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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A Bendita da Chavinha

Olá! :)


Quem tem me lido, já percebeu que o Barba Azul vai ser um assunto recorrente. Isso tem um motivo, não é porque sou chata. O Barba Azul é chato.
E, como precisamos lidar com ele o tempo todo, há que se esmiuçar essa figura, que vive nos passando as mais desleais rasteiras e boicotando o nosso crescimento.
Como somos treinados, desde que nascemos, a fazer vistas grossas quando percebemos que é ele agindo, dentro ou fora de nós, precisamos nos treinar para começar a enxergá-lo. E falar sobre ele é uma forma de compreendê-lo, saber como age e, quem sabe, escapar de suas investidas.
A história é rica e cheia de detalhes e estratégias, que, aos poucos, podemos entender e aplicar em nossas vidas.
Quando posto ou falo sobre ele, sempre há comentários que me levam a pensar a respeito do enorme poder desse monstro, agigantado pelos mais diversos motivos, entre eles essa insistência da sociedade em nos querer cegos e manipuláveis.

Um comentário que escuto desde a primeira vez em que tive contato com o Mulheres que Correm com os Lobos, e que se repete, de tempos em tempos, tem a ver com a bendita da chavinha que abre a porta do quarto onde o Barba Azul guarda os cadáveres das mulheres que mata. Hoje quero falar sobre isso.
Logo que conheci Mulheres que Correm com os Lobos, comecei a recomendá-lo para as mulheres com quem tinha contato. Uma amiga minha, que passava por uma separação complicada, leu a história do Barba Azul e deu risada de si mesma, porque se viu naquela situação em que a filha caçula, seduzida pelas gentilezas do monstro, pensa: Como sou boba! Por que me repugna tanto aquela barbinha azul? E mesmo se enxergando na inocência da personagem, em seguida fez uma reflexão que me fez pensar no quanto era, realmente, inocente, embora tivesse consciência do muito que já sofrera por conta de sua extrema credulidade.
Pensando sobre o fato da esposa do Barba Azul ter desobedecido sua ordem de não usar a chavinha que abria o quarto misterioso, refletiu que não devemos desejar saber tudo sobre as pessoas, porque todos temos segredos. E esse é um tipo de raciocínio que sempre surge quando colocamos essa situação em discussão. A invasão de privacidade.
Oraoraoraora...
É ÓBVIO que sabemos que todos têm seus segredos, e que devemos respeitá-los.
O que me surpreende e acaba fortalecendo essa tese de que somos treinados para não enxergar é o fato das pessoas não perceberem que há delitos e delitos. Que há pequenos segredos que devemos respeitar, sim, porque fazem parte da nossa individualidade e privacidade, mas que há grandes segredos, que colocam coisas muito mais sérias em risco.
A história do Barba Azul, pra mim, não fala sobre invasão de privacidade. Fala sobre auto-preservação.
Uma coisa que me intriga profundamente é não raro perceber nos leitores um julgamento mais severo em relação ao comportamento da mocinha, de desobedecer o marido para salvar sua própria vida, do que em relação ao comportamento do Barba Azul, de matar e decapitar suas esposas!
O que faz com que as pessoas sejam indulgentes em relação ao crime hediondo e apontem um dedo acusador contra aquele que está tentando garantir sua sobrevivência???
Não estou falando aqui de pequenas traições sexuais, que, afinal, fazem parte da natureza humana. Não estou falando de mentirinhas nem de invejas brancas, que praticamos e sentimos o tempo todo. Não estou falando de omissões que, mais do que esconder, tentam impor um limite na interferência do outro na nossa vida, o que é saudável...


