domingo, 15 de abril de 2012

Resenha: HUME, DAVID. O Cético.



Resenha:
HUME, DAVID. O Cético.
In: Ensaios Morais, Políticos e Literários. Topbooks, 2004.

Hume  inicia O Cético criticando a estreiteza de horizontes do filósofo dogmático. Denomina de enfermidade dos filósofos a tentativa de explicar a vida e a grandiosidade da natureza através de princípios excessivamente limitados, reduzindo tudo a seu próprio ponto-de-vista. E propõe que suspeitemos constantemente de suas reflexões sobre a vida humana e seus métodos para conquistar a felicidade.
Em sua análise sobre a ingenuidade do dogmático em pretender elaborar uma cartilha que leve à felicidade, Hume nos mostra que isso seria tão inviável quanto elaborar uma receita de bolo que usasse sempre os mesmo ingredientes, agradáveis ao paladar do cozinheiro, sempre nas mesmas quantidades, pretendendo agradar a todos sem considerar as particularidades dos gostos individuais.  
            Para ele, as pessoas são diferentes, a experiência de cada um é única, cada momento é diferente do anterior e do que está por vir e a vida é mudança constante. E a mudança, a diversidade e a mistura do que é agradável para um e outro podem contribuir para tornar mais agradável a vida de cada um, dentro de suas particularidades.
Hume se pergunta se a felicidade é uma aventura.  E se o caminho para se chegar a ela seria seguir as próprias tendências e temperamento ou usar a razão para fazer as escolhas mais seguras.
A busca da felicidade deveria se dar da mesma forma para todos os homens? Ou cada um deve ser responsável por descobrir seu próprio caminho? Há perguntas que, respondidas objetivamente, podem indicar esse caminho? E ele, por fim, levaria para onde? Àquilo que, por paixão, cada homem considerasse ser a felicidade. Afinal, o olhar do apaixonado é que faz o objeto da paixão apaixonante.
Embora sua forma de escrever evidencie que se leva muito à sério, Hume, como bom cético, tenta minimizar a importância de sua opinião, pedindo ao leitor que não tenha por ela demasiada consideração. E avisa que aquele que imaginar ser possível encontrar na filosofia uma resposta mágica para a questão da felicidade, com certeza, se frustrará.
Então, aponta como princípio filosófico indubitável aquele que diz que nada é isto ou aquilo em si mesmo, pois os atributos das coisas sempre dependerão da visão humana, tanto no que se refere aos sentidos corpóreos quanto às coisas do espírito. Em todas as instâncias, segundo Hume, são sempre as paixões do espírito que censuram ou aprovam e atribuem valor aos objetos. Nosso argumento a favor de algo sempre tem como fundamento principal nosso gosto próprio, de acordo com as peculiaridades do nosso espírito.
Estando o homem em constantes mudanças internas, sua opinião sobre os objetos externos pode mudar constantemente sem que isso tenha o poder de afetá-los em si mesmo.   
Para Hume, o pensamento racional consegue diferenciar a verdade da falsidade usando um padrão real possivelmente existente na própria natureza das coisas, sem que particularidades do espírito interfiram de maneira significativa nisso.
No entanto, quando se trata de qualificar algo, o espírito experimenta sentimentos próprios que interferirão de forma crucial nessa qualificação. Como consequência, o objeto qualificado como belo por alguém poderá perfeitamente ser qualificado como feio por outro alguém.
Embora a reflexão racional leve ao entendimento de certas coisas, é apenas através da sensibilidade que o homem percebe a beleza de um objeto, não por ser ele belo em si, mas porque o próprio homem tem em si a paixão e o desejo por ele. É na satisfação ou na frustração desses desejos e dessas paixões que o homem experimenta a felicidade ou a miséria.
