quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Lentes entre nós

           


           Cena 1 - Das seis pessoas à mesa, apenas eu não tenho os olhos no celular. Isso era pra ser a comemoração de um aniversário, salvo engano. Olho ao redor, tento me fixar na decoração suave, penso em comentar algo, resisto ao ímpeto de checar meus e-mails só pra disfarçar, me deixo abater pelo constrangimento. Vontade de sair correndo. Fico, pra não arrumar encrenca, coisa fácil de se fazer. Mas tá difícil. Que bom que a comida chegou. Com esse povo, nunca mais. Belos pratos! Começa a sessão de fotos. 
        Cena 2 - O sono vem vindo. Hora da última checada nas mensagens. Quem eu queria que me respondesse, não respondeu... Normal isso já. O descaso está naturalizado. Ninguém mais se ofende com a ausência de respostas, porque tudo é sempre tanto e a gente não dá conta... Chato jogar e-mails ao vento... Acho que vou deletar todo mundo que não me responde... Não tem jeito, ainda fico ofendida.
       Cena 3 - O mesmo cara no inbox. E eu que não consigo ser grossa. Amigo, eu ainda sou do tempo do cafezinho pessoalmente, gosto de olhar pra pessoa, sentir o hálito, perceber alguma sinceridade no ar.  Não, não mando fotos, me sinto uma coisa. Tenho cam, sim, mas não uso, não gosto. Não sei por que, mas ainda tenho dó de deletar de pronto. Mas as coisas podiam se dar de forma diferente, pelo menos uma vez... Me canso e mando a deixa pro sumiço: venha, vamos nos conhecer, amanhã estou livre, pode ser? Resolvido. Eles querem fantasiar, só isso.
        Cena 4 - Uma lua deslumbrante enfeita o céu. Tudo limpo, uma beleza... Abraços e beijos, uma vontade de conversar um pouco mais, mas é tarde e a vizinhança dorme. Minha sobrinha observa que a noite fora tão gostosa que nem lembramos de nos fotografar. É mesmo... Tava tudo tão bom! Obrigada por terem vindo, adorei! Acompanho o carro deles virando a esquina, fotografando-os mentalmente. Registro a cores, na minha memória afetiva, essa sensação boa de estar entre queridos, de poder confiar, de saber que com eles posso contar. O mundo não precisa do registro digital disso, porque isso é entre nós. Mesmo porque o mundo não se importa...   
           
            Entro em casa, e, recolhendo os vestígios do encontro, enveredo por um paradoxo. Realmente, estivéramos inteiros ali, dando-nos uns aos outros. Não nos preocupamos em fotografar o momento para que outros o vissem, porque o momento era nosso. E nós éramos nós mesmos. Me ocorre que toda vez que uma lente se interpõe entre atores de uma cena ela os altera, alterando de todo a relação. Esse vício de se fotografar e compartilhar tudo o que se vive expõe um desejo incontido de que algo, ao menos uma imagem, resista, num mundo que muda tão rapidamente que momentos às vezes intensamente aguardados simplesmente evanescem. Mas também expõe, e de forma flagrante, a perda da medida entre viver e mostrar que viveu. Paradoxalmente, quando a preocupação em mostrar disputa espaço com o viver, este, sem dúvida, sai enfraquecido. Acaba-se mostrando o que se viveu, mas o que se viveu já foi vivido para ser mostrado e, portanto, não foi vivido por inteiro. A relação já foi substancialmente alterada. E um tanto de vida escoou pelo ralo da vaidade.  

            Caio no sofá, cansada e serena. É bom demais saber que há quem nos queira bem. O silêncio me agrada. Não tenho medo de me escutar. Eu não sou contra a tecnologia, mas eu não gosto de posar pra fotos. Eu gosto de fotos flagradas, porque gosto da espontaneidade, da verdade. Eu gosto de quem desliga o celular durante o encontro, pra estar ali por inteiro. De quem responde meus e-mails com atenção, demonstrando consideração. Eu gosto de quem tem coragem de se fazer presente de verdade. Gosto de experimentar, não de ficar brincando de ensaiar eternamente.  Gosto de confiar, de estar perto, gosto do que permanece dentro de mim, mesmo que mudando o tempo todo. Eu gosto de sentir que há algum chão firme em que pisar. E quando piso com confiança, torno-me confiável também. Se não for pra ser assim, melhor mesmo um sofá, a solidão e um bom livro. 

