quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Coisas que as mulheres andam fazendo pelo mundo - alguém me ajuda a entender?




Ontem, logo cedo, me deparei com uma notícia que me pareceu estapafúrdia e que ficou voltando à minha cabeça durante o dia. Fiquei me perguntando se eu não entendera direito, e se a minha interpretação dos fatos estava prejudicada demais pela minha ignorância quanto à cultura e ao contexto da Ucrânia. Pode ser.
Segundo a notícia, lá, desde 2008, um grupo de ativistas femininas intitulado Femen, formado por universitárias de Kiev, defende os direitos humanos e das mulheres, protestando sem a parte de cima da roupa, no estilo topless.
O interessante é que o alvo principal dos protestos é a indústria do sexo, que hoje, na Ucrânia, um dos principais pontos de turismo sexual do mundo, atinge níveis assustadores, e corre o risco de crescer mais ainda, devido à crise econômica e ao alto índice de desemprego. Segundo a matéria, estima-se que 60% das universitárias recorra à prostituição para se manter.
Veja o paradoxo: para protestar contra a prostituição e o turismo sexual, a Femen criou a campanha A Ucrânia Não é Bordel, em que as garotas vão às ruas vestidas como prostitutas. Fui ao Google (é claaro! ) e, encontrando lá uma quantidade enorme de fotos dos protestos que essas mulheres fazem mostrando-se e assumindo posturas realmente de prostitutas, fiquei embasbacada. Olhando as fotos, é inevitável imaginar a Ucrânia como um imenso bordel a céu aberto. O mundo está vendo isso. Imagino que aqueles que têm interesse na indústria do sexo, nesse momento devem estar fazendo as malas pra ir pra lá.
Uma das estudantes explicou que na sociedade ucraniana a mulher tem um papel menor, e o lugar que lhe cabe é na cozinha ou na cama.
Diz a matéria:
Questionadas se o fato de usarem o corpo para chamar atenção não diminui o valor ou contraria o movimento, elas dizem não ver problemas.
“Nós começamos vestidas e ninguém reparava. Eu sou uma grande fã de tirarmos nossas roupas. É como conseguimos atenção da nossa plateia”, diz Shevchenko. “É tudo o que temos, nosso corpo. Nós não temos vergonha disso”, diz a estudante de jornalismo, Inna, 20, à Reuters.
Ou seja: cada um usa a arma que tem.
A Femen vem intensificando seus protestos, cada vez mais políticos, e o protesto da semana passada foi a favor da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte no Irã por adultério.
Lendo a matéria, percebe-se que as garotas não devem ter só o corpo, como afirmou a estudante, mas também inteligência, uma vez que se mobilizam politicamente e defendem causas justas.
Aí, fico me perguntando: será que a nudez é mesmo a única arma que essas mulheres têm pra se fazerem enxergar? Isso me soou tão estranho...
A garota também se queixa da sociedade ucraniana achar que lugar de mulher é na cozinha.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, elas poderiam protestar contra aqueles que pensam assim cozinhando e oferecendo-lhes um maravilhoso banquete em praça pública... Mas a impressão que tenho é de que não gostam de cozinhar tanto quanto gostam de ficar nuas.
Eu não sei. Será que essas meninas estão tão mergulhadas na cultura da prostituição, que, apesar de conseguirem enxergar o mal que há nisso, não conseguem vislumbrar qualquer alternativa à de usar seus corpos nus para obter algo? Será que elas não estão premiando aqueles a quem querem atingir? Será que um bando de mulheres vestidas como prostitutas andando pelas ruas da Ucrânia pode mesmo combater a indústria da prostituição? Ou elas estão fazendo um marketing gratuito a favor dessa indústria?
Nunca me passou pela cabeça, e eu não quero que passe, que um corpo nu de mulher pudesse ser usado como protesto ou agressão.
Que ninguém me acuse de pudica, porque, realmente, a nudez não é algo que me assusta. O que me assusta é esse uso abusivo da nudez em nome de qualquer coisa.
A nudez compartilhada com quem gostamos em situações de afetividade é algo divino.
Imagino que se eu viesse a usar meu corpo nu para protestar ou agredir, isso me faria muito triste...
Como me faz triste essa banalização da nudez feminina.
Há tantas formas de se chamar a atenção a uma causa... será que essas mulheres acreditam mesmo que seu corpo é a única coisa que têm?
Sou mulher, e fico me esforçando para não julgar aquilo que não entendo. Mas eu não vejo homens fazendo essas coisas...
Às vezes me parece que uma das grandes desgraças da mulher é não saber lidar direito com esse fascínio que um belo corpo feminino exerce sobre os homens.
Somos corpos, sim, mas somos mais do que isso, muito mais. Não é necessário que saiamos nuas às ruas para que nos enxerguem, porque, barganha por barganha, uma mulher que simplesmente cruza os braços pára tudo à sua volta. A qualquer mulher que queira protestar contra algo, eu sugiro: cruze os braços. Cruze os braços e não faça nada e observe o que acontece.
Às meninas da Ucrânia, talvez eu sugerisse que simplesmente fechassem as pernas.
Mulheres que se expõe como carne sem alma, em nome de algo que não o afeto, emprestam ao olhar dos homens um desdém triste de se ver, e que acaba atingindo todas nós.
Eu tenho saudade de um tempo que não vivi, mas sobre o qual leio ou escuto falar, em que um tornozelo de mulher à mostra causava frisson nos homens. Em que nossos corpos eram tratados como algo realmente precioso.
Afinal, alguém pode me elucidar? O que querem, de fato, as meninas da Ucrânia?