Falo de relacionamentos que cerceiam nossa liberdade, que nos impedem de crescer, que minam nossas energias, que limitam nosso território de ação e nossa fertilidade criativa. Que, numa última instância, nos matam.
A heroína da história recebe instruções do marido e as acata. Quando ele diz que ela tem toda a liberdade para fazer o que quiser, mas impõe uma restrição, ela é incapaz de perceber que está vivendo menos, e não mais.
O Barba Azul não matava passarinhos... aquele quarto proibido estava abarrotado de cadáveres de mulheres!!! No entanto, as pessoas acreditam que a mocinha deveria respeitar a privacidade dele. Talvez acreditem que, se ela não tivesse descoberto o segredo do marido, ele seria o melhor marido do mundo até o fim de seus dias... :(
Essa inversão de valores inevitavelmente me traz algumas situações à mente.
Quantas vezes você já viu alguém que, para provar estar sendo vítima de chantagem, grava a cena do chantagista em plena ação, mas se vê privado do direito de usá-la, porque é contra a lei? Quantas vezes aquele que usa uma escuta para flagrar um corrupto responde por seu crime muito mais penosamente do que o próprio corrupto?
Recentemente a mãe de um bebê de meses desconfiou que seu marido maltratava o próprio filho quando da sua ausência. Gravou cenas do pai judiando terrivelmente da criança e não pôde usá-las, porque é proibido por lei. Se recorresse a isso para tentar fazer justiça, seria ela a responder pelo crime de invasão de privacidade. Acabou tendo que usar o subterfúgio de denunciar o marido por porte ilegal de armas. Conseguiu que o prendessem, mas por caminhos tortuosos.
Foram vários os relatos que escutei, ao longo da vida, de mulheres que se diziam com a auto-estima no chão por conta de maridos desleais, mas que, ao me relatarem suas histórias, colocavam-se como as vilãs, por tentarem descobrir com quem realmente estavam se relacionando. A culpa as corroia.
E outros vários os de mulheres que desconfiavam de falhas graves de caráter em seus companheiros, mas que, por terem interesses outros que não o do amor, assumiam deliberadamente a atitude de continuar na ignorância. Claro, até se tornarem vítimas dela.
Quantos de nós fingem não perceber que trabalham para criminosos, até que num belo dia acabam respondendo por algum processo pesado por terem cumprido alguma ordem sem questionar?
É importante perceber que, em todas essas situações, há o Barba Azul na vida real – o chantagista, o marido, o pai, o patrão, mas há o Barba Azul na vida subjetiva – esse lado sombrio de nossa psique que nos aconselha a não agir, não investigar, não criar, não enfrentar, não arriscar, não crescer. Aquela vozinha miúda que nos diz para fechar os olhos e não enxergar. Que nos induz a guardar nossos pincéis porque não temos talento. A engavetar nossos textos, porque estão aquém do que os leitores esperam. Que insiste para que nos escondamos num mundinho falsamente seguro e limitado, porque o mundo lá fora é perigoso.
A educação que recebemos, a cultura em que vivemos, um contexto às vezes pouco favorável aliados a um predador interno forte o bastante para nos paralisar cria essa cegueira fatal.
Vamos no embalo, enquanto isso nos serve, até que, abruptamente, tomamos um grande susto. E vemos nossa dignidade literalmente arrasada.
Então, se o próprio assassino nos coloca uma chavinha nas mãos e nos ordena que não a usemos, para que não descubramos aquilo de que já desconfiamos, o que fazemos?
Ficamos olhando abestalhados para a bendita da chavinha e obedecemos?
É uma opção.
Bem... depois que tivermos nossas cabeças decapitadas não vamos mesmo poder ficar resmungando...






Analú

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

XVII - Começando a pensar no "Barba Azul"

Olá! Vamos começar a estudar "O Barba Azul"? Mais uma vez, vou propor que pensemos a respeito do assunto antes de ler o conto. Acredito que, dessa forma, você amadurece e se abre para captar nele sua riqueza, e aproveitar suas lições.

Antes de começar a escrever sobre "O Barba Azul", fiquei me perguntando qual seria a melhor abordagem para dar início a esse tema. Sei que muitas mulheres conhecem esse conto, mas tenho certeza de que isso não acontece entre a grande maioria. Sempre que converso com mulheres a respeito do "Mulheres que Correm com os Lobos", acaba sendo quase inevitável falar sobre o Barba Azul, tal a importância do conto dentro dessa obra, e do personagem em nossas vidas. E, surpreendentemente, percebo que a grande maioria delas não tem a menor idéia de quem é o Barba Azul. Digo surpreendentemente porque esse personagem marcou minha infância de tal forma, que, para mim, seria inimaginável pensar que outras pessoas não o conhecessem. Seria como se hoje, alguém nos dissesse não conhecer Harry Potter, ou James Bond. Lembro-me de ter lido e relido esse conto inúmeras vezes, muito provavelmente porque ele me aterrorizava e consolava, uma vez que o Barba Azul é vencido pela mocinha apavorada. Naquela época, é claro, eu não tinha consciência da riqueza do conteúdo do texto. Apenas o lia e relia, e me encantava com um desenho em branco e preto, cujo único detalhe colorido era o azul de uma mecha da enorme barba do "monstro".

