Cada homem que não amo,
cada conto que não escrevo,
cada desejo que engulo em seco,
encurtam meu caminho
a um final desatento.
Amargo o que não posso,
ou mesmo podendo não faço,
porque me fica a vontade.
Eu, pessoa incompleta e perdida,
não querendo machucar ninguém,
machucando minha própria vida.
Eu, dando adeusinhos ao tempo,
me equivoco inteira.
Não queria que meu final
fossem poucas recordações
e muito arrependimento.
Ana Lucia Sorrentino, em Alento
quarta-feira, 24 de junho de 2009
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Abrindo meu Diário II - “Inter-atividade” (2007)
Olá pessoal! Lá vai mais um pedacinho das reflexões de Desromance:
Ainda de manhã, as cebolas mais ardidas que nunca, a pressa pro almoço sair na hora, hora que, a bem da verdade, não foi ela que determinou, e na Globo News duas garotas falam sobre seus livros, suas vidas, seus métodos, seus estudos... É pós graduação, mestrado na Alemanha, viagens, coisa e tal... Os olhos lacrimejam, já não enxerga mais nada, mas sabe quem é essa do lado direito... As pessoas aparecem assim, de repente, e de repente estão na primeira página do Caderno Dois. Uma pitada de sal na panela, uma pitada de inveja no corpo inteiro. Mas não é boba, no fundo sabe que ninguém aparece assim tão de repente. Por trás dessas coisas tem sempre um esquema de planejamento, “o que eu quero pra minha vida”, estudo, especialização... isso tudo não “sai” espontaneamente como o que faz, tão da alma...
Agora as pessoas escrevem sobre o ânus e fazem o maior sucesso...Parece que o povo gosta de sofrer. Como se já não bastasse a realidade... Será que devia ter planejado tudo, desde o começo? Será que se tivesse escrito sobre a merda, e não sobre o amor, já teria virado best seller? Foi deixando acontecer, amava e escrevia sobre o que mais fazia, que era amar, ou não amar, e de repente no “Happy Hour” a Astrid mostra que agora as mulheres estão planejando tanto, e priorizam tanto a vida profissional, que às vezes chegam aos trinta e poucos anos e nada aconteceu em sua vida pessoal e aí ficam aflitas porque ainda não constituíram família, ainda não têm filhos, e já quase não dá mais tempo. Então pensam em fazer produção independente, porque logo vem a menopausa e depois da Xuxa tudo é válido... Nunca planejou nada... Deixou rolar. Novinha de tudo se apaixonou perdidamente. Amou. Confiou plenamente. Se entregou de corpo e alma. Encostava o rosto ao peito do marido e se acreditava totalmente segura... O mundo podia acabar... Que saudade... Veio um filho, veio outro... Amava aquilo tudo. Amamentava, ficava abobalhada, era a pessoa mais feliz do mundo... O segundo foi mais avassalador, talvez porque já tivesse perdido o medo, e aprendera a desobedecer as regras impostas por manuais ou pediatras...Deixava dormir na cama dela, deixava mamar à qualquer hora, a maternidade trazia à tona seu instinto totalmente selvagem... Um lado seu que só lhe trouxe alegria... Então, entre uma fralda e outra, entre um ir e vir da escola do maior, entre um carinho e uma briga com o marido, saía uma poesia, um conto, um desabafo...Às vezes quebra o pau com os filhos, e diz que se arrepende de ter ficado em casa cuidando deles, mas é só da boca pra fora. Na hora em que vê as imagens de uma babá batendo num bebê, no SPTV, dá graças a Deus... As mulheres agora não ficam sem trabalhar fora, mas colocam câmeras de vídeo pra filmar qualquer possível atrocidade que as babás façam com seus filhos. Depois, quando a coisa já aconteceu, despedem ou prendem a babá. Fica pensando se guardam o filme para a posteridade. Quando pensa nessas mulheres que conseguem administrar tão bem a vida, que conseguem coordenar bem trabalho dentro e trabalho fora, e cuidar de crianças, o que mais enxerga é que por trás de toda mulher bem sucedida assim há alguma outra que faz o trabalho em seu lugar. Por prazer, ou por necessidade, são as avós que acabam criando os filhos das filhas. Ou as empregadas. Sua mãe nunca pensou em assumir nenhuma responsabilidade da filha... Ficou assim, emoção pura e fora do mercado de trabalho. Pensando bem, nunca foi tão feliz quanto naquele período em que se sabia absolutamente necessária dentro de casa, então não sofria a angústia da dúvida e da auto-cobrança. Não se torturava...
Mas...quando percebe que não tem poder de escolha, que não tem liberdade, que às vezes é obrigada a aceitar coisas que não quer... que seu grito, muitas vezes, chega aos ouvidos de quem deveria escutá-la como um ínfimo sussurro engasgado, se revolta. Em seguida, olha pros filhos e esquece tudo. Ainda tem tempo... Está viva, e a idade não vai prejudicá-la. Para o que ama fazer, quanto mais idade, mais conhecimento, mais sabedoria, mais paciência...
A mesa posta, os pratos quase todos lascados... Anda muito estabanada. Sempre fazendo uma coisa pensando na outra... Como queria ter uma empregada pra poder fazer o que realmente tem vontade!... Não lascaria tanto a louça pra correr pro computador... Se não fosse tão treinada, faria primeiro o que gosta, se dedicaria à sua arte, deixaria o serviço de casa pra mais tarde... Não sabe bem como, porque se na hora do almoço e do jantar não tiver comida na mesa, fica todo mundo com cara de retirante nordestino...
Não deu pra estudar... pelo menos não o tanto que precisava... Mas, será que precisava mesmo, estudar tanto assim, pra exercer algo que acredita que tenha nascido com ela, e que a acompanha sem trégua, e que a faz tão feliz ao fazer? Algo que, se não faz, incomoda, e fica borbulhando na sua cabeça, e quando sai, sai legal, sem rebuscamento, mas cheio de vida?
Liga pro filho, que está trabalhando desde as oito da manhã. Avisa que o almoço está pronto e ele vem voando, senta à mesa tenso, desesperado de fome, parece que nem vai conversar... Dez minutos depois, está rindo, relaxado. Trocaram um monte de idéias... Isso deve lhe fazer bem, dá um descanso pra que a tarde renda melhor... Vai embora que nem cachorro magro, sempre esquece do seu beijo, mas ela fica feliz por vê-lo assim, tão ativo, e realizado com o próprio trabalho. Então o mais novo coa café (às vezes), e ela lhe pede pra inventar alguma sobremesa, e assistem um pedaço da novela juntos, e dão um monte de risadas, porque novela é sempre uma palhaçada, seja drama ou comédia... E descobriram que a grande graça é assistir junto, porque assim ficam falando as maiores barbaridades, que superam as que estão assistindo... se divertem. Está tentando convencê-lo a escrever um roteiro com ela, palhaçada pura, mas ele acha que não é capaz... bobo... Ama tanto esses moleques...
Louça lavada, mais um prato lascado, agora é tirar a roupa do varal. Outro dia viu a Bruna numa revista de celebridades e ficou pensando se ela faz essas coisas. Tem sempre a impressão de que gente tão bonita e tão bem sucedida não faz coisas simples assim. Acabou escrevendo um conto: “Carta pra Bruna”. Falando das facilidades que achava que a vida deu pra ela... E da beleza dela, e se ela tinha idéia de que só por causa daquela beleza toda a vida deve ter sido muitíssimo mais fácil pra ela. Piração mesmo, porque nunca ia mandar a carta, mas talvez alguém publicasse... Leu, num desses pocket books, que certa vez o Mário Quintana foi num programa de rádio, e a Bruna também foi, e pagaram cachê pra Bruna e pro Mário não... Foram fofocar pra ele e ele ainda comentou que era normal, porque ele não tinha as pernas dela! O mundo às vezes lhe parece muito injusto...O Mário era tão lindo! Incrível esse paradoxo: acredita que todo mundo se apaixona pela Bruna, por causa da beleza dela, mas se apaixona pelo Mário Quintana e pelo Drummond, os dois com mais de oitenta anos e falecidos! Só de olhar pras fotos deles, com todas as suas rugas e seus olhares ímpares, lhe dá uma explosão de amor! Nunca lia poesia, só escrevia, intuitivamente. Nunca teve muita paciência pra ler poesia, mesmo que tivesse tentado muito pouco. Aí, um dia, entrou no Memória Viva e ouviu Drummond lendo suas poesias. Dali foi pro Releituras e começou a ler as do Mário Quintana. Aí olhava pras fotos deles e seu coração ardia dentro do peito. Foi paixão pura! Leu uma crônica do Drummond, de um dia em que ele estava meio sem assunto, e escreveu que não ia ter crônica e começou a fazer elucubrações a respeito dessa coisa de escrever, e que os outros viviam enquanto ele escrevia sobre a vida. Sentiu em vários textos dele essa vontade de estar mais na vida, mais perto das pessoas, menos em posição de observador. Acabou de ler a crônica e queria poder abraçá-lo, beijá-lo, chorou até. Porque ele escreveu tudo o que ela sempre sentira, e com uma simplicidade e com uma modéstia... Essas são as pessoas realmente incríveis! – pensou. Isso lhe deu a convicção de que tem que ser o que é, não adianta ficar tentando parecer ser mais... Além disso, há muito já percebera que o barato de escrever é quando as pessoas que lêem se identificam tanto que se emocionam, porque percebem que a vida de todo mundo, no fundo no fundo, é igual. E que as pessoas vivem seus problemas, achando que a sua vida é pequenininha, mas quando lêem um grande autor que fala das mesmas coisas, isso é um enorme consolo... Quando leu A Idade da Razão foi assim. E No Caminho de Swann também. Ficou com muita vontade de falar das coisas corriqueiras, do dia a dia.
Por tanto tempo desejara ir no Jô, divulgar seus trabalhos, mas se perguntava como é que se sairia, porque tinha medo de demonstrar sua enorme ignorância. Agora, mais velha, parece que esse problema deixou de existir, porque demonstraria sua ignorância sem a menor vergonha na cara! E se ele lhe perguntasse qual o seu “método” para escrever diria que não tem método nem disciplina, e que, aliás, isso está acabando com ela, porque escreve quando está inspirada, e isso normalmente acontece de madrugada, aí vai até quatro da manhã e está ficando com umas olheiras crônicas, uma cara de boêmia mesmo. Mas – sorri tristemente - essa história de ir no Jô até já perdeu a graça... Vai tanta gente boba lá... O Quintana foi esnobado na academia e fez um versinho sobre isso – eles passarão, eu passarinho! Ela também passarinha pro Jô!
Sai correndo, o elevador a ignora. Quer emperrar sua vida. Desce a mil pelas escadas. Vai ao banco, à farmácia, ao mercado... segunda é sempre essa correria. O trânsito, em seu bairro, está um inferno. De uma esquina à outra vai um tempão. Também, não sabe o que faz, que não se muda pra um lugar mais calmo... A sobrinha, do interior, paga um décimo do que ela paga pra faxineira. Respira ar mais puro, conversa com todo mundo... Come bem... Por que será que é tão difícil mudar de atitude? O caixa do banco é novato, está perdido. Não tivesse que pagar uma conta vencendo desistiria. O sistema do computador da farmácia cai bem na sua vez. Queria poder sair correndo com as coisas na mão, mas se controla. Não deixariam, de qualquer forma... Há tanta coisa que queria fazer, mas que não deixam... Parece que o mundo sempre tem infinitas mães pra lhe controlar... Mães de olhos enormes, dentro dos quartos, e dos banheiros... Investigando o tempo que fica embaixo do chuveiro, se a TV está ligada sem ninguém pra assistir, se a música está alta demais, se as luzes da casa estão todas acesas, se acordou tarde, se comeu muitos doces... Argh!
Um milhão de coisas pra guardar... E não sobrou nada do almoço. Lá vai cozinhar de novo... Liga a TV, como faz sempre. É uma estratégia: finge que está assistindo TV, e que faz a comida pra se distrair. É muito melhor do que pensar que está fazendo a comida e se distraindo com a TV. Agora é a hora do Gaspa. Já virou seu amigo, só falta piscar pra ela. E diz, como diz tudo o que quer ouvir! Essa história das mães seria um prato cheio pra ele! Com certeza a xingaria de demônio! Porque sabe que essas mães todas estão dentro dela, e ela não consegue exorcizá-las. Não consegue ou não quer? – pode imaginar-se lá, no programa, levando um carão dele em rede nacional.
As costas estão doendo, passou muito tempo em pé, dormiu muito pouco essa noite. Apronta algo simples pro jantar, cada um vem numa hora. O último é o mais novo, que estuda até as onze. Até limpar tudo já passa da meia-noite. Vai fazendo e vendo as novelas. Se lembra o tempo todo de uma piadinha do Frank e Ernest, que leu outro dia. Está como o Frank, “praticando humildade”. As novelas a insultam e humilham, xingando-a de idiota, e ela não faz nada. Continua assistindo. É um treino e tanto... Dez e cinqüenta. Hora de sair de novo. O filho já sai já já, e se ela não chega logo ele fica muito sozinho, o pessoal vai embora rápido, a porta da escola fica vazia. Queria poder confiar, e deixar que ele viesse à pé, mas nessas idas e vindas, tão perto de casa, ele já foi assaltado duas vezes. Sempre que o avista, ao longe, dá graças a Deus. Por mais que queira praticar O Segredo, a possibilidade de acontecer algo com os filhos quando estão na rua é sempre muito presente na mente das mães. Mentes imperfeitas, que se acostumaram a acreditar no mal. Mas é tão difícil acreditar em outra coisa, quando a campanha pró desgraça que a mídia faz é tão maciça... Há uma verdadeira indústria da tristeza e da insegurança! Haja fé...
As crianças, tão homens, já sossegaram. O marido ronca. Com gestos pequeninos ela acende o abajur. Liga o notebook, acessa a conta bancária, verifica seu e-mail. “Você tem 0 mensagens”. Que vida boba... Pensa em Drummond, falando de sua infância difícil. Do medo sempre presente, dos adultos rígidos, do excesso de respeito... Disse ter vomitado tudo isso em suas poesias. Também quer vomitar. Abre o word, um novo arquivo, e pensa no que vai vomitar agora. O ronco do marido ecoa em seu cérebro cansado. Se digitar algo talvez ele acorde, com o barulho das teclas... Precisa trabalhar amanhã. Nunca entendeu porquê pessoas que casam têm que dormir juntas... Suspira. Está cansada demais. Já está quase caindo em cima do teclado. Desliga tudo. Põe o notebook de lado, mal dá tempo de se virar. Fica pra amanhã. Já está sonhando.
Beeeijos!!!
Analú :)
Ainda de manhã, as cebolas mais ardidas que nunca, a pressa pro almoço sair na hora, hora que, a bem da verdade, não foi ela que determinou, e na Globo News duas garotas falam sobre seus livros, suas vidas, seus métodos, seus estudos... É pós graduação, mestrado na Alemanha, viagens, coisa e tal... Os olhos lacrimejam, já não enxerga mais nada, mas sabe quem é essa do lado direito... As pessoas aparecem assim, de repente, e de repente estão na primeira página do Caderno Dois. Uma pitada de sal na panela, uma pitada de inveja no corpo inteiro. Mas não é boba, no fundo sabe que ninguém aparece assim tão de repente. Por trás dessas coisas tem sempre um esquema de planejamento, “o que eu quero pra minha vida”, estudo, especialização... isso tudo não “sai” espontaneamente como o que faz, tão da alma...
Agora as pessoas escrevem sobre o ânus e fazem o maior sucesso...Parece que o povo gosta de sofrer. Como se já não bastasse a realidade... Será que devia ter planejado tudo, desde o começo? Será que se tivesse escrito sobre a merda, e não sobre o amor, já teria virado best seller? Foi deixando acontecer, amava e escrevia sobre o que mais fazia, que era amar, ou não amar, e de repente no “Happy Hour” a Astrid mostra que agora as mulheres estão planejando tanto, e priorizam tanto a vida profissional, que às vezes chegam aos trinta e poucos anos e nada aconteceu em sua vida pessoal e aí ficam aflitas porque ainda não constituíram família, ainda não têm filhos, e já quase não dá mais tempo. Então pensam em fazer produção independente, porque logo vem a menopausa e depois da Xuxa tudo é válido... Nunca planejou nada... Deixou rolar. Novinha de tudo se apaixonou perdidamente. Amou. Confiou plenamente. Se entregou de corpo e alma. Encostava o rosto ao peito do marido e se acreditava totalmente segura... O mundo podia acabar... Que saudade... Veio um filho, veio outro... Amava aquilo tudo. Amamentava, ficava abobalhada, era a pessoa mais feliz do mundo... O segundo foi mais avassalador, talvez porque já tivesse perdido o medo, e aprendera a desobedecer as regras impostas por manuais ou pediatras...Deixava dormir na cama dela, deixava mamar à qualquer hora, a maternidade trazia à tona seu instinto totalmente selvagem... Um lado seu que só lhe trouxe alegria... Então, entre uma fralda e outra, entre um ir e vir da escola do maior, entre um carinho e uma briga com o marido, saía uma poesia, um conto, um desabafo...Às vezes quebra o pau com os filhos, e diz que se arrepende de ter ficado em casa cuidando deles, mas é só da boca pra fora. Na hora em que vê as imagens de uma babá batendo num bebê, no SPTV, dá graças a Deus... As mulheres agora não ficam sem trabalhar fora, mas colocam câmeras de vídeo pra filmar qualquer possível atrocidade que as babás façam com seus filhos. Depois, quando a coisa já aconteceu, despedem ou prendem a babá. Fica pensando se guardam o filme para a posteridade. Quando pensa nessas mulheres que conseguem administrar tão bem a vida, que conseguem coordenar bem trabalho dentro e trabalho fora, e cuidar de crianças, o que mais enxerga é que por trás de toda mulher bem sucedida assim há alguma outra que faz o trabalho em seu lugar. Por prazer, ou por necessidade, são as avós que acabam criando os filhos das filhas. Ou as empregadas. Sua mãe nunca pensou em assumir nenhuma responsabilidade da filha... Ficou assim, emoção pura e fora do mercado de trabalho. Pensando bem, nunca foi tão feliz quanto naquele período em que se sabia absolutamente necessária dentro de casa, então não sofria a angústia da dúvida e da auto-cobrança. Não se torturava...
Mas...quando percebe que não tem poder de escolha, que não tem liberdade, que às vezes é obrigada a aceitar coisas que não quer... que seu grito, muitas vezes, chega aos ouvidos de quem deveria escutá-la como um ínfimo sussurro engasgado, se revolta. Em seguida, olha pros filhos e esquece tudo. Ainda tem tempo... Está viva, e a idade não vai prejudicá-la. Para o que ama fazer, quanto mais idade, mais conhecimento, mais sabedoria, mais paciência...
A mesa posta, os pratos quase todos lascados... Anda muito estabanada. Sempre fazendo uma coisa pensando na outra... Como queria ter uma empregada pra poder fazer o que realmente tem vontade!... Não lascaria tanto a louça pra correr pro computador... Se não fosse tão treinada, faria primeiro o que gosta, se dedicaria à sua arte, deixaria o serviço de casa pra mais tarde... Não sabe bem como, porque se na hora do almoço e do jantar não tiver comida na mesa, fica todo mundo com cara de retirante nordestino...
Não deu pra estudar... pelo menos não o tanto que precisava... Mas, será que precisava mesmo, estudar tanto assim, pra exercer algo que acredita que tenha nascido com ela, e que a acompanha sem trégua, e que a faz tão feliz ao fazer? Algo que, se não faz, incomoda, e fica borbulhando na sua cabeça, e quando sai, sai legal, sem rebuscamento, mas cheio de vida?
Liga pro filho, que está trabalhando desde as oito da manhã. Avisa que o almoço está pronto e ele vem voando, senta à mesa tenso, desesperado de fome, parece que nem vai conversar... Dez minutos depois, está rindo, relaxado. Trocaram um monte de idéias... Isso deve lhe fazer bem, dá um descanso pra que a tarde renda melhor... Vai embora que nem cachorro magro, sempre esquece do seu beijo, mas ela fica feliz por vê-lo assim, tão ativo, e realizado com o próprio trabalho. Então o mais novo coa café (às vezes), e ela lhe pede pra inventar alguma sobremesa, e assistem um pedaço da novela juntos, e dão um monte de risadas, porque novela é sempre uma palhaçada, seja drama ou comédia... E descobriram que a grande graça é assistir junto, porque assim ficam falando as maiores barbaridades, que superam as que estão assistindo... se divertem. Está tentando convencê-lo a escrever um roteiro com ela, palhaçada pura, mas ele acha que não é capaz... bobo... Ama tanto esses moleques...
Louça lavada, mais um prato lascado, agora é tirar a roupa do varal. Outro dia viu a Bruna numa revista de celebridades e ficou pensando se ela faz essas coisas. Tem sempre a impressão de que gente tão bonita e tão bem sucedida não faz coisas simples assim. Acabou escrevendo um conto: “Carta pra Bruna”. Falando das facilidades que achava que a vida deu pra ela... E da beleza dela, e se ela tinha idéia de que só por causa daquela beleza toda a vida deve ter sido muitíssimo mais fácil pra ela. Piração mesmo, porque nunca ia mandar a carta, mas talvez alguém publicasse... Leu, num desses pocket books, que certa vez o Mário Quintana foi num programa de rádio, e a Bruna também foi, e pagaram cachê pra Bruna e pro Mário não... Foram fofocar pra ele e ele ainda comentou que era normal, porque ele não tinha as pernas dela! O mundo às vezes lhe parece muito injusto...O Mário era tão lindo! Incrível esse paradoxo: acredita que todo mundo se apaixona pela Bruna, por causa da beleza dela, mas se apaixona pelo Mário Quintana e pelo Drummond, os dois com mais de oitenta anos e falecidos! Só de olhar pras fotos deles, com todas as suas rugas e seus olhares ímpares, lhe dá uma explosão de amor! Nunca lia poesia, só escrevia, intuitivamente. Nunca teve muita paciência pra ler poesia, mesmo que tivesse tentado muito pouco. Aí, um dia, entrou no Memória Viva e ouviu Drummond lendo suas poesias. Dali foi pro Releituras e começou a ler as do Mário Quintana. Aí olhava pras fotos deles e seu coração ardia dentro do peito. Foi paixão pura! Leu uma crônica do Drummond, de um dia em que ele estava meio sem assunto, e escreveu que não ia ter crônica e começou a fazer elucubrações a respeito dessa coisa de escrever, e que os outros viviam enquanto ele escrevia sobre a vida. Sentiu em vários textos dele essa vontade de estar mais na vida, mais perto das pessoas, menos em posição de observador. Acabou de ler a crônica e queria poder abraçá-lo, beijá-lo, chorou até. Porque ele escreveu tudo o que ela sempre sentira, e com uma simplicidade e com uma modéstia... Essas são as pessoas realmente incríveis! – pensou. Isso lhe deu a convicção de que tem que ser o que é, não adianta ficar tentando parecer ser mais... Além disso, há muito já percebera que o barato de escrever é quando as pessoas que lêem se identificam tanto que se emocionam, porque percebem que a vida de todo mundo, no fundo no fundo, é igual. E que as pessoas vivem seus problemas, achando que a sua vida é pequenininha, mas quando lêem um grande autor que fala das mesmas coisas, isso é um enorme consolo... Quando leu A Idade da Razão foi assim. E No Caminho de Swann também. Ficou com muita vontade de falar das coisas corriqueiras, do dia a dia.
Por tanto tempo desejara ir no Jô, divulgar seus trabalhos, mas se perguntava como é que se sairia, porque tinha medo de demonstrar sua enorme ignorância. Agora, mais velha, parece que esse problema deixou de existir, porque demonstraria sua ignorância sem a menor vergonha na cara! E se ele lhe perguntasse qual o seu “método” para escrever diria que não tem método nem disciplina, e que, aliás, isso está acabando com ela, porque escreve quando está inspirada, e isso normalmente acontece de madrugada, aí vai até quatro da manhã e está ficando com umas olheiras crônicas, uma cara de boêmia mesmo. Mas – sorri tristemente - essa história de ir no Jô até já perdeu a graça... Vai tanta gente boba lá... O Quintana foi esnobado na academia e fez um versinho sobre isso – eles passarão, eu passarinho! Ela também passarinha pro Jô!
