domingo, 22 de abril de 2012

Platão, nós e o amor (Guia da Semana - 2011)

            No último mês estive estudando Platão. Seus diálogos Lísis, Fedro e O Banquete falam lindamente sobre amor e amizade. Embora sua abordagem tenha mais a ver com o amor à filosofia, as questões são análogas às relações entre os seres humanos. E nos fazem pensar. Muito.
            São vários os questionamentos de Platão sobre o amor, e como o vivemos. Amamos porque nos falta algo e buscamos no ser amado o que nos falta? Essa “falta” seria como uma doença, que nos leva a buscar nossa “cura” no outro? Se amamos por carência, quem nos retribui esse amor, é porque ama a carência que temos? Qual seria o amor ideal? Aquele em que, incompletos, buscamos o outro para nos completar, ou aquele em que, já nos sentindo completos, buscamos o outro para nos suplementar?
            E várias as teorias em que se pensar. Que os amantes são, inevitavelmente, ciumentos, e que furtam o amado de outras convivências que lhe seriam proveitosas, causando lhe um grave dano. Que perdem o domínio de si e têm seu entendimento e prudência afetados, sendo mais dignos de piedade do que de inveja. Que o amor, por fazer parte da natureza humana, é a única forma de sermos felizes. Que é através dele que podemos chegar à essência das coisas: do belo, da verdade, da virtude.
            O Mito de Diotima, no Banquete, diz ser o amor a relação entre a pobreza e a riqueza. Uma relação que germina e vive, enriquece, morre e de novo ressuscita, nunca empobrecendo nem enriquecendo definitivamente.
           Desde Platão, antes dele, e até hoje, esse assunto é sempre atual. O amor é um tema eterno. Suas questões, infinitas. No entanto, parece-me, o tema assume essa complexidade por desvirtuarmos sua essência e a confundirmos com nossas necessidades momentâneas, com nosso desejo de segurança, com orgulho e vaidade.
            Quando praticamos um amor desprendido e generoso, o que, afinal, é o amor de verdade, causamos estranheza e não raro tentam nos incutir extravagantes culpas.  O ser humano está tão habituado a traduzir o amor como relação de compromisso, regrada por limitantes leis absolutamente estranhas ao amor, que conseguir amar sem muito questionamento acaba sendo, pra muita gente, assustador.
            Às de Platão somam-se muitas outras perguntas. Afinal, quem me ama sem tentar me enclausurar, está querendo exatamente o quê de mim?  Quem me ama sem exigir exclusividade me ama de verdade? Quem não exige exclusividade saberá se dar a uma só pessoa? E isso é realmente necessário? Como posso confiar e me sentir seguro amando quem me ama sem exigir, sem tolher, sem restringir?
            O amor virtual é real? Por que eu deveria desconfiar de quem diz me amar sem nada me cobrar e estando a quilômetros de distância? O amor que se realiza no plano das ideias, e não na carne, é amor? Se um contato à distância pode provocar reações às vezes mais intensas do que contatos físicos, seria isso inteiramente fantasioso? Por que amar e se deixar amar, e dizer “eu te amo” com desprendimento, pode gerar desconfiança?
            Como posso amar e ter, em relação ao ser amado, o mais perverso sentimento de posse e um desejo de que ele só encontre a felicidade quando comigo?
            Pessoalmente, não vejo o amor como carência, mas como transbordamento e  sinto que quanto mais desconstruo o amor que me foi ensinado desde o berço, mais ele cresce e se aproxima de algo realmente belo.
            E sinto até dó do coitadinho do amor, imenso, infinito, sendo obrigado a agir entre quatro paredes de pequenas salinhas sem janelas e ali ter que dar o melhor de si. Como fazer bonito em espaços tão exíguos, entre tanta tirania, quando se é um tudo?
            Será possível vivermos o amor de uma forma maior, sem enclausurá-lo nos limites estreitos dos formatos tão bem conhecidos e treinados por nós?  Você já pensou nisso?

Analú

Publicado originalmente no Guia da Semana, em 2011- www.guiadasemana.com.br/Sao_Paulo/Mulher/Noticia/Ah_o_amor_.aspx?id=76131

domingo, 15 de abril de 2012

Resenha: HUME, DAVID. O Cético.



Resenha:
HUME, DAVID. O Cético.
In: Ensaios Morais, Políticos e Literários. Topbooks, 2004.