Vejam como não podemos subestimar o valor das histórias: mesmo não tendo maturidade para compreender todos os aspectos abordados no conto, o principal eu apreendi - o mal existia. Às vezes, podia travestir-se de riqueza e amabilidade. E precisávamos estar atentas para nos proteger dele!

Recentemente, tive a grata satisfação de descobrir que a maravilhosa escritora Ruth Rocha publicou, pela Editora FTD, sua versão dessa história para crianças. Espero que muitas meninas possam se beneficiar com seus ensinamentos. E que possam entrar na vida mais preparadas para enfrentar esses monstros, sejam eles personagens do mundo ao seu redor, sejam eles parte de sua psique. Porque, o grande perigo para uma mulher, não é não conhecer o conto "O Barba Azul". Mas desconhecer que o Barba Azul existe, na vida real, e também dentro de sua psique.

Assim, decidi que minha abordagem começa por aqui:

O Barba Azul Existe - e você precisa enxergá-lo

É claro que qualquer pessoa que esteja lendo este post já percebeu que o Barba Azul representa algo de mal. Clarissa o define como um verdadeiro potentado predatório, cuja intenção é nos destruir. Ele pode ser um parente ou conhecido seu, no mundo físico, mas ele também existe dentro de você. É um aspecto de sua psique que trabalha contra a sua natureza, e contra tudo o que for positivo: contra o desenvolvimento, contra a harmonia e contra o que for selvagem. Ele "surge no meio dos planos mais significativos da alma, isola a mulher de sua natureza intuitiva e a faz sentir-se frágil diante da vida".

E, por que insisto em dizer que o Barba Azul existe, se, no mundo em que vivemos, a mídia privilegia a desgraça, e basta ligar a TV ou abrir o jornal para que o Mal seja cuspido na nossa cara? Será que você já não sabe disso? Pra que ficar estudando o Barba Azul, se são tantos os “monstros” da vida real, enclausurando famílias inteiras, estuprando as próprias filhas, jogando garotinhas pela janela, escravizando seres humanos, que essa idéia de que “o mal existe”, e de que precisamos estar preparadas pra nos proteger dele já deveria estar mais do que entranhada em nós. Pergunto: está?

Estamos preparadas para, na presença do predador, detectá-lo, e combatê-lo? Estamos preparadas para detectar qual parte de nossa psique joga contra nós, e anular o efeito de suas cruéis investidas? Se não, por quê? Vamos pensar nisso.

Quero trabalhar aqui a irrefutável teoria de Clarissa, sobre a negação do Mal, e também uma teoria minha, baseada em minha experiência pessoal, que acredito poder se aplicar à grande parte das mulheres. Neste post vamos pensar um pouco sobre a teoria de Clarissa.

Qualquer mulher que já tenha parado para pensar na educação que recebeu e no que a sociedade demonstra esperar dela, percebeu que há uma mensagem que se repete, implícita ou explicitamente: não veja, não tenha insight, não fale, não haja. Clarissa chama isso de "introjeções sombrias que, para as mulheres, são objeto de controvérsia". Ou seja: você recebe essas mensagens a vida toda, acaba acreditando que são verdadeiras, e as incorpora em seu modo de ser. Mas... sua mulher selvagem, sua alma, sabe que isso não está certo. O antídoto para o mal, a forma de expulsar o predador, é fazer exatamente o contrário. Clarissa nos aconselha: "tente prestar atenção à sua voz interior; faça perguntas; seja curiosa; veja o que estiver vendo; ouça o que estiver ouvindo; e então aja com base no que sabe ser verdade."

Um conselho como este pode parecer estranho: veja o que estiver vendo, ouça o que estiver ouvindo. Não é até engraçado? Não! Não é engraçado! É muito triste. O fato é que somos treinadas, desde crianças, a não ver o que estamos vendo, não ouvir o que estamos ouvindo. Aprendemos, desde cedo, a dourar a pílula. Amenizar as situações. Esconder o que é feio. Usamos eufemismos, palavras à meia-boca, expressões de constrangimento, e varremos a sujeira pra debaixo do tapete. Tanto fingimos não ver o que estamos vendo, que acabamos nos convencendo de que aquilo que estamos vendo realmente não existe. Complicado, não? Nem tanto.