Sai correndo, o elevador a ignora. Quer emperrar sua vida. Desce a mil pelas escadas. Vai ao banco, à farmácia, ao mercado... segunda é sempre essa correria. O trânsito, em seu bairro, está um inferno. De uma esquina à outra vai um tempão. Também, não sabe o que faz, que não se muda pra um lugar mais calmo... A sobrinha, do interior, paga um décimo do que ela paga pra faxineira. Respira ar mais puro, conversa com todo mundo... Come bem... Por que será que é tão difícil mudar de atitude? O caixa do banco é novato, está perdido. Não tivesse que pagar uma conta vencendo desistiria. O sistema do computador da farmácia cai bem na sua vez. Queria poder sair correndo com as coisas na mão, mas se controla. Não deixariam, de qualquer forma... Há tanta coisa que queria fazer, mas que não deixam... Parece que o mundo sempre tem infinitas mães pra lhe controlar... Mães de olhos enormes, dentro dos quartos, e dos banheiros... Investigando o tempo que fica embaixo do chuveiro, se a TV está ligada sem ninguém pra assistir, se a música está alta demais, se as luzes da casa estão todas acesas, se acordou tarde, se comeu muitos doces... Argh!
Um milhão de coisas pra guardar... E não sobrou nada do almoço. Lá vai cozinhar de novo... Liga a TV, como faz sempre. É uma estratégia: finge que está assistindo TV, e que faz a comida pra se distrair. É muito melhor do que pensar que está fazendo a comida e se distraindo com a TV. Agora é a hora do Gaspa. Já virou seu amigo, só falta piscar pra ela. E diz, como diz tudo o que quer ouvir! Essa história das mães seria um prato cheio pra ele! Com certeza a xingaria de demônio! Porque sabe que essas mães todas estão dentro dela, e ela não consegue exorcizá-las. Não consegue ou não quer? – pode imaginar-se lá, no programa, levando um carão dele em rede nacional.
As costas estão doendo, passou muito tempo em pé, dormiu muito pouco essa noite. Apronta algo simples pro jantar, cada um vem numa hora. O último é o mais novo, que estuda até as onze. Até limpar tudo já passa da meia-noite. Vai fazendo e vendo as novelas. Se lembra o tempo todo de uma piadinha do Frank e Ernest, que leu outro dia. Está como o Frank, “praticando humildade”. As novelas a insultam e humilham, xingando-a de idiota, e ela não faz nada. Continua assistindo. É um treino e tanto... Dez e cinqüenta. Hora de sair de novo. O filho já sai já já, e se ela não chega logo ele fica muito sozinho, o pessoal vai embora rápido, a porta da escola fica vazia. Queria poder confiar, e deixar que ele viesse à pé, mas nessas idas e vindas, tão perto de casa, ele já foi assaltado duas vezes. Sempre que o avista, ao longe, dá graças a Deus. Por mais que queira praticar O Segredo, a possibilidade de acontecer algo com os filhos quando estão na rua é sempre muito presente na mente das mães. Mentes imperfeitas, que se acostumaram a acreditar no mal. Mas é tão difícil acreditar em outra coisa, quando a campanha pró desgraça que a mídia faz é tão maciça... Há uma verdadeira indústria da tristeza e da insegurança! Haja fé...
As crianças, tão homens, já sossegaram. O marido ronca. Com gestos pequeninos ela acende o abajur. Liga o notebook, acessa a conta bancária, verifica seu e-mail. “Você tem 0 mensagens”. Que vida boba... Pensa em Drummond, falando de sua infância difícil. Do medo sempre presente, dos adultos rígidos, do excesso de respeito... Disse ter vomitado tudo isso em suas poesias. Também quer vomitar. Abre o word, um novo arquivo, e pensa no que vai vomitar agora. O ronco do marido ecoa em seu cérebro cansado. Se digitar algo talvez ele acorde, com o barulho das teclas... Precisa trabalhar amanhã. Nunca entendeu porquê pessoas que casam têm que dormir juntas... Suspira. Está cansada demais. Já está quase caindo em cima do teclado. Desliga tudo. Põe o notebook de lado, mal dá tempo de se virar. Fica pra amanhã. Já está sonhando.
Beeeijos!!!
Analú :)
terça-feira, 16 de junho de 2009
Abrindo meu Diário I - reflexões para o livro Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser! ;)
Olá! :)
Hoje abri uma pasta em meu notebook que há muito não abria. É uma pasta que contém textos que escrevi numa fase em que me trabalhava mais intensamente para me reencontrar comigo mesma. Achei os textos tão interessantes, por serem altamente espontâneos e por terem um conteúdo totalmente voltado ao entendimento de mim mesma e do mundo que me rodeava, que senti vontade de publicá-los aqui, no meu blog, para que sirvam de inspiração para mulheres que queiram se trabalhar. É incrível como sentar-se, pensar um pouco, e escrever sobre nossos pensamentos e sentimentos de forma razoavelmente bem organizada nos ajuda a crescer! :)
Acho que cresci, e bastante, nessa fase! Tanto que me dou ao luxo de estar aqui, tentando ajudar outras pessoas a crescerem... rsrs...
Por isso vou publicar, esporadicamente, esses textos altamente intimistas, considerando-os realmente parte desse workshop de reencontro com nossas almas. Espero que vocês entendam que nem sempre essas idéias são exatamente as que tenho hoje, mas acho super válido expor esse processo de auto-conhecimento através da escrita.
Desromance (2007)
Impressões impressionadas e às vezes impressionantes de uma mulher que nunca consegue se adaptar a normas e convenções e que não se satisfaz com o que parece satisfazer todo mundo.
I - Comprei este caderno há séculos, com a séria intenção de usá-lo para escrever um novo livro. Guardei-o na gaveta do meu criado-mudo, que já estava quase aprendendo a falar pra me lembrar de minha tão bem intencionada intenção.
Mas, antes disso, Quiroga foi mais esperto. Eu, que quase nunca lia meu horóscopo, agora me viciei. Mais do que em meu próprio horóscopo, nas sábias palavras de Quiroga. Aquela primeira frase, em que ele dá a posição dos astros no céu, pouco me importa. O que me fascina mesmo são suas otimistas previsões de um mundo melhor. Quando ele diz “breve” não posso imaginar o que isso signifique, mas o que importa realmente é que “breve” é um tempo que virá. Isso já me consola. “Breve as ilusões materialistas cairão por terra... Breve a humanidade descartará o ódio e as vilezas que tornam sua alma grosseira e obscena... Breve deixaremos para trás as ilusões que nos fazem sofrer e entenderemos que é possível ser feliz na simplicidade...”
Quanta coisa boa... Achei um oásis no meio do jornal. Acabei me viciando. Leio Quiroga, as tiras do Calvin, do Recruta Zero, do Frank e Ernest e faço as cruzadas. Uns instantes de prazer e de consolo que me dou todos os dias.
Geminiana da gema, estou sempre dividida entre tantos interesses, que acabo me perdendo em infinitas possibilidades, que mais me confundem do que outra coisa. Me bifurco, trifurco, quadrifurco, e acabo me diluindo no todo. Na verdade, os dias terminam e não fiz nada. Fiz tudo, mas não fiz nada. Sei que o que fiz, dedicando-me à família, ficará para sempre em cada um de seus membros. Em sua saúde física e mental, em seu desenvolvimento, em sua alegria. Também em seu sarcasmo, sua ironia... Sei que ficará em suas células, em sua memória, sei que fará parte de seus motivos e de suas resoluções. Às vezes, pensando nisso, consigo serenar essa minha alma tão inquieta, tão insatisfeita. Mas são momentos. Quando percebo que o mundo vive em outra, que as pessoas estão preocupadas com as “coisas”, que parece que ninguém me vê por dentro, caio em tentação e acredito que estou errada. Algo, que não sei se interno ou externo, me diz maldosamente que não fiz nada. De repente, a tola e previsível ingratidão de filhos adolescentes ou a malcriadeza de um marido estressado me colocam na lona. Banalizam minhas tarefas mais sagradas. Fazem parecer inúteis as horas e dias e anos que me dediquei ao amor. Não foi em vão. Sei disso. Mas me deixo dominar por esse meu lado fútil e fico me perguntando o que produzi de verdade na vida. E esse “de verdade” vem totalmente carregado de conotação material. Então me pergunto que bens possuo, que vida levo, que legado deixarei... Não, não, não... Nessa hora não adianta ninguém me vir com respostas românticas, me apontando o marido que me ama, os filhos perfeitos, a harmonia familiar... Tudo o que tem valor real acaba virando nada mediante a constatação de que, se amanhã eu estiver sozinha, terei que me virar para suprir minhas necessidades materiais e nada fiz, nos últimos vinte anos, para me especializar em algo que possa me garantir isso. Nada fiz. Sei tudo e não sei nada. Uma simples leitura na seção de empregos dos classificados me põe nervosa. Sinto uma azia, uma aflição, uma vontade de chorar. Estou fora do “mercado”. E o “mercado” é o mundo.
Sorte que tem o Quiroga. Leio e releio suas introduções. E de algumas semanas pra cá ele foi me trazendo pela mão por um caminho que acabou aqui. Neste caderno, que estava esquecido dentro da gaveta do meu criado-mudo. Ele me instigou, pacientemente, a retomar minhas raízes e tentar dizer ao mundo, da forma que melhor sei, a quê vim.
Pergunto agora, às próximas noventa e poucas folhas em branco, no que é que isso vai dar...
(Continua no próximo Abrindo meu Diário rsrs... ;) )
Beeeijos!!!!!!!!!
Analú :)
Hoje abri uma pasta em meu notebook que há muito não abria. É uma pasta que contém textos que escrevi numa fase em que me trabalhava mais intensamente para me reencontrar comigo mesma. Achei os textos tão interessantes, por serem altamente espontâneos e por terem um conteúdo totalmente voltado ao entendimento de mim mesma e do mundo que me rodeava, que senti vontade de publicá-los aqui, no meu blog, para que sirvam de inspiração para mulheres que queiram se trabalhar. É incrível como sentar-se, pensar um pouco, e escrever sobre nossos pensamentos e sentimentos de forma razoavelmente bem organizada nos ajuda a crescer! :)
Acho que cresci, e bastante, nessa fase! Tanto que me dou ao luxo de estar aqui, tentando ajudar outras pessoas a crescerem... rsrs...
Por isso vou publicar, esporadicamente, esses textos altamente intimistas, considerando-os realmente parte desse workshop de reencontro com nossas almas. Espero que vocês entendam que nem sempre essas idéias são exatamente as que tenho hoje, mas acho super válido expor esse processo de auto-conhecimento através da escrita.
Desromance (2007)
Impressões impressionadas e às vezes impressionantes de uma mulher que nunca consegue se adaptar a normas e convenções e que não se satisfaz com o que parece satisfazer todo mundo.
I - Comprei este caderno há séculos, com a séria intenção de usá-lo para escrever um novo livro. Guardei-o na gaveta do meu criado-mudo, que já estava quase aprendendo a falar pra me lembrar de minha tão bem intencionada intenção.
Mas, antes disso, Quiroga foi mais esperto. Eu, que quase nunca lia meu horóscopo, agora me viciei. Mais do que em meu próprio horóscopo, nas sábias palavras de Quiroga. Aquela primeira frase, em que ele dá a posição dos astros no céu, pouco me importa. O que me fascina mesmo são suas otimistas previsões de um mundo melhor. Quando ele diz “breve” não posso imaginar o que isso signifique, mas o que importa realmente é que “breve” é um tempo que virá. Isso já me consola. “Breve as ilusões materialistas cairão por terra... Breve a humanidade descartará o ódio e as vilezas que tornam sua alma grosseira e obscena... Breve deixaremos para trás as ilusões que nos fazem sofrer e entenderemos que é possível ser feliz na simplicidade...”
Quanta coisa boa... Achei um oásis no meio do jornal. Acabei me viciando. Leio Quiroga, as tiras do Calvin, do Recruta Zero, do Frank e Ernest e faço as cruzadas. Uns instantes de prazer e de consolo que me dou todos os dias.
Geminiana da gema, estou sempre dividida entre tantos interesses, que acabo me perdendo em infinitas possibilidades, que mais me confundem do que outra coisa. Me bifurco, trifurco, quadrifurco, e acabo me diluindo no todo. Na verdade, os dias terminam e não fiz nada. Fiz tudo, mas não fiz nada. Sei que o que fiz, dedicando-me à família, ficará para sempre em cada um de seus membros. Em sua saúde física e mental, em seu desenvolvimento, em sua alegria. Também em seu sarcasmo, sua ironia... Sei que ficará em suas células, em sua memória, sei que fará parte de seus motivos e de suas resoluções. Às vezes, pensando nisso, consigo serenar essa minha alma tão inquieta, tão insatisfeita. Mas são momentos. Quando percebo que o mundo vive em outra, que as pessoas estão preocupadas com as “coisas”, que parece que ninguém me vê por dentro, caio em tentação e acredito que estou errada. Algo, que não sei se interno ou externo, me diz maldosamente que não fiz nada. De repente, a tola e previsível ingratidão de filhos adolescentes ou a malcriadeza de um marido estressado me colocam na lona. Banalizam minhas tarefas mais sagradas. Fazem parecer inúteis as horas e dias e anos que me dediquei ao amor. Não foi em vão. Sei disso. Mas me deixo dominar por esse meu lado fútil e fico me perguntando o que produzi de verdade na vida. E esse “de verdade” vem totalmente carregado de conotação material. Então me pergunto que bens possuo, que vida levo, que legado deixarei... Não, não, não... Nessa hora não adianta ninguém me vir com respostas românticas, me apontando o marido que me ama, os filhos perfeitos, a harmonia familiar... Tudo o que tem valor real acaba virando nada mediante a constatação de que, se amanhã eu estiver sozinha, terei que me virar para suprir minhas necessidades materiais e nada fiz, nos últimos vinte anos, para me especializar em algo que possa me garantir isso. Nada fiz. Sei tudo e não sei nada. Uma simples leitura na seção de empregos dos classificados me põe nervosa. Sinto uma azia, uma aflição, uma vontade de chorar. Estou fora do “mercado”. E o “mercado” é o mundo.
Sorte que tem o Quiroga. Leio e releio suas introduções. E de algumas semanas pra cá ele foi me trazendo pela mão por um caminho que acabou aqui. Neste caderno, que estava esquecido dentro da gaveta do meu criado-mudo. Ele me instigou, pacientemente, a retomar minhas raízes e tentar dizer ao mundo, da forma que melhor sei, a quê vim.
Pergunto agora, às próximas noventa e poucas folhas em branco, no que é que isso vai dar...
(Continua no próximo Abrindo meu Diário rsrs... ;) )
Beeeijos!!!!!!!!!
Analú :)
terça-feira, 2 de junho de 2009
Poesia - Três Palavras (um pequeno desabafo)
Três Palavras
O último copo no escorredor,
a pia brilhando,
o sono chegando.
O banho gostoso,
o quente da água
depois de dia tão frio...
Meninos na cama,
silêncio, enfim.
Lençóis trocados,
acolchoado,
o meu teclado.
A tela em branco,
um tempo pra mim.
O sono vai.
Três palavras
e algo escorre
por entre as pernas.
Lento, morno, traiçoeiro.
Foi a calcinha,
a camisola,
o lençol.
Na corrida,
arte abstrata em vermelho vivo
no chão de madeira clara
e no gelo do piso do banheiro.
Mulher é um ser humano
que não sabe o que é ter paz.
2007
Beeeijos!!! :)
Analú
terça-feira, 19 de maio de 2009
Tô preguiçosa - então, mais uma pausa para poesia rsrs... "Procura-se"
Poesia - Procura-se
">
Beeeijos!!!
Analú :)
">
Beeeijos!!!
Analú :)
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Pausinha para poesia - Meninos
Meninos
Essa barba rala,
essa pouca fala,
esse olhar fugidio...
Meninos são sempre assim: escorregadios.
Meninos são felizes,
tímidos, agitados.
São livres e sempre, sempre, sempre esfomeados.
Meninos são vida em ebulição,
dúvidas, planos, tesão.
Meninos sãos.
Os peitos ainda não definidos,
cabelos muito curtos
ou muito compridos,
respiram num ritmo mais rápido
que o meu.
Têm pressa, curiosidade, medo.
Vivem às avessas do enredo.
Voam nos pensamentos,
invadem meu território,
e com isso me dão prazer.
São tão importantes,
e nem sabem que existo.
Meninos...
Queria entender.
Às vezes tento,
às vezes desisto.
Mas não resisto:
meninos são lindos,
lindos,
lindos de morrer.
Beeeeijos!!! :)
Analú
Essa barba rala,
essa pouca fala,
esse olhar fugidio...
Meninos são sempre assim: escorregadios.
Meninos são felizes,
tímidos, agitados.
São livres e sempre, sempre, sempre esfomeados.
Meninos são vida em ebulição,
dúvidas, planos, tesão.
Meninos sãos.
Os peitos ainda não definidos,
cabelos muito curtos
ou muito compridos,
respiram num ritmo mais rápido
que o meu.
Têm pressa, curiosidade, medo.
Vivem às avessas do enredo.
Voam nos pensamentos,
invadem meu território,
e com isso me dão prazer.
São tão importantes,
e nem sabem que existo.
Meninos...
Queria entender.
Às vezes tento,
às vezes desisto.
Mas não resisto:
meninos são lindos,
lindos,
lindos de morrer.
Beeeeijos!!! :)
Analú
domingo, 12 de outubro de 2008
Vovó Vai ao Sus - A Charge da Vovó
Olá!
Quando publiquei o vídeo "Batatas", prometi que a Vovó, seu personagem principal, passaria a representar a terceira idade, aqui no meu blog. Hoje estou publicando a primeira Charge da Vovó, "Vovó Vai ao Sus". As charges da Vovó serão pequenos vídeos que abordarão situações vividas por todos os idosos, e nas quais temos que pensar! Graças a Deus, Vovó é super positiva, e sempre dá a volta por cima, então, prometo que, apesar das situações, muitas vezes, serem extremamente sérias, a charge será sempre agradável, pois carregará em si esse espírito jovem da Vovó! :) Verdadeiras lições de vida! Espero que se divirtam, e que comentem, para que esse trabalho tenha desdobramentos enriquecedores! Logo abaixo do vídeo, transcrevo o texto original, caso alguém tenha interesse!
Charge da Vovó I - Vovó Vai ao Sus
Essa noite Vovó dormiu muito mal. Assim que acordou e se sentou na cama, percebeu uma dor horrível no ombro direito. Logo lembrou que passara toda a tarde de ontem lavando roupas. Erguera e abaixara o varal inúmeras vezes. A danada da bursite voltara. Levantou, desanimada, e, enquanto fazia e tomava o café da manhã, já decidiu que iria até um posto de saúde, tentar passar por uma consulta. Não queria ficar com aquela dor... Arrumou a casa da melhor forma que pôde, e saiu. Tomou a maior canseira no ponto. Seu ônibus não vinha nunca! Acabou ficando sozinha! Até que, finalmente, seu ônibus apontou na esquina! Se adiantou, fez o sinal, e foi se posicionando. Mas, como é baixinha, e o braço doía muito, não conseguia alcançar o degrau do ônibus. O motorista não teve paciência, acelerou, e foi embora! Vovó ainda tentou fazer um gesto, pedindo que parasse, mas ele não deu a mínima! E ela ficou lá, desacorçoada e cheia de dor! Pelo tanto que esperara, calculou que já devia ser quase uma hora da tarde. Logo estaria morrendo de fome. Resolveu voltar pra casa. Assim que chegou, tomou umas gotinhas de novalgina, uma sopa quentinha, e foi descansar assistindo TV, na poltrona da sala. Se distraiu, relaxou, e acabou dormindo. Até que roncou alto, e acordou, assustada! Hi... - pensou. Cadê a dor? A dor tinha passado! Levantou-se rapidamente, deu uma testadinha no ombro, e se certificou de que estava bem! Imediatamente, lembrou que as roupas já deviam estar secas. Correu à lavanderia, abaixou o varal e começou a recolhê-las. Nessa idade - pensou - cada minuto de saúde tem que ser aproveitado! E agradeceu a Deus, feliz da vida!
Beijos!
Analú
Quando publiquei o vídeo "Batatas", prometi que a Vovó, seu personagem principal, passaria a representar a terceira idade, aqui no meu blog. Hoje estou publicando a primeira Charge da Vovó, "Vovó Vai ao Sus". As charges da Vovó serão pequenos vídeos que abordarão situações vividas por todos os idosos, e nas quais temos que pensar! Graças a Deus, Vovó é super positiva, e sempre dá a volta por cima, então, prometo que, apesar das situações, muitas vezes, serem extremamente sérias, a charge será sempre agradável, pois carregará em si esse espírito jovem da Vovó! :) Verdadeiras lições de vida! Espero que se divirtam, e que comentem, para que esse trabalho tenha desdobramentos enriquecedores! Logo abaixo do vídeo, transcrevo o texto original, caso alguém tenha interesse!
Charge da Vovó I - Vovó Vai ao Sus
Essa noite Vovó dormiu muito mal. Assim que acordou e se sentou na cama, percebeu uma dor horrível no ombro direito. Logo lembrou que passara toda a tarde de ontem lavando roupas. Erguera e abaixara o varal inúmeras vezes. A danada da bursite voltara. Levantou, desanimada, e, enquanto fazia e tomava o café da manhã, já decidiu que iria até um posto de saúde, tentar passar por uma consulta. Não queria ficar com aquela dor... Arrumou a casa da melhor forma que pôde, e saiu. Tomou a maior canseira no ponto. Seu ônibus não vinha nunca! Acabou ficando sozinha! Até que, finalmente, seu ônibus apontou na esquina! Se adiantou, fez o sinal, e foi se posicionando. Mas, como é baixinha, e o braço doía muito, não conseguia alcançar o degrau do ônibus. O motorista não teve paciência, acelerou, e foi embora! Vovó ainda tentou fazer um gesto, pedindo que parasse, mas ele não deu a mínima! E ela ficou lá, desacorçoada e cheia de dor! Pelo tanto que esperara, calculou que já devia ser quase uma hora da tarde. Logo estaria morrendo de fome. Resolveu voltar pra casa. Assim que chegou, tomou umas gotinhas de novalgina, uma sopa quentinha, e foi descansar assistindo TV, na poltrona da sala. Se distraiu, relaxou, e acabou dormindo. Até que roncou alto, e acordou, assustada! Hi... - pensou. Cadê a dor? A dor tinha passado! Levantou-se rapidamente, deu uma testadinha no ombro, e se certificou de que estava bem! Imediatamente, lembrou que as roupas já deviam estar secas. Correu à lavanderia, abaixou o varal e começou a recolhê-las. Nessa idade - pensou - cada minuto de saúde tem que ser aproveitado! E agradeceu a Deus, feliz da vida!
Beijos!
Analú
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
XVII - Começando a pensar no "Barba Azul"
Olá! Vamos começar a estudar "O Barba Azul"? Mais uma vez, vou propor que pensemos a respeito do assunto antes de ler o conto. Acredito que, dessa forma, você amadurece e se abre para captar nele sua riqueza, e aproveitar suas lições.
