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sábado, 24 de outubro de 2020

Elas e eles

Elas saíram às ruas, queimaram sutiãs, questionaram a ordem estabelecida. Espernearam, protestaram, reivindicaram direitos, igualdade, emprego, salário, voto. Batalharam, enfrentaram, conquistaram. Deixaram de servir só ao lar e também de se calar à forte presença do pai de família. Assumiram as contas, a casa, o mercado de trabalho, a profissão, os filhos, os pais idosos, irmãos frágeis, pets abandonados e tudo o que o mundo lhes impõe. Mostraram que podem ser ótimas em tudo o que fazem. Dentro, fora, aqui, além, acolá. São inteligentes, espertas, multifacetadas, multitarefas, interessadas, competentes, eficientes, fortes. Trabalhadoras. Estudiosas. Bonitas. Invadiram a política e, apesar de ainda serem poucas, dão de dez a zero nos quesitos honestidade, clareza, facilidade em se comunicar. Aprenderam a gritar entre trogloditas, pra se fazer ouvir e respeitar. Ganharam votos, visibilidade, credibilidade. Eles se fizeram de tontos pra não ir pra guerra. Reativos. Cederam ao que estavam absolutamente impossibilitados de resistir. Adequaram-se ao que era muito inadequado não se adequar. Ou fugiram. Alguns corajosos descobriram o lado bom disso tudo. Passaram a viver coisas que não viviam, conheceram afetos desconhecidos, desfrutam, privilegiados, de relacionamentos inteiros. Mas são raros. Os preguiçosos procuraram novas saídas, menos trabalhosas do que mudar. A nudez escancarada, nem mais vendida, mas publicada gratuitamente em quantidade industrial, parece tê-los desanimado... A agressividade de quem precisou aprender a se defender parece tê-los desencorajado... Encontram, com facilidade, em seus iguais ou na virtualidade - esse "quase" -, alternativas à tão dificultosa tarefa de lidar pessoalmente com o que muda o tempo todo, com o que se supera, com o que questiona, com o que se pode viver intensamente, mas que demanda coragem. Ah, essa virtualidade, coisa facilitadora para os relacionamentos... Uma só tecla - delete -, um só comando - bloqueio -, e as desavenças se resolvem "civilizadamente". Elas reagem às leis do mercado. Quanto mais rara a "mercadoria", mais cara. Não basta ser bela e competente para conseguir um companheiro. Não direi nem um "bom companheiro", porque já seria querer demais. E elas acreditam que precisam disso, porque desde o berço foi o que lhes ensinaram. Nos contos-de-fadas, nas histórias de princesas, nas brincadeiras de casinha... Não bastasse isso, a que meninas modernas até resistem, a sociedade volta seu olhar torto a toda solitária, a toda celibatária, a toda mulher que não pensa em ser mãe. Há, também entre elas, as corajosas. Mas para que uma mulher se sinta livre como os homens se sentem naturalmente é preciso ter muito, muito mais coragem do que eles. Até porque todo ato de liberdade, quando praticado por uma mulher, é sumariamente julgado pela sociedade. Já belas, elas ainda se enfeitam para atingir padrões que possam atrair a atenção de um raro macho alfa. Pode-se atribuir essa obstinação à natureza, à cultura, à publicidade... Talvez seja um fator a se considerar o fato de que, enquanto para eles, cultuar Onã é prática natural desde sempre, para muitas delas, por incrível que pareça, ainda é tabu. Mas, também, por incrível que pareça, muitas ainda consideram que ter um homem a tiracolo lhes confere um status mais elevado... Assim, andam sobre plataformas e agulhas pra alcançar a altura "adequada" e a elegância "necessária". Espremem seus seios em bojos emborrachados pra que seus colos fiquem lindamente estufados e seus mamilos devidamente escondidos. (Percebi recentemente que mamilos marcados sob blusas leves podem ser considerados ofensa pessoal, não só a homens, mas a mulheres!). Maquiam-se, camuflam-se, rejeitam sobremesas, sacrificam-se, gastam com tratamentos sofisticados, perdem a expressão com preenchimentos e botox, entram na faca, negam a própria idade... São capazes de contorcionismos para agradar à plateia enfadada... No frigir dos ovos, depois de tantas batalhas vencidas, ganham menos do que eles, nas mesmas funções. Enfrentam tripla jornada e estão sempre cansadas. São culpadas de todas as agressões de que são vítimas, de todos os fracassos familiares, por todos os filhos-problema. Correm, permanentemente, o risco de serem esculhambadas ou agredidas em praça pública por machistas rejeitados, sem que um cidadão, um policial, um anjo da guarda, tome suas dores e interceda a seu favor, covardes de carteirinha, sem pudor. São traídas, humilhadas, constrangidas, esbofeteadas, espancadas, estupradas, e assassinadas quando traem ou abandonam companheiros violentos. E, às que se negam a aceitar relacionamentos desiguais, ou se aborrecem com pavonices masculinas, quase sempre resta a solidão. Será que algum dia existiu mesmo o convívio amoroso entre homens e mulheres? Será que ainda é possível o gozo compartilhado, não só na cama, mas na vida? Desejos coincidentes, planos comuns, caminhos percorridos juntos, respeito, admiração e carinho? Será que a doçura do amor se perdeu irreversivelmente nesse mundo de competição e revanchismo, ou ainda tem jeito? Será que ainda poderemos escapar de todos os estereótipos modernos, sermos gente e não coisa a ser vendida, encontrar não só sexo selvagem, mas sentir prazer de verdade por estar com alguém? Ana Lucia Sorrentino

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Carta para Cioran




         A frivolidade é o antídoto mais eficaz contra o mal de ser o que se é: graças a ela iludimos o mundo e dissimulamos a inconveniência de nossas profundidades.

             (Cioran, em Breviário de Decomposição)

Caro Cioran:



            Permita-me chamar-lhe de amigo, apesar de termos nascido em épocas e lugares distantes e de jamais termos nos encontrado, senão em pensamento. Estou lhe escrevendo porque sempre que entro em contato com seus escritos tenho vontade de comentá-los e acabo lamentando profundamente não ter seu e-mail. Não poderia esperar que tivesse um blog, onde eu pudesse deixar-lhe uma palavrinha e, na verdade, é mesmo uma sorte sua não ter um. Blogueiros sofrem muito. Se, na intenção de promover liberdade de expressão, permitem comentários, precisam estar dispostos a receber todo tipo de agressões verbais, seja lá pelo motivo que for, de gente que nem ao menos se dá ao trabalho de ler o texto inteiro antes de comentar. Estamos vivendo uma estranha época em que as pessoas se orgulham da própria falta de educação. Recentemente aconteceram por aqui coisas do arco da velha. Prefiro nem contar para que não fique mais desgostoso do que já é em relação ao ser humano, se é que isso é possível. Fico feliz por você não estar à mercê disso.