Vou relatar aqui uma experiência pessoal que ilustra perfeitamente essa situação, e peço que vocês pensem nisso, e, se possível, me ajudem a encontrar as respostas para as inevitáveis perguntas que nos vêm à mente.

Eu era muito criança, e minhas irmãs e primas já eram adolescentes. Um bando, aliás. As meninas estavam sempre juntas, em cantos, ou trancadas em quartos ou banheiros, procurando privacidade para as conversas próprias da idade. As festas de família eram super agitadas, pois éramos em muitos primos, e quase todos na puberdade.

Um parente distante nos convidou para o aniversário de uma de suas filhas, adolescente também, e embora muito pequenina na época, tive a percepção de que a ocasião seria realmente especial, pelo clima de excitação que pairou em minha casa durante toda a semana anterior à festa. Especulava-se que roupas as meninas deveriam usar, quem estaria lá, que delícias haveria para comer... Mas não me lembro de ter ouvido nenhuma recomendação especial por parte de ninguém. Estaríamos entre parentes e amigos e, conseqüentemente, deveríamos estar seguras, em ambiente inofensivo. O clima era festivo, e todos só pensavam em coisas boas.

A festa foi ótima, mas, repentinamente, aconteceu algo que só vim a entender realmente agora, mais de quarenta anos depois! Num determinado momento, uma das meninas quis ir ao banheiro, e, como era costume quando se juntavam, todas a acompanharam. Iam retocar o batom, se olhar no espelho, falar bobagens, meninas em grupo no banheiro era (e continua sendo) sempre uma farra. Como era a caçula, e me consideravam criança demais pra me convidar pra esse tipo de bagunça, eu observava de fora. Lembro-me de ter visto todas entrando no banheiro, fazendo uma grande algazarra. Mal a porta se fechara atrás da última a entrar, e a festiva bagunça se transformou numa enorme gritaria. A porta se abriu, e as meninas saíram correndo, apavoradas, uma querendo passar por cima da outra, para sair dali o mais rapidamente possível! Sem entender o que acontecera, fui atrás, mas os convidados já se concentravam em frente ao bolo, para cantar parabéns, e a agitação das meninas acabou se diluindo na bagunça generalizada. Eu sabia que havia acontecido algo, mas era muito pequena, e, como ninguém comentou nada, também não perguntei. A coisa morreu ali. Não fosse um certo clima de consternação geral na semana seguinte ao ocorrido, poderia se dizer que, realmente, nada acontecera.

Alguns anos depois, adolescente, eu ainda me lembrava do episódio, que me causara grande estranheza. Toquei no assunto, e minha irmã mais velha desconversou. Muito à meia-boca, falou algo sobre alguém da família ter hábitos estranhos, e, sinceramente, continuei não entendendo nada. Meses atrás, voltei a tocar nesse assunto, com a mesma irmã, e conversamos de mulher para mulher, como não poderia deixar de ser. Só então fiquei sabendo o que acontecera realmente naquela ocasião.

Vou contar pra vocês, com todas as letras, como seria absolutamente normal se a nossa sociedade tivesse interesse em descortinar a verdade: quando as meninas entraram no banheiro, deram de cara com um conhecido da família com as calças abertas e o pênis ereto para fora! Ele estava ali, naquela situação, propositalmente, esperando-as para se exibir! Elas, totalmente desavisadas, saíram todas correndo, apavoradas!

O mais grave nisso tudo é que os adultos da família sabiam que esse homem estaria na festa, e tinham consciência dessa sua tendência, que já se revelara em ocasiões anteriores.

Pergunto, e gostaria muito que vocês me respondessem:

- Não seria o caso de terem alertado as meninas, para que elas se cuidassem?
- Não era importante que, pelo menos, conversassem com elas depois do acontecido, para saber que impacto isso lhes causara?
- Será que era tão complicado assim falar abertamente sobre esse assunto?
- O fato de ninguém ter conversado a respeito do episódio, embora todos percebessem o quão constrangedor ele fora, significou o quê?