Antes de começar a escrever sobre "O Barba Azul", fiquei me perguntando qual seria a melhor abordagem para dar início a esse tema. Sei que muitas mulheres conhecem esse conto, mas tenho certeza de que isso não acontece entre a grande maioria. Sempre que converso com mulheres a respeito do "Mulheres que Correm com os Lobos", acaba sendo quase inevitável falar sobre o Barba Azul, tal a importância do conto dentro dessa obra, e do personagem em nossas vidas. E, surpreendentemente, percebo que a grande maioria delas não tem a menor idéia de quem é o Barba Azul. Digo surpreendentemente porque esse personagem marcou minha infância de tal forma, que, para mim, seria inimaginável pensar que outras pessoas não o conhecessem. Seria como se hoje, alguém nos dissesse não conhecer Harry Potter, ou James Bond. Lembro-me de ter lido e relido esse conto inúmeras vezes, muito provavelmente porque ele me aterrorizava e consolava, uma vez que o Barba Azul é vencido pela mocinha apavorada. Naquela época, é claro, eu não tinha consciência da riqueza do conteúdo do texto. Apenas o lia e relia, e me encantava com um desenho em branco e preto, cujo único detalhe colorido era o azul de uma mecha da enorme barba do "monstro".
Vejam como não podemos subestimar o valor das histórias: mesmo não tendo maturidade para compreender todos os aspectos abordados no conto, o principal eu apreendi - o mal existia. Às vezes, podia travestir-se de riqueza e amabilidade. E precisávamos estar atentas para nos proteger dele!
Recentemente, tive a grata satisfação de descobrir que a maravilhosa escritora Ruth Rocha publicou, pela Editora FTD, sua versão dessa história para crianças. Espero que muitas meninas possam se beneficiar com seus ensinamentos. E que possam entrar na vida mais preparadas para enfrentar esses monstros, sejam eles personagens do mundo ao seu redor, sejam eles parte de sua psique. Porque, o grande perigo para uma mulher, não é não conhecer o conto "O Barba Azul". Mas desconhecer que o Barba Azul existe, na vida real, e também dentro de sua psique.
Assim, decidi que minha abordagem começa por aqui:
O Barba Azul Existe - e você precisa enxergá-lo
É claro que qualquer pessoa que esteja lendo este post já percebeu que o Barba Azul representa algo de mal. Clarissa o define como um verdadeiro potentado predatório, cuja intenção é nos destruir. Ele pode ser um parente ou conhecido seu, no mundo físico, mas ele também existe dentro de você. É um aspecto de sua psique que trabalha contra a sua natureza, e contra tudo o que for positivo: contra o desenvolvimento, contra a harmonia e contra o que for selvagem. Ele "surge no meio dos planos mais significativos da alma, isola a mulher de sua natureza intuitiva e a faz sentir-se frágil diante da vida".
E, por que insisto em dizer que o Barba Azul existe, se, no mundo em que vivemos, a mídia privilegia a desgraça, e basta ligar a TV ou abrir o jornal para que o Mal seja cuspido na nossa cara? Será que você já não sabe disso? Pra que ficar estudando o Barba Azul, se são tantos os “monstros” da vida real, enclausurando famílias inteiras, estuprando as próprias filhas, jogando garotinhas pela janela, escravizando seres humanos, que essa idéia de que “o mal existe”, e de que precisamos estar preparadas pra nos proteger dele já deveria estar mais do que entranhada em nós. Pergunto: está?
Estamos preparadas para, na presença do predador, detectá-lo, e combatê-lo? Estamos preparadas para detectar qual parte de nossa psique joga contra nós, e anular o efeito de suas cruéis investidas? Se não, por quê? Vamos pensar nisso.
Quero trabalhar aqui a irrefutável teoria de Clarissa, sobre a negação do Mal, e também uma teoria minha, baseada em minha experiência pessoal, que acredito poder se aplicar à grande parte das mulheres. Neste post vamos pensar um pouco sobre a teoria de Clarissa.
Qualquer mulher que já tenha parado para pensar na educação que recebeu e no que a sociedade demonstra esperar dela, percebeu que há uma mensagem que se repete, implícita ou explicitamente: não veja, não tenha insight, não fale, não haja. Clarissa chama isso de "introjeções sombrias que, para as mulheres, são objeto de controvérsia". Ou seja: você recebe essas mensagens a vida toda, acaba acreditando que são verdadeiras, e as incorpora em seu modo de ser. Mas... sua mulher selvagem, sua alma, sabe que isso não está certo. O antídoto para o mal, a forma de expulsar o predador, é fazer exatamente o contrário. Clarissa nos aconselha: "tente prestar atenção à sua voz interior; faça perguntas; seja curiosa; veja o que estiver vendo; ouça o que estiver ouvindo; e então aja com base no que sabe ser verdade."
Um conselho como este pode parecer estranho: veja o que estiver vendo, ouça o que estiver ouvindo. Não é até engraçado? Não! Não é engraçado! É muito triste. O fato é que somos treinadas, desde crianças, a não ver o que estamos vendo, não ouvir o que estamos ouvindo. Aprendemos, desde cedo, a dourar a pílula. Amenizar as situações. Esconder o que é feio. Usamos eufemismos, palavras à meia-boca, expressões de constrangimento, e varremos a sujeira pra debaixo do tapete. Tanto fingimos não ver o que estamos vendo, que acabamos nos convencendo de que aquilo que estamos vendo realmente não existe. Complicado, não? Nem tanto.
Vou relatar aqui uma experiência pessoal que ilustra perfeitamente essa situação, e peço que vocês pensem nisso, e, se possível, me ajudem a encontrar as respostas para as inevitáveis perguntas que nos vêm à mente.
Eu era muito criança, e minhas irmãs e primas já eram adolescentes. Um bando, aliás. As meninas estavam sempre juntas, em cantos, ou trancadas em quartos ou banheiros, procurando privacidade para as conversas próprias da idade. As festas de família eram super agitadas, pois éramos em muitos primos, e quase todos na puberdade.
Um parente distante nos convidou para o aniversário de uma de suas filhas, adolescente também, e embora muito pequenina na época, tive a percepção de que a ocasião seria realmente especial, pelo clima de excitação que pairou em minha casa durante toda a semana anterior à festa. Especulava-se que roupas as meninas deveriam usar, quem estaria lá, que delícias haveria para comer... Mas não me lembro de ter ouvido nenhuma recomendação especial por parte de ninguém. Estaríamos entre parentes e amigos e, conseqüentemente, deveríamos estar seguras, em ambiente inofensivo. O clima era festivo, e todos só pensavam em coisas boas.
A festa foi ótima, mas, repentinamente, aconteceu algo que só vim a entender realmente agora, mais de quarenta anos depois! Num determinado momento, uma das meninas quis ir ao banheiro, e, como era costume quando se juntavam, todas a acompanharam. Iam retocar o batom, se olhar no espelho, falar bobagens, meninas em grupo no banheiro era (e continua sendo) sempre uma farra. Como era a caçula, e me consideravam criança demais pra me convidar pra esse tipo de bagunça, eu observava de fora. Lembro-me de ter visto todas entrando no banheiro, fazendo uma grande algazarra. Mal a porta se fechara atrás da última a entrar, e a festiva bagunça se transformou numa enorme gritaria. A porta se abriu, e as meninas saíram correndo, apavoradas, uma querendo passar por cima da outra, para sair dali o mais rapidamente possível! Sem entender o que acontecera, fui atrás, mas os convidados já se concentravam em frente ao bolo, para cantar parabéns, e a agitação das meninas acabou se diluindo na bagunça generalizada. Eu sabia que havia acontecido algo, mas era muito pequena, e, como ninguém comentou nada, também não perguntei. A coisa morreu ali. Não fosse um certo clima de consternação geral na semana seguinte ao ocorrido, poderia se dizer que, realmente, nada acontecera.
Alguns anos depois, adolescente, eu ainda me lembrava do episódio, que me causara grande estranheza. Toquei no assunto, e minha irmã mais velha desconversou. Muito à meia-boca, falou algo sobre alguém da família ter hábitos estranhos, e, sinceramente, continuei não entendendo nada. Meses atrás, voltei a tocar nesse assunto, com a mesma irmã, e conversamos de mulher para mulher, como não poderia deixar de ser. Só então fiquei sabendo o que acontecera realmente naquela ocasião.
Vou contar pra vocês, com todas as letras, como seria absolutamente normal se a nossa sociedade tivesse interesse em descortinar a verdade: quando as meninas entraram no banheiro, deram de cara com um conhecido da família com as calças abertas e o pênis ereto para fora! Ele estava ali, naquela situação, propositalmente, esperando-as para se exibir! Elas, totalmente desavisadas, saíram todas correndo, apavoradas!
O mais grave nisso tudo é que os adultos da família sabiam que esse homem estaria na festa, e tinham consciência dessa sua tendência, que já se revelara em ocasiões anteriores.
Pergunto, e gostaria muito que vocês me respondessem:
- Não seria o caso de terem alertado as meninas, para que elas se cuidassem?
- Não era importante que, pelo menos, conversassem com elas depois do acontecido, para saber que impacto isso lhes causara?
- Será que era tão complicado assim falar abertamente sobre esse assunto?
- O fato de ninguém ter conversado a respeito do episódio, embora todos percebessem o quão constrangedor ele fora, significou o quê?
Pois saibam: não se falou abertamente, nem de forma alguma. O episódio foi enterrado sem maiores explicações. Quem não tivesse compreendido o porquê da atitude daquele homem, que metabolizasse o acontecido como pudesse, porque nenhum adulto se proporia a falar sobre o caso.
Hoje, você pode pensar que não se pode usar como parâmetro uma história de quarenta e tantos anos atrás, porque o mundo e as pessoas evoluíram muito de lá pra cá. Mas, olho a nossa realidade atual e vejo inúmeras situações semelhantes, e não percebo uma mudança muito significativa na maneira das pessoas lidarem com elas... Apesar de termos muito mais acesso à informação, quando os problemas estão muito perto de nós, há uma enorme dificuldade em se falar abertamente sobre eles.
Infelizmente, ficamos sabendo, a todo momento, de casos e mais casos de famílias inteiras acobertando todo tipo de loucura. Pais pedófilos, que abusam por anos a fio dos próprios filhos, sem que isso venha à tona; alcoólatras que nem ao menos percebem que são alcoólatras, porque ninguém tem coragem de falar sobre isso; mulheres que apanham freqüentemente, e que não conseguem pedir ajuda a ninguém; pessoas doentes, que não têm coragem de se assumir doentes... Tanta coisa...
Quem já não mordeu a língua para não chamar de agiota aquele conhecido que vive de emprestar dinheiro a juros extorsivos, porque seria ofensivo? Na nossa sociedade, é falta de educação ou "preconceito" (veja só!) chamar o gordo de gordo, o careca de careca, o pobre de pobre, o negro de negro, o velho de velho... Ou seja: não podemos dar nomes aos bois, porque é feio.
Não estou defendendo aqui a idéia de que devamos sair por aí fofocando a respeito da vida alheia, julgando e condenando, ou atirando pedras em quem tenha problemas. Defendo uma maneira realista de ver o mundo e a vida, o que nos dará competência para enxergar o Barba Azul, se ele aparecer. No caso em questão, a família poderia, sim, de forma discreta, ter alertado as meninas que iriam à festa, explicando-lhes a situação, não para que se apavorassem, mas para que não estivessem despreparadas, e soubessem se defender do perigo latente. E, uma vez que se criou a situação desagradável, essas meninas mereciam, sim, que algum adulto conversasse com elas a respeito do problema, para que não restassem, no final, dúvidas incômodas em suas vidas. Podemos saber como cada uma metabolizou o acontecido? Provavelmente, o que, para uma delas, menos sensível, foi apenas algo engraçado, para outra pode ter sido um fator determinante do seu comportamento sexual, por ter enxergado agressividade na sexualidade masculina.
Imagino que, no final das contas, mediante o absoluto silêncio que se fez em relação ao caso, a mensagem que restou na cabeça das meninas que correram do banheiro, tenha sido: quando a coisa parece ser muito feia, melhor fingir que nada aconteceu. E posso dizer que, se cada uma de nós começar a pensar na própria vida, vai encontrar inúmeras situações em que a conclusão a que chegamos foi essa.
Você lembra de algo assim em sua vida? Alguma coisa que foi tão abafada por todos ao seu redor, que você chegou à conclusão de que o melhor a fazer seria fingir não ter visto, não ter ouvido, e não falar nada? Será que, de tanto passar por isso, você não introjetou essa idéia de não enxergar o que é muito feio ou ruim? De negar a realidade? Pense nisso. E me conte. Abra os olhos e veja, de verdade, o mundo ao seu redor.
Essa situação me fez lembrar dos três macaquinhos da lenda dos três macacos sábios. Você conhece? Vamos falar sobre ela no próximo post!
Mas vou ficar aqui, esperando seus relatos de "negação da realidade".
Beeeijos!
Analú :)
Antes de começar a escrever sobre "O Barba Azul", fiquei me perguntando qual seria a melhor abordagem para dar início a esse tema. Sei que muitas mulheres conhecem esse conto, mas tenho certeza de que isso não acontece entre a grande maioria. Sempre que converso com mulheres a respeito do "Mulheres que Correm com os Lobos", acaba sendo quase inevitável falar sobre o Barba Azul, tal a importância do conto dentro dessa obra, e do personagem em nossas vidas. E, surpreendentemente, percebo que a grande maioria delas não tem a menor idéia de quem é o Barba Azul. Digo surpreendentemente porque esse personagem marcou minha infância de tal forma, que, para mim, seria inimaginável pensar que outras pessoas não o conhecessem. Seria como se hoje, alguém nos dissesse não conhecer Harry Potter, ou James Bond. Lembro-me de ter lido e relido esse conto inúmeras vezes, muito provavelmente porque ele me aterrorizava e consolava, uma vez que o Barba Azul é vencido pela mocinha apavorada. Naquela época, é claro, eu não tinha consciência da riqueza do conteúdo do texto. Apenas o lia e relia, e me encantava com um desenho em branco e preto, cujo único detalhe colorido era o azul de uma mecha da enorme barba do "monstro".
Vejam como não podemos subestimar o valor das histórias: mesmo não tendo maturidade para compreender todos os aspectos abordados no conto, o principal eu apreendi - o mal existia. Às vezes, podia travestir-se de riqueza e amabilidade. E precisávamos estar atentas para nos proteger dele!
Recentemente, tive a grata satisfação de descobrir que a maravilhosa escritora Ruth Rocha publicou, pela Editora FTD, sua versão dessa história para crianças. Espero que muitas meninas possam se beneficiar com seus ensinamentos. E que possam entrar na vida mais preparadas para enfrentar esses monstros, sejam eles personagens do mundo ao seu redor, sejam eles parte de sua psique. Porque, o grande perigo para uma mulher, não é não conhecer o conto "O Barba Azul". Mas desconhecer que o Barba Azul existe, na vida real, e também dentro de sua psique.
Assim, decidi que minha abordagem começa por aqui:
O Barba Azul Existe - e você precisa enxergá-lo
É claro que qualquer pessoa que esteja lendo este post já percebeu que o Barba Azul representa algo de mal. Clarissa o define como um verdadeiro potentado predatório, cuja intenção é nos destruir. Ele pode ser um parente ou conhecido seu, no mundo físico, mas ele também existe dentro de você. É um aspecto de sua psique que trabalha contra a sua natureza, e contra tudo o que for positivo: contra o desenvolvimento, contra a harmonia e contra o que for selvagem. Ele "surge no meio dos planos mais significativos da alma, isola a mulher de sua natureza intuitiva e a faz sentir-se frágil diante da vida".
E, por que insisto em dizer que o Barba Azul existe, se, no mundo em que vivemos, a mídia privilegia a desgraça, e basta ligar a TV ou abrir o jornal para que o Mal seja cuspido na nossa cara? Será que você já não sabe disso? Pra que ficar estudando o Barba Azul, se são tantos os “monstros” da vida real, enclausurando famílias inteiras, estuprando as próprias filhas, jogando garotinhas pela janela, escravizando seres humanos, que essa idéia de que “o mal existe”, e de que precisamos estar preparadas pra nos proteger dele já deveria estar mais do que entranhada em nós. Pergunto: está?
Estamos preparadas para, na presença do predador, detectá-lo, e combatê-lo? Estamos preparadas para detectar qual parte de nossa psique joga contra nós, e anular o efeito de suas cruéis investidas? Se não, por quê? Vamos pensar nisso.
Quero trabalhar aqui a irrefutável teoria de Clarissa, sobre a negação do Mal, e também uma teoria minha, baseada em minha experiência pessoal, que acredito poder se aplicar à grande parte das mulheres. Neste post vamos pensar um pouco sobre a teoria de Clarissa.
Qualquer mulher que já tenha parado para pensar na educação que recebeu e no que a sociedade demonstra esperar dela, percebeu que há uma mensagem que se repete, implícita ou explicitamente: não veja, não tenha insight, não fale, não haja. Clarissa chama isso de "introjeções sombrias que, para as mulheres, são objeto de controvérsia". Ou seja: você recebe essas mensagens a vida toda, acaba acreditando que são verdadeiras, e as incorpora em seu modo de ser. Mas... sua mulher selvagem, sua alma, sabe que isso não está certo. O antídoto para o mal, a forma de expulsar o predador, é fazer exatamente o contrário. Clarissa nos aconselha: "tente prestar atenção à sua voz interior; faça perguntas; seja curiosa; veja o que estiver vendo; ouça o que estiver ouvindo; e então aja com base no que sabe ser verdade."
Um conselho como este pode parecer estranho: veja o que estiver vendo, ouça o que estiver ouvindo. Não é até engraçado? Não! Não é engraçado! É muito triste. O fato é que somos treinadas, desde crianças, a não ver o que estamos vendo, não ouvir o que estamos ouvindo. Aprendemos, desde cedo, a dourar a pílula. Amenizar as situações. Esconder o que é feio. Usamos eufemismos, palavras à meia-boca, expressões de constrangimento, e varremos a sujeira pra debaixo do tapete. Tanto fingimos não ver o que estamos vendo, que acabamos nos convencendo de que aquilo que estamos vendo realmente não existe. Complicado, não? Nem tanto.
Vou relatar aqui uma experiência pessoal que ilustra perfeitamente essa situação, e peço que vocês pensem nisso, e, se possível, me ajudem a encontrar as respostas para as inevitáveis perguntas que nos vêm à mente.
Eu era muito criança, e minhas irmãs e primas já eram adolescentes. Um bando, aliás. As meninas estavam sempre juntas, em cantos, ou trancadas em quartos ou banheiros, procurando privacidade para as conversas próprias da idade. As festas de família eram super agitadas, pois éramos em muitos primos, e quase todos na puberdade.
Um parente distante nos convidou para o aniversário de uma de suas filhas, adolescente também, e embora muito pequenina na época, tive a percepção de que a ocasião seria realmente especial, pelo clima de excitação que pairou em minha casa durante toda a semana anterior à festa. Especulava-se que roupas as meninas deveriam usar, quem estaria lá, que delícias haveria para comer... Mas não me lembro de ter ouvido nenhuma recomendação especial por parte de ninguém. Estaríamos entre parentes e amigos e, conseqüentemente, deveríamos estar seguras, em ambiente inofensivo. O clima era festivo, e todos só pensavam em coisas boas.
A festa foi ótima, mas, repentinamente, aconteceu algo que só vim a entender realmente agora, mais de quarenta anos depois! Num determinado momento, uma das meninas quis ir ao banheiro, e, como era costume quando se juntavam, todas a acompanharam. Iam retocar o batom, se olhar no espelho, falar bobagens, meninas em grupo no banheiro era (e continua sendo) sempre uma farra. Como era a caçula, e me consideravam criança demais pra me convidar pra esse tipo de bagunça, eu observava de fora. Lembro-me de ter visto todas entrando no banheiro, fazendo uma grande algazarra. Mal a porta se fechara atrás da última a entrar, e a festiva bagunça se transformou numa enorme gritaria. A porta se abriu, e as meninas saíram correndo, apavoradas, uma querendo passar por cima da outra, para sair dali o mais rapidamente possível! Sem entender o que acontecera, fui atrás, mas os convidados já se concentravam em frente ao bolo, para cantar parabéns, e a agitação das meninas acabou se diluindo na bagunça generalizada. Eu sabia que havia acontecido algo, mas era muito pequena, e, como ninguém comentou nada, também não perguntei. A coisa morreu ali. Não fosse um certo clima de consternação geral na semana seguinte ao ocorrido, poderia se dizer que, realmente, nada acontecera.
Alguns anos depois, adolescente, eu ainda me lembrava do episódio, que me causara grande estranheza. Toquei no assunto, e minha irmã mais velha desconversou. Muito à meia-boca, falou algo sobre alguém da família ter hábitos estranhos, e, sinceramente, continuei não entendendo nada. Meses atrás, voltei a tocar nesse assunto, com a mesma irmã, e conversamos de mulher para mulher, como não poderia deixar de ser. Só então fiquei sabendo o que acontecera realmente naquela ocasião.
Vou contar pra vocês, com todas as letras, como seria absolutamente normal se a nossa sociedade tivesse interesse em descortinar a verdade: quando as meninas entraram no banheiro, deram de cara com um conhecido da família com as calças abertas e o pênis ereto para fora! Ele estava ali, naquela situação, propositalmente, esperando-as para se exibir! Elas, totalmente desavisadas, saíram todas correndo, apavoradas!
O mais grave nisso tudo é que os adultos da família sabiam que esse homem estaria na festa, e tinham consciência dessa sua tendência, que já se revelara em ocasiões anteriores.
Pergunto, e gostaria muito que vocês me respondessem:
- Não seria o caso de terem alertado as meninas, para que elas se cuidassem?
- Não era importante que, pelo menos, conversassem com elas depois do acontecido, para saber que impacto isso lhes causara?
- Será que era tão complicado assim falar abertamente sobre esse assunto?
- O fato de ninguém ter conversado a respeito do episódio, embora todos percebessem o quão constrangedor ele fora, significou o quê?
Pois saibam: não se falou abertamente, nem de forma alguma. O episódio foi enterrado sem maiores explicações. Quem não tivesse compreendido o porquê da atitude daquele homem, que metabolizasse o acontecido como pudesse, porque nenhum adulto se proporia a falar sobre o caso.
Hoje, você pode pensar que não se pode usar como parâmetro uma história de quarenta e tantos anos atrás, porque o mundo e as pessoas evoluíram muito de lá pra cá. Mas, olho a nossa realidade atual e vejo inúmeras situações semelhantes, e não percebo uma mudança muito significativa na maneira das pessoas lidarem com elas... Apesar de termos muito mais acesso à informação, quando os problemas estão muito perto de nós, há uma enorme dificuldade em se falar abertamente sobre eles.
Infelizmente, ficamos sabendo, a todo momento, de casos e mais casos de famílias inteiras acobertando todo tipo de loucura. Pais pedófilos, que abusam por anos a fio dos próprios filhos, sem que isso venha à tona; alcoólatras que nem ao menos percebem que são alcoólatras, porque ninguém tem coragem de falar sobre isso; mulheres que apanham freqüentemente, e que não conseguem pedir ajuda a ninguém; pessoas doentes, que não têm coragem de se assumir doentes... Tanta coisa...
Quem já não mordeu a língua para não chamar de agiota aquele conhecido que vive de emprestar dinheiro a juros extorsivos, porque seria ofensivo? Na nossa sociedade, é falta de educação ou "preconceito" (veja só!) chamar o gordo de gordo, o careca de careca, o pobre de pobre, o negro de negro, o velho de velho... Ou seja: não podemos dar nomes aos bois, porque é feio.
Não estou defendendo aqui a idéia de que devamos sair por aí fofocando a respeito da vida alheia, julgando e condenando, ou atirando pedras em quem tenha problemas. Defendo uma maneira realista de ver o mundo e a vida, o que nos dará competência para enxergar o Barba Azul, se ele aparecer. No caso em questão, a família poderia, sim, de forma discreta, ter alertado as meninas que iriam à festa, explicando-lhes a situação, não para que se apavorassem, mas para que não estivessem despreparadas, e soubessem se defender do perigo latente. E, uma vez que se criou a situação desagradável, essas meninas mereciam, sim, que algum adulto conversasse com elas a respeito do problema, para que não restassem, no final, dúvidas incômodas em suas vidas. Podemos saber como cada uma metabolizou o acontecido? Provavelmente, o que, para uma delas, menos sensível, foi apenas algo engraçado, para outra pode ter sido um fator determinante do seu comportamento sexual, por ter enxergado agressividade na sexualidade masculina.