Hume  inicia O Cético criticando a estreiteza de horizontes do filósofo dogmático. Denomina de enfermidade dos filósofos a tentativa de explicar a vida e a grandiosidade da natureza através de princípios excessivamente limitados, reduzindo tudo a seu próprio ponto-de-vista. E propõe que suspeitemos constantemente de suas reflexões sobre a vida humana e seus métodos para conquistar a felicidade.
Em sua análise sobre a ingenuidade do dogmático em pretender elaborar uma cartilha que leve à felicidade, Hume nos mostra que isso seria tão inviável quanto elaborar uma receita de bolo que usasse sempre os mesmo ingredientes, agradáveis ao paladar do cozinheiro, sempre nas mesmas quantidades, pretendendo agradar a todos sem considerar as particularidades dos gostos individuais.  
            Para ele, as pessoas são diferentes, a experiência de cada um é única, cada momento é diferente do anterior e do que está por vir e a vida é mudança constante. E a mudança, a diversidade e a mistura do que é agradável para um e outro podem contribuir para tornar mais agradável a vida de cada um, dentro de suas particularidades.
Hume se pergunta se a felicidade é uma aventura.  E se o caminho para se chegar a ela seria seguir as próprias tendências e temperamento ou usar a razão para fazer as escolhas mais seguras.
A busca da felicidade deveria se dar da mesma forma para todos os homens? Ou cada um deve ser responsável por descobrir seu próprio caminho? Há perguntas que, respondidas objetivamente, podem indicar esse caminho? E ele, por fim, levaria para onde? Àquilo que, por paixão, cada homem considerasse ser a felicidade. Afinal, o olhar do apaixonado é que faz o objeto da paixão apaixonante.
Embora sua forma de escrever evidencie que se leva muito à sério, Hume, como bom cético, tenta minimizar a importância de sua opinião, pedindo ao leitor que não tenha por ela demasiada consideração. E avisa que aquele que imaginar ser possível encontrar na filosofia uma resposta mágica para a questão da felicidade, com certeza, se frustrará.
Então, aponta como princípio filosófico indubitável aquele que diz que nada é isto ou aquilo em si mesmo, pois os atributos das coisas sempre dependerão da visão humana, tanto no que se refere aos sentidos corpóreos quanto às coisas do espírito. Em todas as instâncias, segundo Hume, são sempre as paixões do espírito que censuram ou aprovam e atribuem valor aos objetos. Nosso argumento a favor de algo sempre tem como fundamento principal nosso gosto próprio, de acordo com as peculiaridades do nosso espírito.
Estando o homem em constantes mudanças internas, sua opinião sobre os objetos externos pode mudar constantemente sem que isso tenha o poder de afetá-los em si mesmo.   
Para Hume, o pensamento racional consegue diferenciar a verdade da falsidade usando um padrão real possivelmente existente na própria natureza das coisas, sem que particularidades do espírito interfiram de maneira significativa nisso.
No entanto, quando se trata de qualificar algo, o espírito experimenta sentimentos próprios que interferirão de forma crucial nessa qualificação. Como consequência, o objeto qualificado como belo por alguém poderá perfeitamente ser qualificado como feio por outro alguém.
Embora a reflexão racional leve ao entendimento de certas coisas, é apenas através da sensibilidade que o homem percebe a beleza de um objeto, não por ser ele belo em si, mas porque o próprio homem tem em si a paixão e o desejo por ele. É na satisfação ou na frustração desses desejos e dessas paixões que o homem experimenta a felicidade ou a miséria.