            Não havendo esse blog, pensei então em lhe escrever pelo meu. Não sei por onde você anda e, como não acredito em vida após a morte, creio que jamais me responderá. Mas isso não o faz diferente de tantos “vivos” para os quais escrevo com frequência. A tremenda facilidade que temos para nos comunicar virtualmente com gente do mundo todo a qualquer hora resultou em uma quase impossibilidade de nos relacionarmos de verdade, seja lá com quem for. Jogamos e-mails ao vento, trocamos gracinhas e fórmulas de bem-viver com todo mundo, defendemos ferrenhamente partidos políticos questionáveis, usamos imagens para sermos mais bem compreendidos e assim seguimos, solitários. Nosso tempo é engolido pelas infinitas possibilidades e muitas vezes nem conseguimos perceber a quem valeria a pena dar um pouco de atenção. Talvez nem mesmo acreditemos que alguém assim exista. Somos “líquidos”, como diria Bauman. Escapamos entre os dedos, escorregamos por baixo da porta, vez ou outra descemos ralo abaixo. Isso é meu, não de Bauman.

            Bem... escrevo então esta carta por crer que, imaginando que a lerá, pensarei sobre tudo com mais cuidado e empenho do que se estivesse conversando só comigo mesma. Costumo ser generosa e tolerante comigo e isso às vezes me produz desmandos. Um bom interlocutor é sempre um chamamento ao rigor, além de ser instigante.

            Tenho me perguntado o tempo todo para que escrevo, afinal. Certa vez ouvi de alguém que, se tivéssemos que escrever para ensinar alguma coisa ao mundo, não deveríamos escrever: deveríamos tratar o mundo a socos e pontapés. Não imagina quantas vezes me lembro disso antes de me envolver com as palavras... Acontece que há muito deixei de acreditar que possa “ensinar” algo ao mundo. Escrevo para me livrar das ideias que ficam me rondando como crianças sonolentas que se põem a rir e não me deixam tranquila se não as coloco para dormir em um berço de papel. E devo confessar que, enquanto o faço, ponho nisso tanto carinho que me liberto de todo e qualquer sofrimento que não o da angústia de combiná-las bem. Mas este é lúdico, e me distrai daqueles,  sobre os quais não tenho qualquer domínio.

            Estive vendo alguns vídeos sobre você. O que mais gosto em você, nesses vídeos, é da lucidez com que se descreve e da forma como ri de si mesmo. Talvez porque eu também ande sempre a rir de mim, mesmo nas adversidades. Mas hoje me emocionou em especial um em que sua imagem aparece mais longamente, você calado, passando as mãos nos cabelos brancos, e sua expressão de inteligência ocupando a tela inteira. Inteligência maciça acrescida da experiência de toda uma vida. Inteligência que vaza pelo olhar cansado de quem já viu muito e de quem se desiludiu também com as palavras. Uma inteligência em silêncio. Cheia de dignidade. Às perguntas do jornalista você respondia com frases econômicas  e com uma voz rouca que parecia carregar o peso da inutilidade de respondê-las. Revi o trecho algumas vezes, quis reter. Escrevendo agora sobre isso posso te ver e me emociono novamente.

            Frequentemente tenho tido vontade de te escrever. Para contar que a academia continua roubando nossas almas, e que, à medida que consigo, me protejo disso escrevendo. Roubo dela o tempo que ela me rouba e escrevo sobre o que quero. Depois, subtraída do tempo que eu mesma roubei, escrevo precariamente sobre aquilo que ela me obriga a escrever... Não tenho tido notas muito boas, mas reduzir-nos a um número é algo tão injusto que evito até pensar nisso. Sigo, para ser legitimada como profissional. E, afinal, preciso ganhar a vida de alguma forma... Na prática, você sabe... Proliferam no mundo imbecis diplomados e muita gente brilhante morre sem diploma algum... Produtores de futilidades se “dão bem”, enquanto pessoas seriamente dedicadas muitas vezes passam a vida em dificuldade. Contingência pura.

            Também penso sempre em te escrever para te contar que sei muito bem a que se refere quando diz que os grandes enfermos não se enfastiam porque a doença os preenche, pois conheço isso muito de perto. E, por isso, como você, decidi jamais dar muita importância a meus pequenos sofrimentos... Também vivo querendo te contar que sempre que olho para as luzes da noite sinto um ímpeto de me embrenhar por elas, e lembro com inveja de suas noites insones caminhando pelas ruas de Sibiu... amo a noite. A tudo isso resisti. Conversava com você mentalmente, e me satisfazia. Mas hoje quis escrever.

            Quero te contar que um fenômeno atual registra em textos e fotos uma dessas suas percepções de precisão cirúrgica. Se estivesse entre nós, provavelmente você se surpreenderia ao ver, em murais virtuais, a materialização do que captou e descreveu tão bem observando o comportamento humano. O início do século XXI trouxe uma enorme intensificação do movimento nas redes sociais e por volta de 2004 deu-se um "boom" que mudou nossas vidas. Ao longo dos últimos anos, Cioran, o fenômeno da autoexposição nessas redes só cresceu e atinge, hoje, um nível que eu diria de verdadeira provocação. A inclusão digital misturou, no mundo virtual, classes sociais que, no mundo real, não se misturavam. As classes desfavorecidas passaram a circular virtualmente por mundos cujo acesso, antes, no mundo real, lhes era negado.      Por outro lado, a juventude das classes mais abastadas, que foi criada a pão de ló, desfrutou de privilégios desde sempre e nunca teve que batalhar pela liberdade, que lhe foi “dada” por uma geração de pais inseguros e permissivos, parece não fazer ideia do que significa a palavra “compaixão”. Também desconhece os malefícios que sentimentos como a inveja e a cobiça, inerentes ao ser humano, podem causar. Sentimentos que nossos avós, sabiamente prudentes, nos ensinavam a evitar, evitando a exposição exagerada da própria sorte.

            Ocorre, nas redes sociais, exatamente o contrário do que nossos avós aconselhavam: o escancaramento da vida privada, uma autoexposição exagerada, um fenômeno a que a filósofa Márcia Tiburi se refere como sendo a substituição do cogito cartesiano “penso, logo existo” pela crença “sou visto, logo existo”.