7 comentários:

argumentonio disse...

bem, a pergunte e a (falta de) resposta somam-se à perplexidade...

desconheço essa realidade e a Ucrânia é um País bem maior do que essas 300 activistas mas de facto vivemos num mundo meta, com um círculo referencial vicioso entre o que vemos, o que exprimimos, o que fazemos, o que pretendemos e o que conseguimos, porventura "chovendo no molhado" sem sair, afinal, do mesmo sítio...

a nudez, em si, é muito apelativa e por alguma razão desde sempre, se o episódio de Adão e Eva simboliza o princípio do mundo, há tensão manifesta entre a nudez e a sua superação, sendo que a expressão nudez e a expressão da sua superação constituem também um tema em si, potenciando a consideração consciente ou inconsciente, individual e colectiva, e ampliando o seu impacto na formação dos valores individuais e na mentalidade colectiva

muitos protestos em todo o mundo recorrem à arma da nudez, também despojada de meios e custos, para além do despudor e coragem ou mesmo temeridade, como tal acessível, de efeito garantido e imediato

mas tem que se concordar que para além de um despoletar do tema, a luta por uma causa como a reivindicada por essas mulheres ucranianas tem que evoluir na sua forma, nos seus meios, na sua mensagem consequente e eficácia

oxalá apareça proposta cabal que mude a forma "reducionista" do protesto e, sobretudo, atenue ou resolva a sua causa

;_)))

Adao Braga disse...

O mundo é vasto, e heterogênio são os que nele vivem.

Elas agem assim outras, nalguma ilha tropical vão para festas sociais trocar os maridos.

Noutro lugar uma mulher pode casar com até sete irmãos. Noutras regiões, a mulher escolhe o marido segundo suas posses. Noutras regiões os maridos compram suas esposas com o que mais vale: cabeças de vacas. Quanto mais vacas se paga, mais valiosa é a mulher.

Nalguns países da Africa a mulher deve engordar, caso contrário não está feliz, nem bem cuidada pelo esposo. Até lugar especial de engorda existe.

Há comunidades mais ao norte do brasil, que usar roupa é vergonhoso. Alguns ocultam seus corpos como conceito moral e ético, outros e outras os expoem sem vergonha.

A ecologia nos chama a reconhecer a biodiversidade. Os movimentos GLSBT lutam por suas causas, as paradas gays para muitos, tem o mesmo significado que o movimento destas mulheres.

... tenha um bom fim de semana!

UMA MULHER disse...