Nesse ponto, Hume cai na frequente e fatal contradição dos que combatem o dogmatismo: dogmaticamente elabora sua própria receita do bolo da felicidade. Nela, determinará os ingredientes que agradarão a todos os paladares, e os que devem ficar de fora. Fará um contraposição muito clara entre paixões que podem e não podem levar à felicidade. Preferirá o trabalho e a ação ao prazer. Defenderá a bondade, a alegria, a jovialidade e a esperança e estabelecerá como perfeita liga para tudo isso a moderação.  Por fim, sugerirá que o ingrediente mais saboroso desse bolo deveria ser a paixão pelo saber, por nos aproximar mais dos prazeres virtuosos do que dos prazeres materiais e por depender mais de nós mesmos do que de outros.
Felizmente, antes de oferecer o bolo aos convidados, Hume retorna ao início de suas reflexões, se curvando ao fato de que talvez nem todos possam saboreá-lo prazerosamente, e volta a considerar as diferenças individuais, as tendências naturais e as inclinações que nem sempre levarão o homem a ter na filosofia a cura para seus males.  Lembra que nem todos conseguirão se corrigir, mesmo tendo consciência do valor da virtude e mesmo se esforçando para isso. Considera a forte importância da personalidade e dos gostos e sentimentos e admite haver aqueles cuja tendência perversa jamais se curvará a argumentos em favor da virtude. Sua filosofia, bem como qualquer filosofia – conclui – infelizmente, não conseguirá tornar a humanidade inteira virtuosa.
Hume encontra algum consolo para essa triste constatação na crença de que ao menos os homens que já sejam razoavelmente virtuosos possam, deliberadamente, através de estudo e aplicação, adquirir hábitos virtuosos, afastando-se de suas tendências negativas, reformando, dentro do que for possível, o próprio espírito. Está aí o principal triunfo da arte e da filosofia. No entanto, a autoridade da filosofia terminará onde a natureza se impuser com mais vigor. Ou, indo pela vontade, em sentido contrário à sua própria natureza, o homem cairia na indiferença.
Mas, assumir a miserabilidade humana sem fazer nada contra ela seria, para Hume, tornar-se miserável para sempre.
Hume relembra, então, duas considerações filosóficas importantes.
Quando refletimos sobre a brevidade e incerteza da vida, e sobre as constantes mudanças que ela nos apresenta, a busca pela felicidade nos parece desprezível. No entanto, embora nossas paixões se mortifiquem por isso, nossa natureza nos diz que a vida humana tem alguma importância. Quando privados da fé nessa importância, tendemos a dar mais valor aos prazeres momentâneos.
O homem tem por hábito comparar-se constantemente aos outros e, infelizmente, tende a se comparar sempre a seus superiores, o que o faz sentir-se sempre em situação de desvantagem. O filósofo é capaz de escolher por olhar para o outro lado e perceber em si alguma vantagem, encontrando aí algum sinal de felicidade. No entanto, sendo de caráter superior, esse consolo trará consigo a tristeza pelo infortúnio alheio e a compaixão pelos outros. Eis aí uma consolação filosófica imperfeita.
Hume conclui defendendo a virtude como a melhor escolha, mas admitindo as dificuldades que o homem encontra para alcançá-la e curvando-se ao fato de que tanto o homem virtuoso quanto o vicioso, em seus mais diferentes graus de virtude ou de vício, não terão a garantia da felicidade.
E virtudes que deveriam, em princípio, levar o homem à felicidade, muitas vezes o levam ao caminho contrário.
Portanto, a conclusão final é de que a vida humana é mais governada pelo acaso do que pela razão e de que não devemos levá-la muito à sério, nem nos ocuparmos demais tentando estabelecer princípios de ordem geral. Enquanto pensamos demais sobre a vida, deixamos de vivê-la e a morte nos atingirá, a todos, da mesma forma.  
O que fica, ao final da leitura de O Cético, de Hume, parece ser: 
Vivamos! É o que de melhor podemos fazer por nós mesmos.    


