domingo, 18 de maio de 2014

Sobre saúde, mídia e má-fé


 

            Como me aborreço demais com a guerra midiática e como tenho consciência de que lendo isso ou aquilo ou vendo esse ou aquele noticiário estamos sempre sendo manipulados de alguma forma, resolvi tentar só escrever sobre o que vejo de perto, o que sinto na carne, o que posso dizer que considero verdade.
            Assim, não estranhem se não recorro a dados estatísticos, matérias alheias ou citações de gente mais legitimada como porta-voz do que eu. Recorrerei apenas à minha realidade e à que posso atestar à minha volta. Longe de superestimar o valor da minha opinião, pretendo, com isso, provocar algumas reflexões que talvez sejam positivas neste momento em que se acirra a falta de compromisso com a verdade, a ira preconceituosa de quem vive bem, mas não aceita que outros também vivam e a falta de escrúpulos de quem levianamente levanta bandeiras tendo como referência apenas seu próprio umbigo e como objetivo apenas uma derrota do PT nas urnas.
            Semanas atrás me cortei em um objeto enferrujado. Fui a um posto de saúde perto de casa, e uma hora e meia depois já estava vacinada contra tétano. Esperei sentada, fui atendida por gente educada e não tenho do que reclamar. Problema resolvido. Jamais pensaria em recorrer a um posto de saúde pública há quinze anos. 
            Perdi meu pai há alguns anos. Ele tinha 84 anos, subitamente teve leucemia, foi internado em um hospital municipal, passou por quimioterapia e, enfim, não resistiu. Sofremos muito, enfrentamos inúmeros aborrecimentos, mas ele foi atendido da forma como era possível, nada nos foi cobrado e nada garante que se estivesse em um hospital particular - excetuando em relação ao conforto -, as coisas se dariam de forma diferente.
            Também há alguns anos, desconfiada da competência da saúde pública para resolver um problema de uma amiga querida, levei-a ao meu ginecologista particular, em quem confiava plenamente. Ele não conseguiu detectar um câncer de útero já em estágio avançado. Prescreveu-lhe uma reposição hormonal que poderia ter acelerado o processo de sua doença e ela só sobreviveu por mais 4 anos porque, ao passar mal, recorreu a um posto de saúde, onde fizeram o diagnóstico correto, a encaminharam para cirurgia e, a partir daí, todo o seu tratamento foi feito gratuitamente.
            Meu irmão passou quatro anos lutando contra um câncer em hospitais públicos. Difícil? Muito. Mas, no momento em que precisou se alimentar por uma sonda, para se recuperar de uma cirurgia dificílima, teve, no hospital público, duas vezes por dia, refeições de uma substância de custo absurdamente alto, que JAMAIS lhe seria fornecida em hospitais particulares, através de planos de saúde.   
            Minha mãe foi operada de uma fratura no fêmur, em hospital particular. O ortopedista que a operou a enxergava como um “fêmur”, ignorando todos os seus outros problemas de saúde. Falou, totalmente alterado, na frente dela, que ela “era velha e que velha dava trabalho” e se referiu ao seu fêmur como “podre”. Foi despachada para casa antes de poder sentar, totalmente debilitada, para liberação do leito. Uma senhorinha doce de mais de oitenta anos, totalmente fragilizada.
            Minha sobrinha faz plantões em um hospital particular. Estava em seu plantão quando um senhor com suspeita de enfarte chegou. Pediram-lhe que esperasse, sem lhe dar a menor atenção. Tendo esperado muito tempo e passando muito mal, tentou recorrer a um médico que passava por ali, e este lhe pediu que pegasse sua ficha no guichê de atendimento. Ao dizer à atendente que queria pegar sua ficha, ela lhe respondeu, ironicamente, que “pegasse, pois o médico não lhe dissera para pegar?” Os três homens que o acompanhavam pularam o balcão e começaram a quebrar tudo. Chamaram a polícia, mas antes que ela chegasse o doente e seus acompanhantes saíram enlouquecidos em busca de um hospital que os atendesse.
            Sei que o assunto não é nada agradável e peço desculpas por isso. Poderia ficar aqui contando casos e mais casos de sucesso e fracasso tanto da saúde pública quanto da privada. Mas vou poupar o leitor, terminando agora, com o de um colega de classe. Ele teve que passar por um transplante de rim, foi atendido em hospital público, faz acompanhamento permanente, está super bem e recentemente nos contou, em sala de aula, que recebe na porta de casa, através de um entregador, um medicamento caro que o governo fornece gratuitamente. E sendo, como eu, mais velho do que a maior parte da turma e tendo passado por outros governos, declarou publicamente que, embora soubesse que muitos não iriam gostar do que estava dizendo, a saúde no Brasil melhorara muito depois de Lula.
