido Solidão nem estreitado laços com essa trupe toda... Provavelmente estaria enredada em teias mal tecidas de amores complicados, de amizades possessivas, de frustrantes pseudo-relacionamentos.  E, vou dizer... Na companhia delas eu me escuto, eu me repreendo, eu me entendo, eu me perdoo. Sentada no meu sofá eu alço voo. E até esqueço da imensa falta que um bom abraço me faz...

                                                                       Ana Lucia Sorrentino
                                                                                  


domingo, 19 de março de 2017

Domingo




Aconchego-me no descanso do domingo
e encontro em mim o que tenho de mais lindo.
Na cama quente o sonho doce me presenteia
com o toque jamais sentido de alguém querido.
Acordo bem.  
Na lentidão das horas dominicais,
sinto.
Na ausência dos filhos, crias em pleno voo,
estico lençóis, devolvo objetos aos seus lugares,
penso no jantar de amanhã e agradeço.
Eles voam, asas abertas,
e eu os observo de longe.   
Que minha presença seja sentida
e meu amor compreendido
nessa não interferência.
Eles voam e me libertam.
Deixo-me possuir
pela lembrança dos desejos não satisfeitos,
das sensações imaginadas e não vividas,
dos amores que quis ter e não tive.
A vida às vezes parece não ter sido.
Tiro o pó dos móveis,
tinjo cabelos embranquecidos,
anoto obrigações de amanhã,  
choro vontades não satisfeitas.
Encontro em mim e em cada célula
desse meu corpo já tão vivido
a mesma latência
da adolescência.
Estou aqui,
devastada por desilusões,
mas ainda,
como sempre,
prestes a
explodir de tanta vida.


 Ana Lucia Sorrentino


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O conceito de "amor líquido" em Bauman

Esta obra é uma investigação sobre o conceito de "amor líquido" usado por Zygmunt Bauman, especificamente em Amor Líquido - Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, publicado pela primeira vez em 2003, na Inglaterra. Usando linguagem acessível, a autora facilita ao leitor comum a compreensão do sofisticado conceito criado pelo sociólogo polonês de vasta produção intelectual e cuja leitura se faz imprescindível para quem quer que deseje entender a modernidade e o homem moderno. De grande ajuda para estudantes universitários, "O conceito de 'Amor Líquido' em Bauman" vai além da obra em questão, esclarecendo pontos-chave do pensamento de Zygmunt Bauman. Para comprar ou para ler um excerto gratuitamente é só acessar o link: O conceito de "amor líquido" em Bauman Boa leitura! :)

   

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Eu fico com a noite - um romance de Ana Lucia Sorrentino


"Não me esqueço da reação de Guida ao se perceber correndo perigo. Ela enfiava o focinho por baixo do braço da minha mãe, tentando se esconder, ou apenas tentando não ver o que estava por lhe acontecer, apavorada. Arriscava uma olhadela, certificava-se de que ainda corria perigo e tentava se esconder de novo, tremendo. Minha mãe a entregou ao meu irmão com uma expressão de profunda dor no rosto. Guida sequer miava, tão assustada estava. Olhamos o carro se afastando e, quando o perdemos de vista, entramos, inconsoláveis. Não nos queixamos. Minha mãe não falou uma palavra. Não ouvi um comentário sequer sobre o que acontecera com Guida. Não sei onde meu irmão a largou, nem se sofreu ao fazer isso. Não sei se minha mãe ficou ressentida com ele. Às vezes penso nas tantas coisas sobre as quais precisávamos desesperadamente falar, mas não falávamos, e sinto que algo nos foi roubado. [...]
Sei que, tão menina ainda, sem qualquer orientação, abstraía de tudo o que vivia um sentido. Hoje, me recordando desse dia em que Guida se foi, percebo claramente ter sido esse o exato momento em que comecei a questionar seriamente o sistema em que vivíamos, mesmo sem saber nada sobre política, economia, ditadura ou capitalismo. Na minha cabeça de menina, não era possível que um ser vivente pudesse ter sido jogado fora por conta de um pouco de matéria-prima estragada. Eu não sabia que isso acontecia todos os dias, e não podia sequer passar pela minha cabeça que não acontecesse apenas com bichinhos, mas também com gente." 