            Essa frivolidade tornou-se um vício nas redes sociais. A geração que posta tudo o que faz e toda a “felicidade” que vive, parece encontrar mais felicidade em postar do que em viver. Os perfis criam ilusões que só sabem ser ilusões aqueles que conhecem pessoalmente seus donos. As palavras trocadas em murais entre familiares e amigos quase sempre são de efusivo amor e carinho. Uma verdadeira banalização do afeto. A vida da maior parte dos internautas se assemelha em muito a uma grande balada lotada de gente bonita e de acontecimentos excitantes. As pessoas postam lindos pratos da alta gastronomia, viagens fantásticas, férias incríveis... Quase ninguém posta o que não contribua para a construção de uma imagem de ser humano agraciado pelos deuses.

            Nesse mundo de realidades virtuais não basta que a vida não seja justa. Não basta que, enquanto alguns mal têm o que comer, outros, sem mérito algum, se regalem com tudo que há do bom e do melhor. É preciso expor isso sem a menor compaixão, sem a menor empatia pelos que têm muito pouco, que hoje não sofrem apenas por não ter, mas também por ter mais consciência do quanto não têm, uma vez que presenciam diariamente a fartura e o gozo alheios. Assim, um mundo que, na realidade, já é desigual e cruel, transforma-se, virtualmente, em uma verdadeira brutalidade. Se já é complicado lidar com as diferenças sociais reais, quão mais complicado é lidar com diferenças criadas em redes virtuais?     Creio que uma simples passeada pelo Facebook provoque em um jovem que não ganha nada de mão beijada e que enfrenta as condições mais adversas na vida, o mesmo insight que você teve ao escrever em seu Breviário que “a injustiça governa o universo”. Acontece que o mundo das redes sociais, ao privilegiar o lado belo da vida, também é, de certa forma, ficção. Então, como se isso já não bastasse para criar rivalidade entre diferentes classes, veio somar-se a isso o fato de que, nessas redes, as pessoas estão dizendo tudo o que pensam sobre tudo, sem a menor reflexão. O fato de não estar cara a cara com seu interlocutor e de poder bloqueá-lo ou deletá-lo e até mesmo de poder deletar os próprios comentários produz uma leviandade corrosiva. E, infelizmente, está vindo à tona tanto preconceito, tanta arrogância, tanto desrespeito pelo outro, que é de dar vontade de chorar. E não é paradoxal estarmos vivendo isso em uma época de acirrada militância do politicamente correto. Parece-me que os mais sórdidos sentimentos humanos, existentes apesar do nosso desejo em contrário, quando patrulhados, fermentam.

            Assim, Cioran, nas redes sociais, a imensa vontade de expor o próprio “sucesso” caminha lado a lado com a exposição da própria miséria interna. Miséria que, talvez, em um movimento circular, venha crescendo justamente por conta dessa ânsia de viver para o outro e dessa enorme incapacidade de olhar para dentro de si mesmo. Olhar pra dentro de si, como bem sabe, é desconfortável, porque, por dentro, muitas vezes, não há essa beleza que as academias, os cosméticos e as clínicas de cirurgia conseguem produzir para o mundo ver. Essa "galvanização" que Benjamin já vislumbrava em "Experiência e Pobreza", que não transforma ninguém por dentro... E nada muda internamente mesmo com um apartamento de luxo, o carro do ano ou o celular de última geração. A maior parte de nós segue, assim, caro Cioran, como você sabiamente detectou: dissimulando a inconveniência de suas profundidades. De mal a pior.

            Não pedirei que me responda, pois não quero incomodá-lo aí onde está, ou onde não está, mais do que já incomodei com meu desabafo. E, muito provavelmente, não terá palavras para me consolar. Mas agradeço de coração por ter deixado registros tão honestos sobre tudo o que é humano. Lendo-os sinto-me menos só. 

                                                                                                  Com carinho,                                                                                                                                Ana Lucia Sorrentino
                                   Novembro/2015                            

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O conceito de "amor líquido" em Bauman

Esta obra é uma investigação sobre o conceito de "amor líquido" usado por Zygmunt Bauman, especificamente em Amor Líquido - Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, publicado pela primeira vez em 2003, na Inglaterra. Usando linguagem acessível, a autora facilita ao leitor comum a compreensão do sofisticado conceito criado pelo sociólogo polonês de vasta produção intelectual e cuja leitura se faz imprescindível para quem quer que deseje entender a modernidade e o homem moderno. De grande ajuda para estudantes universitários, "O conceito de 'Amor Líquido' em Bauman" vai além da obra em questão, esclarecendo pontos-chave do pensamento de Zygmunt Bauman. Para comprar ou para ler um excerto gratuitamente é só acessar o link: O conceito de "amor líquido" em Bauman Boa leitura! :)

   

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Para que NÃO serve um professor de filosofia? - 1

    

 

           














                                            Conversássemos aqui sobre o papel do professor de filosofia, certamente este texto se prolongaria indefinidamente. Idealmente todo professor deveria pensar constantemente sobre isso, pois se essa postura reflexiva é fundamental no exercício de qualquer profissão, que dizer no magistério? Por mais que desejemos acertar sempre, certamente erraremos muitas vezes, porque lecionar é experiência, aprendizagem contínua, e errar faz parte do processo. Mas, se pudermos, antes de entrar de cabeça nessa aventura de infinitas possibilidades, eliminarmos em nós comportamentos às vezes herdados de nossos professores - até por admirá-los muito -, e que podem ser considerados erros graves, acredito que estaremos começando com alguma vantagem. É essa a contribuição que pretendo dar aqui. Apontar posturas relativamente frequentes que, ao menos a meu ver, não deveriam ser adotadas por quem pretende se dizer professor.  

              Por ser recém-formada, é na posição de aluna, com experiências ainda frescas em mim, que relato aqui algumas situações que minha turma viveu que, sinceramente, me provocaram uma enorme tristeza, pelo tanto que as percebi deletérias para os alunos em geral. Creio que ao me reportar a situações reais possa fazer com que você que está me lendo chegue junto comigo à resposta da minha pergunta inicial.

             Vamos lá.

            Primeira semana de aula. Estávamos todos um pouco assustados, porque, apesar de muitos de nós já terem passeado por textos filosóficos, passeios não são mergulhos profundos e não tínhamos o ouvido treinado para aulas com tantos termos novos, tantas questões instigantes, tantas novidades, enfim. Não conhecíamos os professores e havia uma dificuldade real na compreensão de algumas aulas expositivas, e uma natural timidez para nos aventurarmos a perguntar. Um dos nossos professores nos perguntou por que estávamos ali. Por que resolvêramos cursar filosofia. Respondi, tímida, mas prontamente, que, de minha parte, era porque eu desejava aprender a filosofar. Recebi de volta um sorriso um tanto quanto zombeteiro que se compadecia da minha ingenuidade e me dizia claramente que minha pretensão estava acima do desejável para uma simples mortal. Naquele momento ele se esforçou por nos fazer entender que faríamos um curso de história da filosofia, e que isso já estava de bom tamanho. Creio que não só eu, mas a grande maioria da sala, saiu dali, naquela noite, um tanto quanto desvitalizada.
            