                                                           Ana Lucia Sorrentino

sábado, 12 de setembro de 2015

Sobre saudade
















Porque saudade quase sempre é algo que quase nunca se sacia.
Porque saudade é muito mais sobre o que, inocentes, fomos capazes de sentir um dia.  

                                                                               Ana Lucia Sorrentino

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Acaso




















Nunca levei a vida a sério,
nem sei se algum dia levarei.
A vida é verdadeiro mistério
que nunca decifrarei.
Há quem nasça em plena miséria
e cresça alvo de pilhéria.  
Há quem nasça em trono de rei
e se submeta a coisas que... nem sei.
Há quem de útil não faça nada
e quem ganhe a vida com conversa fiada.
Há quem enriqueça do suor alheio
e zombe, e humilhe, e goze
sem o menor receio.
Há quem goste de chafurdar na lama
e quem, sem chafurdar,
se deite na cama da fama.
Há doentes que são sãos
e sãos que são tão doentes...
A vida, puro acaso,
desconfio que me veja
como acaso puro também.   
Eu não a levo a sério
e ela não leva a sério
nem a mim, nem a ninguém.


                                                                              Ana Lucia Sorrentino 
                                                                                     14/08/2014

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Para que NÃO serve um professor de filosofia? - 1

    

 

           














                                            Conversássemos aqui sobre o papel do professor de filosofia, certamente este texto se prolongaria indefinidamente. Idealmente todo professor deveria pensar constantemente sobre isso, pois se essa postura reflexiva é fundamental no exercício de qualquer profissão, que dizer no magistério? Por mais que desejemos acertar sempre, certamente erraremos muitas vezes, porque lecionar é experiência, aprendizagem contínua, e errar faz parte do processo. Mas, se pudermos, antes de entrar de cabeça nessa aventura de infinitas possibilidades, eliminarmos em nós comportamentos às vezes herdados de nossos professores - até por admirá-los muito -, e que podem ser considerados erros graves, acredito que estaremos começando com alguma vantagem. É essa a contribuição que pretendo dar aqui. Apontar posturas relativamente frequentes que, ao menos a meu ver, não deveriam ser adotadas por quem pretende se dizer professor.  

              Por ser recém-formada, é na posição de aluna, com experiências ainda frescas em mim, que relato aqui algumas situações que minha turma viveu que, sinceramente, me provocaram uma enorme tristeza, pelo tanto que as percebi deletérias para os alunos em geral. Creio que ao me reportar a situações reais possa fazer com que você que está me lendo chegue junto comigo à resposta da minha pergunta inicial.

             Vamos lá.

            Primeira semana de aula. Estávamos todos um pouco assustados, porque, apesar de muitos de nós já terem passeado por textos filosóficos, passeios não são mergulhos profundos e não tínhamos o ouvido treinado para aulas com tantos termos novos, tantas questões instigantes, tantas novidades, enfim. Não conhecíamos os professores e havia uma dificuldade real na compreensão de algumas aulas expositivas, e uma natural timidez para nos aventurarmos a perguntar. Um dos nossos professores nos perguntou por que estávamos ali. Por que resolvêramos cursar filosofia. Respondi, tímida, mas prontamente, que, de minha parte, era porque eu desejava aprender a filosofar. Recebi de volta um sorriso um tanto quanto zombeteiro que se compadecia da minha ingenuidade e me dizia claramente que minha pretensão estava acima do desejável para uma simples mortal. Naquele momento ele se esforçou por nos fazer entender que faríamos um curso de história da filosofia, e que isso já estava de bom tamanho. Creio que não só eu, mas a grande maioria da sala, saiu dali, naquela noite, um tanto quanto desvitalizada.
            