"Eu fico com a noite" é um romance que se constrói através dos relatos e reflexões de uma mulher madura sobre suas experiências com o mundo masculino e com o machismo. A história se inicia em sua infância, entre a família conservadora, prossegue mostrando sua vida adulta, constituindo a própria família e criando filhos homens e termina com as conclusões sobre as dificuldades que uma mulher enfrenta ao longo de toda a vida em um mundo em que os homens ainda ditam as regras.


Para ler um excerto ou para comprar, é só acessar o link: 
Eu fico com a noite - romance

Boa leitura! :)

domingo, 6 de novembro de 2016

Amor

















Então você se dá conta
de não ter sorte no amor.
Em seguida se pergunta
se o amor de fato existe
ou se é papo de escritor.
Seria o amor uma fábula
maquinada, bem urdida,
ou seria o amor brincadeira,
somente um chiste da vida?
É o amor questão de fé
ou apenas de ser tolo?
É ser capaz de se dar,
ou só falta de miolo?
É o amor só uma lenda
ou é vontade que tece,
em fios de paciência,
linda e frágil renda?

Ana Lucia Sorrentino 

Imagem - Google

terça-feira, 13 de setembro de 2016

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Michel Temer e a Peste de "Estado de Sítio", de Camus


Quem se debruça sobre a peça de Camus se flagra atônito diante do inevitável paralelo entre seus personagens e os do golpe que estamos sofrendo. Vivesse no Brasil de 2016, Camus não teria escrito com tanta propriedade sobre nossos políticos.  

Ditadores constituem o objeto da crítica de Albert Camus em Estado de sítio, um clássico da literatura mundial. Camus se refere à Espanha de 1948, mas, como todo gênio, vai além do seu tempo e espaço e cria uma mensagem universal e atemporal de estímulo à coragem que nos serve à perfeição nos dias de hoje. A peça se passa em Cádiz e descreve um golpe de Estado, mostrando o modus operandi de golpistas e ditadores. Contar-lhes-ei (sic) resumidamente o que se passa em Estado de Sítio, na certeza de que os que acompanharam o processo de impeachment da Presidenta Dilma compreenderão o paralelo que traço e também a proposta de Camus. Que o autor me perdoe pela enorme simplificação da sua rica obra, que merece ser lida na íntegra.

Pense em um golpe chegando em forma de cometa e agravando uma crise. Em uma Peste que se apresenta para reivindicar o poder, impondo a "lógica e a disciplina", como Temer fez com sua "Ordem e Progresso".  Em uma Secretária que, como Cunha, tem argumentos "mortais" contra os opositores. Em um niilista - Nada - que, como os alienados políticos, os pessimistas, os que se mantêm em cima do muro, aumenta a força dos golpistas, possibilitando a concretização do golpe. Pense no vento que vem do mar como a democracia. Outras inúmeras possíveis associações deixo ao leitor, para não lhe tirar o papel de coadjuvante nesta reflexão. Mas insisto ser de enorme valor a leitura da obra na íntegra. Vamos à história:

Cádiz vive sua normalidade, até que se estabelece uma ligação entre aparições de um cometa e uma mortal epidemia, que coloca a população em pânico. O governo, em lugar de atacar o mal, ordena aos habitantes que neguem sua existência, e ameaça os "rebeldes" com punição rigorosa.

Aos governantes de Cádiz não ocorre que a epidemia possa lhes atingir pessoalmente. O governador se aborrece, porque o acontecido o priva do prazer da caça, que é muito mais importante do que o povo. O padre se sente vitorioso por ver no cometa um castigo dos céus para uma cidade de pecadores e exorta o povo à confissão e à penitência. O juiz não se importa minimamente, pois crê que, por ser justo, nada o atingirá. Mas, a cada nova aparição do cometa, a epidemia se alastra. Quando a população já está suficientemente amedrontada e, assim, enfraquecida, surge a Peste, oportunista, reivindicando o poder. Traz consigo uma Secretária, que tem o dom de emitir raios que podem adoecer as pessoas ou até matá-las, caso seu comportamento não seja "adequado". Sob essa ameaça, apavorados, o governador e seus auxiliares abdicam, deixando a população à mercê da Peste, que anuncia uma nova ordem, que imporá a lógica e a disciplina, punindo os fracos (os que amam) e recompensando os fortes, em especial os delatores. Aos que participarem lealmente da nova sociedade, o governo promete suprir de gêneros de primeira necessidade, em partes iguais e ínfimas.