Pois saibam: não se falou abertamente, nem de forma alguma. O episódio foi enterrado sem maiores explicações. Quem não tivesse compreendido o porquê da atitude daquele homem, que metabolizasse o acontecido como pudesse, porque nenhum adulto se proporia a falar sobre o caso.

Hoje, você pode pensar que não se pode usar como parâmetro uma história de quarenta e tantos anos atrás, porque o mundo e as pessoas evoluíram muito de lá pra cá. Mas, olho a nossa realidade atual e vejo inúmeras situações semelhantes, e não percebo uma mudança muito significativa na maneira das pessoas lidarem com elas... Apesar de termos muito mais acesso à informação, quando os problemas estão muito perto de nós, há uma enorme dificuldade em se falar abertamente sobre eles.

Infelizmente, ficamos sabendo, a todo momento, de casos e mais casos de famílias inteiras acobertando todo tipo de loucura. Pais pedófilos, que abusam por anos a fio dos próprios filhos, sem que isso venha à tona; alcoólatras que nem ao menos percebem que são alcoólatras, porque ninguém tem coragem de falar sobre isso; mulheres que apanham freqüentemente, e que não conseguem pedir ajuda a ninguém; pessoas doentes, que não têm coragem de se assumir doentes... Tanta coisa...

Quem já não mordeu a língua para não chamar de agiota aquele conhecido que vive de emprestar dinheiro a juros extorsivos, porque seria ofensivo? Na nossa sociedade, é falta de educação ou "preconceito" (veja só!) chamar o gordo de gordo, o careca de careca, o pobre de pobre, o negro de negro, o velho de velho... Ou seja: não podemos dar nomes aos bois, porque é feio.

Não estou defendendo aqui a idéia de que devamos sair por aí fofocando a respeito da vida alheia, julgando e condenando, ou atirando pedras em quem tenha problemas. Defendo uma maneira realista de ver o mundo e a vida, o que nos dará competência para enxergar o Barba Azul, se ele aparecer. No caso em questão, a família poderia, sim, de forma discreta, ter alertado as meninas que iriam à festa, explicando-lhes a situação, não para que se apavorassem, mas para que não estivessem despreparadas, e soubessem se defender do perigo latente. E, uma vez que se criou a situação desagradável, essas meninas mereciam, sim, que algum adulto conversasse com elas a respeito do problema, para que não restassem, no final, dúvidas incômodas em suas vidas. Podemos saber como cada uma metabolizou o acontecido? Provavelmente, o que, para uma delas, menos sensível, foi apenas algo engraçado, para outra pode ter sido um fator determinante do seu comportamento sexual, por ter enxergado agressividade na sexualidade masculina.

Imagino que, no final das contas, mediante o absoluto silêncio que se fez em relação ao caso, a mensagem que restou na cabeça das meninas que correram do banheiro, tenha sido: quando a coisa parece ser muito feia, melhor fingir que nada aconteceu. E posso dizer que, se cada uma de nós começar a pensar na própria vida, vai encontrar inúmeras situações em que a conclusão a que chegamos foi essa.

Você lembra de algo assim em sua vida? Alguma coisa que foi tão abafada por todos ao seu redor, que você chegou à conclusão de que o melhor a fazer seria fingir não ter visto, não ter ouvido, e não falar nada? Será que, de tanto passar por isso, você não introjetou essa idéia de não enxergar o que é muito feio ou ruim? De negar a realidade? Pense nisso. E me conte. Abra os olhos e veja, de verdade, o mundo ao seu redor.

Essa situação me fez lembrar dos três macaquinhos da lenda dos três macacos sábios. Você conhece? Vamos falar sobre ela no próximo post!

Mas vou ficar aqui, esperando seus relatos de "negação da realidade".

Beeeijos!

Analú :)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

XVI - Batatas

Olá! No último post, que foi há muuuuuito tempo, eu havia comentado que estava preparando um vídeo, o Batatas, que tinha tudo a ver com o conteúdo desse blog. De lá prá cá, a ausência de novos posts se deve justamente à trabalheira que foi fazer esse conto ilustrado. Eu havia imaginado que seriam umas 90 ilustrações, mas foram mais de 140!