            Algum tempo depois um outro professor colocou-se precocemente à disposição para atender alunos que tivessem interesse em fazer iniciação científica. Animada, já com algo em mente, fui consultá-lo. Ele me perguntou se eu já tivera tempo de me apaixonar por algum filósofo e eu, realmente, não tivera. Mas eu tinha um objeto de estudo. Uma questão da atualidade que me intrigava. Ele me elucidou, então, que as coisas não funcionavam assim na universidade. As minhas questões sobre o mundo não interessariam a ninguém. Para escrever algo sobre filosofia eu precisava estudar um autor já consagrado e escrever sobre o que outros autores diziam sobre ele. Eu teria o papel de uma compiladora de teses alheias. E nenhum orientador aceitaria uma pesquisa que já não tivesse uma bibliografia a ser consultada. Ou seja: o valor do ineditismo era nulo. Gostaria de não criticar o professor nesse caso, pois ele estava em um sistema que só lhe permitia isso. Mas ele era, sem dúvida, peça importante na manutenção de tal sistema restritivo. E peça bem azeitada... Guardei meu embrião de tese em algum lugar de mim que nem sei e fui pra casa, mais uma vez, decepcionada.
            
          Seguiram-se outros inúmeros episódios similares que não vou contar aqui para não me estender demais. A princípio, quis me iludir imaginando que nos tratavam dessa forma por sermos iniciantes. Mas, enquanto estudava o que os filósofos consagrados pensaram, me iludia, imaginando que, em algum momento, teríamos chance de ensaiar algo realmente filosófico. Até que entendi que a intenção do curso não era essa. Havia um esforço coletivo para que nos convencêssemos de que não seríamos capazes disso.
           
        No último ano, inconformada, minha equipe abraçou uma ideia para um seminário de didática específica. Fizemos uma apresentação sobre um texto de Gonzalo Armijos Palácios, um filósofo equatoriano da atualidade: De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio. Nosso seminário abordou exatamente a questão da impossibilidade do aluno de filosofia filosofar. Expusemos as ideias de Palácios, manifestamos nossa própria insatisfação e reivindicamos nosso direito de pensar. Nosso professor interpretou o que fizemos como "desejo de reconhecimento prematuro". Não... Nossa apresentação manifestava nosso desejo de ter espaço para produzir filosofia, ainda que rudimentar, e nos treinarmos para, talvez, em algum momento, produzir filosofia "de verdade", se é que se pode dizer assim. Mas ele estava tão domesticado pelo sistema que sua subserviência não permitiu que compreendesse nossa mensagem.
           
            Mais surpreendente ainda foi quando, ao sairmos da sala, conversei com um colega de classe que me disse discordar de nós porque "se quiséssemos criticar a universidade, que o fizéssemos fora dela"! O curso realmente conseguira convencê-lo de que nosso papel deveria ser sempre o de vira-latas. Se bem que amo vira-latas... :(
            
             Para finalizar, quero dizer que nossa turma começou com mais de 80 alunos e no último ano éramos 20. Os que se formaram junto comigo foram oito, se não me engano. E desses oito, apenas duas mulheres. Certamente algum professor argumentará que isso ocorreu porque "filosofia é para poucos", em uma perpetuação dessa ideia elitista de que é preciso ser genial para filosofar. Filosofia não é fácil. É preciso ter obstinação e muito amor. Mas, sinceramente, não sei em que grau essa evasão se deve mais à constatação pessoal de cada um de sua própria incapacidade ou mais a esse esforço permanente para nos fazerem crer que não podemos. O que sei é que um professor de filosofia não deveria jamais servir a essa triste causa, de convencer um aluno de que ele não é capaz. Aliás, professor algum deveria se prestar a isso.
            
PS - Enquanto isso, os que tiverem fôlego e conseguirem se submeter totalmente às regras, produzirão mestrados e doutorados e pós-doutorados mesclando com certa habilidade pensamentos alheios e replicando matérias para engordar o Lattes. Li, recentemente, que é impressionante a produção de lixo acadêmico da atualidade. Mas quem se submete tem mais chance de ser contratado. Interessante, não?  

                                                                                     Ana Lucia Sorrentino
                                                                                          27/07/2015



 
               

 

 

sábado, 20 de junho de 2015

Estatuto do Desarmamento - assunto de adulto

             
                            