            Algum tempo depois um outro professor colocou-se precocemente à disposição para atender alunos que tivessem interesse em fazer iniciação científica. Animada, já com algo em mente, fui consultá-lo. Ele me perguntou se eu já tivera tempo de me apaixonar por algum filósofo e eu, realmente, não tivera. Mas eu tinha um objeto de estudo. Uma questão da atualidade que me intrigava. Ele me elucidou, então, que as coisas não funcionavam assim na universidade. As minhas questões sobre o mundo não interessariam a ninguém. Para escrever algo sobre filosofia eu precisava estudar um autor já consagrado e escrever sobre o que outros autores diziam sobre ele. Eu teria o papel de uma compiladora de teses alheias. E nenhum orientador aceitaria uma pesquisa que já não tivesse uma bibliografia a ser consultada. Ou seja: o valor do ineditismo era nulo. Gostaria de não criticar o professor nesse caso, pois ele estava em um sistema que só lhe permitia isso. Mas ele era, sem dúvida, peça importante na manutenção de tal sistema restritivo. E peça bem azeitada... Guardei meu embrião de tese em algum lugar de mim que nem sei e fui pra casa, mais uma vez, decepcionada.
            
          Seguiram-se outros inúmeros episódios similares que não vou contar aqui para não me estender demais. A princípio, quis me iludir imaginando que nos tratavam dessa forma por sermos iniciantes. Mas, enquanto estudava o que os filósofos consagrados pensaram, me iludia, imaginando que, em algum momento, teríamos chance de ensaiar algo realmente filosófico. Até que entendi que a intenção do curso não era essa. Havia um esforço coletivo para que nos convencêssemos de que não seríamos capazes disso.
           
        No último ano, inconformada, minha equipe abraçou uma ideia para um seminário de didática específica. Fizemos uma apresentação sobre um texto de Gonzalo Armijos Palácios, um filósofo equatoriano da atualidade: De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio. Nosso seminário abordou exatamente a questão da impossibilidade do aluno de filosofia filosofar. Expusemos as ideias de Palácios, manifestamos nossa própria insatisfação e reivindicamos nosso direito de pensar. Nosso professor interpretou o que fizemos como "desejo de reconhecimento prematuro". Não... Nossa apresentação manifestava nosso desejo de ter espaço para produzir filosofia, ainda que rudimentar, e nos treinarmos para, talvez, em algum momento, produzir filosofia "de verdade", se é que se pode dizer assim. Mas ele estava tão domesticado pelo sistema que sua subserviência não permitiu que compreendesse nossa mensagem.
           
            Mais surpreendente ainda foi quando, ao sairmos da sala, conversei com um colega de classe que me disse discordar de nós porque "se quiséssemos criticar a universidade, que o fizéssemos fora dela"! O curso realmente conseguira convencê-lo de que nosso papel deveria ser sempre o de vira-latas. Se bem que amo vira-latas... :(
            
             Para finalizar, quero dizer que nossa turma começou com mais de 80 alunos e no último ano éramos 20. Os que se formaram junto comigo foram oito, se não me engano. E desses oito, apenas duas mulheres. Certamente algum professor argumentará que isso ocorreu porque "filosofia é para poucos", em uma perpetuação dessa ideia elitista de que é preciso ser genial para filosofar. Filosofia não é fácil. É preciso ter obstinação e muito amor. Mas, sinceramente, não sei em que grau essa evasão se deve mais à constatação pessoal de cada um de sua própria incapacidade ou mais a esse esforço permanente para nos fazerem crer que não podemos. O que sei é que um professor de filosofia não deveria jamais servir a essa triste causa, de convencer um aluno de que ele não é capaz. Aliás, professor algum deveria se prestar a isso.
            
PS - Enquanto isso, os que tiverem fôlego e conseguirem se submeter totalmente às regras, produzirão mestrados e doutorados e pós-doutorados mesclando com certa habilidade pensamentos alheios e replicando matérias para engordar o Lattes. Li, recentemente, que é impressionante a produção de lixo acadêmico da atualidade. Mas quem se submete tem mais chance de ser contratado. Interessante, não?  

                                                                                     Ana Lucia Sorrentino
                                                                                          27/07/2015



 
               

 

 

domingo, 15 de abril de 2012

Resenha: HUME, DAVID. O Cético.



Resenha:
HUME, DAVID. O Cético.
In: Ensaios Morais, Políticos e Literários. Topbooks, 2004.