O importante é que acho que valerá a pena. Ele também é mais uma "provocação" que quero fazer aqui. Ele fala justamente sobre algo que repito sempre: cuidar de tudo e de todos não é suficiente para que você seja feliz. É preciso que você cuide de você. Nada contra cuidar dos outros também, se essa é sua vocação, mas nunca se esqueça de você mesma. Nunca se abandone, nunca se deixe esvaziar, nunca se distancie de sua alma.

Fiz questão de me dedicar a esse trabalho, porque acredito que um vídeo com um toque de graça possa atingir muito mais pessoas do que um conto, e desejo, do fundo do meu coração, que, dessa forma, um número grande de mulheres possa parar para pensar um pouco. Em tudo: na vida, na velhice, na solidão... nem sei quantos sentimentos posso despertar contando essa pequena história tão simples, mas verídica.

É esse justamente o meu objetivo: que vocês assistam o vídeo, que se emocionem, que pensem a respeito, que se solidarizem com essa velhinha tão simpática. Que, aliás, de hoje em diante representará a terceira idade aqui no meu blog.

E peço que comentem, que falem a respeito de seus sentimentos, que me digam o que pensam a respeito da velhice, se a temem ou se a esperam tranqüilamente. Ou se nem pensam nisso. Que me contem suas próprias histórias, ou histórias que conhecem, que tenham a ver com esse tema.

Espero que, apesar do conteúdo do vídeo ser extremamente sério, vocês possam se divertir um pouco. Abaixo do vídeo vou transcrever o texto na íntegra, caso interesse a alguém.

Bom vídeo!



Batatas

Batatas. Precisava comprar batatas. Se tivesse algumas agora, não passaria por esse apuro. Ficara esperando o neto durante toda a tarde. Viria buscá-la pra passar o fim de ano com a família. Mas... O que acontecia, que ele não aparecia? Se soubesse que estaria em casa até uma hora dessas, teria dado uma saída, até a quitanda, ao menos. Comprava algumas batatas e pronto. Fazia uma sopinha...
Voltou à cozinha. Abriu de novo a geladeira. Não era preciso muito esforço pra chegar à conclusão de que estava "a zero". As prateleiras vazias pareciam zombar dela. Fechou a geladeira, aborrecida. Podia ir até a padaria, comprar uns pãezinhos... Mas... E se o neto aparecesse, nesse meio - tempo? Iria embora, se não a encontrasse. Era isso. Se não a encontrasse, não teria paciência pra esperar. Iria embora, com certeza.
Sentou, desgostosa, na poltrona em frente à TV. Uma TV centenária, que o outro neto lhe dera. As imagens mudas, em branco e preto, não faziam sentido. Levantou-se, foi à janela. O mundo a cores era bem melhor.
Esticou o olhar pro relógio cuco, na parede. Oito e meia. Estava tarde. Talvez fosse melhor ir até o orelhão, dar uma ligada pra filha. Saber o que é que estava acontecendo... Não. Não estava acontecendo nada - disse a si mesma. O neto estava atrasado como sempre, só isso. A fome é que estava aumentando sua impaciência.
Foi à cozinha, esquentou um pouco de café. Vasculhou o armário e encontrou algumas bolachas de água e sal. Se tivesse um pouco de manteiga... Manteiga. Nunca mais comprara manteiga. Só margarina. Desde que sua pensão fora cortada pela metade, havia uma série de coisas que não fazia mais. Deixara de fazer mercado, porque o genro lhe garantia uma cesta básica. Era sozinha, não precisava de muito para viver... Mas, que diabo... - pensou. Ficar na lona desse jeito era até uma vergonha... Às vezes tinha vergonha. Não sabia ao certo de quê, não importava que estivesse só. Era uma vergonha íntima, perante si mesma. Jamais comentara isso com ninguém, mas era algo que a incomodava profundamente. Essa sensação de vergonha. Vivera toda sua vida se dedicando aos outros. Ao marido, aos filhos, aos netos... Trabalhara arduamente, durante toda a vida. Agora tinha que dividir uma mísera pensão com a segunda mulher do marido. - Coitada... - Pensou, sorrindo, nessa outra infeliz. Que faria ela com a parte que lhe cabia? Devia sentir vergonha, também...
Lavou a xícara, sacudiu a toalha no tanque, e então ouviu uma buzina. Enfim, o neto chegara. Correu à sala, fechou a janela, desligou a TV, voltou à cozinha, certificar-se de que fechara o gás, e saiu.