            É absolutamente lamentável ver jovens - e nem vou citar nomes aqui, para não dar visibilidade a quem não a merece - defendendo  o fim do Estatuto do Desarmamento. O que é que deu na cabeça dessas pessoas que acham que podem reverter conquistas positivas simplesmente porque têm mentes confusas e nenhuma coerência? Como é que se pode respeitar jovens que se manifestam de forma barulhenta contra o governo sempre que querem, pelas ruas do Brasil,  sem serem presos ou "sumirem no espaço", mas ainda assim imaginam-se numa ditadura e, ao mesmo tempo, acham que poder portar uma arma sem qualquer restrição para se "defender" é exercício de "liberdade" e "avanço",   em uma época cujos ânimos andam tão acirrados que uma simples fechada no trânsito pode resultar em assassinato ou em que um cachorrinho usando uma bandana vermelha pode ser maltratado por todo um grupo de malucos por ser petista??? Que fé é essa no bom senso geral, no autocontrole, na sanidade mental do ser humano, se olhamos em volta e vemos, o tempo todo, demonstrações que nos levam a concluir o contrário? Através de que lentes esse pessoal está olhando para o mundo, para enxergá-lo de forma tão distorcida? Como talvez perguntasse Nietzsche: qual a origem do seu pensamento?  Pense: se os homens tivessem bom senso suficiente para portar armas sem que isso representasse perigo para todos, os homens não precisariam de armas. 
                Os jovens precisam entender que quem tirou do fundo do baú essa questão do Estatuto do Desarmamento foram deputados eleitos com a ajuda da indústria de armas.  Eles precisam, agora, cumprir o que prometeram aos que bancaram suas campanhas. Precisam criar mecanismos que deem lucros para essa indústria. Precisam ajudá-la a vender armas. Simples assim. Ou seja: pouco importa o povo, a segurança, a criminalidade, os acidentes domésticos, e tudo o que beneficie seus eleitores. O que importa é só pagar sua dívida, se manter lá, e garantir patrocínio para as próximas eleições. E os que estão defendendo essa ideia esdrúxula, estão, mais uma vez, lhes servindo como massa de manobra.    
                Esses jovens deveriam estar na escola, estagiando, batalhando pra ganhar sua própria vida decentemente, constituindo família para  entender os mecanismos dos relacionamentos duradouros e aprender a valorizar a vida... Maturando suas ideias, enfim, para depois - bem depois -, começar a dar palpite em assunto de adulto. Não basta ter lido todas as enciclopédias do mundo para ser adulto. É preciso ter vivido. E é preciso, também, ter adquirido responsabilidade para lidar com a própria capacidade de persuasão e saber que sair por aí pregando tudo o que lhe passa pela cabeça pode causar grandes estragos. E Estatuto do Desarmamento é, indubitavelmente, assunto de adulto.


                               
                                                               Ana Lucia Sorrentino

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Comigo mesma





















Para agradar a quem

me faria eu outra,

diferente da que sou,

se a solidão me acolhe sem ressalvas,

semeando em mim

o que de mais genuinamente meu,

apesar do mundo,

em mim restou?

                    
                                                Ana Lucia Sorrentino

sexta-feira, 1 de maio de 2015

#ForaBetoRicha!!!

           


            O governador do Paraná, Beto Richa, só causou desgosto ao Brasil essa semana. Não vou me deter aqui no que todos já sabemos: que ele não entende, em absoluto, a importância do professor na sociedade. Que não lhe caiu a ficha de que  NÃO EXISTE QUALQUER PROFISSÃO SEM QUE HAJA PROFESSORES. Que o mais simples profissional se tornou profissional por algum dia ter tido um professor. Que até ele, que é um fracasso no que faz, só chegou a ter chance de ser esse fracasso porque, algum dia, teve professores. Que, em seu caso, não tiveram sucesso, mas muito provavelmente por mérito dele e não dos que tentaram lhe ensinar qualquer coisa. Enfim: não entendeu que, dos profissionais, os professores são, possivelmente, os que mais merecem respeito.
             Muito já se falou nos últimos dias sobre esse lamentável e chocante episódio. Vou me deter aqui apenas em uma declaração desse infeliz governante, porque ela pode passar despercebida aos mais incautos, mas depõe tão intensamente contra ele e expõe tão claramente seus nefastos objetivos, que merece maior atenção.
            Defendendo não ser necessário um diploma de curso superior para o ingresso na polícia militar, em entrevista à rádio CBN Richa afirmou que "a outra questão é de insubordinação também, a pessoa com curso superior muitas vezes não aceita cumprir ordens de um oficial ou um superior com uma patente maior". Posteriormente, em outra entrevista, tentou lançar uma desculpa esfarrapada, dizendo, várias vezes, que cometeu um "ato falho".
            Realmente, cometeu um ato falho. Deixou escapar o que pensa: que quer que policiais militares sejam acríticos, não pensem por conta própria, para ter, assim, a garantia de que obedecerão sem questionar. O que me leva a crer que sua intenção é de dar ordens que não seriam acatadas por pessoas de bom senso! Ordens absurdas, como a de baixar o cacete, meter bala de borracha, spray de pimenta, jatos de água e até recorrer a helicópteros para fazer um bombardeio aéreo de talco em professores! Se todos os policiais militares tivessem bom senso teriam agido como aqueles 50 que se negaram a agredir os manifestantes e foram, por isso, exonerados. A minha conclusão pessoal só pode ser uma: a de que esse homem não pode ter poder.   
             O episódio do massacre dos professores no Paraná, que teve mais de 200 vítimas, mas que deixou feridos todos os professores do Brasil, todos os brasileiros e também a democracia, por seu caráter violentamente ditatorial e pelo imenso desrespeito à população, que elege pessoas para representá-la e não para impor-lhe seus próprios interesses à força, já ficou na história. E espero, sinceramente, que ainda tenha um desfecho positivo para todos os brasileiros, porque, se tivermos que acreditar que é possível elegermos alguém para depois sermos calados à força e combatidos como em campo de guerra, perderemos a fé, realmente, em tudo. #ForaBetoRicha!!!

