quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

POESIA - Reforma (Alento, 2007)

Talvez eu tivesse acreditado
que a samambaia de volta
ao canto da sala de estar
pudesse trazer de volta também
alguma coisa, que agora sei,
não vai voltar.
Trocar o tecido do sofá
talvez fosse uma tentativa de recuperar
os doces sonhos que sonhamos juntos,
as carícias que trocamos
sobre a maciez do cetim.
Há mais gente na casa,
há mais rugas no rosto,
há mais vida intelectual...
Nada, nada vai nos fazer de novo igual
ao que éramos antes –
jovens, belos, fortes, apaixonados...
Tanta coisa aconteceu...
Agora, talvez, troquemos o piso.
Isso, contudo, nada tem a ver
com o resgate do riso,
que nunca perdemos.
O riso de sarcasmo ou ironia,
o riso doce ou amargo,
o riso de bobeira, de folia,
o riso bom, sem embargo.
Acho que somos felizes.
Pra isso luto todo dia.
Lutamos, talvez.
Penso nos quadros
que queria espalhar pelo apartamento
e na vida, na vida,
tanta vida que há aqui dentro.
Penso em tudo e me calo, emocionada.
Tomara que nosso edifício
erguido com amor e arte
não desmorone, como o Palace,
feito de areia e conchas do mar.

(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br)

8 comentários:

Mistérios, Magias ou Milagres. disse...

Você se supera cada vez mais.
É emocionante seu poema. Lindo mesmo. beijos Heudes

Vanessa disse...

A gente deseja voltar no tempo para viver momentos bons. Mas nos esquecemos que esses mesmos momentos bons só são bons naquele momento que já passou. Hoje somos diferentes e os bons momentos também os são. Lembrar é muito bom, mas melhor ainda é fazer nossos próprios momentos bons - e novos!!!

Graça Pereira disse...

Podemos remodelar todo o cenário da sala... o que passou, ficou lá atrás. Muitas vezes se renova o cenário, esquecendo-nos de renovarmos os sentimentos. Há coisas que ainda estão por viver...
Beijos e bom fds
Graça

Antonio Campos disse...

OLá minha amiga Ana. " quebra-se o encanto assim como quebram-se os cristais". E não adianta as vezes mudarmos um cenário. Se não nos mudarmos interiormente. Grande abraço estou de volta das pescarias com muitas história e nenhum peixe.

Bernardo Miranda disse...

memórias.
as mais lindas
suas.
parabéns!
emocionante!!!!!!!!

bjs.

Wanderley Vieira disse...

Ola querida, muito legal seu poema. Dá ate pra ver o local, as paredes, o moveis. Vce conseguiu transportar a gente pra este lugar.

Continua escrevendo. precisamos disto.

bjs

Wanderley

Fábio disse...

Oi estou passeando pelas paginas aqui e gostaria de aproveitar para convidar conhecer meu trabalho através do blog Ecos em www.ecosdotelecoteco.blogspot.com Grande abraço e sucesso ai para voce.. T +

Paulo Sempre disse...

Poeta castrado não!

«Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não! »

(Ary dos Santos)