Imagino que, no final das contas, mediante o absoluto silêncio que se fez em relação ao caso, a mensagem que restou na cabeça das meninas que correram do banheiro, tenha sido: quando a coisa parece ser muito feia, melhor fingir que nada aconteceu. E posso dizer que, se cada uma de nós começar a pensar na própria vida, vai encontrar inúmeras situações em que a conclusão a que chegamos foi essa.
Você lembra de algo assim em sua vida? Alguma coisa que foi tão abafada por todos ao seu redor, que você chegou à conclusão de que o melhor a fazer seria fingir não ter visto, não ter ouvido, e não falar nada? Será que, de tanto passar por isso, você não introjetou essa idéia de não enxergar o que é muito feio ou ruim? De negar a realidade? Pense nisso. E me conte. Abra os olhos e veja, de verdade, o mundo ao seu redor.
Essa situação me fez lembrar dos três macaquinhos da lenda dos três macacos sábios. Você conhece? Vamos falar sobre ela no próximo post!
Mas vou ficar aqui, esperando seus relatos de "negação da realidade".
Beeeijos!
Analú :)
quarta-feira, 16 de abril de 2008
XVI - Batatas
Olá! No último post, que foi há muuuuuito tempo, eu havia comentado que estava preparando um vídeo, o Batatas, que tinha tudo a ver com o conteúdo desse blog. De lá prá cá, a ausência de novos posts se deve justamente à trabalheira que foi fazer esse conto ilustrado. Eu havia imaginado que seriam umas 90 ilustrações, mas foram mais de 140!
O importante é que acho que valerá a pena. Ele também é mais uma "provocação" que quero fazer aqui. Ele fala justamente sobre algo que repito sempre: cuidar de tudo e de todos não é suficiente para que você seja feliz. É preciso que você cuide de você. Nada contra cuidar dos outros também, se essa é sua vocação, mas nunca se esqueça de você mesma. Nunca se abandone, nunca se deixe esvaziar, nunca se distancie de sua alma.
Fiz questão de me dedicar a esse trabalho, porque acredito que um vídeo com um toque de graça possa atingir muito mais pessoas do que um conto, e desejo, do fundo do meu coração, que, dessa forma, um número grande de mulheres possa parar para pensar um pouco. Em tudo: na vida, na velhice, na solidão... nem sei quantos sentimentos posso despertar contando essa pequena história tão simples, mas verídica.
É esse justamente o meu objetivo: que vocês assistam o vídeo, que se emocionem, que pensem a respeito, que se solidarizem com essa velhinha tão simpática. Que, aliás, de hoje em diante representará a terceira idade aqui no meu blog.
E peço que comentem, que falem a respeito de seus sentimentos, que me digam o que pensam a respeito da velhice, se a temem ou se a esperam tranqüilamente. Ou se nem pensam nisso. Que me contem suas próprias histórias, ou histórias que conhecem, que tenham a ver com esse tema.
Espero que, apesar do conteúdo do vídeo ser extremamente sério, vocês possam se divertir um pouco. Abaixo do vídeo vou transcrever o texto na íntegra, caso interesse a alguém.
Bom vídeo!
Batatas
Batatas. Precisava comprar batatas. Se tivesse algumas agora, não passaria por esse apuro. Ficara esperando o neto durante toda a tarde. Viria buscá-la pra passar o fim de ano com a família. Mas... O que acontecia, que ele não aparecia? Se soubesse que estaria em casa até uma hora dessas, teria dado uma saída, até a quitanda, ao menos. Comprava algumas batatas e pronto. Fazia uma sopinha...
Voltou à cozinha. Abriu de novo a geladeira. Não era preciso muito esforço pra chegar à conclusão de que estava "a zero". As prateleiras vazias pareciam zombar dela. Fechou a geladeira, aborrecida. Podia ir até a padaria, comprar uns pãezinhos... Mas... E se o neto aparecesse, nesse meio - tempo? Iria embora, se não a encontrasse. Era isso. Se não a encontrasse, não teria paciência pra esperar. Iria embora, com certeza.
Sentou, desgostosa, na poltrona em frente à TV. Uma TV centenária, que o outro neto lhe dera. As imagens mudas, em branco e preto, não faziam sentido. Levantou-se, foi à janela. O mundo a cores era bem melhor.
Esticou o olhar pro relógio cuco, na parede. Oito e meia. Estava tarde. Talvez fosse melhor ir até o orelhão, dar uma ligada pra filha. Saber o que é que estava acontecendo... Não. Não estava acontecendo nada - disse a si mesma. O neto estava atrasado como sempre, só isso. A fome é que estava aumentando sua impaciência.
Foi à cozinha, esquentou um pouco de café. Vasculhou o armário e encontrou algumas bolachas de água e sal. Se tivesse um pouco de manteiga... Manteiga. Nunca mais comprara manteiga. Só margarina. Desde que sua pensão fora cortada pela metade, havia uma série de coisas que não fazia mais. Deixara de fazer mercado, porque o genro lhe garantia uma cesta básica. Era sozinha, não precisava de muito para viver... Mas, que diabo... - pensou. Ficar na lona desse jeito era até uma vergonha... Às vezes tinha vergonha. Não sabia ao certo de quê, não importava que estivesse só. Era uma vergonha íntima, perante si mesma. Jamais comentara isso com ninguém, mas era algo que a incomodava profundamente. Essa sensação de vergonha. Vivera toda sua vida se dedicando aos outros. Ao marido, aos filhos, aos netos... Trabalhara arduamente, durante toda a vida. Agora tinha que dividir uma mísera pensão com a segunda mulher do marido. - Coitada... - Pensou, sorrindo, nessa outra infeliz. Que faria ela com a parte que lhe cabia? Devia sentir vergonha, também...
Lavou a xícara, sacudiu a toalha no tanque, e então ouviu uma buzina. Enfim, o neto chegara. Correu à sala, fechou a janela, desligou a TV, voltou à cozinha, certificar-se de que fechara o gás, e saiu.
Na casa da filha, a bagunça era grande. Muita gente. Os filhos, genros e noras, os netos com suas esposas e alguns bisnetos. Crianças barulhentas. Comiam vorazmente, muito agitadas. Lúcia lhe deu um prato e disse que se servisse. Estava em casa, sabia disso. Sabia? - Vovó perguntou a si mesma. Não era isso o que sentia. Segurava o pesado prato de porcelana, indecisa. Lúcia montara uma mesa enorme. Havia uma variedade tão grande, que vovó não sabia ao certo o que escolher. Se comesse de tudo, com certeza passaria mal. A filha, percebendo sua angústia, arrebatou-lhe o prato da mão e começou a servi-la. Uma boa porção de salpicão, arroz com uvas-passas, farofa e perú. Não. O peito não. A carne era muito seca, entalava na garganta. Lúcia lhe cortou uma sobrecoxa e arrumou-lhe uma cadeira. Que comesse bastante, era fim de ano!
Vovó comeu demais. Talvez tivesse bebido um pouco demais, também. O genro lhe enchera por três vezes o copo de vinho. Agora estava mal. Lúcia lhe pegou pela mão e levou-a ao quarto de Jorge, o único neto solteiro. Ajudou-a com as roupas. Pronto. Um "engov" e cama. Acordaria bem. Abriu o respiro da janela, pra que se sentisse melhor.
- Boa noite. Feliz ano novo, mãe. - Saiu, batendo a porta.
Estava só de novo. Não, agora era diferente. Ouvia o ruído do pessoal, lá embaixo. Não era como quando apagava o abajur, em seu quarto, todas as noites. Não havia aquele silêncio assustador que parecia querer engoli-la. Podia relaxar. Não era preciso nem rezar... Havia gente por perto.
Em alguns minutos roncava.
O primeiro de ano fora bom, também. Ajudara Lúcia com o almoço, se fartara de comida e de companhia. Assistira TV colorida, conversara com alguns conhecidos que há tempos não via... Estava feliz. Lúcia insistiu para que ficasse até quarta. Acabou ficando. Embora tivesse consciência de que não podia ficar ali eternamente, não havia porquê voltar às pressas. Não tinha ninguém lhe esperando...
Estava só, na cozinha, aguardando que Jorge lhe chamasse. Ia levá-la pra casa. De repente, lembrou-se de que estava "a zero" em casa. Talvez no dia seguinte, à tarde, fizesse algumas compras, mas não tinha nada para o almoço... Correu os olhos pela cozinha e achou batatas, numa fruteira, ao lado do fogão. Se levasse duas ou três já seria suficiente para uma sopa. Procurou numa gaveta um saco plástico, guardou duas batatas, - duas bastavam, eram muito grandes - colocou o saco dentro da sacola de papel onde levava as roupas, e saiu. Jorge já descia, com a chave do carro na mão. Despediu-se de todos e se foi.
A casa lhe pareceu mais vazia. Era sempre assim. Jogou a sacola de roupas num canto da lavanderia, foi ao banheiro, disse "boa noite" à própria imagem, no espelho, e foi dormir.
Não quis enfrentar o quarto escuro. Acendeu o pequeno abajur, no criado-mudo. Às claras o silêncio não parecia tão assustador. Pensou nas noites que passara dormindo ao lado de Jorge. Era reconfortante estar perto de alguém. Pensou na filha. No genro. Nos netos e bisnetos. Pensou na vida. E na própria solidão.
Planejou o dia seguinte. Acordaria cedo, como sempre. Lavaria as roupas que trouxera sujas da casa da filha, faria uma sopa para o almoço... As batatas! - Lembrou. Estavam dentro da sacola de roupas, jogadas na lavanderia! Não havia mal nenhum nisso... Afinal, não estavam jogadas no meio da roupa suja... Havia colocado-as dentro de um saco plástico... Não sabia exatamente porquê, mas a idéia das batatas no meio da roupa a deixava aflita. Teve a sensação de que não dormiria bem se não as levasse para a cozinha, se não as colocasse num local apropriado. Levantou-se e, com um passo arrastado, chegou à lavanderia. Pegou a sacola de papelão, tirou de dentro dela as roupas que teria que lavar no dia seguinte e não encontrou mais nada a não ser um saco plástico vazio. Confusa, pegou o pequeno saco e então viu que estava furado. Assim como haviam entrado por um lado, as batatas haviam saído pelo outro. E, provavelmente, haviam rolado para o piso do carro de Jorge. Então se deixou dominar por uma aflição enorme. Numa fração de segundo pôde ver Jorge encontrando as batatas, no carro. Acharia estranho, as levaria para casa e comentaria com a mãe. Lúcia, imediatamente, ligaria os fatos. Chegaria à conclusão de que a mãe pegara as batatas sem avisá-la. Sentiu um mal-estar. Correu à cozinha, para sentar. Jamais poderia ter pego qualquer coisa sem pedir a permissão de Lúcia! De repente lhe ficava claro que um gesto que lhe parecera tão natural, poderia ser interpretado como... como roubo! É claro! - Pensou. Pegar algo sem o consentimento do dono era o quê? Roubo! Roubara as batatas e havia sido pega. Agora tinha que se explicar.
Voltou à cama. Olhou o relógio. Já era madrugada. Não poderia ligar agora para a filha. Assim que amanhecesse, iria à casa dos fundos, pediria para telefonar. Explicaria tudo à Lúcia. Que pegara as batatas num momento em que estava sozinha, que esquecera de lhe avisar... Pediria desculpas, havia agido mal. Passou a noite toda se revirando nos lençóis. Estava quente, e a preocupação não a deixou dormir.
De manhã, depois de um rápido banho, sem nem ao menos ter tomado um café, correu à vizinha.
- Lúcia! - Exclamou, ao ouvir a voz da filha ao telefone. Então, muito sem jeito, explicou-lhe o que acontecera.
Lúcia riu. Achou graça na preocupação da mãe. Deu-lhe até uma bronca carinhosa por ter se preocupado com tal bobagem.
Vovó desligou, com o coração aliviado. Percebeu-se trêmula, e respirou fundo, ainda meio angustiada. Agradeceu à vizinha e foi pra rua.
Durante a caminhada até a quitanda, pôde pensar com mais calma a respeito de tudo. Restou uma sensação estranha de que algo em sua vida dera errado. Mas o quitandeiro já perguntava: - Que vai querer?
- Batatas. - Vovó respondia, magoada.
Este conto faz parte da coletânea Acasos, da autora deste blog, à venda pela Internet.
O importante é que acho que valerá a pena. Ele também é mais uma "provocação" que quero fazer aqui. Ele fala justamente sobre algo que repito sempre: cuidar de tudo e de todos não é suficiente para que você seja feliz. É preciso que você cuide de você. Nada contra cuidar dos outros também, se essa é sua vocação, mas nunca se esqueça de você mesma. Nunca se abandone, nunca se deixe esvaziar, nunca se distancie de sua alma.
Fiz questão de me dedicar a esse trabalho, porque acredito que um vídeo com um toque de graça possa atingir muito mais pessoas do que um conto, e desejo, do fundo do meu coração, que, dessa forma, um número grande de mulheres possa parar para pensar um pouco. Em tudo: na vida, na velhice, na solidão... nem sei quantos sentimentos posso despertar contando essa pequena história tão simples, mas verídica.
É esse justamente o meu objetivo: que vocês assistam o vídeo, que se emocionem, que pensem a respeito, que se solidarizem com essa velhinha tão simpática. Que, aliás, de hoje em diante representará a terceira idade aqui no meu blog.
E peço que comentem, que falem a respeito de seus sentimentos, que me digam o que pensam a respeito da velhice, se a temem ou se a esperam tranqüilamente. Ou se nem pensam nisso. Que me contem suas próprias histórias, ou histórias que conhecem, que tenham a ver com esse tema.
Espero que, apesar do conteúdo do vídeo ser extremamente sério, vocês possam se divertir um pouco. Abaixo do vídeo vou transcrever o texto na íntegra, caso interesse a alguém.
Bom vídeo!
Batatas
Batatas. Precisava comprar batatas. Se tivesse algumas agora, não passaria por esse apuro. Ficara esperando o neto durante toda a tarde. Viria buscá-la pra passar o fim de ano com a família. Mas... O que acontecia, que ele não aparecia? Se soubesse que estaria em casa até uma hora dessas, teria dado uma saída, até a quitanda, ao menos. Comprava algumas batatas e pronto. Fazia uma sopinha...
Voltou à cozinha. Abriu de novo a geladeira. Não era preciso muito esforço pra chegar à conclusão de que estava "a zero". As prateleiras vazias pareciam zombar dela. Fechou a geladeira, aborrecida. Podia ir até a padaria, comprar uns pãezinhos... Mas... E se o neto aparecesse, nesse meio - tempo? Iria embora, se não a encontrasse. Era isso. Se não a encontrasse, não teria paciência pra esperar. Iria embora, com certeza.
Sentou, desgostosa, na poltrona em frente à TV. Uma TV centenária, que o outro neto lhe dera. As imagens mudas, em branco e preto, não faziam sentido. Levantou-se, foi à janela. O mundo a cores era bem melhor.
Esticou o olhar pro relógio cuco, na parede. Oito e meia. Estava tarde. Talvez fosse melhor ir até o orelhão, dar uma ligada pra filha. Saber o que é que estava acontecendo... Não. Não estava acontecendo nada - disse a si mesma. O neto estava atrasado como sempre, só isso. A fome é que estava aumentando sua impaciência.
Foi à cozinha, esquentou um pouco de café. Vasculhou o armário e encontrou algumas bolachas de água e sal. Se tivesse um pouco de manteiga... Manteiga. Nunca mais comprara manteiga. Só margarina. Desde que sua pensão fora cortada pela metade, havia uma série de coisas que não fazia mais. Deixara de fazer mercado, porque o genro lhe garantia uma cesta básica. Era sozinha, não precisava de muito para viver... Mas, que diabo... - pensou. Ficar na lona desse jeito era até uma vergonha... Às vezes tinha vergonha. Não sabia ao certo de quê, não importava que estivesse só. Era uma vergonha íntima, perante si mesma. Jamais comentara isso com ninguém, mas era algo que a incomodava profundamente. Essa sensação de vergonha. Vivera toda sua vida se dedicando aos outros. Ao marido, aos filhos, aos netos... Trabalhara arduamente, durante toda a vida. Agora tinha que dividir uma mísera pensão com a segunda mulher do marido. - Coitada... - Pensou, sorrindo, nessa outra infeliz. Que faria ela com a parte que lhe cabia? Devia sentir vergonha, também...
Lavou a xícara, sacudiu a toalha no tanque, e então ouviu uma buzina. Enfim, o neto chegara. Correu à sala, fechou a janela, desligou a TV, voltou à cozinha, certificar-se de que fechara o gás, e saiu.
Na casa da filha, a bagunça era grande. Muita gente. Os filhos, genros e noras, os netos com suas esposas e alguns bisnetos. Crianças barulhentas. Comiam vorazmente, muito agitadas. Lúcia lhe deu um prato e disse que se servisse. Estava em casa, sabia disso. Sabia? - Vovó perguntou a si mesma. Não era isso o que sentia. Segurava o pesado prato de porcelana, indecisa. Lúcia montara uma mesa enorme. Havia uma variedade tão grande, que vovó não sabia ao certo o que escolher. Se comesse de tudo, com certeza passaria mal. A filha, percebendo sua angústia, arrebatou-lhe o prato da mão e começou a servi-la. Uma boa porção de salpicão, arroz com uvas-passas, farofa e perú. Não. O peito não. A carne era muito seca, entalava na garganta. Lúcia lhe cortou uma sobrecoxa e arrumou-lhe uma cadeira. Que comesse bastante, era fim de ano!
Vovó comeu demais. Talvez tivesse bebido um pouco demais, também. O genro lhe enchera por três vezes o copo de vinho. Agora estava mal. Lúcia lhe pegou pela mão e levou-a ao quarto de Jorge, o único neto solteiro. Ajudou-a com as roupas. Pronto. Um "engov" e cama. Acordaria bem. Abriu o respiro da janela, pra que se sentisse melhor.
- Boa noite. Feliz ano novo, mãe. - Saiu, batendo a porta.
Estava só de novo. Não, agora era diferente. Ouvia o ruído do pessoal, lá embaixo. Não era como quando apagava o abajur, em seu quarto, todas as noites. Não havia aquele silêncio assustador que parecia querer engoli-la. Podia relaxar. Não era preciso nem rezar... Havia gente por perto.
Em alguns minutos roncava.
O primeiro de ano fora bom, também. Ajudara Lúcia com o almoço, se fartara de comida e de companhia. Assistira TV colorida, conversara com alguns conhecidos que há tempos não via... Estava feliz. Lúcia insistiu para que ficasse até quarta. Acabou ficando. Embora tivesse consciência de que não podia ficar ali eternamente, não havia porquê voltar às pressas. Não tinha ninguém lhe esperando...
Estava só, na cozinha, aguardando que Jorge lhe chamasse. Ia levá-la pra casa. De repente, lembrou-se de que estava "a zero" em casa. Talvez no dia seguinte, à tarde, fizesse algumas compras, mas não tinha nada para o almoço... Correu os olhos pela cozinha e achou batatas, numa fruteira, ao lado do fogão. Se levasse duas ou três já seria suficiente para uma sopa. Procurou numa gaveta um saco plástico, guardou duas batatas, - duas bastavam, eram muito grandes - colocou o saco dentro da sacola de papel onde levava as roupas, e saiu. Jorge já descia, com a chave do carro na mão. Despediu-se de todos e se foi.
A casa lhe pareceu mais vazia. Era sempre assim. Jogou a sacola de roupas num canto da lavanderia, foi ao banheiro, disse "boa noite" à própria imagem, no espelho, e foi dormir.
Não quis enfrentar o quarto escuro. Acendeu o pequeno abajur, no criado-mudo. Às claras o silêncio não parecia tão assustador. Pensou nas noites que passara dormindo ao lado de Jorge. Era reconfortante estar perto de alguém. Pensou na filha. No genro. Nos netos e bisnetos. Pensou na vida. E na própria solidão.
Planejou o dia seguinte. Acordaria cedo, como sempre. Lavaria as roupas que trouxera sujas da casa da filha, faria uma sopa para o almoço... As batatas! - Lembrou. Estavam dentro da sacola de roupas, jogadas na lavanderia! Não havia mal nenhum nisso... Afinal, não estavam jogadas no meio da roupa suja... Havia colocado-as dentro de um saco plástico... Não sabia exatamente porquê, mas a idéia das batatas no meio da roupa a deixava aflita. Teve a sensação de que não dormiria bem se não as levasse para a cozinha, se não as colocasse num local apropriado. Levantou-se e, com um passo arrastado, chegou à lavanderia. Pegou a sacola de papelão, tirou de dentro dela as roupas que teria que lavar no dia seguinte e não encontrou mais nada a não ser um saco plástico vazio. Confusa, pegou o pequeno saco e então viu que estava furado. Assim como haviam entrado por um lado, as batatas haviam saído pelo outro. E, provavelmente, haviam rolado para o piso do carro de Jorge. Então se deixou dominar por uma aflição enorme. Numa fração de segundo pôde ver Jorge encontrando as batatas, no carro. Acharia estranho, as levaria para casa e comentaria com a mãe. Lúcia, imediatamente, ligaria os fatos. Chegaria à conclusão de que a mãe pegara as batatas sem avisá-la. Sentiu um mal-estar. Correu à cozinha, para sentar. Jamais poderia ter pego qualquer coisa sem pedir a permissão de Lúcia! De repente lhe ficava claro que um gesto que lhe parecera tão natural, poderia ser interpretado como... como roubo! É claro! - Pensou. Pegar algo sem o consentimento do dono era o quê? Roubo! Roubara as batatas e havia sido pega. Agora tinha que se explicar.
Voltou à cama. Olhou o relógio. Já era madrugada. Não poderia ligar agora para a filha. Assim que amanhecesse, iria à casa dos fundos, pediria para telefonar. Explicaria tudo à Lúcia. Que pegara as batatas num momento em que estava sozinha, que esquecera de lhe avisar... Pediria desculpas, havia agido mal. Passou a noite toda se revirando nos lençóis. Estava quente, e a preocupação não a deixou dormir.
De manhã, depois de um rápido banho, sem nem ao menos ter tomado um café, correu à vizinha.
- Lúcia! - Exclamou, ao ouvir a voz da filha ao telefone. Então, muito sem jeito, explicou-lhe o que acontecera.
Lúcia riu. Achou graça na preocupação da mãe. Deu-lhe até uma bronca carinhosa por ter se preocupado com tal bobagem.
Vovó desligou, com o coração aliviado. Percebeu-se trêmula, e respirou fundo, ainda meio angustiada. Agradeceu à vizinha e foi pra rua.
Durante a caminhada até a quitanda, pôde pensar com mais calma a respeito de tudo. Restou uma sensação estranha de que algo em sua vida dera errado. Mas o quitandeiro já perguntava: - Que vai querer?
- Batatas. - Vovó respondia, magoada.
Este conto faz parte da coletânea Acasos, da autora deste blog, à venda pela Internet.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
XV - Férias Selváticas
Olá! Acabaram-se minhas férias auto-impostas, e cá estou eu, cumprindo meus ciclos. Espero que você tenha entrado em 2008 com o pé direito, e que este ano te traga muitas coisas boas! Desejo, do fundo do meu coração, que você consiga viver de acordo com suas mais profundas convicções. E, se você perceber que nem ao menos sabe exatamente quais são suas convicções, meu desejo é o de que você pense profundamente sobre isso.
Foi o que fiz, no início de janeiro. Depois das festas de final de ano, e de toda aquela obrigatória euforia generalizada, veio uma calmaria gostosa, e entrei numa introspecção que me ajudou a rever tudo o que tenho feito na vida. Posso dizer que, verdadeiramente, mergulhei fundo em meus sentimentos e, mais uma vez, bati longos papos comigo mesma. E me senti super bem, porque vi que tenho estado a meu favor.