Nesse ponto, Hume cai na frequente e fatal contradição dos que combatem o dogmatismo: dogmaticamente elabora sua própria receita do bolo da felicidade. Nela, determinará os ingredientes que agradarão a todos os paladares, e os que devem ficar de fora. Fará um contraposição muito clara entre paixões que podem e não podem levar à felicidade. Preferirá o trabalho e a ação ao prazer. Defenderá a bondade, a alegria, a jovialidade e a esperança e estabelecerá como perfeita liga para tudo isso a moderação.  Por fim, sugerirá que o ingrediente mais saboroso desse bolo deveria ser a paixão pelo saber, por nos aproximar mais dos prazeres virtuosos do que dos prazeres materiais e por depender mais de nós mesmos do que de outros.
Felizmente, antes de oferecer o bolo aos convidados, Hume retorna ao início de suas reflexões, se curvando ao fato de que talvez nem todos possam saboreá-lo prazerosamente, e volta a considerar as diferenças individuais, as tendências naturais e as inclinações que nem sempre levarão o homem a ter na filosofia a cura para seus males.  Lembra que nem todos conseguirão se corrigir, mesmo tendo consciência do valor da virtude e mesmo se esforçando para isso. Considera a forte importância da personalidade e dos gostos e sentimentos e admite haver aqueles cuja tendência perversa jamais se curvará a argumentos em favor da virtude. Sua filosofia, bem como qualquer filosofia – conclui – infelizmente, não conseguirá tornar a humanidade inteira virtuosa.
Hume encontra algum consolo para essa triste constatação na crença de que ao menos os homens que já sejam razoavelmente virtuosos possam, deliberadamente, através de estudo e aplicação, adquirir hábitos virtuosos, afastando-se de suas tendências negativas, reformando, dentro do que for possível, o próprio espírito. Está aí o principal triunfo da arte e da filosofia. No entanto, a autoridade da filosofia terminará onde a natureza se impuser com mais vigor. Ou, indo pela vontade, em sentido contrário à sua própria natureza, o homem cairia na indiferença.
Mas, assumir a miserabilidade humana sem fazer nada contra ela seria, para Hume, tornar-se miserável para sempre.
Hume relembra, então, duas considerações filosóficas importantes.
Quando refletimos sobre a brevidade e incerteza da vida, e sobre as constantes mudanças que ela nos apresenta, a busca pela felicidade nos parece desprezível. No entanto, embora nossas paixões se mortifiquem por isso, nossa natureza nos diz que a vida humana tem alguma importância. Quando privados da fé nessa importância, tendemos a dar mais valor aos prazeres momentâneos.
O homem tem por hábito comparar-se constantemente aos outros e, infelizmente, tende a se comparar sempre a seus superiores, o que o faz sentir-se sempre em situação de desvantagem. O filósofo é capaz de escolher por olhar para o outro lado e perceber em si alguma vantagem, encontrando aí algum sinal de felicidade. No entanto, sendo de caráter superior, esse consolo trará consigo a tristeza pelo infortúnio alheio e a compaixão pelos outros. Eis aí uma consolação filosófica imperfeita.
Hume conclui defendendo a virtude como a melhor escolha, mas admitindo as dificuldades que o homem encontra para alcançá-la e curvando-se ao fato de que tanto o homem virtuoso quanto o vicioso, em seus mais diferentes graus de virtude ou de vício, não terão a garantia da felicidade.
E virtudes que deveriam, em princípio, levar o homem à felicidade, muitas vezes o levam ao caminho contrário.
Portanto, a conclusão final é de que a vida humana é mais governada pelo acaso do que pela razão e de que não devemos levá-la muito à sério, nem nos ocuparmos demais tentando estabelecer princípios de ordem geral. Enquanto pensamos demais sobre a vida, deixamos de vivê-la e a morte nos atingirá, a todos, da mesma forma.  
O que fica, ao final da leitura de O Cético, de Hume, parece ser: 
Vivamos! É o que de melhor podemos fazer por nós mesmos.    


                                                    Ana Lucia Sorrentino
                                                                                                                                                                 16/04/2012

Um comentário:

Beto disse...

Ana Lúcia, parabéns pelo texto. São pessoas como vc que quero conhecer! Vou guardar seu blog.