            Sempre que alguém faz um relato pessoal desse tipo na frente de opositores sistemáticos do PT, faz-se um silêncio. Porque fica difícil ao opositor refutar uma experiência pessoal positiva, e ele se sente incomodado, porque é movido a preconceito. Ter alguém fazendo-lhe repensar aquilo que afirma apenas porque ouviu tanto que se pôs a repetir -  que a saúde pública no Brasil é uma desgraça -  perturba. Será mesmo que é? Será que, baseando-nos apenas nos casos que cito acima, dá pra generalizar assim? Será que o problema é sempre e na saúde pública? Ou que todos os que dependem da saúde pública estão às traças? Não creio.
            O problema da saúde é um problema extremamente complexo, porque não se trata somente de infraestrutura, mas de material humano. De cultura. De convicções. De motivação interna. De tanta coisa... Há profissionais bons, medianos e péssimos tanto na saúde pública quanto na privada. Tanto na infraestrutura sofisticada quanto na escassez de recursos.
            Um dos grandes, enormes, problemas que o brasileiro enfrenta ao precisar da atenção de um médico é cultural. No Brasil, o médico se julga em um plano superior e espera do paciente uma postura subserviente, o que já mina essa relação e o bom andamento de qualquer tratamento. A vinda de médicos cubanos para cá trouxe à tona esse e outros problemas, que precisam ser pensados. A reação da classe médica brasileira ao refutar o programa Mais Médicos, alegando se tratar de trabalho escravo, se faz com a mesma lógica daquela que quer desqualificar o sucesso de Lula, depois de ter tirado milhões de brasileiros da miséria,  alegando que ele, quando jovem, queria se mutilar para receber benefícios.  Uma coisa nada tem a ver com a outra. Como poderiam os médicos brasileiros estar preocupados com o trabalho escravo de médicos cubanos, quando não se preocuparam nem em atender milhões de brasileiros carentes de saúde? Hipocrisia pura. Nós vivemos em uma República. O foco é o povo. As ações têm que beneficiar a grande maioria.  Tenho conversado com muita gente que se sente muito mais feliz hoje do que há dez, doze anos. E percebo que há, na outra ponta, uma turma de descontentes que, surpreendentemente, não parecem estar descontentes com sua própria vida, mas com a melhoria da vida dos outros.
            Precisamos deixar de acreditar que o mundo se resume ao que o telejornal mostra. Ele não mostrará o alimento caríssimo que o Estado forneceu ao meu irmão, garantindo sua vida. Mas terá amplo espaço para repetir inúmeras vezes alguma cena de terror em algum hospital público. A desgraça no telejornal é quase sempre pública, raramente privada. Seus objetivos são sempre em benefício próprio: aumentar a audiência, conseguir anunciantes, militar “disfarçadamente” em favor de seu próprio candidato. Dias atrás, em meu horário de almoço, liguei a TV e, depois de ouvir inúmeras desgraças, perguntei pra minha irmã: “Você já imaginou quanta coisa boa está acontecendo por esse Brasil afora enquanto estamos aqui, estragando nosso almoço, mergulhadas na desgraça que a mídia divulga propositalmente, com fins determinados?” Desligamos a TV, para preservar nossa saúde mental.
            Se tentarmos avaliar o mundo olhando à nossa volta, pensando em nossa própria vida e não apenas acreditando no que a má-fé propaga por aí e se deixarmos de repetir sem reflexão as frases soltas que se espalham como peste sem a menor responsabilidade, já estaremos fazendo uma grande coisa. Por nós, pela nossa saúde, por um Brasil e por um mundo melhor.               
                                                                     
                                                               Ana Lucia Sorrentino
 
 

 

             

           

              

 

 

 

3 comentários:

Pedro Du Bois disse...

Parabéns, Ana, pela pertinência do texto. Abraços e boa semana. Pedro.

Magda Mazzer disse...

Realmente a necessidade de confrontarmos o que ouvimos e lemos na grande mídia, se faz urgente. Há muita matéria boa e esclarecedora nos blogs de esquerda, os ditos "blogs sujos", mas o comodismo e a falta de interesse pelo que é importante e muitas vezes vital para a maioria dos brasileiros, faz com muitos olhem apenas para que seus privilégios sejam mantidos.

Carlão Azul disse...

Mais um texto BRILHANTE. Mais uma vez concordo com suas palavras INTEIRAMENTE Ana. Mais uma vez obrigado por ter dito o que queríamos dizer.