Durante os últimos anos eu vinha fazendo contatos íntimos com minha alma, que, muitas vezes, clamava por coragem, para realizar mudanças que a fariam mais feliz. Depois de conhecer “Mulheres que correm com os lobos”, vi que havia um respaldo científico para tudo aquilo em que acreditava e passei a escutar minha mulher selvagem com muito mais carinho e atenção. Como resposta, ela parece ter se expandido, se manifestando muito mais claramente, e me apoiando em decisões difíceis, mas que eu sabia que me trariam tranqüilidade. Nunca, em toda minha vida, eu havia vivido tão intensamente o que sou de fato, e isso foi muito bom! Nunca tive uma percepção tão clara do que me faz bem, e do que não me faz bem. E nunca consegui defender tão ferrenhamente meu direito de viver como gosto, estando com quem quero, fazendo as coisas que amo, adequando-me aos meus ciclos, respeitando e sendo respeitada, sem hipocrisias. Posso dizer que consegui delimitar meus territórios, que estive alerta, mais consciente e intuitiva, que falei e agi em minha própria defesa, sempre que foi necessário, que já sei a quê pertenço e, finalmente, que já estou tendo uma visão bem mais clara de quem é da minha matilha. Enfim, apesar de ter problemas, como todo mundo, nunca estive tão confortável na minha própria vida, e isso minimizou incrivelmente esses problemas. Além disso, tenho identificado cada vez mais os lados negros da minha psique, conseguindo, na maior parte das vezes, dialogar civilizadamente com eles.
Outro saldo positivo do ano foi o fato de eu ter provado a mim mesma, empiricamente, que, quando me aceito, e fico do meu lado, as pessoas que realmente valem a pena também me aceitam.
Passada a fase introspectiva, foi natural ter o desejo de criar (você se lembra da história dos três rabinos?). Estive envolvida com artesanato, confeccionando algumas peças decorativas para enfeitar a minha casa, que agora digo que é uma casa feita à mão, de acordo com essa vida feita à mão que quero ter (você entenderá melhor essa expressão quando estudarmos a história dos sapatinhos vermelhos). Fiz um abajur de passa-fita multicolorido, pintei um velho vaso e o enfeitei com flores secas, e comecei a fazer um par de quadros que ainda não consegui terminar, porque é um trabalho muito elaborado. Mas estão ficando bonitos. Decorei uma caixa de madeira com um desenho feito em alumínio, e a presenteei ao meu filho, para guardar algumas tranqueiras. Ficou bacana! E andei fazendo bijuterias, que, ao lado das revisões de texto, são minha fonte de renda mais imediata. Como sempre, não consigo fazer o óbvio. Pesquisei várias formas de moldar e colorir a cerâmica plástica, que é o material com o qual mais trabalho, porque me encanta a idéia de pegar um pedaço disforme de massa e transformá-lo numa peça de arte que fará com que alguma mulher se sinta mais bonita.
Também assisti vários filmes bons, que não havia assistido no cinema. E estive me dedicando às ilustrações de um conto que vou postar nesse blog, porque tem tudo a ver com o conteúdo dele. O nome do conto é “Batatas”, e fala sobre uma velhinha que se vê muito solitária depois de uma vida dedicando-se aos outros. Já fiz 73 ilustrações. Acho que até o final serão umas 90. Esse conto me emociona, e espero que emocione minhas leitoras também. As ilustrações darão um toque levemente divertido a uma história triste. Descobri que ilustrar pode ser incrivelmente interessante, e espero que seja uma das minhas atividades profissionais, num futuro não muito distante.
Puxa vida, quanta coisa! Se alguém tivesse me perguntado à queima-roupa o que fizera durante as férias, talvez eu não lembrasse de nada! Porque não viajei fisicamente para lugar nenhum e, no consenso geral, férias são feitas para se viajar. Mas viajei em tudo o que realmente gosto. E fico feliz por estar vivendo de acordo com o que acredito e prego, e constatar, com a minha experiência pessoal, que o que venho estudando e defendendo é real. Eu vinha, há muito tempo, recolhendo meus ossos e, durante o ano de 2007, comecei a cantar para eles.
Um último comentário: quando comecei a escrever este texto, repassei tudo o que havia escrito nesse blog. E, ao reler a descrição que Clarissa dá dessa verdadeira síndrome que acomete as mulheres modernas, a “falta de alma”, senti um prazer gostoso, de quem fez o dever de casa. Reveja estes sintomas:
“Sensações de vazio, fadiga, medo, depressão, fragilidade, bloqueio e falta de criatividade são sintomas cada vez mais freqüentes entre as mulheres modernas, assoberbadas com o acúmulo de funções na família e na vida profissional. Esse problema, no entanto, não é recente. Ele veio junto com o desenvolvimento de uma cultura que transformou a mulher numa espécie de animal doméstico. "
Você ainda está nessa? Eu, não mais! rsrsrs...
O próximo post será sobre “O Barba Azul”! E, em breve, “Batatas”, um conto ilustrado!
Beijão!
Analú
Foi o que fiz, no início de janeiro. Depois das festas de final de ano, e de toda aquela obrigatória euforia generalizada, veio uma calmaria gostosa, e entrei numa introspecção que me ajudou a rever tudo o que tenho feito na vida. Posso dizer que, verdadeiramente, mergulhei fundo em meus sentimentos e, mais uma vez, bati longos papos comigo mesma. E me senti super bem, porque vi que tenho estado a meu favor.
Durante os últimos anos eu vinha fazendo contatos íntimos com minha alma, que, muitas vezes, clamava por coragem, para realizar mudanças que a fariam mais feliz. Depois de conhecer “Mulheres que correm com os lobos”, vi que havia um respaldo científico para tudo aquilo em que acreditava e passei a escutar minha mulher selvagem com muito mais carinho e atenção. Como resposta, ela parece ter se expandido, se manifestando muito mais claramente, e me apoiando em decisões difíceis, mas que eu sabia que me trariam tranqüilidade. Nunca, em toda minha vida, eu havia vivido tão intensamente o que sou de fato, e isso foi muito bom! Nunca tive uma percepção tão clara do que me faz bem, e do que não me faz bem. E nunca consegui defender tão ferrenhamente meu direito de viver como gosto, estando com quem quero, fazendo as coisas que amo, adequando-me aos meus ciclos, respeitando e sendo respeitada, sem hipocrisias. Posso dizer que consegui delimitar meus territórios, que estive alerta, mais consciente e intuitiva, que falei e agi em minha própria defesa, sempre que foi necessário, que já sei a quê pertenço e, finalmente, que já estou tendo uma visão bem mais clara de quem é da minha matilha. Enfim, apesar de ter problemas, como todo mundo, nunca estive tão confortável na minha própria vida, e isso minimizou incrivelmente esses problemas. Além disso, tenho identificado cada vez mais os lados negros da minha psique, conseguindo, na maior parte das vezes, dialogar civilizadamente com eles.
Outro saldo positivo do ano foi o fato de eu ter provado a mim mesma, empiricamente, que, quando me aceito, e fico do meu lado, as pessoas que realmente valem a pena também me aceitam.
Passada a fase introspectiva, foi natural ter o desejo de criar (você se lembra da história dos três rabinos?). Estive envolvida com artesanato, confeccionando algumas peças decorativas para enfeitar a minha casa, que agora digo que é uma casa feita à mão, de acordo com essa vida feita à mão que quero ter (você entenderá melhor essa expressão quando estudarmos a história dos sapatinhos vermelhos). Fiz um abajur de passa-fita multicolorido, pintei um velho vaso e o enfeitei com flores secas, e comecei a fazer um par de quadros que ainda não consegui terminar, porque é um trabalho muito elaborado. Mas estão ficando bonitos. Decorei uma caixa de madeira com um desenho feito em alumínio, e a presenteei ao meu filho, para guardar algumas tranqueiras. Ficou bacana! E andei fazendo bijuterias, que, ao lado das revisões de texto, são minha fonte de renda mais imediata. Como sempre, não consigo fazer o óbvio. Pesquisei várias formas de moldar e colorir a cerâmica plástica, que é o material com o qual mais trabalho, porque me encanta a idéia de pegar um pedaço disforme de massa e transformá-lo numa peça de arte que fará com que alguma mulher se sinta mais bonita.
Também assisti vários filmes bons, que não havia assistido no cinema. E estive me dedicando às ilustrações de um conto que vou postar nesse blog, porque tem tudo a ver com o conteúdo dele. O nome do conto é “Batatas”, e fala sobre uma velhinha que se vê muito solitária depois de uma vida dedicando-se aos outros. Já fiz 73 ilustrações. Acho que até o final serão umas 90. Esse conto me emociona, e espero que emocione minhas leitoras também. As ilustrações darão um toque levemente divertido a uma história triste. Descobri que ilustrar pode ser incrivelmente interessante, e espero que seja uma das minhas atividades profissionais, num futuro não muito distante.
Puxa vida, quanta coisa! Se alguém tivesse me perguntado à queima-roupa o que fizera durante as férias, talvez eu não lembrasse de nada! Porque não viajei fisicamente para lugar nenhum e, no consenso geral, férias são feitas para se viajar. Mas viajei em tudo o que realmente gosto. E fico feliz por estar vivendo de acordo com o que acredito e prego, e constatar, com a minha experiência pessoal, que o que venho estudando e defendendo é real. Eu vinha, há muito tempo, recolhendo meus ossos e, durante o ano de 2007, comecei a cantar para eles.
Um último comentário: quando comecei a escrever este texto, repassei tudo o que havia escrito nesse blog. E, ao reler a descrição que Clarissa dá dessa verdadeira síndrome que acomete as mulheres modernas, a “falta de alma”, senti um prazer gostoso, de quem fez o dever de casa. Reveja estes sintomas:
“Sensações de vazio, fadiga, medo, depressão, fragilidade, bloqueio e falta de criatividade são sintomas cada vez mais freqüentes entre as mulheres modernas, assoberbadas com o acúmulo de funções na família e na vida profissional. Esse problema, no entanto, não é recente. Ele veio junto com o desenvolvimento de uma cultura que transformou a mulher numa espécie de animal doméstico. "
Você ainda está nessa? Eu, não mais! rsrsrs...
O próximo post será sobre “O Barba Azul”! E, em breve, “Batatas”, um conto ilustrado!
Beijão!
Analú
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
"Provocação" - Esse Deus, o Dinheiro
Nasci numa família que sempre valorizou muito a educação, a honestidade e a cultura. Apesar de passarmos, como todo mundo, por períodos de dificuldades financeiras, quase nunca se falava abertamente nisso em nossa casa. Em épocas melhores, curtíamos as regalias que podíamos ter. Em tempos de vacas magras, economizávamos.
São momentos memoráveis de nossas vidas, a chegada, em nossa casa, da Enciclopédia Barsa, para nós, um sonho de consumo, sim, mas por ser, na época, o supra-sumo do acesso ao conhecimento; e da coleção completa do Monteiro Lobato, que li e reli e me encantou a tal ponto que fez com que eu desejasse ser uma escritora, sonho que jamais me abandonou. Éramos seis filhos, e não lembro de ver nenhum de meus irmãos mais velhos desesperado para ter um carro, ou para comprar roupas de grife. Mas quando podiam, se davam ao luxo de comprar clássicos da literatura em encadernações especiais, que folheávamos com o cuidado de quem lida com uma verdadeira preciosidade.
Foi esse o legado que minha família me deixou: além da hombridade, o gosto pela cultura. Atributos que, independentemente da minha situação financeira momentânea, me acompanham sempre, muitas vezes fazem com que eu me destaque, e me ajudam a jamais me sentir infeliz ou inadequada.
Mas, é claro, sempre soube que nem todo mundo pensa da mesma forma. Parece-me que quanto mais o mundo evolui, mais distante fica esse tempo até romântico de amor ao conhecimento e a sólidos valores morais.
Casei, tive meus filhos, e a primeira vez que fiquei seriamente preocupada com a qualidade da relação que eles teriam com o dinheiro e com as mulheres foi quando participei de uma conversa entre pré-adolescentes encantados com a Feiticeira e com a Tiazinha, na época em que elas foram lançadas pelo Luciano Huck. Flagrando meia dúzia de garotos, empolgados com a extrema beleza das duas personagens, compartilharem, euforicamente, da mesma idéia de que era preciso ganhar muito dinheiro, porque sem dinheiro seriam rejeitados pelas mulheres, tentei argumentar, perguntando-lhes se eles realmente desejavam sair com uma mulher que estivesse interessada mais em seu dinheiro do que neles. A minha pergunta parecia nem tocá-los, tão obstinados estavam nessa idéia de que um homem vale o dinheiro que tem.
A partir daí, passei a observar mais atentamente essa supervalorização do dinheiro, extremamente recorrente em nossa sociedade capitalista. E a cada dia fico mais impressionada ao perceber o quanto é difícil lutar contra isso.
Encontro diariamente pessoas que têm o dinheiro como referência para tudo. Ao se referirem a alguém, citam quanto dinheiro a pessoa tem. – “O cara tem uma grana!” – é uma expressão que sempre escuto, e a que esperam que eu atribua o significado de “ele é mais do que os outros”. Não importa se o cara é trabalhador ou apenas um herdeiro sortudo. Se é honesto ou vigarista. Se usa bem o dinheiro que tem, melhorando o mundo ao seu redor, ou se é um egoísta que pensa apenas em aumentar sua fortuna, e para isso usa os métodos mais espúrios, sem o menor escrúpulo. Ele é “algo mais” porque “tem uma grana”!
Valores morais, honestidade, cultura, inteligência, sensibilidade, caráter, parecem ter perdido feio para esse Deus Dinheiro, que tudo determina e sentencia.
Um jovem que nem sabe o que é trabalho completa dezoito anos e imediatamente ganha um carro potente, que, em sua cabeça, lhe agrega um valor inestimável. Sai pelas ruas ultrapassando carrinhos mais humildes, que sofrem em subidas íngremes, sorri zombeteiramente, e acredita piamente que “é” mais do que o motorista que ficou pra trás. Como se ele fosse a potência do seu carro! Aliás, é sabido que grande parte dos homens tem uma relação tão forte com seu automóvel que pensa nele como uma extensão de si mesmo.
São infinitas as situações em que o dinheiro assume importância tão grande, que tudo o mais parece não ter valor algum. Quantas e quantas vezes já ouvi alguém dizer, argumentando contra a fidelidade a uma bela amizade, que “seu melhor amigo estava ali, no seu bolso”? Quantos relacionamentos já vi se deteriorarem pelo fato de que quem detém o poder financeiro se considera dono de todas as resoluções familiares? O que sente uma mulher que faz de tudo para que a família inteira fique bem, mas, no momento das decisões cruciais, escuta do marido que é ele que paga as contas, e por isso é ele que decide?
Há poucos dias, eu e minha família vimos uma cena, depois de um jogo de futebol, em que uma linda fã até chorava, implorando um beijo a um dos jogadores. Os homens da minha casa deram risada, porque o jogador não tinha nada de galã, e eles só conseguiam explicar o comportamento da garota como amor ao dinheiro. Realmente, o assédio das Maria-Chuteiras a jogadores é algo há muito conhecido por todos. Sempre com alguma esperança de ainda poder acreditar nas mulheres, fiquei ponderando que talvez não tivesse só a ver com o dinheiro, mas com o talento. Todos os homens riram da minha cara. E me garantiram que o foco era o dinheiro mesmo, e que se uma daquelas garotas cruzar com o mesmo jogador em qualquer rua da cidade, sem saber quem ele é nem quanto ganha, jamais vai olhar com interesse pra ele. O dinheiro faz o homem ficar bonito – era o consenso geral, entre os homens. Mas eu ainda não havia me convencido de todo.
Coincidentemente, dois dias depois, liguei a TV e naquele exato momento, num programa que nem sei qual era, duas belas mulheres davam o seguinte depoimento a uma jornalista: “Você vê dois homens, um muito bonito e outro muito feio. O muito bonito chega pra você e te convida pra tomar alguma coisa num bar qualquer, à pé. Instantaneamente, ele fica meio feio. O muito feio vem e te convida pra ir no jatinho dele pegar um sol numa praia paradisíaca, onde ele tem uma mansão. No mesmo momento, você já começa a achá-lo bonito, e logo ele parecerá um príncipe!” – Me senti tolamente ingênua, porque, elas não só pensavam realmente dessa forma, como declaravam isso publicamente, sem o menor constrangimento!
Mas a coisa vai mais longe: quando o Papa veio ao Brasil, fiquei impressionada com a comoção do povo, porque eu achava que as pessoas reagiam à sua presença como se ele fosse um santo, e eu não entendia bem essa situação, porque, para mim, o Papa é o representante da Igreja Católica, mas não é um santo. Comentei com um conhecido meu sobre essa emoção, exagerada, a meu ver, e ele me saiu com essa: - “É, mas ele tem uma grana...” - referindo-se à riqueza da Igreja Católica! Caraaaaaca! Será que Deus “tem uma Grana”, e é por isso que é tão popular?
E o aquecimento global? Quando a mídia começou a falar mais seriamente sobre o assunto, e pudemos perceber a verdadeira gravidade do problema, logo ficou evidente, pra quem pensa um pouco, que as providências teriam que ser urgentíssimas. Mas, infelizmente, quem tem interesses financeiros, não pode perceber a enorme urgência dessa situação. Governantes do mundo todo negociam pequeníssimas porcentagens de diminuição de emissão de gases de efeito estufa a longuíssimos prazos, e os que mais poluem se dão o direito de nem ao menos assinar o Protocolo de Kyoto, porque pretendem crescer muito, e poluir mais ainda! Enquanto as catástrofes crescem no mundo todo, os antídotos são extremamente lerdos, para não abalar a economia mundial. A tal da grana vai comendo tudo: injetam nossa preciosa água no lugar do petróleo que poluirá a Terra, investem na indústria bélica em vez de promover a paz, investigam outros planetas, quando não sabem nem ao menos lidar com o nosso... E não se empenham, nem ao seu dinheiro, em baratear tecnologia para a produção de energia limpa. Nós, leigos, escutamos falar em tantas possibilidades, que a impressão que temos é de que tudo pode virar energia. Mas os homens ainda se comovem profundamente cheirando uma rocha impregnada de petróleo, porque esse é o cheiro do dinheiro! Quando comento com as pessoas que as providências tinham que ser muito mais ágeis, que o mundo deveria estipular um prazo não muito longínquo para substituir totalmente a energia suja pela limpa, elas me dizem : - Você é louca! E a economia? E os prejuízos? – Talvez ainda não tenham percebido que numa Terra completamente assolada por catástrofes os lucros não resolverão grande coisa...
Há pouco tempo assisti no teatro a peça O Avarento, de Molière, com o maravilhoso Paulo Autran. Seu personagem passa a história inteira tendo o dinheiro como referência para tudo. Tudo, absolutamente tudo o que faz é em função do dinheiro. O amor não importa, os sentimentos não importam, ele poderia comer muito bem, mas come mal, se veste como um mendigo, e vive atormentado com a idéia de que lhe roubem o dinheiro, que mantém enterrado dentro de um baú, no jardim. No final da peça, todos os seus familiares vão para uma festa, e ele fica sentado, sozinho, num pequeno banco, abraçando seu baú de dinheiro. Feliz da vida!
A impressão que tenho, às vezes, é a de que vamos acabar assim: doentes e sedentos, sentados em cima de uma imensa uva-passa super-aquecida, abraçados a um baú de dinheiro e talvez assistindo pela TV uma legião de perfeitíssimas mulheres que jamais serão de ninguém, porque o dinheiro já é seu dono, se balançando incansavelmente, como as meninas do Pânico. Espero, sinceramente, estar errada.

Beijo!
Analú
São momentos memoráveis de nossas vidas, a chegada, em nossa casa, da Enciclopédia Barsa, para nós, um sonho de consumo, sim, mas por ser, na época, o supra-sumo do acesso ao conhecimento; e da coleção completa do Monteiro Lobato, que li e reli e me encantou a tal ponto que fez com que eu desejasse ser uma escritora, sonho que jamais me abandonou. Éramos seis filhos, e não lembro de ver nenhum de meus irmãos mais velhos desesperado para ter um carro, ou para comprar roupas de grife. Mas quando podiam, se davam ao luxo de comprar clássicos da literatura em encadernações especiais, que folheávamos com o cuidado de quem lida com uma verdadeira preciosidade.
Foi esse o legado que minha família me deixou: além da hombridade, o gosto pela cultura. Atributos que, independentemente da minha situação financeira momentânea, me acompanham sempre, muitas vezes fazem com que eu me destaque, e me ajudam a jamais me sentir infeliz ou inadequada.
Mas, é claro, sempre soube que nem todo mundo pensa da mesma forma. Parece-me que quanto mais o mundo evolui, mais distante fica esse tempo até romântico de amor ao conhecimento e a sólidos valores morais.
Casei, tive meus filhos, e a primeira vez que fiquei seriamente preocupada com a qualidade da relação que eles teriam com o dinheiro e com as mulheres foi quando participei de uma conversa entre pré-adolescentes encantados com a Feiticeira e com a Tiazinha, na época em que elas foram lançadas pelo Luciano Huck. Flagrando meia dúzia de garotos, empolgados com a extrema beleza das duas personagens, compartilharem, euforicamente, da mesma idéia de que era preciso ganhar muito dinheiro, porque sem dinheiro seriam rejeitados pelas mulheres, tentei argumentar, perguntando-lhes se eles realmente desejavam sair com uma mulher que estivesse interessada mais em seu dinheiro do que neles. A minha pergunta parecia nem tocá-los, tão obstinados estavam nessa idéia de que um homem vale o dinheiro que tem.
A partir daí, passei a observar mais atentamente essa supervalorização do dinheiro, extremamente recorrente em nossa sociedade capitalista. E a cada dia fico mais impressionada ao perceber o quanto é difícil lutar contra isso.
Encontro diariamente pessoas que têm o dinheiro como referência para tudo. Ao se referirem a alguém, citam quanto dinheiro a pessoa tem. – “O cara tem uma grana!” – é uma expressão que sempre escuto, e a que esperam que eu atribua o significado de “ele é mais do que os outros”. Não importa se o cara é trabalhador ou apenas um herdeiro sortudo. Se é honesto ou vigarista. Se usa bem o dinheiro que tem, melhorando o mundo ao seu redor, ou se é um egoísta que pensa apenas em aumentar sua fortuna, e para isso usa os métodos mais espúrios, sem o menor escrúpulo. Ele é “algo mais” porque “tem uma grana”!
Valores morais, honestidade, cultura, inteligência, sensibilidade, caráter, parecem ter perdido feio para esse Deus Dinheiro, que tudo determina e sentencia.
Um jovem que nem sabe o que é trabalho completa dezoito anos e imediatamente ganha um carro potente, que, em sua cabeça, lhe agrega um valor inestimável. Sai pelas ruas ultrapassando carrinhos mais humildes, que sofrem em subidas íngremes, sorri zombeteiramente, e acredita piamente que “é” mais do que o motorista que ficou pra trás. Como se ele fosse a potência do seu carro! Aliás, é sabido que grande parte dos homens tem uma relação tão forte com seu automóvel que pensa nele como uma extensão de si mesmo.
São infinitas as situações em que o dinheiro assume importância tão grande, que tudo o mais parece não ter valor algum. Quantas e quantas vezes já ouvi alguém dizer, argumentando contra a fidelidade a uma bela amizade, que “seu melhor amigo estava ali, no seu bolso”? Quantos relacionamentos já vi se deteriorarem pelo fato de que quem detém o poder financeiro se considera dono de todas as resoluções familiares? O que sente uma mulher que faz de tudo para que a família inteira fique bem, mas, no momento das decisões cruciais, escuta do marido que é ele que paga as contas, e por isso é ele que decide?
Há poucos dias, eu e minha família vimos uma cena, depois de um jogo de futebol, em que uma linda fã até chorava, implorando um beijo a um dos jogadores. Os homens da minha casa deram risada, porque o jogador não tinha nada de galã, e eles só conseguiam explicar o comportamento da garota como amor ao dinheiro. Realmente, o assédio das Maria-Chuteiras a jogadores é algo há muito conhecido por todos. Sempre com alguma esperança de ainda poder acreditar nas mulheres, fiquei ponderando que talvez não tivesse só a ver com o dinheiro, mas com o talento. Todos os homens riram da minha cara. E me garantiram que o foco era o dinheiro mesmo, e que se uma daquelas garotas cruzar com o mesmo jogador em qualquer rua da cidade, sem saber quem ele é nem quanto ganha, jamais vai olhar com interesse pra ele. O dinheiro faz o homem ficar bonito – era o consenso geral, entre os homens. Mas eu ainda não havia me convencido de todo.