Hume  inicia O Cético criticando a estreiteza de horizontes do filósofo dogmático. Denomina de enfermidade dos filósofos a tentativa de explicar a vida e a grandiosidade da natureza através de princípios excessivamente limitados, reduzindo tudo a seu próprio ponto-de-vista. E propõe que suspeitemos constantemente de suas reflexões sobre a vida humana e seus métodos para conquistar a felicidade.
Em sua análise sobre a ingenuidade do dogmático em pretender elaborar uma cartilha que leve à felicidade, Hume nos mostra que isso seria tão inviável quanto elaborar uma receita de bolo que usasse sempre os mesmo ingredientes, agradáveis ao paladar do cozinheiro, sempre nas mesmas quantidades, pretendendo agradar a todos sem considerar as particularidades dos gostos individuais.  
            Para ele, as pessoas são diferentes, a experiência de cada um é única, cada momento é diferente do anterior e do que está por vir e a vida é mudança constante. E a mudança, a diversidade e a mistura do que é agradável para um e outro podem contribuir para tornar mais agradável a vida de cada um, dentro de suas particularidades.
Hume se pergunta se a felicidade é uma aventura.  E se o caminho para se chegar a ela seria seguir as próprias tendências e temperamento ou usar a razão para fazer as escolhas mais seguras.
A busca da felicidade deveria se dar da mesma forma para todos os homens? Ou cada um deve ser responsável por descobrir seu próprio caminho? Há perguntas que, respondidas objetivamente, podem indicar esse caminho? E ele, por fim, levaria para onde? Àquilo que, por paixão, cada homem considerasse ser a felicidade. Afinal, o olhar do apaixonado é que faz o objeto da paixão apaixonante.
Embora sua forma de escrever evidencie que se leva muito à sério, Hume, como bom cético, tenta minimizar a importância de sua opinião, pedindo ao leitor que não tenha por ela demasiada consideração. E avisa que aquele que imaginar ser possível encontrar na filosofia uma resposta mágica para a questão da felicidade, com certeza, se frustrará.
Então, aponta como princípio filosófico indubitável aquele que diz que nada é isto ou aquilo em si mesmo, pois os atributos das coisas sempre dependerão da visão humana, tanto no que se refere aos sentidos corpóreos quanto às coisas do espírito. Em todas as instâncias, segundo Hume, são sempre as paixões do espírito que censuram ou aprovam e atribuem valor aos objetos. Nosso argumento a favor de algo sempre tem como fundamento principal nosso gosto próprio, de acordo com as peculiaridades do nosso espírito.
Estando o homem em constantes mudanças internas, sua opinião sobre os objetos externos pode mudar constantemente sem que isso tenha o poder de afetá-los em si mesmo.   
Para Hume, o pensamento racional consegue diferenciar a verdade da falsidade usando um padrão real possivelmente existente na própria natureza das coisas, sem que particularidades do espírito interfiram de maneira significativa nisso.
No entanto, quando se trata de qualificar algo, o espírito experimenta sentimentos próprios que interferirão de forma crucial nessa qualificação. Como consequência, o objeto qualificado como belo por alguém poderá perfeitamente ser qualificado como feio por outro alguém.
Embora a reflexão racional leve ao entendimento de certas coisas, é apenas através da sensibilidade que o homem percebe a beleza de um objeto, não por ser ele belo em si, mas porque o próprio homem tem em si a paixão e o desejo por ele. É na satisfação ou na frustração desses desejos e dessas paixões que o homem experimenta a felicidade ou a miséria.
Nesse ponto, Hume cai na frequente e fatal contradição dos que combatem o dogmatismo: dogmaticamente elabora sua própria receita do bolo da felicidade. Nela, determinará os ingredientes que agradarão a todos os paladares, e os que devem ficar de fora. Fará um contraposição muito clara entre paixões que podem e não podem levar à felicidade. Preferirá o trabalho e a ação ao prazer. Defenderá a bondade, a alegria, a jovialidade e a esperança e estabelecerá como perfeita liga para tudo isso a moderação.  Por fim, sugerirá que o ingrediente mais saboroso desse bolo deveria ser a paixão pelo saber, por nos aproximar mais dos prazeres virtuosos do que dos prazeres materiais e por depender mais de nós mesmos do que de outros.
Felizmente, antes de oferecer o bolo aos convidados, Hume retorna ao início de suas reflexões, se curvando ao fato de que talvez nem todos possam saboreá-lo prazerosamente, e volta a considerar as diferenças individuais, as tendências naturais e as inclinações que nem sempre levarão o homem a ter na filosofia a cura para seus males.  Lembra que nem todos conseguirão se corrigir, mesmo tendo consciência do valor da virtude e mesmo se esforçando para isso. Considera a forte importância da personalidade e dos gostos e sentimentos e admite haver aqueles cuja tendência perversa jamais se curvará a argumentos em favor da virtude. Sua filosofia, bem como qualquer filosofia – conclui – infelizmente, não conseguirá tornar a humanidade inteira virtuosa.
Hume encontra algum consolo para essa triste constatação na crença de que ao menos os homens que já sejam razoavelmente virtuosos possam, deliberadamente, através de estudo e aplicação, adquirir hábitos virtuosos, afastando-se de suas tendências negativas, reformando, dentro do que for possível, o próprio espírito. Está aí o principal triunfo da arte e da filosofia. No entanto, a autoridade da filosofia terminará onde a natureza se impuser com mais vigor. Ou, indo pela vontade, em sentido contrário à sua própria natureza, o homem cairia na indiferença.
Mas, assumir a miserabilidade humana sem fazer nada contra ela seria, para Hume, tornar-se miserável para sempre.
Hume relembra, então, duas considerações filosóficas importantes.
Quando refletimos sobre a brevidade e incerteza da vida, e sobre as constantes mudanças que ela nos apresenta, a busca pela felicidade nos parece desprezível. No entanto, embora nossas paixões se mortifiquem por isso, nossa natureza nos diz que a vida humana tem alguma importância. Quando privados da fé nessa importância, tendemos a dar mais valor aos prazeres momentâneos.
O homem tem por hábito comparar-se constantemente aos outros e, infelizmente, tende a se comparar sempre a seus superiores, o que o faz sentir-se sempre em situação de desvantagem. O filósofo é capaz de escolher por olhar para o outro lado e perceber em si alguma vantagem, encontrando aí algum sinal de felicidade. No entanto, sendo de caráter superior, esse consolo trará consigo a tristeza pelo infortúnio alheio e a compaixão pelos outros. Eis aí uma consolação filosófica imperfeita.
Hume conclui defendendo a virtude como a melhor escolha, mas admitindo as dificuldades que o homem encontra para alcançá-la e curvando-se ao fato de que tanto o homem virtuoso quanto o vicioso, em seus mais diferentes graus de virtude ou de vício, não terão a garantia da felicidade.
E virtudes que deveriam, em princípio, levar o homem à felicidade, muitas vezes o levam ao caminho contrário.
Portanto, a conclusão final é de que a vida humana é mais governada pelo acaso do que pela razão e de que não devemos levá-la muito à sério, nem nos ocuparmos demais tentando estabelecer princípios de ordem geral. Enquanto pensamos demais sobre a vida, deixamos de vivê-la e a morte nos atingirá, a todos, da mesma forma.  
O que fica, ao final da leitura de O Cético, de Hume, parece ser: 
Vivamos! É o que de melhor podemos fazer por nós mesmos.    


                                                    Ana Lucia Sorrentino
                                                                                                                                                                 16/04/2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Carta a Meneceu - Epicuro - Tradução de Desidério Murcho



          Epicuro a Meneceu, saudações.