O Coro conclama a fuga para o mar, questionando o amor da Peste: "Quer que sejamos felizes como o entende, e não como nós queremos." O povo tenta fugir para "o mar, livre, a água que lava, o vento que liberta", mas as portas da cidade se fecham, e acaba a esperança de liberdade.

A população, oprimida e possuída pelo medo, não se apoia mutuamente. Chega então um mensageiro determinando que, uma vez que as palavras podem ser veículos de infecção (É GOLPE!!!), todos os habitantes devem levar constantemente, na boca, um tampão embebido em vinagre, que os preservará do mal, com o benefício adicional de mantê-los em silêncio. A população emudece, é declarado o estado de sítio e ficam proibidos "a ridícula angústia da felicidade, o rosto estúpido dos apaixonados, a contemplação egoísta das paisagens e a criminosa ironia". Em seu lugar passa a imperar a "Organização". Em seguida, os homens são separados das mulheres. A Peste declara iniciado seu ministério, orgulhosa por implantar o silêncio, a ordem e a absoluta justiça.

O povo, fragmentado, não tem coesão para reivindicar seus direitos mais fundamentais, como o de morar sob um teto e, para agravar a situação, surge "Nada", um personagem que em nada crê. Com total ausência de valores, representando o vazio que tende a ser preenchido pela destruição, Nada se torna útil à Peste, fortalecendo-a. Frente às reclamações do povo, que deseja de volta seu legítimo Governador, Nada argumenta que tanto o Governador como a Peste cumprem o papel de Estado e, portanto, estar um ou outro no poder não faz diferença alguma.

A Peste administra a cidade reclamando do povo, por não ser trabalhador. Orienta sua Secretária para que "inicie os grandes trabalhos inúteis", e "ative a transformação de inocentes em culpados". A Secretária abusa do obscurantismo retórico, dos procedimentos burocráticos e vence a população pelo cansaço. "O processo é cansar - eis tudo. Quando estiverdes arrasados de cansaço, o resto caminhará sozinho." E Nada, por sua vez, considera que ao povo humilhar-se é bom, que é preferível viver de joelhos do que morrer de pé e que o instante perfeito é aquele em que ninguém mais se compreende.

Entra em cena o herói Diogo, que luta pela liberdade e pela mulher que ama, Vitória, a filha do juiz. Íntegro, tenta mostrar a Nada que mentir é uma tolice. Nada refuta: "não, mentir é uma política". Diante do povo sem voz, que se ressente por ter se transformado apenas em "massa", incita-o a gritar seu medo, prometendo que o vento responderá. Ameaçado pela Peste, Diogo foge e tenta se abrigar na casa do juiz, pai de Vitória, que se nega a acolhê-lo, por considerar que está contaminado e porque é um juiz e a um juiz cabe apenas cumprir a lei, pois qualquer lei é sagrada e indiscutível. Inicia-se uma balbúrdia na casa do juiz, conflitos familiares vêm à tona e a família perfeita se revela uma fraude. Diogo tenta fugir e se depara com a Secretária, que o quer seduzir. Indignado, ele a esbofeteia, para alegria do povo, que se livra dos tampões de vinagre e grita em uma só voz. A Secretária se diz vencida e está desvendada a regra do jogo: o poder cessa ao cessar o medo. O vento do mar começa a soprar.

Na parte final de Estado de Sítio, em posse da vida de Vitória, a Peste ainda tenta corromper Diogo, propondo-lhe que vá viver seu amor e deixe a cidade sob seu domínio. Mas Diogo se nega a sacrificar a liberdade dos habitantes de Cádiz em nome de seu amor por Vitória. Prefere trocar sua vida pela dela e manter Cádiz em liberdade. Morre. A Peste e a Secretária partem para sitiar alguma outra cidade. Nada anuncia o retorno dos antigos governantes à cidade e se atira ao mar, que o traga. 

Assim termina Estado de Sítio. Cádiz é libertada pelo povo unido em torno de uma mesma causa, sem medo.

                                                                       Ana Lucia Sorrentino