Coincidentemente, dois dias depois, liguei a TV e naquele exato momento, num programa que nem sei qual era, duas belas mulheres davam o seguinte depoimento a uma jornalista: “Você vê dois homens, um muito bonito e outro muito feio. O muito bonito chega pra você e te convida pra tomar alguma coisa num bar qualquer, à pé. Instantaneamente, ele fica meio feio. O muito feio vem e te convida pra ir no jatinho dele pegar um sol numa praia paradisíaca, onde ele tem uma mansão. No mesmo momento, você já começa a achá-lo bonito, e logo ele parecerá um príncipe!” – Me senti tolamente ingênua, porque, elas não só pensavam realmente dessa forma, como declaravam isso publicamente, sem o menor constrangimento!
Mas a coisa vai mais longe: quando o Papa veio ao Brasil, fiquei impressionada com a comoção do povo, porque eu achava que as pessoas reagiam à sua presença como se ele fosse um santo, e eu não entendia bem essa situação, porque, para mim, o Papa é o representante da Igreja Católica, mas não é um santo. Comentei com um conhecido meu sobre essa emoção, exagerada, a meu ver, e ele me saiu com essa: - “É, mas ele tem uma grana...” - referindo-se à riqueza da Igreja Católica! Caraaaaaca! Será que Deus “tem uma Grana”, e é por isso que é tão popular?
E o aquecimento global? Quando a mídia começou a falar mais seriamente sobre o assunto, e pudemos perceber a verdadeira gravidade do problema, logo ficou evidente, pra quem pensa um pouco, que as providências teriam que ser urgentíssimas. Mas, infelizmente, quem tem interesses financeiros, não pode perceber a enorme urgência dessa situação. Governantes do mundo todo negociam pequeníssimas porcentagens de diminuição de emissão de gases de efeito estufa a longuíssimos prazos, e os que mais poluem se dão o direito de nem ao menos assinar o Protocolo de Kyoto, porque pretendem crescer muito, e poluir mais ainda! Enquanto as catástrofes crescem no mundo todo, os antídotos são extremamente lerdos, para não abalar a economia mundial. A tal da grana vai comendo tudo: injetam nossa preciosa água no lugar do petróleo que poluirá a Terra, investem na indústria bélica em vez de promover a paz, investigam outros planetas, quando não sabem nem ao menos lidar com o nosso... E não se empenham, nem ao seu dinheiro, em baratear tecnologia para a produção de energia limpa. Nós, leigos, escutamos falar em tantas possibilidades, que a impressão que temos é de que tudo pode virar energia. Mas os homens ainda se comovem profundamente cheirando uma rocha impregnada de petróleo, porque esse é o cheiro do dinheiro! Quando comento com as pessoas que as providências tinham que ser muito mais ágeis, que o mundo deveria estipular um prazo não muito longínquo para substituir totalmente a energia suja pela limpa, elas me dizem : - Você é louca! E a economia? E os prejuízos? – Talvez ainda não tenham percebido que numa Terra completamente assolada por catástrofes os lucros não resolverão grande coisa...
Há pouco tempo assisti no teatro a peça O Avarento, de Molière, com o maravilhoso Paulo Autran. Seu personagem passa a história inteira tendo o dinheiro como referência para tudo. Tudo, absolutamente tudo o que faz é em função do dinheiro. O amor não importa, os sentimentos não importam, ele poderia comer muito bem, mas come mal, se veste como um mendigo, e vive atormentado com a idéia de que lhe roubem o dinheiro, que mantém enterrado dentro de um baú, no jardim. No final da peça, todos os seus familiares vão para uma festa, e ele fica sentado, sozinho, num pequeno banco, abraçando seu baú de dinheiro. Feliz da vida!
A impressão que tenho, às vezes, é a de que vamos acabar assim: doentes e sedentos, sentados em cima de uma imensa uva-passa super-aquecida, abraçados a um baú de dinheiro e talvez assistindo pela TV uma legião de perfeitíssimas mulheres que jamais serão de ninguém, porque o dinheiro já é seu dono, se balançando incansavelmente, como as meninas do Pânico. Espero, sinceramente, estar errada.

Beijo!
Analú
domingo, 2 de dezembro de 2007
XIV - Mais Uma Forma de Fazer Contato Com Sua Alma - "O Capote Expiatório"
Ao longo de “Mulheres que correm...”, por inúmeras vezes, Clarissa insiste em
que usemos a arte para entrar em contato com nossa alma, para manifestarmos o que temos de melhor em nós. São verdadeiras “chamadas” que nos despertam instantaneamente uma enorme vontade de nos dedicarmos à arte com que mais nos identificamos. Você gosta de escrever? – ela pergunta. E encoraja: - pegue lápis e papel, e escreva! O que você gosta de fazer? Faça! Vá desenhar, pintar, esculpir, bordar, tocar, cantar, mas vá! Crie, transforme essa maravilhosa energia criadora que você tem dentro de você em algo que possa ser lido, visto, ouvido, apreciado, criticado! É sempre altamente gratificante! A sensação que temos depois de criar algo de que gostamos nos preenche de tal forma, que, por algum tempo, parece que não precisamos de mais nada. Estamos ancoradas em nós mesmas. Se o que sentimos em relação ao que criamos é positivo, a crítica alheia não importa. “Dane-se”- é o que penso quase sempre quando sinto que escrevi algo muito bom, mas alguém insiste em achar defeitos. Esse sentimento é o exato oposto daquele que já citei, que nos acomete depois de passarmos um dia inteiro à la zumbi, servindo aos outros e nos deixando de lado. Aquele imenso vazio transforma-se numa maravilhosa plenitude.
Além disso, o trabalho artesanal, como já comentei na primeira parte desse post, faz com que você se interiorize, e se o tema do trabalho for a sua própria vida, então você estará, como La Loba, percorrendo estradas e leitos secos de rios, e aposto que voltará com um bom feixe de ossos sobre os ombros!
Como estávamos conversando sobre as formas de recolher ossos, considero que caiba aqui subverter novamente a ordem dos textos do livro, para sugerir mais uma, baseada num relato que Clarissa dá no décimo terceiro capítulo - Marcas de Combate: A participação no Clã das Cicatrizes.
Em seu relato, Clarissa conta que, às vezes, ensina as mulheres com quem está trabalhando a fazerem um capote expiatório, de tecido ou de algum outro material. Ela explica: “Um capote expiatório é um casaco que descreve em detalhes, pintados ou escritos, e com todo tipo de coisas costuradas ou pregadas nele, os insultos que a mulher sofreu na sua vida - todas as ofensas, calúnias, traumas, feridas, cicatrizes. É a sua afirmação da experiência da mulher de ser transformada em bode expiatório. Ele é de extrema utilidade para a descrição de todas as mágoas, baques e golpes da vida da mulher.”
A princípio, Clarissa fez um capote para si mesma. Diz que ficou pesadíssimo, tantas as coisas que fixou nele. E que sua intenção inicial era incinerá-lo, quando estivesse pronto, para que, com ele, sua antiga fragilidade também fosse incinerada. No entanto, ela pendurou o casaco no teto do corredor e, ao passar por ele, em vez de se sentir mal, sentia-se extremamente bem, porque havia sobrevivido a tudo aquilo, e era admirável o fato de estar “andando inabalável, cantando, criando e abanando o rabo”. O mesmo acontecia com suas pacientes. Elas nunca queriam destruir seus capotes expiatórios, ou mantos de combate, depois de prontos, porque eles eram a prova de sua resistência, derrotas e vitórias. Clarissa compara esses capotes aos hieróglifos que o povo lakota pintava em peles de animais para registrar os acontecimentos do inverno e aos códices de registro dos grandes eventos das tribos dos povos náuatle, maia e egípcio. Se pergunta o que as netas e bisnetas das donas desses capotes pensarão, ao ver as vidas dessas mulheres assim registradas, e fica desejando que lhes expliquem, porque ali estão suas mais difíceis opções. O capote expiatório e a intenção inicial de Clarissa, de queimá-lo, me lembrou alguns rituais japoneses em que escrevemos num papel tudo aquilo de que queremos nos livrar, como mágoas ou remorsos, e depois o queimamos, orando.
Minha sugestão, baseada nesse relato de Clarissa, é de que você não fique só pensando. Faça seu capote expiatório, usando a arte que tenha mais a ver com você. Adapte-o ao seu bel-prazer. Sei que quando a coisa começa a ficar meio complicada, a tendência é “deixar prá lá”, então, vamos pelo caminho mais fácil. Se você não é muito afeita a costurar, ou lidar com tecidos, mas gosta de desenhar, desenhe! Pegue uma folha de cartolina, algumas canetas hidrocor, ou o material de que goste mais, desenhe o capote, limpo, e então comece a lembrar dos momentos cruciais da sua vida. Na minha opinião, já que você já sabe que a intenção não é necessariamente queimá-lo, mas orgulhar-se dele, acho que podemos ir mais longe: faça um verdadeiro mapeamento de todos os momentos importantes da sua vida, não apenas daqueles em que sofreu ou foi sacrificada, mas também daqueles em que foi muito feliz, em que se sentiu realmente viva. Você pode descrever cada momento desses num pequeno post-it e grudá-lo ao desenho do capote. Se gosta de escrever, escreva! Essa catarse você terá de fazer da forma que achar melhor. No meu caso, ao recolher tudo o que já havia escrito, percebi que passara toda a minha vida fazendo a minha. Em ordem cronológica, ali estava tudo. E eu, pessoalmente, também jamais tive vontade de queimar meus textos, mas sempre me orgulhei deles e, relendo-os, sinto-me realmente, forte, porque vejo que sobrevivi, exatamente como Clarissa descreve.
Mas, nessa atividade, há algo que considero tão ou mais importante do que simplesmente lembrar e registrar. Não faça isso com pressa. Não se imponha um prazo para terminá-la. A própria Clarissa diz que pode-se demorar um dia ou meses para terminar um trabalho desses. Acredito que seja extremamente importante, a cada registro que você fizer, você realmente lembrar porquê aquilo, naquela ocasião, te causou tanto desgosto ou alegria. E como você vivenciou isso, como curtiu essa alegria ou como livrou-se da dor. Que crenças você tinha, que fizeram com que o acontecimento fosse tão traumático? De onde você tirou forças para reagir? Que estratégia usou para superar a situação? E, depois de superá-la, como se sentiu? Hoje, quando se recorda, o que pensa disso? Se a situação se repetisse, no seu contexto atual, reagiria diferente? Não sofreria tanto? Sairia dela da mesma forma? Ou ela já representaria uma “bobagem”, com a cabeça que você tem hoje? Se você achar interessante, registre num caderno, ou num arquivo, todas essas impressões. Você estará escrevendo a história da sua vida; mais do que isso, estará compreendendo essa história. E, através dessa compreensão, acredito que poderá escrever uma história mais feliz daqui pra frente.
Outra coisa tremendamente importante: você conseguirá captar se realmente tudo em sua vida foi resolvido. Ou se você pulou algumas etapas, escondeu sujeiras sob o tapete, “fingiu” ter engolido coisas que, na verdade, apenas está mascando, como um chiclete velho que já causa engulhos, mas que você não sabe onde jogar.
Essa é a hora pra você começar a resolver tudo isso. Resgate as etapas perdidas, viva o que não foi vivido, levante o tapete, encare essa sujeira e varra-a para o lixo, cuspa esse chiclete, você não precisa engolir isso! Faça uma limpeza na sua vida. Chore rios de lágrimas, se for preciso, mas, como diz Clarissa, essas lágrimas vão desencalhar do meio das pedras o barco que carrega a vida da sua alma, e vão carregá-lo para um lugar novo, um lugar melhor. Tenha essa coragem. Isso é imprescindível. Bom trabalho!
Beijo!
Analú
que usemos a arte para entrar em contato com nossa alma, para manifestarmos o que temos de melhor em nós. São verdadeiras “chamadas” que nos despertam instantaneamente uma enorme vontade de nos dedicarmos à arte com que mais nos identificamos. Você gosta de escrever? – ela pergunta. E encoraja: - pegue lápis e papel, e escreva! O que você gosta de fazer? Faça! Vá desenhar, pintar, esculpir, bordar, tocar, cantar, mas vá! Crie, transforme essa maravilhosa energia criadora que você tem dentro de você em algo que possa ser lido, visto, ouvido, apreciado, criticado! É sempre altamente gratificante! A sensação que temos depois de criar algo de que gostamos nos preenche de tal forma, que, por algum tempo, parece que não precisamos de mais nada. Estamos ancoradas em nós mesmas. Se o que sentimos em relação ao que criamos é positivo, a crítica alheia não importa. “Dane-se”- é o que penso quase sempre quando sinto que escrevi algo muito bom, mas alguém insiste em achar defeitos. Esse sentimento é o exato oposto daquele que já citei, que nos acomete depois de passarmos um dia inteiro à la zumbi, servindo aos outros e nos deixando de lado. Aquele imenso vazio transforma-se numa maravilhosa plenitude.
Além disso, o trabalho artesanal, como já comentei na primeira parte desse post, faz com que você se interiorize, e se o tema do trabalho for a sua própria vida, então você estará, como La Loba, percorrendo estradas e leitos secos de rios, e aposto que voltará com um bom feixe de ossos sobre os ombros!
Como estávamos conversando sobre as formas de recolher ossos, considero que caiba aqui subverter novamente a ordem dos textos do livro, para sugerir mais uma, baseada num relato que Clarissa dá no décimo terceiro capítulo - Marcas de Combate: A participação no Clã das Cicatrizes.
Em seu relato, Clarissa conta que, às vezes, ensina as mulheres com quem está trabalhando a fazerem um capote expiatório, de tecido ou de algum outro material. Ela explica: “Um capote expiatório é um casaco que descreve em detalhes, pintados ou escritos, e com todo tipo de coisas costuradas ou pregadas nele, os insultos que a mulher sofreu na sua vida - todas as ofensas, calúnias, traumas, feridas, cicatrizes. É a sua afirmação da experiência da mulher de ser transformada em bode expiatório. Ele é de extrema utilidade para a descrição de todas as mágoas, baques e golpes da vida da mulher.”
A princípio, Clarissa fez um capote para si mesma. Diz que ficou pesadíssimo, tantas as coisas que fixou nele. E que sua intenção inicial era incinerá-lo, quando estivesse pronto, para que, com ele, sua antiga fragilidade também fosse incinerada. No entanto, ela pendurou o casaco no teto do corredor e, ao passar por ele, em vez de se sentir mal, sentia-se extremamente bem, porque havia sobrevivido a tudo aquilo, e era admirável o fato de estar “andando inabalável, cantando, criando e abanando o rabo”. O mesmo acontecia com suas pacientes. Elas nunca queriam destruir seus capotes expiatórios, ou mantos de combate, depois de prontos, porque eles eram a prova de sua resistência, derrotas e vitórias. Clarissa compara esses capotes aos hieróglifos que o povo lakota pintava em peles de animais para registrar os acontecimentos do inverno e aos códices de registro dos grandes eventos das tribos dos povos náuatle, maia e egípcio. Se pergunta o que as netas e bisnetas das donas desses capotes pensarão, ao ver as vidas dessas mulheres assim registradas, e fica desejando que lhes expliquem, porque ali estão suas mais difíceis opções. O capote expiatório e a intenção inicial de Clarissa, de queimá-lo, me lembrou alguns rituais japoneses em que escrevemos num papel tudo aquilo de que queremos nos livrar, como mágoas ou remorsos, e depois o queimamos, orando.
Minha sugestão, baseada nesse relato de Clarissa, é de que você não fique só pensando. Faça seu capote expiatório, usando a arte que tenha mais a ver com você. Adapte-o ao seu bel-prazer. Sei que quando a coisa começa a ficar meio complicada, a tendência é “deixar prá lá”, então, vamos pelo caminho mais fácil. Se você não é muito afeita a costurar, ou lidar com tecidos, mas gosta de desenhar, desenhe! Pegue uma folha de cartolina, algumas canetas hidrocor, ou o material de que goste mais, desenhe o capote, limpo, e então comece a lembrar dos momentos cruciais da sua vida. Na minha opinião, já que você já sabe que a intenção não é necessariamente queimá-lo, mas orgulhar-se dele, acho que podemos ir mais longe: faça um verdadeiro mapeamento de todos os momentos importantes da sua vida, não apenas daqueles em que sofreu ou foi sacrificada, mas também daqueles em que foi muito feliz, em que se sentiu realmente viva. Você pode descrever cada momento desses num pequeno post-it e grudá-lo ao desenho do capote. Se gosta de escrever, escreva! Essa catarse você terá de fazer da forma que achar melhor. No meu caso, ao recolher tudo o que já havia escrito, percebi que passara toda a minha vida fazendo a minha. Em ordem cronológica, ali estava tudo. E eu, pessoalmente, também jamais tive vontade de queimar meus textos, mas sempre me orgulhei deles e, relendo-os, sinto-me realmente, forte, porque vejo que sobrevivi, exatamente como Clarissa descreve.
Mas, nessa atividade, há algo que considero tão ou mais importante do que simplesmente lembrar e registrar. Não faça isso com pressa. Não se imponha um prazo para terminá-la. A própria Clarissa diz que pode-se demorar um dia ou meses para terminar um trabalho desses. Acredito que seja extremamente importante, a cada registro que você fizer, você realmente lembrar porquê aquilo, naquela ocasião, te causou tanto desgosto ou alegria. E como você vivenciou isso, como curtiu essa alegria ou como livrou-se da dor. Que crenças você tinha, que fizeram com que o acontecimento fosse tão traumático? De onde você tirou forças para reagir? Que estratégia usou para superar a situação? E, depois de superá-la, como se sentiu? Hoje, quando se recorda, o que pensa disso? Se a situação se repetisse, no seu contexto atual, reagiria diferente? Não sofreria tanto? Sairia dela da mesma forma? Ou ela já representaria uma “bobagem”, com a cabeça que você tem hoje? Se você achar interessante, registre num caderno, ou num arquivo, todas essas impressões. Você estará escrevendo a história da sua vida; mais do que isso, estará compreendendo essa história. E, através dessa compreensão, acredito que poderá escrever uma história mais feliz daqui pra frente.
Outra coisa tremendamente importante: você conseguirá captar se realmente tudo em sua vida foi resolvido. Ou se você pulou algumas etapas, escondeu sujeiras sob o tapete, “fingiu” ter engolido coisas que, na verdade, apenas está mascando, como um chiclete velho que já causa engulhos, mas que você não sabe onde jogar.
Essa é a hora pra você começar a resolver tudo isso. Resgate as etapas perdidas, viva o que não foi vivido, levante o tapete, encare essa sujeira e varra-a para o lixo, cuspa esse chiclete, você não precisa engolir isso! Faça uma limpeza na sua vida. Chore rios de lágrimas, se for preciso, mas, como diz Clarissa, essas lágrimas vão desencalhar do meio das pedras o barco que carrega a vida da sua alma, e vão carregá-lo para um lugar novo, um lugar melhor. Tenha essa coragem. Isso é imprescindível. Bom trabalho!
Beijo!
Analú
domingo, 11 de novembro de 2007
XIII - Um Pequeno Conto - "Vida Nova" - Você já viveu algo parecido?
Sei que havia prometido que o próximo post seria sobre o “Capote Expiatório”, mas andei relendo alguns textos dos meus livros, e um deles tem tanto a ver com essa questão do “voltar pra casa”, do interiorizar-se, que achei que caberia muito bem aqui para exemplificar a imensa necessidade que uma mulher tem de ter alguns momentos consigo mesma, principalmente nas fases em que o mundo objetivo está tirando demais dela. Nesse pequeno conto, que faz parte da minha coletânea “Acasos”, a protagonista elabora uma “manobra” dentro do seu dia-a-dia super agitado, para ter alguns momentos de paz.
Leia, e veja se você se identifica com esse tipo de situação. Se puder nos contar quais são suas próprias "estratégias", tenho certeza de que seu depoimento poderá ajudar muita gente!
Vida Nova
O espelho reflete uma silhueta pálida, cansada. Um corpo imóvel, relaxado, branco. Longos cabelos negros, chegando à cintura, parecem pesar demais para o pescoço tão fino. Os seios fartos, de bicos muito grandes, cheios de leite. O ventre ainda inchado. Ela se olha, quase sem se ver. Não a agrada a própria aparência. Suspira. Liga o chuveiro, rapidamente. Entra no banho. A água lhe alivia o cansaço. Fecha os olhos, sente os pingos nos lábios. Serão vinte minutos. Vinte minutos pra si mesma. Nem pode crer. Ainda não relaxou de todo, esperando qualquer chamado. Habituou-se... Esses minutos devem ser aproveitados, curtidos. Muito xampu, condicionador, sabonete perfumado. Vai fingir que não escuta o marido chamar, o filho maior batendo à porta, o bebê chorando. Que se virem. Ao menos por vinte minutos num dia... Abre totalmente a torneira, sentindo no peito o jato frio. Arrepia-se. Fecha, e sai pingando pelo banheiro. Enrola os cabelos numa toalha, joga outra atrás do pescoço. Sente o hidratante umedecendo o corpo todo. Está com a barriga flácida, a pele ainda ressentida da gravidez. Ficou imensa... Ouve o choro do pequeno, ao longe. Quase hora de mamar... Podiam pegá-lo, ao menos. A panela de pressão faz um barulho enorme... Será que ninguém sabe que é preciso abaixar o fogo? Passa o largo pente de madeira pelos fios negros, ensopados. O espelho agora reflete uma palidez limpa, e isso a agrada mais. Já tem a expressão mais descansada, ensaia sorrir de prazer. Está fresca. De um frescor que durará apenas alguns minutos, mas tudo bem. Passa um brilho rosado nos lábios, e faz biquinho, flertando consigo mesma. A TV está ligada no volume máximo. Será que são surdos? É o programa de esportes. O telefone toca insistentemente. O marido grita ao filho que atenda. - É pra mãe! - Assim fica impossível se alienar... Está pronta, e passaram-se apenas quinze dos vinte minutos com que se presenteia todo dia. Que fazer dos outros cinco? Não deve desperdiçá-los. Olha em volta, não há livro algum pra ler. Senta sobre a tampa do vaso sanitário, encosta a cabeça no azulejo frio. Fecha os olhos. Conta até sessenta. Mais uma vez. E mais uma. Faltam só dois minutos. Cochila. Acorda, sobressaltada. Batem à porta.
- Tem roupa pro tintureiro?
Ergue-se, assustada.
- Não!
Seus vinte minutos se foram. É o limite. Mais que isso, seria luxo excessivo. Nem tem tempo de abrir a porta, porque o marido já o fez. Tem o hábito de abri-la por fora, com a chave do carro. Tão respeitador... O filho despenca banheiro adentro, desesperado pra fazer xixi. O bebê chora. Ela corre, pra lhe pegar. Se veste rapidamente. Dispensa o tintureiro. Desliga o fogo. Tira o fone do gancho. Senta-se em frente à TV, e coloca o bebê no peito. E tenta ainda se manter um pouco alienada, enquanto o bebê mama e o marido, inconsolável, lhe pergunta - "Por quê?, meu Deus! Por quê tem que demorar tanto no banho?"
Não vai lhe responder...
Beijo!
Analú
Leia, e veja se você se identifica com esse tipo de situação. Se puder nos contar quais são suas próprias "estratégias", tenho certeza de que seu depoimento poderá ajudar muita gente!