          Que nenhum jovem adie o estudo da filosofia, e que nenhum velho se canse dela; pois nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para cuidar do bem-estar da alma. O homem que diz que o tempo para este estudo ainda não chegou ou já passou é como o homem que diz que é demasiado cedo ou demasiado tarde para a felicidade. Logo, tanto o jovem como o velho devem estudar filosofia, o primeiro para que à medida que envelhece possa mesmo assim manter a felicidade da juventude nas suas memórias agradáveis do passado, o último para que apesar de ser velho possa ao mesmo tempo ser jovem em virtude da sua intrepidez perante o
futuro. Temos portanto de estudar o meio de assegurar a felicidade, visto que se a tivermos, temos tudo, mas se não a tivermos, fazemos tudo para a obter.
          Pratica e estuda sem cessar aquilo que estava sempre a ensinar-te, tendo a certeza de que estes são os primeiros princípios da vida boa. Depois de aceitar deus como o ser imortal e bem-aventurado descrito pela opinião popular, nada mais lhe atribuas que seja estranho à sua imortalidade ou à sua bem-aventurança, mas antes acredita acerca dele seja o que for que possa sustentar a sua imortalidade bem-aventurada. Os deuses existem realmente, pois a nossa percepção deles é clara; mas não são como a multidão os imagina, pois a maior parte dos homens não retém a imagem dos deuses que primeiro recebem. Não é o homem que destrói os deuses da crença popular que é ímpio, mas antes quem descreve os deuses nos termos aceites pela multidão. Pois as opiniões da multidão sobre os deuses não são percepções mas antes falsas suposições. De acordo com estas superstições populares, os deuses enviam grandes males aos perversos, e grandes bem-aventuranças aos íntegros, pois, sendo sempre favoráveis às suas próprias virtudes, aprovam quem é como eles, encarando como estranho tudo o que é diferente.
          Habitua-te à crença de que a morte não nos diz respeito, dado que todo o mal e todo o bem assentam na sensação e a sensação acaba com a morte. Logo, a crença verdadeira de que a morte nada é para nós faz uma vida mortal feliz, não ao acrescentar-lhe um tempo infinito, mas ao eliminar o desejo de imortalidade.Pois não há razão para que o homem que tem plena certeza de que nada há a recear na morte encontre algo que recear na vida. Assim, também é tolo quem diz que receia a morte não por ser dolorosa quando chegar mas por ser dolorosa a sua antecipação; pois o que não é um peso quando está presente é doloroso sem razão quando é antecipado. A morte, o mais temido dos males, não nos diz consequentemente respeito; pois enquanto existimos a morte não está presente, e quando a morte está presente nós já não existimos. Nada é portanto nem para os vivos nem para os mortos visto que não está presente nos vivos, e os mortos já não são.
          Mas os homens em geral por vezes fogem da morte como o maior dos males, por vezes almejam-na como um alívio para os males da vida. O homem sábio nem renuncia à vida nem receia o seu fim; pois a vida não o ofende, nem supõe que não viver é de algum modo um mal. Tal como não escolhe a comida da qual há maior quantidade mas a que é mais agradável, também não procura a satisfação da vida mais longa mas sim a da mais feliz.
          Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem é tolo não apenas porque a vida é desejável, mas também porque a arte de viver bem e a arte de morrer bem são uma só. Contudo, muito pior é quem diz que é bom não ter nascido mas, uma vez nascido, que o melhor é passar depressa pelos portões do Hades. Se um homem diz isto e realmente acredita nisto, por que razão não se retira da vida? Certamente que os meios estão à mão se for realmente essa a sua convicção. Se o diz a zombar, é visto como um tolo entre quem não aceita o seu ensinamento.
          Lembra-te que o futuro nem é nosso nem é completamente não nosso, de modo que nem podemos contar que virá de certeza nem podemos abandonar a esperança nele com a certeza de que não virá.
         Tens de considerar que alguns desejos são naturais, outros vãos, e dos que são naturais alguns são necessários e outros apenas naturais. Dos desejos naturais, alguns são necessários para a felicidade, alguns para o bem-estar do corpo, alguns para a própria vida. O homem que tem um conhecimento perfeito disto saberá como fazer toda a sua escolha ou rejeição tender para ganhar saúde do corpo e paz de espírito, dado que este é o fim último da vida bem-aventurada. Pois para alcançar este fim, nomeadamente a libertação da dor e do medo, fazemos tudo. Quando se atinge esta condição, toda a tempestade da alma sossega, dado que a criatura nada mais precisa fazer para procurar algo que lhe falte, nem de procurar qualquer outra coisa para completar o bem-estar da alma e do corpo. Pois só sentimos a falta de prazer quando sentimos dor com a sua ausência; mas quando não sentimos dor já não precisamos de prazer. Por esta razão, dizemos que o prazer é o princípio e o
fim da vida bem-aventurada. Reconhecemos o prazer como o bem primeiro e natural; partindo do prazer, aceitamos ou rejeitamos; e regressamos a isto ao ajuizar toda a coisa boa, usando este sentimento de prazer como o nosso guia.
          Precisamente porque o prazer é o bem principal e natural, não escolhemos todo o prazer, mas por vezes abstemo-nos de prazeres se estes forem cancelados pelas privações que se seguem; e consideramos muitas dores melhores do que prazeres quando um maior prazer virá até nós depois de termos sofrido dores demoradas.                             
         Todo o prazer é um bem, dado ter uma natureza congênere da nossa; contudo, nem todo o prazer deve ser escolhido. De igual modo, toda a dor é um mal, contudo nem toda a dor é de natureza a ser evitada em todas as ocasiões. Pesando e olhando para as vantagens e desvantagens, é apropriado decidir todas estas coisas; pois em certas circunstâncias tratamos o bem como mal e, igualmente, o mal como bem.
         Encaramos a autossuficiência como um grande bem, não para que possamos desfrutar apenas de poucas coisas, mas para que, se não tivermos muitas, nos possamos satisfazer com as poucas, estando firmemente persuadidos de que quem retira o maior prazer do luxo é quem o encara como menos preciso, e que tudo o que é natural se obtém facilmente, ao passo que os prazeres vãos são difíceis de obter. Na verdade, temperos simples dão um prazer igual ao dos banquetes pródigos quando a dor devida à necessidade for removida; e pão e água dão o máximo prazer quando uma pessoa necessitada os consome. Estar acostumado à vida simples e
básica conduz à saúde e faz um homem ficar pronto a enfrentar as tarefas necessárias da vida. Prepara-nos também melhor para usufruir o luxo se por vezes tivermos a sorte de o encontrar, e faz-nos intrépidos face à fortuna.
          Quando dizemos que o prazer é o fim, não queremos dizer o prazer do extravagante ou o que depende da satisfação física — como pensam algumas pessoas que não compreendem os nossos ensinamentos, discordam deles ou os interpretam malevolamente — mas por prazer queremos dizer o estado em que o corpo se libertou
da dor e a mente da ansiedade. Nem beber e dançar continuamente, nem o amor sexual, nem a fruição de peixe ou seja o que for que a mesa luxuosa oferece gera a vida agradável; ao invés, esta é produzida pela razão que é sóbria, que examina o motivo de toda a escolha e rejeição, e que afasta todas aquelas opiniões através das
quais a mente fica dominada pelo maior tumulto.
          De tudo isto o bem inicial e principal é a prudência. Por esta razão, a prudência é mais preciosa do que a própria filosofia. Todas as outras virtudes nascem dela. Ensina-nos que não é possível viver agradavelmente sem ao mesmo tempo viver prudentemente, nobremente e justamente, nem viver prudentemente, nobremente e
justamente sem viver agradavelmente; pois as virtudes cresceram em união íntima com a vida agradável, e a vida agradável não pode ser separada das virtudes.
          Quem pensas então que é superior ao homem prudente, que tem opiniões reverentes sobre os deuses, que não tem qualquer medo da morte, que descobriu qual é o maior bem da vida e que compreende que o mais alto bem é fácil de alcançar e manter e que o extremo do mal tem limites no tempo ou no sofrimento, e que se ri do que algumas pessoas inventaram como a regente de todas as coisas, a Necessidade? Ele pensa que o poder de decisão principal nos cabe a nós, apesar de algumas coisas surgirem por necessidade, algumas por acaso e algumas pelas nossas próprias vontades; pois ele vê que a necessidade é irresponsável e o acaso incerto, mas que as nossas ações não estão sujeitas a qualquer poder. É por esta razão que as nossas ações merecem louvor ou censura. Seria melhor aceitar o mito sobre os deuses do que ser um escravo do determinismo dos físicos; pois o mito sugere uma esperança de graça através das honras concedidas aos deuses, mas a necessidade do determinismo é inescapável. Visto que o homem prudente não encara, como muitos, o acaso como um deus (pois os deuses nada fazem de maneira desordenada) ou como uma causa instável de todas as coisas, acredita que o acaso não dá ao homem o bem e o mal para fazer a sua vida feliz ou miserável, mas que fornece oportunidades para grandes bens ou males. Finalmente, ele pensa que é melhor encontrar o infortúnio quando se age com razão do que calhar a ter boa fortuna ao agir insensatamente; pois é melhor não ocorrer o que foi bem planejado nas nossas ações do que ser bem-sucedido por acaso o que foi mal planejado.
          Medita nestes preceitos e noutros como estes, de dia e de noite, sozinho ou com um amigo da mesma opinião.
          Então nunca terás receio, de dia ou de noite; mas viverás como um deus entre os homens; pois a vida no seio de bem-aventuranças imortais não é de modo algum como a vida de um mero mortal.