                                                                                 Ana Lucia Sorrentino


domingo, 12 de abril de 2015

Visitante Noturno

         
                                                                Pro Rafael, com amor. 

Vez ou outra,
quando o pai lhe pede emprestada a cama,
ele vem,
travesseiro debaixo do braço,
sorriso estampado no rosto,
felicidade ambulante.
Se embrenha pelos meus lençóis,
busca minha mão embaixo da fronha,
pede o beijo antes do sono.
Dorme em paz.
Nenhum outro homem
jamais foi ou será tão feliz
por dormir ao meu lado.
Sinto-me plena.
Pela manhã,
saio por um momento da cama,
e volto, em seguida, gelada.
Encosto-me em seu calor,
me aqueço instantaneamente.
Procuro seu pé, que ele,
generosamente,
me oferece, gostoso e quente.
Ficamos assim,
ele dormindo, quase roncando,
pezinho encostado ao meu.
Sinto seus dedinhos gordos se movimentando
num doce carinho improvisado.
Cabeça oca,
Morfeu me dominando,
flagro um riso em meus lábios.
E antes de me entregar por inteiro ao sono,
raciocino, embriagada,
que ser feliz é tão simples,
tão fácil,
quase nada...

                                     Ana Lucia Sorrentino 
                                               


domingo, 22 de março de 2015

Pobre Mundo




















Ovulo frequentemente,
fértil, disposta a gestar.
Menstruo tautologias
que nada têm a acrescentar:
isto é isto, aquilo é aquilo.
E continuo desejando
ter, para flertar, um mundo
que não se venda por quilo.
Aconteceu algo que não sei
a esse mundo pelo qual
um dia me apaixonei.
Pobre mundo, pobre mundo...
Se deixou levar...  
Não é mais capaz de me seduzir,
muito menos de me fecundar.


                               Ana Lucia Sorrentino 

sábado, 7 de março de 2015

Querido Bauman:



É movediça a zona em que patino.
Mar aberto, sem cais pra ancorar.
Não há passado que valha
como semente de qualquer destino,
não há valor que sustente
o que já não tem como se sustentar.
O tempo ido não deixa rastro
nem há experiência duradoura
que possa nos servir de lastro.  
O hoje é pressa, instante, desatino...
Não há mais um olhar calmo,
um ouvido atento,
uma conversa que perdure
para além de um momento.
Tábua de salvação feita de fé e força,
me agarro no que me resta de sentimento
e resisto, valente, à deriva.
Mas por dentro me arrebento.

                                                          Ana Lucia Sorrentino













segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Menos, menos...