Vida Nova
O espelho reflete uma silhueta pálida, cansada. Um corpo imóvel, relaxado, branco. Longos cabelos negros, chegando à cintura, parecem pesar demais para o pescoço tão fino. Os seios fartos, de bicos muito grandes, cheios de leite. O ventre ainda inchado. Ela se olha, quase sem se ver. Não a agrada a própria aparência. Suspira. Liga o chuveiro, rapidamente. Entra no banho. A água lhe alivia o cansaço. Fecha os olhos, sente os pingos nos lábios. Serão vinte minutos. Vinte minutos pra si mesma. Nem pode crer. Ainda não relaxou de todo, esperando qualquer chamado. Habituou-se... Esses minutos devem ser aproveitados, curtidos. Muito xampu, condicionador, sabonete perfumado. Vai fingir que não escuta o marido chamar, o filho maior batendo à porta, o bebê chorando. Que se virem. Ao menos por vinte minutos num dia... Abre totalmente a torneira, sentindo no peito o jato frio. Arrepia-se. Fecha, e sai pingando pelo banheiro. Enrola os cabelos numa toalha, joga outra atrás do pescoço. Sente o hidratante umedecendo o corpo todo. Está com a barriga flácida, a pele ainda ressentida da gravidez. Ficou imensa... Ouve o choro do pequeno, ao longe. Quase hora de mamar... Podiam pegá-lo, ao menos. A panela de pressão faz um barulho enorme... Será que ninguém sabe que é preciso abaixar o fogo? Passa o largo pente de madeira pelos fios negros, ensopados. O espelho agora reflete uma palidez limpa, e isso a agrada mais. Já tem a expressão mais descansada, ensaia sorrir de prazer. Está fresca. De um frescor que durará apenas alguns minutos, mas tudo bem. Passa um brilho rosado nos lábios, e faz biquinho, flertando consigo mesma. A TV está ligada no volume máximo. Será que são surdos? É o programa de esportes. O telefone toca insistentemente. O marido grita ao filho que atenda. - É pra mãe! - Assim fica impossível se alienar... Está pronta, e passaram-se apenas quinze dos vinte minutos com que se presenteia todo dia. Que fazer dos outros cinco? Não deve desperdiçá-los. Olha em volta, não há livro algum pra ler. Senta sobre a tampa do vaso sanitário, encosta a cabeça no azulejo frio. Fecha os olhos. Conta até sessenta. Mais uma vez. E mais uma. Faltam só dois minutos. Cochila. Acorda, sobressaltada. Batem à porta.
- Tem roupa pro tintureiro?
Ergue-se, assustada.
- Não!
Seus vinte minutos se foram. É o limite. Mais que isso, seria luxo excessivo. Nem tem tempo de abrir a porta, porque o marido já o fez. Tem o hábito de abri-la por fora, com a chave do carro. Tão respeitador... O filho despenca banheiro adentro, desesperado pra fazer xixi. O bebê chora. Ela corre, pra lhe pegar. Se veste rapidamente. Dispensa o tintureiro. Desliga o fogo. Tira o fone do gancho. Senta-se em frente à TV, e coloca o bebê no peito. E tenta ainda se manter um pouco alienada, enquanto o bebê mama e o marido, inconsolável, lhe pergunta - "Por quê?, meu Deus! Por quê tem que demorar tanto no banho?"
Não vai lhe responder...
Beijo!
Analú
terça-feira, 6 de novembro de 2007
XII - Como Recolher Ossos? (Ou: Algumas Formas de Fazer Contato Com Sua Alma)
A princípio, só o fato de ler as histórias e pensar um pouco sobre elas já é recolher ossos. Naturalmente elas vão te reportar a situações que você viveu, às saídas que você achou para os seus problemas, a sentimentos que você nem ao menos compreendeu, a emoções que você sepultou. Lendo as histórias e pensando sobre elas você vai se “reconstruindo”, e tem a chance de relembrar do que te faz sentir-se viva. E de aprender a reagir de forma diferente em situações que te machucam, não se machucando mais ainda. Mais do que isso, tem a chance de identificar quais são essas situações, porque, muitas vezes, varamos nossos dias tão envolvidas em tarefas rotineiras obrigatórias, que “passamos por cima” de nossos próprios sentimentos. Seguimos, como máquinas, “à la zumbi”, como diz Clarissa, atendendo às necessidades de todos e negligenciando as nossas, e nem temos tempo de avaliar, ou de sentir profundamente o que estamos sentindo. Talvez seja por isso que, muitas vezes, repentinamente, uma palavra torta, um olhar enviesado, uma tola malcriadeza de filhos adolescentes tem um efeito bombástico, detonando em nós crises de choro que surpreendem a todos que estejam nos observando. “Afinal, não era motivo pra tanto...”
É claro que mesmo um observador desatento pode perceber, nesses momentos, que você está se rebelando por tudo o que tem passado, não apenas pelo que aconteceu naquele instante.
Lembro-me de uma situação que vivi em que ficou mais do que evidente que minha reação exagerada a uma bobagem momentânea na verdade foi uma explosão de sentimentos represados, que se aproveitou de um pequeno detonador para poder acontecer.
Meus dois filhos estavam numa idade difícil e eu vinha encontrando dificuldade para que me escutassem. Meu relacionamento com meu marido sempre foi complicado. Eu me abandonara, cuidando de tudo e de todos, e tinha pouquíssimos momentos de prazer. Não ficava comigo mesma nunca. Os meninos tinham mania de brincar com uma mini bola de futebol muito leve e macia em minha sala, que não é nada grande. Aquilo me irritava profundamente, mas eles eram surdos aos meus pedidos de que parassem. Certo dia, eu estava atravessando a sala, e, do corredor lateral, que dá acesso à cozinha, a pequena bola veio com toda velocidade e bateu bem no meio da minha testa. Claro que por ser inofensiva, não me machucou, mas me pareceu uma agressão tão grande, por ser a gota que faltava para que o copo transbordasse, que me pus a chorar como se estivesse gravemente ferida. Os meninos ficaram, a princípio, apavorados, mas quando perceberam que nada real havia acontecido, acabaram rindo de mim, sem compreender o exagero da minha reação. Mais tarde contaram ao pai o escândalo que eu havia feito por algo tão tolo!
Uma crise de choro detonada por qualquer motivo sempre traz junto as lembranças de nossas frustrações, de nossos desejos não realizados, de nossos sentimentos de auto-piedade, e de tudo aquilo que engavetamos para prosseguir em nosso dia-a-dia sem maiores abalos ou rupturas.
Durante minha infância e adolescência, enquanto morei na casa de meus pais, lembro-me que minha mãe sempre interpretava minhas crises de choro como um sinal de que “eu não estava normal”, e isso me magoava profundamente, porque eu sentia que estava apenas extravasando sentimentos que não pudera manifestar de outra forma, o que me ajudava a me conhecer. Mas isso sempre era motivo de críticas.
Depois de adulta, descobri que conseguir expressar os sentimentos é altamente saudável, funcionando, inclusive, como um preventivo contra a depressão. Uma tristeza vivida não se transforma em depressão. Cumpre seu ciclo, e se vai. E percebi com tanta clareza o grande serviço que essas crises de choro me prestavam, trazendo à tona sentimentos profundos, que aprendi até mesmo a manipulá-las, usando algum detonador que eu sabia que surtiria efeito. Muitas vezes, querendo me livrar de alguma angústia que a mim mesma não estava clara, fui até uma locadora de vídeos e procurei algum filme que sabia que mexeria com meus sentimentos. Assisti sozinha, à vontade. Era fatal. O filme retratava situações que me reportavam à minha própria vida, alguma cena mais emocionante me trazia lágrimas aos olhos e, quando percebia, já estava fazendo uma verdadeira catarse da minha angústia. Junto com o choro vinha tudo, e eu aproveitava a oportunidade para encarar minhas frustrações de frente e tentar descobrir formas de saná-las. Momentos em que choro são momentos em que posso dizer que converso com minha alma. Ou que recolho ossos, para depois tentar encontrar que música cantarei para reanimar meu esqueleto já montado.
Outra forma de recolher ossos é criar, dedicar-se ao que mais gosta, produzir arte, seja ela qual for. No meu caso, sei que escrever é a chave. Você tem que descobrir o seu próprio caminho. Dedicar-se a algo de todo coração, entregar-se à tarefa de corpo e alma, é um ato de introspecção que, com certeza, te colocará em contato com você mesma.
Mulheres sabem disso intuitivamente. Desde muito pequenas há atividades que despertam nossa curiosidade, nos atraem e nos encantam, sem que fiquemos racionalizando muito a esse respeito. Por um longo período, quando eu ainda era uma criança, um de meus irmãos montou uma fábrica de bolsas e cintos de couro no salão de nossa casa. Eu e minhas irmãs simplesmente enlouquecíamos olhando os materiais, catando sobras e inventando nossos próprios acessórios! A sensação de ter criado com nossas próprias mãos peças que depois até fariam sucesso entre nossas amigas era algo nem de longe comparável a comprar um acessório pronto, em qualquer loja! Muitas mulheres que conheço usam, intuitivamente, o artesanato como uma forma de terapia, mesmo que com isso não ganhem qualquer dinheiro. Estar totalmente absorvida numa atividade de que gostamos muito é uma das formas de “voltar pra casa”, reencontrar-se consigo mesma.
Há pouco tempo vi uma entrevista de Maria Rita, a filha de Elis Regina, no programa do Serginho Groissman, onde ela relatou, com muita simplicidade, que, desde que engravidou de seu filho, há três anos, faz e desfaz um pequeno pedaço de crochê, sem o objetivo de terminar o trabalho, apenas por fazer. Interessante que ao falar sobre isso ela parecia não saber expressar exatamente o porquê da coisa, e talvez ela mesma achasse “esquisita” tal dedicação a algo que nunca se transformaria em nada. Acredito que toda mulher saiba o que é isso. Quem aprendeu, desde cedo, a tricotar ou crochetar, sabe o quanto é prazeroso enquanto estamos totalmente envolvidas com nossas agulhas e linhas, vendo o movimento de nossas mãos fazer aquele pequeno pedaço de arte crescer! Tão prazeroso, que, muitas vezes, pouco importa se o resultado final será bom ou não! Ao assistir essa entrevista lembrei das inúmeras blusas de lã que comecei a tricotar no começo do inverno, para, com a chegada do verão, acabar dando aquele pedaço de blusa para alguém que quisesse terminá-la! E de um pedaço de tricô que fiquei tricotando e desmanchando enquanto ficava ao lado do meu pai, em seu último mês de vida, dentro de um hospital. E da enorme quantidade de caixinhas de madeira que comprei e decorei com o intuito de vender, sem nunca conseguir, o que acabava não me frustrando, porque, no fundo, sabia que estava preservando a saúde da minha psique, fazendo algo de que gostava. E tantas coisas mais...
Aquilo de que você gosta a ponto se envolver e esquecer-se de tudo o mais por algum tempo; aquilo que te faz se interiorizar, ficar totalmente absorvida e que você percebe que te “reabastece” para enfrentar novamente suas atividades rotineiras, merece sua total atenção.
Clarissa diz que “voltar pra casa” é fundamental para sua saúde física e mental. E que deve ser algo disciplinado, cuja freqüência será determinada pelo seu ritmo de vida. Você deve sentir quantas vezes por semana, ou por dia, deve parar para se reabastecer. E esse deve ser um momento respeitado por todos. Você precisa poder pegar suas coisas, ir para o seu canto, dizer “tchau, estou indo”, e as pessoas precisam saber o que isso significa. Que você quer estar consigo mesma e quer que a respeitem. Logo todos notarão que você volta de lá bem melhor, e ficarão felizes com isso.
No próximo post vou falar sobre “O Capote Expiatório”, um relato de Clarissa que me inspirou a sugerir a você uma outra forma de “remontar seu esqueleto”.
Beijão!
Analú
É claro que mesmo um observador desatento pode perceber, nesses momentos, que você está se rebelando por tudo o que tem passado, não apenas pelo que aconteceu naquele instante.
Lembro-me de uma situação que vivi em que ficou mais do que evidente que minha reação exagerada a uma bobagem momentânea na verdade foi uma explosão de sentimentos represados, que se aproveitou de um pequeno detonador para poder acontecer.
Meus dois filhos estavam numa idade difícil e eu vinha encontrando dificuldade para que me escutassem. Meu relacionamento com meu marido sempre foi complicado. Eu me abandonara, cuidando de tudo e de todos, e tinha pouquíssimos momentos de prazer. Não ficava comigo mesma nunca. Os meninos tinham mania de brincar com uma mini bola de futebol muito leve e macia em minha sala, que não é nada grande. Aquilo me irritava profundamente, mas eles eram surdos aos meus pedidos de que parassem. Certo dia, eu estava atravessando a sala, e, do corredor lateral, que dá acesso à cozinha, a pequena bola veio com toda velocidade e bateu bem no meio da minha testa. Claro que por ser inofensiva, não me machucou, mas me pareceu uma agressão tão grande, por ser a gota que faltava para que o copo transbordasse, que me pus a chorar como se estivesse gravemente ferida. Os meninos ficaram, a princípio, apavorados, mas quando perceberam que nada real havia acontecido, acabaram rindo de mim, sem compreender o exagero da minha reação. Mais tarde contaram ao pai o escândalo que eu havia feito por algo tão tolo!
Uma crise de choro detonada por qualquer motivo sempre traz junto as lembranças de nossas frustrações, de nossos desejos não realizados, de nossos sentimentos de auto-piedade, e de tudo aquilo que engavetamos para prosseguir em nosso dia-a-dia sem maiores abalos ou rupturas.
Durante minha infância e adolescência, enquanto morei na casa de meus pais, lembro-me que minha mãe sempre interpretava minhas crises de choro como um sinal de que “eu não estava normal”, e isso me magoava profundamente, porque eu sentia que estava apenas extravasando sentimentos que não pudera manifestar de outra forma, o que me ajudava a me conhecer. Mas isso sempre era motivo de críticas.
Depois de adulta, descobri que conseguir expressar os sentimentos é altamente saudável, funcionando, inclusive, como um preventivo contra a depressão. Uma tristeza vivida não se transforma em depressão. Cumpre seu ciclo, e se vai. E percebi com tanta clareza o grande serviço que essas crises de choro me prestavam, trazendo à tona sentimentos profundos, que aprendi até mesmo a manipulá-las, usando algum detonador que eu sabia que surtiria efeito. Muitas vezes, querendo me livrar de alguma angústia que a mim mesma não estava clara, fui até uma locadora de vídeos e procurei algum filme que sabia que mexeria com meus sentimentos. Assisti sozinha, à vontade. Era fatal. O filme retratava situações que me reportavam à minha própria vida, alguma cena mais emocionante me trazia lágrimas aos olhos e, quando percebia, já estava fazendo uma verdadeira catarse da minha angústia. Junto com o choro vinha tudo, e eu aproveitava a oportunidade para encarar minhas frustrações de frente e tentar descobrir formas de saná-las. Momentos em que choro são momentos em que posso dizer que converso com minha alma. Ou que recolho ossos, para depois tentar encontrar que música cantarei para reanimar meu esqueleto já montado.
Outra forma de recolher ossos é criar, dedicar-se ao que mais gosta, produzir arte, seja ela qual for. No meu caso, sei que escrever é a chave. Você tem que descobrir o seu próprio caminho. Dedicar-se a algo de todo coração, entregar-se à tarefa de corpo e alma, é um ato de introspecção que, com certeza, te colocará em contato com você mesma.
Mulheres sabem disso intuitivamente. Desde muito pequenas há atividades que despertam nossa curiosidade, nos atraem e nos encantam, sem que fiquemos racionalizando muito a esse respeito. Por um longo período, quando eu ainda era uma criança, um de meus irmãos montou uma fábrica de bolsas e cintos de couro no salão de nossa casa. Eu e minhas irmãs simplesmente enlouquecíamos olhando os materiais, catando sobras e inventando nossos próprios acessórios! A sensação de ter criado com nossas próprias mãos peças que depois até fariam sucesso entre nossas amigas era algo nem de longe comparável a comprar um acessório pronto, em qualquer loja! Muitas mulheres que conheço usam, intuitivamente, o artesanato como uma forma de terapia, mesmo que com isso não ganhem qualquer dinheiro. Estar totalmente absorvida numa atividade de que gostamos muito é uma das formas de “voltar pra casa”, reencontrar-se consigo mesma.
Há pouco tempo vi uma entrevista de Maria Rita, a filha de Elis Regina, no programa do Serginho Groissman, onde ela relatou, com muita simplicidade, que, desde que engravidou de seu filho, há três anos, faz e desfaz um pequeno pedaço de crochê, sem o objetivo de terminar o trabalho, apenas por fazer. Interessante que ao falar sobre isso ela parecia não saber expressar exatamente o porquê da coisa, e talvez ela mesma achasse “esquisita” tal dedicação a algo que nunca se transformaria em nada. Acredito que toda mulher saiba o que é isso. Quem aprendeu, desde cedo, a tricotar ou crochetar, sabe o quanto é prazeroso enquanto estamos totalmente envolvidas com nossas agulhas e linhas, vendo o movimento de nossas mãos fazer aquele pequeno pedaço de arte crescer! Tão prazeroso, que, muitas vezes, pouco importa se o resultado final será bom ou não! Ao assistir essa entrevista lembrei das inúmeras blusas de lã que comecei a tricotar no começo do inverno, para, com a chegada do verão, acabar dando aquele pedaço de blusa para alguém que quisesse terminá-la! E de um pedaço de tricô que fiquei tricotando e desmanchando enquanto ficava ao lado do meu pai, em seu último mês de vida, dentro de um hospital. E da enorme quantidade de caixinhas de madeira que comprei e decorei com o intuito de vender, sem nunca conseguir, o que acabava não me frustrando, porque, no fundo, sabia que estava preservando a saúde da minha psique, fazendo algo de que gostava. E tantas coisas mais...
Aquilo de que você gosta a ponto se envolver e esquecer-se de tudo o mais por algum tempo; aquilo que te faz se interiorizar, ficar totalmente absorvida e que você percebe que te “reabastece” para enfrentar novamente suas atividades rotineiras, merece sua total atenção.
Clarissa diz que “voltar pra casa” é fundamental para sua saúde física e mental. E que deve ser algo disciplinado, cuja freqüência será determinada pelo seu ritmo de vida. Você deve sentir quantas vezes por semana, ou por dia, deve parar para se reabastecer. E esse deve ser um momento respeitado por todos. Você precisa poder pegar suas coisas, ir para o seu canto, dizer “tchau, estou indo”, e as pessoas precisam saber o que isso significa. Que você quer estar consigo mesma e quer que a respeitem. Logo todos notarão que você volta de lá bem melhor, e ficarão felizes com isso.
No próximo post vou falar sobre “O Capote Expiatório”, um relato de Clarissa que me inspirou a sugerir a você uma outra forma de “remontar seu esqueleto”.
Beijão!
Analú
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
XI - Mais um estímulo pra você - Poesia - "Mentira"
Sempre gostei de escrever. Ao longo da minha vida, mesmo nos períodos em que me convencia de que esse sonho já estava "enterrado", ou de que "não valia a pena", porque, com isso, provavelmente não conseguiria ganhar dinheiro (o que é fatal na sociedade em que vivemos), quando sentia que minha alma precisava transbordar, procurava papel e caneta. Tenho absoluta certeza de que minha "Mulher Selvagem" é escritora. Quando li pela primeira vez "Mulheres que correm...", o primeiro passo que dei em direção à minha alma foi buscar, nos meus guardados, tudo o que já havia escrito. Reli tudo. Organizei por datas. Me emocionei. Percebi que em meus textos estava minha biografia. Todas as fases cruciais da minha vida estão registradas neles. O mais incrível é que, conforme ia desvendando as histórias do livro, ia percebendo que havia uma ligação direta entre as situações que Clarissa descreve e as que haviam me angustiado,na minha própria vida, resultando num conto ou poesia. Assim, é natural que, ao falar sobre o trabalho de Clarissa, muitas vezes, suas análises me remetam aos meus próprios textos. Quando eu considerar que um texto de minha autoria será enriquecedor para o nosso workshop, não terei pudor em usá-lo. É o que faço aqui, agora, usando minha poesia "Mentira" como um estímulo a mais pra você. Espero que você goste, e que aproveite a mensagem!
Mentira
Você já desistiu de algo?
Fica um fio, fica um rabo.
Se quis do fundo do coração,
se pediu numa oração,
se sentiu um expandir do peito,
não tem jeito,
não tem jeito.
Se quis, quer e está feito.
Se foi com alma,
se foi sem calma,
se foi bem cedo,
se foi sem medo,
se tinha como,
era real.
Se era bom,
faria bem,
se tinha com,
se tinha quem,
não tem “desisto”,
não tem “give up”.
Se adormeceu,
ou cochilou,
se esqueceu
ou só guardou,
não matou,
não morreu de fato.
Naquela porta que mal fechou,
naquela fresta que sobrou,
olha a pontinha,
olha a pontinha...
É só puxar.
Vai encontrar
todo o novelo,
toda a novela,
todo o vazio.
E na lembrança
do que não fez,
que frio...
Beijo! Analú
Mentira
Você já desistiu de algo?
Fica um fio, fica um rabo.
Se quis do fundo do coração,
se pediu numa oração,
se sentiu um expandir do peito,
não tem jeito,
não tem jeito.
Se quis, quer e está feito.
Se foi com alma,
se foi sem calma,
se foi bem cedo,
se foi sem medo,
se tinha como,
era real.
Se era bom,
faria bem,
se tinha com,
se tinha quem,
não tem “desisto”,
não tem “give up”.
Se adormeceu,
ou cochilou,
se esqueceu
ou só guardou,
não matou,
não morreu de fato.
Naquela porta que mal fechou,
naquela fresta que sobrou,
olha a pontinha,
olha a pontinha...
É só puxar.
Vai encontrar
todo o novelo,
toda a novela,
todo o vazio.
E na lembrança
do que não fez,
que frio...
Beijo! Analú
terça-feira, 30 de outubro de 2007
X - Você está se boicotando?
Quando comento entre mulheres o fantástico efeito das histórias de “Mulheres Que Correm Com os Lobos”, a reação sempre é de interesse. Sempre há alguma, ou algumas, que se dizem portadoras da “síndrome da falta de alma”, e mesmo que outras não se enquadrem totalmente nos sintomas, sempre há algo no assunto que as impressiona. Se conto, mesmo resumidamente, uma das histórias, logo percebem que com a leitura do livro têm muito a ganhar. Algumas anotam o nome do livro e da escritora, e acredito que tenham a séria intenção de lê-lo.
Mas... da intenção à ação há uma looonga distância. Acabou-se a conversa, cada uma vai pra sua casa, enfrenta seus problemas da forma como sempre tem feito, sente-se “adaptada” à própria realidade, conclui que está “segura” e que um simples livro não será a “chave para a felicidade”.
“Afinal, que grandes mudanças poderiam ocorrer a esta altura da sua vida?” E eu respondo, agora: TODAS AS QUE FOREM NECESSÁRIAS PARA VOCÊ VIVER MAIS PLENAMENTE E SER MAIS FELIZ. E quando digo TODAS não estou me referindo ao seu mundo objetivo, material. Não estou dizendo que você vá abandonar seus relacionamentos, seu trabalho, ou que vá virar seu mundo de cabeça pra baixo. Estou dizendo que as verdadeiras mudanças que vão fazer realmente a diferença na sua vida vão ocorrer dentro de você. Se, a partir daí, mais forte, você concluir que deve mudar algo na sua vida objetiva, com certeza você o fará, e certamente a mudança será para melhor.
Mas... a esta altura, você já se convenceu de que não vai conseguir tempo pra ler um livro complicado, de mais de seiscentas páginas. E eu argumento: acompanhe esse workshop virtual, que com alguns minutos de leitura de cada vez, um pouquinho por dia, e nem precisa ser todos os dias, você vai fazer esse trabalho sem nem perceber. Aliás, vai perceber e muito, nos seus efeitos! A leitura, aqui, está facilitada, porque estou extraindo do livro as questões principais, estou traduzindo a linguagem, às vezes acadêmica, da escritora, para uma linguagem simples, de fácil compreensão. E estou exemplificando com situações rotineiras, com as quais você deve se identificar o tempo todo.