                                                    Ana Lucia Sorrentino
                                                                                                                                                                 16/04/2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Dentro de mim




 
Vejo a vida
que há
ao meu redor
e sinto a vida
que há
dentro de mim.  
Por que quase sempre me parece
que para tantos
tão pouco é tanto
e para mim
tanto é quase sempre
tão pouco?

Analú
05.04.2012



 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Carta a Meneceu - Epicuro - Tradução de Desidério Murcho



          Epicuro a Meneceu, saudações.

          Que nenhum jovem adie o estudo da filosofia, e que nenhum velho se canse dela; pois nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para cuidar do bem-estar da alma. O homem que diz que o tempo para este estudo ainda não chegou ou já passou é como o homem que diz que é demasiado cedo ou demasiado tarde para a felicidade. Logo, tanto o jovem como o velho devem estudar filosofia, o primeiro para que à medida que envelhece possa mesmo assim manter a felicidade da juventude nas suas memórias agradáveis do passado, o último para que apesar de ser velho possa ao mesmo tempo ser jovem em virtude da sua intrepidez perante o
futuro. Temos portanto de estudar o meio de assegurar a felicidade, visto que se a tivermos, temos tudo, mas se não a tivermos, fazemos tudo para a obter.
          Pratica e estuda sem cessar aquilo que estava sempre a ensinar-te, tendo a certeza de que estes são os primeiros princípios da vida boa. Depois de aceitar deus como o ser imortal e bem-aventurado descrito pela opinião popular, nada mais lhe atribuas que seja estranho à sua imortalidade ou à sua bem-aventurança, mas antes acredita acerca dele seja o que for que possa sustentar a sua imortalidade bem-aventurada. Os deuses existem realmente, pois a nossa percepção deles é clara; mas não são como a multidão os imagina, pois a maior parte dos homens não retém a imagem dos deuses que primeiro recebem. Não é o homem que destrói os deuses da crença popular que é ímpio, mas antes quem descreve os deuses nos termos aceites pela multidão. Pois as opiniões da multidão sobre os deuses não são percepções mas antes falsas suposições. De acordo com estas superstições populares, os deuses enviam grandes males aos perversos, e grandes bem-aventuranças aos íntegros, pois, sendo sempre favoráveis às suas próprias virtudes, aprovam quem é como eles, encarando como estranho tudo o que é diferente.
          Habitua-te à crença de que a morte não nos diz respeito, dado que todo o mal e todo o bem assentam na sensação e a sensação acaba com a morte. Logo, a crença verdadeira de que a morte nada é para nós faz uma vida mortal feliz, não ao acrescentar-lhe um tempo infinito, mas ao eliminar o desejo de imortalidade.Pois não há razão para que o homem que tem plena certeza de que nada há a recear na morte encontre algo que recear na vida. Assim, também é tolo quem diz que receia a morte não por ser dolorosa quando chegar mas por ser dolorosa a sua antecipação; pois o que não é um peso quando está presente é doloroso sem razão quando é antecipado. A morte, o mais temido dos males, não nos diz consequentemente respeito; pois enquanto existimos a morte não está presente, e quando a morte está presente nós já não existimos. Nada é portanto nem para os vivos nem para os mortos visto que não está presente nos vivos, e os mortos já não são.
          Mas os homens em geral por vezes fogem da morte como o maior dos males, por vezes almejam-na como um alívio para os males da vida. O homem sábio nem renuncia à vida nem receia o seu fim; pois a vida não o ofende, nem supõe que não viver é de algum modo um mal. Tal como não escolhe a comida da qual há maior quantidade mas a que é mais agradável, também não procura a satisfação da vida mais longa mas sim a da mais feliz.
          Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem é tolo não apenas porque a vida é desejável, mas também porque a arte de viver bem e a arte de morrer bem são uma só. Contudo, muito pior é quem diz que é bom não ter nascido mas, uma vez nascido, que o melhor é passar depressa pelos portões do Hades. Se um homem diz isto e realmente acredita nisto, por que razão não se retira da vida? Certamente que os meios estão à mão se for realmente essa a sua convicção. Se o diz a zombar, é visto como um tolo entre quem não aceita o seu ensinamento.
          Lembra-te que o futuro nem é nosso nem é completamente não nosso, de modo que nem podemos contar que virá de certeza nem podemos abandonar a esperança nele com a certeza de que não virá.
         Tens de considerar que alguns desejos são naturais, outros vãos, e dos que são naturais alguns são necessários e outros apenas naturais. Dos desejos naturais, alguns são necessários para a felicidade, alguns para o bem-estar do corpo, alguns para a própria vida. O homem que tem um conhecimento perfeito disto saberá como fazer toda a sua escolha ou rejeição tender para ganhar saúde do corpo e paz de espírito, dado que este é o fim último da vida bem-aventurada. Pois para alcançar este fim, nomeadamente a libertação da dor e do medo, fazemos tudo. Quando se atinge esta condição, toda a tempestade da alma sossega, dado que a criatura nada mais precisa fazer para procurar algo que lhe falte, nem de procurar qualquer outra coisa para completar o bem-estar da alma e do corpo. Pois só sentimos a falta de prazer quando sentimos dor com a sua ausência; mas quando não sentimos dor já não precisamos de prazer. Por esta razão, dizemos que o prazer é o princípio e o