Epicuro
Tradução de Desidério Murcho

domingo, 13 de novembro de 2011

Estudo sobre: NIETZSCHE, FRIEDRICH. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral


Estudo sobre:
NIETZSCHE, FRIEDRICH. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral  (Aforismo 1).
In: Obras Incompletas. São Paulo, Abril Cultural, Col. “Os Pensadores”, 1978. 

Introdução
Debruçando-se sobre  Sobre Verdade e Mentira No Sentido Extra-Moral qualquer leitor, por mais desatento que seja, perceberá, de imediato, o porquê de Nietzsche ser conhecido como o filósofo que construiu sua filosofia à marteladas.   
Sobre Verdade e Mentira se compõe de uma sucessão de marteladas certeiras sobre a ordem estabelecida de sua época. Crítico impiedoso da moral vigente, em pleno pessimismo romântico, ao mesmo tempo em que coloca em dúvida a validade da linguagem como expressão adequada de todas as realidades e zomba da pretensão humana de fazer com que o mundo caiba em metáforas, é através da linguagem e das metáforas, abundantes em seu texto, e que usa com maestria, que exprime sua indignação. A linguagem é, sem dúvida, o martelo de Nietzsche.
Ao longo da leitura, deparando-se com enorme quantidade de alegorias e citações que acabam por emprestar ao texto um caráter enigmático, e cujo significado não parece importar a Nietzsche deixar muito claro para o leitor, este pode, em alguns momentos, sentir ímpetos de investigar a fundo a origem de cada imagem, tão instigantes que todas elas são.
É assim que se dá quando lemos “para fugir tão rapidamente quanto o filho de Lessing” e nos sentimos tentados a investigar toda a vida de Lessing para descobrir qual o motivo de seu filho ter sido obrigado a fugir rapidamente. Ou quando lemos: “repousa o homem, na indiferença de seu não-saber e como que pendente em sonhos sobre o dorso de um tigre” e nos atrevemos a elucubrar sobre a possibilidade do tigre representar os perigos aos quais o homem fica à mercê por ser ignorante, mas acabamos por nos curvar à nossa própria ignorância, imaginando ser a imagem do tigre proveniente de alguma obra literária lida por Nietzsche, uma vez que sabemos de sua imensa erudição. E quando ele cita as figuras sonoras de Chladni,  ou árvores que podem falar como ninfas, ou um deus que, disfarçado de touro, sequestra donzelas,  e tantas outras citações que provocam nossa curiosidade.
Embora com olhar extremamente crítico e analisando as ilusões humanas com ácida seriedade, Nietzsche não se furta a ser engraçado, como quando usa a expressão Cucolândia das Nuvens  ao final de um longo raciocínio em que conclui que o conhecimento não se constrói sobre a essência das coisas.
Em alguns momentos, durante a leitura, sentimos a forte presença do filólogo, como quando Nietzsche se estende em análises pormenorizadas sobre a criação e o uso das palavras e sobre a precariedade dos conceitos. Em outros, prevalece o filósofo, que escarnece da natureza mentirosa de sua espécie. Seja lá em que momento for, acima do filólogo ou do filósofo, está o homem Nietzsche, cuja característica mais marcante parece ser a coragem. Coragem de enxergar e de falar sobre o que vê, sem receio da crítica, sem uso de eufemismos, de forma incisiva e até trágica.  