Oi eu levei essa materia para o meu blog uma mulher, coloquei o link e o seu nome no inicio da materia, depois dê uma olhada, se ficou bem...
Me perdoá por te-la feito se sentir usada, não era a intenção, gosto muito do seu trabalho, e sempre tenho o cuidado de dar o devido credito a quem o fez...
Beijos sem seu coração...

Roberto Ney disse...

Oi Ana...
Então, como já te disse, ano passado fiz uma especialização em direitos humanos em Portugal e direcionei minha pesquisa para a prostituição - inclusive, tem um livro chamado "um ano no tráfico de mulheres" que eu recomendo a leitura. Já conhecia, sem muito aprofundamento, esse caso da Ucrania e, confesso que também achei paradoxal... é como você defender o direito dos animais desfilando com casacos de peles. Inevitávelmente, essas mulheres acabam atraíndo ainda mais holofotes para o rentável mercado que se estabeleceu na Ucrânia. Inclusive, os países dessa região européia estão entre os principais na rota do tráfico de mulheres. Existe toda uma conivência social e política que encoberta esse mercado. Mas não é fácil fazer com que sua voz tenha uma abrangencia considerável. Audei a organizar a primeira marcha contra homofobia e transfobia de Coimbra e sei bem os problemas que existiram. Houve até um senhor que foi detido por agressões verbais a um casal de mulheres. Mas, ao meu ver, essa exposição exagerada somente atrai mais consumidores. A indústria do sexo atua de inúmeras formas e, há muito tempo, deixou de trabalhar apenas pelos bastiores e pelo underground. Esse protesto desinibido soa mais como um apelo sensacionalista a atrair mais turistas sexuais do que um manifesto contra a exploração sexual da mulher. Tenho a certeza que as máfias do tráfico de mulheres estão descobrindo muitas "recrutas" em potencial, com todas essas fotos divulgadas na internet. Parabéns pelo texto... seu blog nos ajuda a conhecer mais sobre esse complexo universo feminino. E como todo homem também tem seu lado feminino, acabamos nos conhecendo melhor também...

Beijos!

Ana Lucia Sorrentino disse...

Obriga pela presença, Antonio, Adão, Areta (finalmente, uma mulher! rsrs...) e Roberto!
Adoro quando recebo comentários tão ricos.
Acabo aprendendo um moonte... rsrs...
É isso, acho que o que mais sintetiza essa história toda é esse exemplo que o Roberto deu: é como defender os direitos dos animais desfilando com casacos de pele.
É muito polêmico falar sobre isso, e há que se ter coragem.
Respeito a diversidade entre os seres humanos, e entendo as diferenças entre as culturas.
Mas esse protesto cheirou a propaganda da prostituicão. E, sem medo de ser criticada, devo dizer que a prostituição, como tudo na vida, é uma questão de opção.
Mas, se fazemos um opção, o que é nosso direito, porque estamos lidando com nosso livre arbítrio, não devemos ficar arrumando desculpas pra isso.
Seria mais bonito que as mulheres que escolhem esse caminho assumissem que o fazem por escolha, e não por estarem dentro de um certo contexto, ou por serem obrigadas, ou sei lá o quê.

Vanessa disse...

Digamos que é bem mais fácil tirar a roupa para ser notada do que pensar um bocado e fazer algum protesto mais elaborado. E nesse caso, o feitiço pode se voltar contra o feiticeiro e ainda com mais carga. Mesmo porque...não tem quem não olhe para alguma pessoa sem roupa...

paty disse...

Olá Analú! adoro escritoras!!! rsrs olha Ana.. eu tbm gostaria de entender viu... te confesso q as vezes sinto vergonha de ser mulher!
eu sei q existe muitas mulheres maravilhosas, como eu.. vc.. rsrs ,mais sinto vergonha "dessas" q parece q ñ pensam... q acham q a única coisa q elas tm de bom é o corpo! elas mesmas ñ se dão o mínimo de valor ! só q ao mesmo tempo tenhu pena.. sei lá.. sinceramente é triste de ver..