fim da vida bem-aventurada. Reconhecemos o prazer como o bem primeiro e natural; partindo do prazer, aceitamos ou rejeitamos; e regressamos a isto ao ajuizar toda a coisa boa, usando este sentimento de prazer como o nosso guia.
          Precisamente porque o prazer é o bem principal e natural, não escolhemos todo o prazer, mas por vezes abstemo-nos de prazeres se estes forem cancelados pelas privações que se seguem; e consideramos muitas dores melhores do que prazeres quando um maior prazer virá até nós depois de termos sofrido dores demoradas.                             
         Todo o prazer é um bem, dado ter uma natureza congênere da nossa; contudo, nem todo o prazer deve ser escolhido. De igual modo, toda a dor é um mal, contudo nem toda a dor é de natureza a ser evitada em todas as ocasiões. Pesando e olhando para as vantagens e desvantagens, é apropriado decidir todas estas coisas; pois em certas circunstâncias tratamos o bem como mal e, igualmente, o mal como bem.
         Encaramos a autossuficiência como um grande bem, não para que possamos desfrutar apenas de poucas coisas, mas para que, se não tivermos muitas, nos possamos satisfazer com as poucas, estando firmemente persuadidos de que quem retira o maior prazer do luxo é quem o encara como menos preciso, e que tudo o que é natural se obtém facilmente, ao passo que os prazeres vãos são difíceis de obter. Na verdade, temperos simples dão um prazer igual ao dos banquetes pródigos quando a dor devida à necessidade for removida; e pão e água dão o máximo prazer quando uma pessoa necessitada os consome. Estar acostumado à vida simples e
básica conduz à saúde e faz um homem ficar pronto a enfrentar as tarefas necessárias da vida. Prepara-nos também melhor para usufruir o luxo se por vezes tivermos a sorte de o encontrar, e faz-nos intrépidos face à fortuna.
          Quando dizemos que o prazer é o fim, não queremos dizer o prazer do extravagante ou o que depende da satisfação física — como pensam algumas pessoas que não compreendem os nossos ensinamentos, discordam deles ou os interpretam malevolamente — mas por prazer queremos dizer o estado em que o corpo se libertou
da dor e a mente da ansiedade. Nem beber e dançar continuamente, nem o amor sexual, nem a fruição de peixe ou seja o que for que a mesa luxuosa oferece gera a vida agradável; ao invés, esta é produzida pela razão que é sóbria, que examina o motivo de toda a escolha e rejeição, e que afasta todas aquelas opiniões através das
quais a mente fica dominada pelo maior tumulto.
          De tudo isto o bem inicial e principal é a prudência. Por esta razão, a prudência é mais preciosa do que a própria filosofia. Todas as outras virtudes nascem dela. Ensina-nos que não é possível viver agradavelmente sem ao mesmo tempo viver prudentemente, nobremente e justamente, nem viver prudentemente, nobremente e
justamente sem viver agradavelmente; pois as virtudes cresceram em união íntima com a vida agradável, e a vida agradável não pode ser separada das virtudes.
          Quem pensas então que é superior ao homem prudente, que tem opiniões reverentes sobre os deuses, que não tem qualquer medo da morte, que descobriu qual é o maior bem da vida e que compreende que o mais alto bem é fácil de alcançar e manter e que o extremo do mal tem limites no tempo ou no sofrimento, e que se ri do que algumas pessoas inventaram como a regente de todas as coisas, a Necessidade? Ele pensa que o poder de decisão principal nos cabe a nós, apesar de algumas coisas surgirem por necessidade, algumas por acaso e algumas pelas nossas próprias vontades; pois ele vê que a necessidade é irresponsável e o acaso incerto, mas que as nossas ações não estão sujeitas a qualquer poder. É por esta razão que as nossas ações merecem louvor ou censura. Seria melhor aceitar o mito sobre os deuses do que ser um escravo do determinismo dos físicos; pois o mito sugere uma esperança de graça através das honras concedidas aos deuses, mas a necessidade do determinismo é inescapável. Visto que o homem prudente não encara, como muitos, o acaso como um deus (pois os deuses nada fazem de maneira desordenada) ou como uma causa instável de todas as coisas, acredita que o acaso não dá ao homem o bem e o mal para fazer a sua vida feliz ou miserável, mas que fornece oportunidades para grandes bens ou males. Finalmente, ele pensa que é melhor encontrar o infortúnio quando se age com razão do que calhar a ter boa fortuna ao agir insensatamente; pois é melhor não ocorrer o que foi bem planejado nas nossas ações do que ser bem-sucedido por acaso o que foi mal planejado.
          Medita nestes preceitos e noutros como estes, de dia e de noite, sozinho ou com um amigo da mesma opinião.
          Então nunca terás receio, de dia ou de noite; mas viverás como um deus entre os homens; pois a vida no seio de bem-aventuranças imortais não é de modo algum como a vida de um mero mortal.

Epicuro
Tradução de Desidério Murcho