Eu quero que o produto interno
deixe de ser bruto
e que a teoria se dane,
pois há muito que a verdade está de luto
e que o mundo entrou em pane.
Eu quero que os corruptos afundem
nesse imenso mar de lama
e que chafurdem lá no inferno,
atolados em sua má fama.
Que a grande mídia se cale
num milênio de silêncio
em respeito à própria morte
e que não tenha mais voz
nem para lamentar
sua amarga e triste sorte.
Que suas crias indecentes,
papagaios do apocalipse,
como num passe de mágica
entrem em total eclipse.
Que os intervencionistas
sofram uma intervenção
e fiquem impossibilitados
de semear guerras
em alheios arados.
Que caiam os muros,
que se abram as fronteiras,
que se distribua a riqueza
e que cessem as asneiras.
Que prevaleça então
a humilde constatação
de que todo orgulho é vão.  
Porque, no crucial da vida,
estamos desgraçadamente sós
e, vaidades à parte,
nos nutre um prato de comida,
um bom banho de sol,
um sono sem peso na consciência
e  o amor, na sua mais pura inocência.


                                               Ana Lucia Sorrentino

O que a TV está fazendo com você - desenhando:



            Certa vez um amigo me contou que, quando da chegada da TV ao Brasil, ocasião em que Assis Chateaubriand - fundador da TV Tupi e autor da célebre frase "se a lei está contra mim, vamos ter que mudar a lei" - instalou vários aparelhos de TV pela cidade, para plantar na população o hábito de assisti-la, seu pai, homem de visão, profetizou que aquele aparelho "imbecilizaria as pessoas".
            Ouvi, desse mesmo amigo, pela primeira vez, uma historinha, acredito que hoje já bem conhecida, do sapo que, mergulhado em água cuja temperatura se eleva gradualmente, não percebe a mudança gradual e acaba morrendo cozido. E meu amigo me disse que, em relação a essa história, seu pai dizia que um dos piores problemas do ser humano era a "acostumação". O ser humano se acostuma com tudo e, infelizmente, o que talvez possa parecer algo positivo, muitas vezes é a sua desgraça.
            Creio que o objetivo do empenho de Chateaubriand em semear o vício da TV no Brasil nunca tenha sido outro senão, em última instância, o da obtenção de lucros. Ele pensava em fazer as pessoas se viciarem em um veículo que, por sua vez, plantaria nelas o desejo de possuir tudo o que fosse anunciado e as transformaria em consumidores vorazes. Quanto mais se consumisse o que era anunciado na TV, mais as emissoras lucrariam com a supervalorização do minuto comercial. Assim, aquele aparelhinho inocente que prometia trazer informação e entretenimento, na verdade, trazia um tipo muito específico de conteúdo, elaborado para vender produtos e semear ideologias. Lembro-me bem de, quando adolescente, ter sido alertada sobre as mensagens subliminares dos programas. Era preciso estar atento, porque, além da propaganda explícita, havia um merchandising que nos afetava enquanto assistíamos, distraídos, a uma cena romântica de novela, ou a um seriado qualquer. O jogo das mensagens subliminares era mais desonesto do que o da publicidade dos intervalos, porque atuava em nós sem que tivéssemos consciência disso. Os jovens de hoje nasceram sabendo o que é mensagem subliminar. E elas são, agora, tão ridiculamente escancaradas que de subliminares não têm mais nada. O problema é que, se antes você estava sujeito à publicidade nos intervalos comerciais, e se depois passou a estar sujeito às mensagens subliminares, agora você está sujeito à manipulação em tempo integral. Durante TODO o tempo em que você está à frente da TV, pode ter certeza de que aquilo a que você está assistindo tem um objetivo: te vender algo. Ou um produto, ou uma ideia. Ou uma ideologia que te transforme exatamente naquilo que a emissora deseja.
            Na década de 60, jornais que se afundavam em dívidas enfrentaram a crise trocando reportagens por matérias pagas. Hoje, não sabemos mais o que é jornalismo, o que é marketing. As coisas se misturaram de tal forma que, ao assistir uma novela você pode estar comprando um produto, um partido, uma ideologia. E ao assistir um telejornal você pode estar comprando uma telenovela, que te venderá outras coisas. Vivemos, assim, a totalmente despudorada mercantilização da informação. O jornalismo é um produto como qualquer outro, no Brasil de hoje. A notícia é vendida como filme de ação, suspense ou terror. O telejornal faz chamadas como as de qualquer telenovela ou filme, recortando