Cena
1 - Das seis pessoas à mesa, apenas eu não tenho os olhos no celular. Isso era
pra ser a comemoração de um aniversário, salvo engano. Olho ao redor, tento me
fixar na decoração suave, penso em comentar algo, resisto ao ímpeto de checar
meus e-mails só pra disfarçar, me deixo abater pelo constrangimento. Vontade de
sair correndo. Fico, pra não arrumar encrenca, coisa fácil de se fazer.
Mas tá difícil. Que bom que a comida chegou. Com esse povo, nunca mais. Belos pratos! Começa a sessão de fotos.
Cena
2 - O sono vem vindo. Hora da última checada nas mensagens. Quem eu queria que
me respondesse, não respondeu... Normal isso já. O descaso está naturalizado. Ninguém
mais se ofende com a ausência de respostas, porque tudo é sempre tanto e a
gente não dá conta... Chato jogar e-mails ao vento... Acho que vou deletar todo
mundo que não me responde... Não tem jeito, ainda fico ofendida.
Cena
3 - O mesmo cara no inbox. E eu que não consigo ser grossa. Amigo, eu ainda sou
do tempo do cafezinho pessoalmente, gosto de olhar pra pessoa, sentir o hálito,
perceber alguma sinceridade no ar. Não,
não mando fotos, me sinto uma coisa. Tenho
cam, sim, mas não uso, não gosto. Não sei por que, mas ainda tenho dó de
deletar de pronto. Mas as coisas podiam se dar de forma diferente, pelo menos
uma vez... Me canso e mando a deixa pro sumiço: venha, vamos nos conhecer,
amanhã estou livre, pode ser? Resolvido. Eles querem fantasiar, só isso.
Cena
4 - Uma lua deslumbrante enfeita o céu. Tudo limpo, uma beleza... Abraços e
beijos, uma vontade de conversar um pouco mais, mas é tarde e a vizinhança
dorme. Minha sobrinha observa que a noite fora tão gostosa que nem lembramos de
nos fotografar. É mesmo... Tava tudo tão bom! Obrigada por terem vindo, adorei!
Acompanho o carro deles virando a esquina, fotografando-os mentalmente. Registro
a cores, na minha memória afetiva, essa sensação boa de estar entre queridos,
de poder confiar, de saber que com eles posso contar. O mundo não precisa do
registro digital disso, porque isso é entre nós. Mesmo porque o mundo não se
importa...
Entro
em casa, e, recolhendo os vestígios do encontro, enveredo por um paradoxo. Realmente, estivéramos inteiros ali, dando-nos uns
aos outros. Não nos preocupamos em fotografar o momento para que outros o
vissem, porque o momento era nosso. E nós éramos nós mesmos. Me ocorre que toda
vez que uma lente se interpõe entre atores de uma cena ela os altera, alterando
de todo a relação. Esse
vício de se fotografar e compartilhar tudo o que se vive expõe um desejo
incontido de que algo, ao menos uma imagem, resista, num mundo que muda tão
rapidamente que momentos às vezes intensamente aguardados simplesmente evanescem.
Mas também expõe, e de forma flagrante, a perda da medida entre viver e mostrar que viveu. Paradoxalmente, quando a preocupação em mostrar disputa espaço com o viver, este, sem dúvida, sai
enfraquecido. Acaba-se mostrando o que se viveu, mas o que se viveu já foi
vivido para ser mostrado e, portanto, não foi vivido por inteiro. A relação já foi
substancialmente alterada. E um tanto de vida escoou pelo ralo da vaidade.
Caio
no sofá, cansada e serena. É bom demais saber que há quem nos queira bem. O
silêncio me agrada. Não tenho medo de me escutar. Eu não sou contra a
tecnologia, mas eu não gosto de posar pra fotos. Eu gosto de fotos flagradas,
porque gosto da espontaneidade, da verdade. Eu gosto de quem desliga o celular
durante o encontro, pra estar ali por inteiro. De quem responde meus e-mails
com atenção, demonstrando consideração. Eu gosto de quem tem coragem de se
fazer presente de verdade. Gosto de experimentar, não de ficar brincando de
ensaiar eternamente. Gosto de confiar,
de estar perto, gosto do que permanece dentro de mim, mesmo que mudando o tempo
todo. Eu gosto de sentir que há algum chão firme em que pisar. E quando piso
com confiança, torno-me confiável também. Se não for pra ser assim, melhor mesmo
um sofá, a solidão e um bom livro.
Ana Lucia Sorrentino
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