domingo, 21 de fevereiro de 2010

Poesia - Meia-Noite (Alento, 2007)

É meia-noite
e os sinos não tocaram.
Eu não tive nenhum pressentimento
nem compartilhei com alguém
a transmissão de um pensamento.
Eu não temi,
não tremi,
não estremeci.
É meia-noite e é como se fossem duas da tarde.
Eu não apaguei as luzes,
não fechei os olhos,
não dancei uma valsa.
Não me abracei a ninguém.
É meia-noite
e os sons continuam diurnos,
indiscretos.
Ninguém sussurra ao meu ouvido,
ninguém me beija,
ninguém me encara,
ninguém me ama.
É meia-noite e ninguém chora,
ninguém geme,
ninguém cala.
É meia-noite e o lobisomem não veio.
Nem o vampiro.
É meia-noite
e nenhum suspiro forte
pode cortar o silêncio,
porque nem ao menos
há o silêncio próprio da hora.
É meia-noite e eu escrevo,
como em tantos dias, tantas manhãs
ou madrugadas.
Não há o clarão da lua,
não há uma silhueta de mulher nua,
não há nada.
É meia-noite
e eu não estou apaixonada.

Ana Lucia Sorrentino em  Alento(2007) - coletânea de poesias,  à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br

8 comentários:

Pedro Luso disse...

Ana Lucia,

Muito bom esse poema. E o livro Alento, de quem é a autoria?

Abraços,
Pedro.

Valquíria Falcão disse...

Olá, estou feliz em estar aqui e simplismente amei tudo que li, desde já estou acompanhando seu blog, e espero ter o prazer em te-la um di nos meus...tenha uam boa semana...

Paulo Sempre disse...

Na «calada» da noite eu não temipassar por aqui.

Reencontrei "estados" de alma no "sabor" dos poemas.
Obrigado!!!

Paulo

Fred Matos disse...

"É meia-noite e eu escrevo,
como em tantos dias, tantas manhãs
ou madrugadas."


Um poema muito bom, Ana Lucia.
Ótima semana.
Beijos

ju rigoni disse...

Oi, Ana!

Ainda não é meia-noite, e ói eu aqui, voltando das minhas férias...

Amei o poema! Sem paixão, nem meia-noite,... nem meio-dia!

Bjs e inté!

Tais Luso disse...

Oi, Maria Lúcia, o poema da 'Meia Noite' é belo, mas o final me surpreendeu! Esperava uma coisa e aconteceu outra. Gostei muito.

meu carinho
tais luso

Vanessa disse...

Se com toda essa descrição do que (não) acontece à meia-noite, acho que sei o porquê: seu relógio está errado!! rs..rs..

Ou..estás no mundo do "dia em que a Terra parou", de Raul Seixas. Nada acontece, nem as horas passam. Ruim isso...rs..

sueli schiavelli jabur disse...

querida amiga, que poema mais lindo, essa é a meia-noite do só,que ama sem uma contra-partida, mas o que vale mesmo é amar, de uma forma ou de outra sempre há uma compensação,você é mesmo um ser apaionado, bjs

obs: já passa da meia-noite, está chovendo e estou só, meu marido chega hoje, nesta madrugada reina o silêncio, nada de gritos e sussurros.