Principais ideias do texto
Nietzsche inicia Sobre Verdade e Mentira imaginando uma fábula criada por alguém que estivesse em algum ponto longínquo situado fora da Terra, observando- a  e aos homens, com distanciamento suficiente para perceber com clareza a pequenez do ser humano diante da imensidão do universo.
Mais de cem anos antes, em Micromégas, Voltaire conceberia um extraterrestre com inteligência superior visitando a Terra e percebendo os absurdos humanos. Quase cinquenta anos depois, em Metamorfose, Kafka escreveria sobre um homem repentinamente transformado em inseto, vendo a própria família através do olhar de um inseto.
É de se imaginar que ao longo de toda a história da Filosofia pensadores fizeram e farão esse mesmo exercício: tentar escapar da perspectiva limitada de homem e do relativismo ao qual, afinal de contas, estamos fadados, para enxergar mais nitidamente o ser humano.  
É esse o mote que Nietzsche usa – um observador longínquo - para começar a falar sobre a insignificância cosmológica e cronológica da humanidade. Para ele, não há criação, o Universo sempre existiu e sempre existirá e o homem está aqui em caráter passageiro, sem qualquer missão mais importante que a de sua própria sobrevivência.  Vaidoso, o homem – em especial o filósofo - supervaloriza o conhecimento e ignora a superioridade da natureza sobre a inteligência humana, chegando à extrema ingenuidade de se acreditar centro do universo.
Para Nietzsche, o intelecto do homem, o mais delicado e perecível dos seres, o engana sobre seu próprio valor, uma vez que nada mais é do que um instrumento que o ajuda a manter-se vivo,  assim como chifres ou presas aguçadas garantem a sobrevivência dos animais. Se Pascal (1623-1662) se referira ao homem como um caniço pensante, o ser mais fraco da natureza, mas cuja dignidade residia no pensamento, Nietzsche iguala os homens aos animais e parece fazer pouco caso desse pensamento, atribuindo-lhe um caráter enganador que, pela dissimulação, conserva o indivíduo.  Seguindo essa linha de raciocínio, Nietzsche conclui que o homem, tendo na mentira sua garantia de sobrevivência, haverá de tornar-se mestre nisso. Regido pela vaidade, o homem vive mergulhado no sonho e na ilusão, à margem da verdade, e nenhum sentimento moral  o impede de enganar e deixar-se enganar o tempo todo. É ignorante e ignorante quanto à própria ignorância. 
Questionando se em algum momento o homem seria capaz de perceber-se completamente, como se estivesse em uma vitrina iluminada, Nietzsche afirma que o homem não sabe nada sobre si mesmo e seu orgulho o faz negar até sua natureza fisiológica, mantendo-o tão alheio à condição humana e tão imerso na ilusão, que vive à mercê dos perigos da vida.
Por precisar viver socialmente, até para manter-se vivo, o homem firma um tratado de paz baseado em leis criadas por ele mesmo, em que se estabelece o que é verdade e onde a linguagem terá papel fundamental nomeando as coisas e determinando uma uniformidade válida para todos, e ainda pretendendo que a vida caiba dentro dessa representação. Conclui-se daí que tudo é criação do homem e que este quer viver na ilusão.
Afinal - questiona Nietzsche – é a linguagem a expressão adequada de todas as realidades? E ele mesmo responde, afirmando ser impossível à linguagem captar as coisas em si. Ela serviria apenas pra designar as relações das coisas com os homens e isso se daria através do uso de metáforas. Atribuímos um nome a algo e, num movimento circular, determinamos que doravante esse algo será o nome que lhe atribuímos e passamos a crer nisso como verdade. A linguagem simplifica tudo, desprezando a riqueza das diferenças individuais. A desconsideração do individual nos dá o conceito, que não consegue abarcar totalmente o real.
A verdade seria, assim, figuras de linguagem que pelo longo uso e aceitação geral se solidificam, mas que não conseguem pintar um quadro da realidade que não seja pálido. Ao esquematizar o mundo, o homem o empobrece, pois o grande espetáculo da vida não cabe nas palavras.
E onde está, aqui, o impulso à verdade? – continua questionando Nietzsche.
A sociedade estabelece que dizer a verdade é mentir segundo as leis que ela mesma cria. O homem aceita as regras do jogo e ao se perceber aceito pela sociedade crê estar com a verdade. Sente-se honrado e digno de confiança e passa a desprezar as próprias impressões e intuições. É aí que o homem se diferencia do animal. E é através desse processo que cria um mundo que dita regras, que funciona baseando-se em hierarquias em que alguns menos afortunados subordinam-se a privilegiados, em que limites são impostos de forma rígida e em que o homem “honesto” é aquele que aceita sem questionamentos as regras do jogo.
Nesse ponto, há um retorno à questão do relativismo. Uma vez que o homem só consegue assimilar algo das coisas através de seu próprio entendimento, ele tem, em sua visão limitada, a ilusão de que as coisas são somente o que ele consegue captar delas. Tenta expressar isso em palavras e impõe as palavras como verdades, como se fossem as coisas em si. O homem diminui o mundo e a vida para que o mundo e a vida caibam dentro do pequeno quarto do seu entendimento. Seu desejo de verdade se dá em um sentido restrito. O homem quer e aceita as verdades que lhe sejam agradáveis. Ele fica feliz quando falsas verdades lhe fazem feliz. É aqui que percebemos claramente o envolvimento de Nietzsche com as ideias de Schopenhauer1. Porque  ele conclui que essa propensão do homem a deixar-se enganar encontra na arte a escapatória para  um mundo regular e rígido esquematizado a partir de uma realidade nada regular ou rígida. 
1) Filósofo alemão do século XIX (1788-1860), Arthur Schopenhauer  via a arte como um dos caminhos para o homem escapar da vontade e da dor que ela acarreta. A arte representaria um paliativo para o sofrimento humano.  Schopenhauer influenciou fortemente vários pensadores, entre os quais está Nietzsche.
Novamente a metáfora, agora manifesta no mito e na arte, entrará na vida do homem como uma possibilidade de aproximá-lo da felicidade.
Por fim, Nietzsche contrapõe o homem racional ao homem intuitivo, não defendendo, a princípio, um extremo ou outro, mas considerando o desejo de ambos de ter domínio sobre a vida. É então que demonstra toda a sua admiração pelo mundo antigo grego, citando a Grécia antiga como um exemplo de civilização em que o homem intuitivo e a arte se impõem, resultando em algo favorável à felicidade.
            Quanto ao homem racional, governado por conceitos, Nietzsche  sugere que, perante a infelicidade, só lhe resta mesmo o disfarce, no qual já é mestre.

            Últimas Considerações
            Ao terminar de ler Sobre Verdade e Mentira, é inevitável comparar Nietzsche a outros filósofos. E começamos a entender o porquê da enorme importância de sua filosofia no mundo todo.
            Platão olhou para cima e convenceu-se – e a outros – da existência de um mundo ideal, onde a virtude negaria nossa natureza material.  Descartes negou-se a ir à festa, fechou-se num quarto, se persuadiu de que tudo poderia ser uma grande  mentira e quis descrever a festa da vida sem estar nela. Nietzsche, longe de olhar para o céu ou de  negar a matéria, parece ter ido à festa e ter olhado bem dentro dos olhos de cada convidado, radiografando a alma humana. Detectou aí uma moral negligente, cujas intenções caminham muito longe de qualquer rota que possa levar à verdade.
            Husserl e Merleau-Ponty, depois de Nietzsche, com a fenomenologia, combateram, como ele, a ideia do homem ser o umbigo do universo e a pretensão de se ter uma visão de Deus. Também como ele,  sugeriram que olhássemos a nós mesmos com certo distanciamento, para que pudéssemos nos enxergar de forma mais realista. Perceberam que a vida se dá na relação e sempre dentro do mundo. Romperam com o pensamento clássico e entenderam o valor fundamental da arte para a vida humana.  
            Muito provavelmente, hoje, nesse exato  momento, há no mundo um sem número de filósofos lendo Nietzsche e se impressionando fortemente com suas ideias e com sua coragem. Criando sua própria filosofia, tendo-o como referência e inspiração.               
E, parece-me, é exatamente assim que deve ser.   

Ana Lucia Sorrentino