sábado, 11 de julho de 2009

Um conto, pra variar: É Sol (primeiro dia do Rafael na escola)

Almoçamos, escovamos os dentes e abri a gaveta. A primeira gaveta do lado direito. É a gaveta do Rafael. Tiro dela um pequeno uniforme. Short vermelho, camiseta e meias brancas. Abro a porta do guarda-roupa e pego o "conguinha".
Rafael espera, meio tenso.
Coloco a roupa nele. Elogio. Elogio muito. Exagero, pra ser sincera. Ele está lindo. Orgulhoso de seu uniforme. Eu me desmancho. Deito-o sobre a cama e beijo, beijo, beijo... Nunca vi uma criança gostar de amasso como esse menino. Ele deixa, deixa, deixa... Meu coração está grande.
Chamo o elevador, toco a campainha da Marilda.
- Ele vai pra escola - exibo-o, mão na mão dele. Ela faz festa, beija, abraça. Um verdadeiro escândalo.
Vamos embora.
Estaciono perto do portão de entrada. A escola fica numa praça, o Largo do Bom Parto. Nos bancos, sentados, brincando, correndo, mil "Rafaelzinhos", de vermelho e branco. Uma parte das crianças já conhece a escola. Pra outra parte, tudo é novidade. Expectativa.
São três e quinze, e ainda temos cinco minutos. Dá tempo de procurar no rosto dos outros um tiquinho de angústia. Dá tempo de apertar a mãozinha dele, tentando passar segurança.
O portão abre, e as mães não podem entrar. Dou um beijo comprido, peço outro, não quero que ele me sinta insegura. Ele entra, acompanhando a turma. A escola é pequena, há uma só sala. Não tem como se perder. Mas ele vacila. Nem sabe pra onde ir. Nem sabe o que esperar... Chora e corre na minha direção. Tio Joaquim o resgata e o leva pra sala. Parece que parou de chorar. Não custa esperar um pouco. As mães vão indo embora, o portão se fecha e tudo está calmo. Silêncio. Não procuro mais o choro dele, porque tenho fé. Vou indo embora. As pernas pesadas, o peito apertado. O carro parece tão longe... Engato a primeira e saio. Vem um vento fresco pela janela. Terei duas horas. Uma sensação de liberdade me possui. Duas horas só pra mim. Estou precisando. Não sei pra quê, não sei o que fazer, mas sei que tenho duas horas pra mim. Duas horas comigo mesma. Há quanto tempo não tenho isso! Vou pra casa. Olho em volta. Há mil coisas por fazer, mas não quero. Ligo o rádio, pra espantar o silêncio. Vou ao banheiro, pego uma revista. Folheio. Tudo igual. Posso telefonar pra quem quiser, dá pra bater um bom papo. Nada disso. Já são quase quatro, logo serão cinco... Talvez chova, e eu não tenho guarda-chuva. Devia comprar um. Esse outono promete chuva. Choveu tanto durante o verão...
Deito no sofá, relaxo, respiro. Rafael tá lá, no meio de um monte de crianças que não conhece. Foi preciso pendurar nele um crachá, com seu nome, pra que o pessoal da escola o identificasse.
Fecho os olhos. Deixo o silêncio entrar em mim. Um zumbido só.
Minha cabeça tá aqui, tentando descansar, mas meu coração está no Largo do Bom Parto. É sempre assim... Cabeça e coração nunca andam juntos...
Tenho medo de adormecer, perder a hora. Levanto, num salto. Já é tarde.
O asfalto está úmido. Cai uma garoa fina, que molha mais que chuva de verdade. O tempo fechou de vez. Tá tudo cinza. Pego o caminho mais longo, só pra fazer hora. Chego cinco minutos antes. Os pais e mães já estão todos lá, do lado de fora do portão vermelho. Todos, todos ansiosos e preocupados. O portão se abre e eu entro, empurrada. Rapidamente se forma uma fila. Fico no meio, esperando a minha vez. Olho pelo vidro da porta, avisto-o lá dentro, sentadinho, quieto. Reconheço-o pela cabeça. Tão redondinha, tão perfeita... Ele estica o olhar pra fora e me vê. Seu rosto se ilumina, num sorriso lindo. Está feliz.
A tia me pergunta o nome, e eu digo "Rafael". Ele levanta, disciplinado, e vem ao meu encontro. Um beijo, um abraço. Dou a mão pra ele e saímos, na garoa.
Pra mim é sol de novo.

Este conto faz parte da coletânea Acasos - 2007

Beeeijos!

Analú :)

5 comentários:

neo-orkuteiro disse...

Distingue-se o sol como tom dominante, mesmo em dia assim, garoado e tão povoado de reminiscências.
Muito bem, Analú

sueli schiavelli jabur disse...

que texto lindo, apenas isso, amei, querida amiga, bjs

Vanessa disse...

Seu sol se chama Rafael. Quando ele vem, o céu fica limpo e claro. Quando ele se vai, é chuva, nuvens cinzas, asfalto molhado. Tal como o tempo, Rafael vai e volta. Ou a gente se acostuma, ou ele para de ir e voltar. A primeira alternativa acaba sendo a correta..rs..

Salete Cardozo Cochinsky disse...

Que sol, que iluminação que vem do olhar, curioso, com ou sem ansiedade dos protagonistas que vivem essa inesquecível experiência de começar algo, de ir além.
Que sejam todos os dias, o primeiro dia.
Beijos

Lesma de sofá disse...

Lembrei detalhes dos primeiros dias de aula dos meus filhos (hoje com 18 e 15). A vida é mesmo ótima, né?
beijão