Mas... entrar na internet, acessar o blog, ler dez minutos... Você não tem tempo pra isso? Mas, se o seu filho, ou sua filha, chegar da rua, de um trabalho ou um estudo que é puro investimento em seu próprio crescimento (sim, eles têm direito de crescer e se melhorar!), e disser que está com fome e lhe pedir um misto quente, você vai fazer, não vai? “Você vai deixar seu filho ou filha com fome???” (a voz que fez essa pergunta é a daquela parte da sua psique que te boicota, que não tem interesse no seu crescimento) Você a escuta e ignora o fato de que seu filho já é um adulto e, mesmo que não fosse, teria plena capacidade para fazer algo tão simples como um misto quente, o que, como adicional, ainda lhe daria uma agradável sensação de independência. “Mas, ele chegou da rua agora, coitadinho...” (ela de novo!!!) E você? Chegou de onde? Da lavanderia? Ou da beira do fogão? Ou do ferro de passar? Ou do banco? Ou do mercado?
Vou poupar-lhe aqui de ler uma lista interminável de coisas que, provavelmente, você faz em benefício de outras pessoas, quando elas mesmas poderiam se fazer, porque você já deve saber isso de cor e salteado. Então, a questão não é falta de tempo. A questão é que VOCÊ NÃO É A SUA PRIORIDADE.
Você sabe o que acontece quando você não é a sua prioridade? Provavelmente, todos os que estão à sua volta vão crescer, vão evoluir, vão se tornar independentes (mesmo que você faça a maior força pra que isso não aconteça), e quando você perceber que só você ficou estagnada, ou desinteressante, até pra você mesma, você vai se magoar. Aí vai ser culpa da vida, de Deus, do marido, de todo mundo, e não sua... Mulheres magoadas costumam adoecer.
Que tal começar a mudar esse futuro sombrio agora?
Bem, você pode ter em sua mente as inúmeras vezes que pensou exatamente isso e tentou fazer algo diferente, pra se sentir bem consigo mesma, e não deu certo. Cursos começados e não acabados, projetos que não saíram do papel, investimentos que não vingaram, trabalhos que não foram adiante por falta de tempo... Tanta ilusão! E as críticas que lhe faziam por “pular de galho em galho”? Cada tentativa frustrada e cada crítica recebida eram como um pequeno choque elétrico, cuja lembrança, agora, faz com que você se pergunte se vale a pena. Nesse ponto tenho a obrigação de te lembrar que mesmo que você não tente mais nada, sempre vão te criticar, porque isso é normal.
O que você tem que se perguntar é: todas as vezes que tentei fazer algo, onde busquei inspiração? Foi dentro de mim? Ou segui uma onda, um modismo, um conselho? “Algo” daria dinheiro, ou estava na moda, ou seria a profissão do futuro... Porque é só seguindo a sua inspiração que você vai conseguir prosseguir seja lá no que for. Se o seu problema é realização pessoal ou profissional, ou independência financeira, você vai atingir isso quando escutar a sua alma.
Tenho que citar aqui uma frase que Gasparetto sempre diz:
“Com alma você tem tudo. Sem alma você não tem nada”
Acredito piamente nisso. E espero que, daqui em diante, você faça bons contatos com a mulher selvagem que está dentro de você, para que essa intuição comece a fluir sem dificuldades e você consiga escutá-la sempre que for necessário. Você estará escutando a sua alma.
Agora, se você ainda se sente desvitalizada, com preguiça, ou sem ânimo para começar a se dedicar a esse workshop, se você sente que desistiu de lutar por aquilo em que acredita, se você não quer mais “fugir” de uma vida que está te magoando, o que me ocorre é que você está como o cão da experiência científica que vou transcrever agora, exatamente como está no “Mulheres que correm...”:
No início da década de 1960, alguns cientistas realizaram experiências com animais para tentar determinar algo a respeito do "instinto de fuga" nos seres humanos. Numa das experiências, eles fizeram uma instalação elétrica na metade direita de uma grande jaula, de modo que um cão preso nela recebesse um choque cada vez que pisasse no lado direito. O cão aprendeu rapidamente a permanecer no lado esquerdo da jaula. Em seguida, o lado esquerdo da jaula recebeu o mesmo tipo de instalação, que foi desligada no lado direito. O cão logo se reorientou, aprendendo a ficar no lado direito da jaula. Então, todo o piso da gaiola foi preparado para dar choques aleatórios, de tal modo que, onde quer que o cão estivesse parado ou deitado, ele acabaria levando um choque. Ele a princípio aparentou estar confuso e depois entrou em pânico. Finalmente, o cão desistiu e se deitou, aceitando os choques à medida que surgissem, sem tentar fugir deles ou descobrir de onde viriam. No entanto, a experiência não estava encerrada. No próximo passo, a jaula foi aberta. Os cientistas esperavam que o cão saísse dali correndo, mas ele não fugiu. Muito embora pudesse abandonar a jaula quando bem entendesse, ele ficou ali deitado recebendo os choques aleatórios. A partir dessa experiência, os cientistas levantaram a hipótese de que, quando um animal é exposto à violência, ele apresentará a tendência a se adaptar a essa perturbação, de tal forma que, quando a violência pára ou ele tem acesso à liberdade, o instinto saudável de fugir é extremamente reduzido, e em vez de escapar o animal fica paralisado. Em termos da natureza selvagem das mulheres, é essa trivialização da violência, assim como o que os cientistas subseqüentemente denominaram "aprendizado da impotência", que não só influencia as mulheres a ficar com parceiros alcoólatras, patrões exploradores e grupos que se aproveitam delas e as importunam, mas também faz com que elas se sintam incapazes de se erguer para apoiar aquilo em que acreditam profundamente: sua arte, seu amor, seu estilo de vida, sua preferência política.
Pergunto: Você acha que perdeu seu poder de lutar pelos elementos da alma e da vida que mais valoriza?
Quero te dizer que há uma porta aberta, e se você der alguns passos e sair dessa jaula, descobrirá que existe um mundo onde você consegue reagir, se defender, defender o que ama. Onde você vive plenamente, e pode ser feliz. Esse mundo é a sua alma, você só precisa deixá-la se manifestar.
Se eu estivesse presente na experiência com o cão e visse sua impotência, dentro da jaula, claro que eu iria até ele e, se fosse preciso, o carregaria no colo até o lado de fora. E o apoiaria, até que ele percebesse que ali não levaria choques.
É o que estou tentando fazer com você, da forma que sei. Mas não vai dar pra te carregar no colo! Você é uma mulher, cheia de vida e de inteligência. Espero que faça algo por você mesma.
Beijo!
Analú
Mas... da intenção à ação há uma looonga distância. Acabou-se a conversa, cada uma vai pra sua casa, enfrenta seus problemas da forma como sempre tem feito, sente-se “adaptada” à própria realidade, conclui que está “segura” e que um simples livro não será a “chave para a felicidade”.
“Afinal, que grandes mudanças poderiam ocorrer a esta altura da sua vida?” E eu respondo, agora: TODAS AS QUE FOREM NECESSÁRIAS PARA VOCÊ VIVER MAIS PLENAMENTE E SER MAIS FELIZ. E quando digo TODAS não estou me referindo ao seu mundo objetivo, material. Não estou dizendo que você vá abandonar seus relacionamentos, seu trabalho, ou que vá virar seu mundo de cabeça pra baixo. Estou dizendo que as verdadeiras mudanças que vão fazer realmente a diferença na sua vida vão ocorrer dentro de você. Se, a partir daí, mais forte, você concluir que deve mudar algo na sua vida objetiva, com certeza você o fará, e certamente a mudança será para melhor.
Mas... a esta altura, você já se convenceu de que não vai conseguir tempo pra ler um livro complicado, de mais de seiscentas páginas. E eu argumento: acompanhe esse workshop virtual, que com alguns minutos de leitura de cada vez, um pouquinho por dia, e nem precisa ser todos os dias, você vai fazer esse trabalho sem nem perceber. Aliás, vai perceber e muito, nos seus efeitos! A leitura, aqui, está facilitada, porque estou extraindo do livro as questões principais, estou traduzindo a linguagem, às vezes acadêmica, da escritora, para uma linguagem simples, de fácil compreensão. E estou exemplificando com situações rotineiras, com as quais você deve se identificar o tempo todo.
Mas... entrar na internet, acessar o blog, ler dez minutos... Você não tem tempo pra isso? Mas, se o seu filho, ou sua filha, chegar da rua, de um trabalho ou um estudo que é puro investimento em seu próprio crescimento (sim, eles têm direito de crescer e se melhorar!), e disser que está com fome e lhe pedir um misto quente, você vai fazer, não vai? “Você vai deixar seu filho ou filha com fome???” (a voz que fez essa pergunta é a daquela parte da sua psique que te boicota, que não tem interesse no seu crescimento) Você a escuta e ignora o fato de que seu filho já é um adulto e, mesmo que não fosse, teria plena capacidade para fazer algo tão simples como um misto quente, o que, como adicional, ainda lhe daria uma agradável sensação de independência. “Mas, ele chegou da rua agora, coitadinho...” (ela de novo!!!) E você? Chegou de onde? Da lavanderia? Ou da beira do fogão? Ou do ferro de passar? Ou do banco? Ou do mercado?
Vou poupar-lhe aqui de ler uma lista interminável de coisas que, provavelmente, você faz em benefício de outras pessoas, quando elas mesmas poderiam se fazer, porque você já deve saber isso de cor e salteado. Então, a questão não é falta de tempo. A questão é que VOCÊ NÃO É A SUA PRIORIDADE.
Você sabe o que acontece quando você não é a sua prioridade? Provavelmente, todos os que estão à sua volta vão crescer, vão evoluir, vão se tornar independentes (mesmo que você faça a maior força pra que isso não aconteça), e quando você perceber que só você ficou estagnada, ou desinteressante, até pra você mesma, você vai se magoar. Aí vai ser culpa da vida, de Deus, do marido, de todo mundo, e não sua... Mulheres magoadas costumam adoecer.
Que tal começar a mudar esse futuro sombrio agora?
Bem, você pode ter em sua mente as inúmeras vezes que pensou exatamente isso e tentou fazer algo diferente, pra se sentir bem consigo mesma, e não deu certo. Cursos começados e não acabados, projetos que não saíram do papel, investimentos que não vingaram, trabalhos que não foram adiante por falta de tempo... Tanta ilusão! E as críticas que lhe faziam por “pular de galho em galho”? Cada tentativa frustrada e cada crítica recebida eram como um pequeno choque elétrico, cuja lembrança, agora, faz com que você se pergunte se vale a pena. Nesse ponto tenho a obrigação de te lembrar que mesmo que você não tente mais nada, sempre vão te criticar, porque isso é normal.
O que você tem que se perguntar é: todas as vezes que tentei fazer algo, onde busquei inspiração? Foi dentro de mim? Ou segui uma onda, um modismo, um conselho? “Algo” daria dinheiro, ou estava na moda, ou seria a profissão do futuro... Porque é só seguindo a sua inspiração que você vai conseguir prosseguir seja lá no que for. Se o seu problema é realização pessoal ou profissional, ou independência financeira, você vai atingir isso quando escutar a sua alma.
Tenho que citar aqui uma frase que Gasparetto sempre diz:
“Com alma você tem tudo. Sem alma você não tem nada”
Acredito piamente nisso. E espero que, daqui em diante, você faça bons contatos com a mulher selvagem que está dentro de você, para que essa intuição comece a fluir sem dificuldades e você consiga escutá-la sempre que for necessário. Você estará escutando a sua alma.
Agora, se você ainda se sente desvitalizada, com preguiça, ou sem ânimo para começar a se dedicar a esse workshop, se você sente que desistiu de lutar por aquilo em que acredita, se você não quer mais “fugir” de uma vida que está te magoando, o que me ocorre é que você está como o cão da experiência científica que vou transcrever agora, exatamente como está no “Mulheres que correm...”:
No início da década de 1960, alguns cientistas realizaram experiências com animais para tentar determinar algo a respeito do "instinto de fuga" nos seres humanos. Numa das experiências, eles fizeram uma instalação elétrica na metade direita de uma grande jaula, de modo que um cão preso nela recebesse um choque cada vez que pisasse no lado direito. O cão aprendeu rapidamente a permanecer no lado esquerdo da jaula. Em seguida, o lado esquerdo da jaula recebeu o mesmo tipo de instalação, que foi desligada no lado direito. O cão logo se reorientou, aprendendo a ficar no lado direito da jaula. Então, todo o piso da gaiola foi preparado para dar choques aleatórios, de tal modo que, onde quer que o cão estivesse parado ou deitado, ele acabaria levando um choque. Ele a princípio aparentou estar confuso e depois entrou em pânico. Finalmente, o cão desistiu e se deitou, aceitando os choques à medida que surgissem, sem tentar fugir deles ou descobrir de onde viriam. No entanto, a experiência não estava encerrada. No próximo passo, a jaula foi aberta. Os cientistas esperavam que o cão saísse dali correndo, mas ele não fugiu. Muito embora pudesse abandonar a jaula quando bem entendesse, ele ficou ali deitado recebendo os choques aleatórios. A partir dessa experiência, os cientistas levantaram a hipótese de que, quando um animal é exposto à violência, ele apresentará a tendência a se adaptar a essa perturbação, de tal forma que, quando a violência pára ou ele tem acesso à liberdade, o instinto saudável de fugir é extremamente reduzido, e em vez de escapar o animal fica paralisado. Em termos da natureza selvagem das mulheres, é essa trivialização da violência, assim como o que os cientistas subseqüentemente denominaram "aprendizado da impotência", que não só influencia as mulheres a ficar com parceiros alcoólatras, patrões exploradores e grupos que se aproveitam delas e as importunam, mas também faz com que elas se sintam incapazes de se erguer para apoiar aquilo em que acreditam profundamente: sua arte, seu amor, seu estilo de vida, sua preferência política.
Pergunto: Você acha que perdeu seu poder de lutar pelos elementos da alma e da vida que mais valoriza?
Quero te dizer que há uma porta aberta, e se você der alguns passos e sair dessa jaula, descobrirá que existe um mundo onde você consegue reagir, se defender, defender o que ama. Onde você vive plenamente, e pode ser feliz. Esse mundo é a sua alma, você só precisa deixá-la se manifestar.
Se eu estivesse presente na experiência com o cão e visse sua impotência, dentro da jaula, claro que eu iria até ele e, se fosse preciso, o carregaria no colo até o lado de fora. E o apoiaria, até que ele percebesse que ali não levaria choques.
É o que estou tentando fazer com você, da forma que sei. Mas não vai dar pra te carregar no colo! Você é uma mulher, cheia de vida e de inteligência. Espero que faça algo por você mesma.
Beijo!
Analú
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
“Provocação” - O Poder Libertador do Dedo do Meio ( ou Aprendendo a Ser Malcriada)
Se você dirige, já deve ter vivido alguma situação assim: você está na direita, devagar, avista uma vaga, dá seta, e começa a encostar. O motorista do carro de trás cola na sua traseira e começa a ficar impaciente porque você não sai da frente. Você está com a luz de ré acesa e a seta ligada, mas ele acha impossível que você esteja querendo estacionar. Não é possível que isso tenha acontecido bem na frente dele!!! Há pouco tempo, numa situação idêntica a essa, enquanto eu tentava fazer o motorista atrás de mim perceber que eu estava estacionando, ele gesticulava loucamente, numa mímica de “toca pra frente”, como se desconhecesse o “fenômeno ré”! Isso tem duas formas de acabar: ou você se cansa daquela pessoa que nunca vai perceber que você tem direito de estacionar, e vai dar uma volta no quarteirão, pra ver se dá sorte de voltar ao mesmo lugar e ainda encontrar a vaga, ou você dá uma de marrudo e começa a dar ré em cima do cara, que desiste de te atrapalhar e, numa manobra estabanada, sai te mostrando o dedo do meio, quando não te xingando aos berros.
Passei anos suportando esse tipo de situação e outras tantas situações absurdas de trânsito sem me manifestar. Claro que, por dentro, ficava nervosa, mas, tendo recebido uma educação tradicional, o máximo que me permitia, por ter uma veia italiana, era dizer, em voz moderada: cáspita! Imagine! Era motivo de zombaria dos meus filhos, que achavam o cúmulo da boa educação essa expressão tão mixuruca de revolta! E o pior é que isso realmente não me aliviava em nada, eu continuava me sentindo lesada.
Mas, outro dia tive uma experiência interessantíssima. Para mim, é claro, que sou inocente e ainda não tinha me tocado disso.
Estava voltando da minha mãe, pela Avenida Salim Farah Maluf, no meio de um trânsito infernal e de um barulho mais infernal ainda, quando, chegando perto da minha casa, num certo trecho em que tenho que ficar à direita, para pegar uma marginalzinha que vai dar na minha rua, um motorista estressado começou a buzinar na minha traseira. Fiquei atenta, e olhei para todos os lados, pra ver o que o cara podia estar querendo me avisar, ou se eu estava atrapalhando a passagem dele, ou sei lá o quê. Pra buzinar insistentemente daquela forma, devia haver algum motivo muito grande. Mas eu não encontrava o motivo, e comecei a ficar abismada. Olhei pra um lado, olhei pro outro, e tinha carro em todos os lugares possíveis. Achei que ele estava querendo passagem, mas não tinha como, porque o trânsito estava quase parado, a avenida cheia e, na minha frente havia dois caminhões enormes, que não iam “sumir” só porque ele estava com pressa. Se eu conseguisse realizar a façanha de lhe dar passagem, o máximo que ele conseguiria, com aquele stress todo, seria entrar na traseira de um dos caminhões. Então, cheguei ao ponto em que entraria à direita, para subir a minha rua. Sinalizei, o trânsito andou um pouco mais rapidamente, os caminhões começaram a se afastar, mas o camarada continuava buzinando! Talvez eu tivesse, em algum momento, feito algo errado, sem perceber, mas acho que não seria motivo pra me queimar em praça pública, ou qualquer coisa assim. Não tive dúvida: coloquei a mão pra fora, ergui meu dedo do meio com todo o orgulho possível, e segui meu caminho, sorrindo. Que gostoso! O estressadinho acelerou como um louco, desviou de mim, se arriscando para me ultrapassar no meio do trânsito carregado, e gritou, com toda a força do seu pulmão:
S U A V A A A A A C A !!! Deu pra ver a expressão de ódio em seu rosto, e acho que ele também viu que eu ria da neurose dele! Nunca curti tanto uma baixaria! Numa situação em que, normalmente, quem ficaria descompensada seria eu, inverti o jogo, deixei o cara ir embora nervoso, e fui pra casa rindo! O nervoso que ele estava me fazendo passar se diluiu e virou risada! Foi libertador! Eu não sabia que funcionava assim! Se soubesse, já teria adquirido o hábito de mostrar o dedo do meio há muito tempo! E o mais engraçado é que essa situação está me fazendo rir até agora, porque cada vez que eu lembro do imenso ódio do cidadão por ter recebido um bem mostrado dedo do meio, acho incrível! Só de pensar em quantos xingamentos e buzinadas descabidas levei quietinha, sem revidar, indo pra casa nervosa! Nunca mais! Pra mulheres muito certinhas que passam muito nervoso no trânsito, recomendo esse remédio: mostrem o dedo do meio e saiam rindo! Contanto que tenham por onde escapar, pra se mandar rapidinho, é lógico! Não vá fazer isso com o trânsito parado, que é bem provável levar uma surra!
Mas, como não poderia deixar de ser, cabe aqui uma reflexão. A gente cresce com os pais nos “domesticando”, pra que nunca façamos malcriadezas, pra que sejamos boazinhas, pra que respeitemos todo mundo, e blá blá blá blá blá. Nem sempre o melhor a fazer é ser boazinha! Tem hora pra tudo! E às vezes é muito mais divertido ser malcriada!
Isso me fez lembrar de uma coisa que o Gasparetto sempre diz: "ou você é boazinha, ou é feliz"! Acho que vale a pena pensar nisso! O que você acha?
Passei anos suportando esse tipo de situação e outras tantas situações absurdas de trânsito sem me manifestar. Claro que, por dentro, ficava nervosa, mas, tendo recebido uma educação tradicional, o máximo que me permitia, por ter uma veia italiana, era dizer, em voz moderada: cáspita! Imagine! Era motivo de zombaria dos meus filhos, que achavam o cúmulo da boa educação essa expressão tão mixuruca de revolta! E o pior é que isso realmente não me aliviava em nada, eu continuava me sentindo lesada.
Mas, outro dia tive uma experiência interessantíssima. Para mim, é claro, que sou inocente e ainda não tinha me tocado disso.
Estava voltando da minha mãe, pela Avenida Salim Farah Maluf, no meio de um trânsito infernal e de um barulho mais infernal ainda, quando, chegando perto da minha casa, num certo trecho em que tenho que ficar à direita, para pegar uma marginalzinha que vai dar na minha rua, um motorista estressado começou a buzinar na minha traseira. Fiquei atenta, e olhei para todos os lados, pra ver o que o cara podia estar querendo me avisar, ou se eu estava atrapalhando a passagem dele, ou sei lá o quê. Pra buzinar insistentemente daquela forma, devia haver algum motivo muito grande. Mas eu não encontrava o motivo, e comecei a ficar abismada. Olhei pra um lado, olhei pro outro, e tinha carro em todos os lugares possíveis. Achei que ele estava querendo passagem, mas não tinha como, porque o trânsito estava quase parado, a avenida cheia e, na minha frente havia dois caminhões enormes, que não iam “sumir” só porque ele estava com pressa. Se eu conseguisse realizar a façanha de lhe dar passagem, o máximo que ele conseguiria, com aquele stress todo, seria entrar na traseira de um dos caminhões. Então, cheguei ao ponto em que entraria à direita, para subir a minha rua. Sinalizei, o trânsito andou um pouco mais rapidamente, os caminhões começaram a se afastar, mas o camarada continuava buzinando! Talvez eu tivesse, em algum momento, feito algo errado, sem perceber, mas acho que não seria motivo pra me queimar em praça pública, ou qualquer coisa assim. Não tive dúvida: coloquei a mão pra fora, ergui meu dedo do meio com todo o orgulho possível, e segui meu caminho, sorrindo. Que gostoso! O estressadinho acelerou como um louco, desviou de mim, se arriscando para me ultrapassar no meio do trânsito carregado, e gritou, com toda a força do seu pulmão:
S U A V A A A A A C A !!! Deu pra ver a expressão de ódio em seu rosto, e acho que ele também viu que eu ria da neurose dele! Nunca curti tanto uma baixaria! Numa situação em que, normalmente, quem ficaria descompensada seria eu, inverti o jogo, deixei o cara ir embora nervoso, e fui pra casa rindo! O nervoso que ele estava me fazendo passar se diluiu e virou risada! Foi libertador! Eu não sabia que funcionava assim! Se soubesse, já teria adquirido o hábito de mostrar o dedo do meio há muito tempo! E o mais engraçado é que essa situação está me fazendo rir até agora, porque cada vez que eu lembro do imenso ódio do cidadão por ter recebido um bem mostrado dedo do meio, acho incrível! Só de pensar em quantos xingamentos e buzinadas descabidas levei quietinha, sem revidar, indo pra casa nervosa! Nunca mais! Pra mulheres muito certinhas que passam muito nervoso no trânsito, recomendo esse remédio: mostrem o dedo do meio e saiam rindo! Contanto que tenham por onde escapar, pra se mandar rapidinho, é lógico! Não vá fazer isso com o trânsito parado, que é bem provável levar uma surra!
Mas, como não poderia deixar de ser, cabe aqui uma reflexão. A gente cresce com os pais nos “domesticando”, pra que nunca façamos malcriadezas, pra que sejamos boazinhas, pra que respeitemos todo mundo, e blá blá blá blá blá. Nem sempre o melhor a fazer é ser boazinha! Tem hora pra tudo! E às vezes é muito mais divertido ser malcriada!
Isso me fez lembrar de uma coisa que o Gasparetto sempre diz: "ou você é boazinha, ou é feliz"! Acho que vale a pena pensar nisso! O que você acha?
Assinar:
Postagens (Atom)