os aspectos mais escabrosos das matérias, para chamar a atenção do ouvinte, e, então, usa estratégias de direção para provocar nele os mais inflados sentimentos. Se você assistir a todos os jornais durante o dia, à noite se perguntará se o mundo realmente ainda não acabou. Porque as más notícias são pinçadas Brasil afora para compor um cenário trágico de um país em que nada de bom se cria. E as boas são esquecidas ou delas se fala muito de passagem, para que não haja o risco de você, de repente, gostar do país em que vive ou ficar tão feliz que deixará de ser aquele ser carente que precisa buscar no consumo algum tipo de prazer. É assim que a TV planta em você um ódio irracional a tudo o que possa melhorar a vida das pessoas sem que, para isso, elas precisem consumir. É assim que tudo o que se afasta da lógica capitalista se transforma em inimigo a ser combatido ferrenhamente. É assim, por exemplo, que uma democracia social se transforma em "ditadura" e que todos os governantes de países socialistas se transformam em "líderes sanguinários".
            Movidos por extrema ganância, os donos das emissoras de TV não se importam com o que veiculam, desde que gere lucro. Não se importam minimamente com o mundo que estão criando. E inventaram a estranha teoria do "quanto pior, melhor". Inventaram que o "povo" gosta de porcaria. Que é preciso ser de baixo nível para agradar a maioria. Que a degradação do ser humano traz audiência. Mas, será mesmo? A impressão que tenho é de que a coisa se dá justamente em sentido contrário. É escolhendo a dedo o que há de pior na humanidade e reproduzindo incansavelmente que a TV se constitui em verdadeira fábrica de seres humanos degradados. A TV ensina as novas formas de golpes em detalhes. Explica o passo-a-passo. A TV noticia, descrevendo detalhadamente, crimes hediondos, cometidos por desequilibrados, coisa que sempre houve e sempre haverá, como se isso fosse a novidade da hora e como se precisássemos disso. A TV dá espaço a apresentadores que dão visibilidade ao pior tipo de cultura. Você pode ligar a TV num programa, às 9 horas da manhã, e dar de cara com uma mulher seminua dançando funk e até mesmo ver a apresentadora dançando Lepo Lepo e gesticulando grosseiramente para terminar, é claro, com a infeliz afirmação de que "o Brasil é isso". É mesmo??? Não o que eu frequento, sinceramente. A música que se divulga maciçamente na TV é o pagode, muitas vezes de letras de baixo calão. A maior parte dos programas de humor são de péssimo gosto, recheados de preconceito e conseguem atravessar longos anos no ar. O malfadado BBB, apresentado por esse homem por quem, algum dia, eu tive respeito, foi, a cada edição, recrutando gente de nível cada vez mais medíocre e cada vez mais disposta a se expor e às suas próprias misérias sem o menor pudor. A molecada assiste e se acostuma. É a terrível "acostumação" de que falava o pai do meu amigo. Depois de se acostumar, deixa de se indignar. Há pouca coisa que provoque indignação nos jovens de hoje, e isso é muuuito preocupante. Depois de deixar de se indignar, grande parte dessa juventude reproduz os estapafúrdios comportamentos que já considera normais de tanto ver. Na edição que está no ar uma garota transou sem camisinha embaixo do edredom com um "fulano" que conhecera dias antes e teve que pedir à produção uma pílula do dia seguinte. Lembro-me de ter visto, por acaso, uma cena daquele "A Fazenda" em que, em uma briga, dois participantes ficaram cara a cara cuspindo um no outro por minutos. Acho que nem o "Alien", de Ridley Scott, me causou tanto terror. Uma briga entre dois dragões de Komodo deve ser mais bonita. É assim que a educação e os hábitos da juventude vêm se degenerando em progressão geométrica.
            Enfim, acredito que você já tenha compreendido. A TV está te cozinhando aos poucos e você fica dentro da água quentinha achando até gostoso. E, quando menos percebe, está se autointitulando liberal, apesar de não ser rico, está gritando pela volta da ditadura, sem nem ao menos saber direito o que foi isso, está odiando política, sem saber sugerir qualquer outro caminho, está acreditando que precisa desesperadamente de coisas de que não precisa em absoluto, está desrespeitando seus pais, seus professores, seus companheiros... A TV te quer como sapão. Um sapão cozido. 

                                                             Ana Lucia Sorrentino

Imagem: Google