Na casa da filha, a bagunça era grande. Muita gente. Os filhos, genros e noras, os netos com suas esposas e alguns bisnetos. Crianças barulhentas. Comiam vorazmente, muito agitadas. Lúcia lhe deu um prato e disse que se servisse. Estava em casa, sabia disso. Sabia? - Vovó perguntou a si mesma. Não era isso o que sentia. Segurava o pesado prato de porcelana, indecisa. Lúcia montara uma mesa enorme. Havia uma variedade tão grande, que vovó não sabia ao certo o que escolher. Se comesse de tudo, com certeza passaria mal. A filha, percebendo sua angústia, arrebatou-lhe o prato da mão e começou a servi-la. Uma boa porção de salpicão, arroz com uvas-passas, farofa e perú. Não. O peito não. A carne era muito seca, entalava na garganta. Lúcia lhe cortou uma sobrecoxa e arrumou-lhe uma cadeira. Que comesse bastante, era fim de ano!
Vovó comeu demais. Talvez tivesse bebido um pouco demais, também. O genro lhe enchera por três vezes o copo de vinho. Agora estava mal. Lúcia lhe pegou pela mão e levou-a ao quarto de Jorge, o único neto solteiro. Ajudou-a com as roupas. Pronto. Um "engov" e cama. Acordaria bem. Abriu o respiro da janela, pra que se sentisse melhor.
- Boa noite. Feliz ano novo, mãe. - Saiu, batendo a porta.
Estava só de novo. Não, agora era diferente. Ouvia o ruído do pessoal, lá embaixo. Não era como quando apagava o abajur, em seu quarto, todas as noites. Não havia aquele silêncio assustador que parecia querer engoli-la. Podia relaxar. Não era preciso nem rezar... Havia gente por perto.
Em alguns minutos roncava.

O primeiro de ano fora bom, também. Ajudara Lúcia com o almoço, se fartara de comida e de companhia. Assistira TV colorida, conversara com alguns conhecidos que há tempos não via... Estava feliz. Lúcia insistiu para que ficasse até quarta. Acabou ficando. Embora tivesse consciência de que não podia ficar ali eternamente, não havia porquê voltar às pressas. Não tinha ninguém lhe esperando...

Estava só, na cozinha, aguardando que Jorge lhe chamasse. Ia levá-la pra casa. De repente, lembrou-se de que estava "a zero" em casa. Talvez no dia seguinte, à tarde, fizesse algumas compras, mas não tinha nada para o almoço... Correu os olhos pela cozinha e achou batatas, numa fruteira, ao lado do fogão. Se levasse duas ou três já seria suficiente para uma sopa. Procurou numa gaveta um saco plástico, guardou duas batatas, - duas bastavam, eram muito grandes - colocou o saco dentro da sacola de papel onde levava as roupas, e saiu. Jorge já descia, com a chave do carro na mão. Despediu-se de todos e se foi.

A casa lhe pareceu mais vazia. Era sempre assim. Jogou a sacola de roupas num canto da lavanderia, foi ao banheiro, disse "boa noite" à própria imagem, no espelho, e foi dormir.
Não quis enfrentar o quarto escuro. Acendeu o pequeno abajur, no criado-mudo. Às claras o silêncio não parecia tão assustador. Pensou nas noites que passara dormindo ao lado de Jorge. Era reconfortante estar perto de alguém. Pensou na filha. No genro. Nos netos e bisnetos. Pensou na vida. E na própria solidão.
Planejou o dia seguinte. Acordaria cedo, como sempre. Lavaria as roupas que trouxera sujas da casa da filha, faria uma sopa para o almoço... As batatas! - Lembrou. Estavam dentro da sacola de roupas, jogadas na lavanderia! Não havia mal nenhum nisso... Afinal, não estavam jogadas no meio da roupa suja... Havia colocado-as dentro de um saco plástico... Não sabia exatamente porquê, mas a idéia das batatas no meio da roupa a deixava aflita. Teve a sensação de que não dormiria bem se não as levasse para a cozinha, se não as colocasse num local apropriado. Levantou-se e, com um passo arrastado, chegou à lavanderia. Pegou a sacola de papelão, tirou de dentro dela as roupas que teria que lavar no dia seguinte e não encontrou mais nada a não ser um saco plástico vazio. Confusa, pegou o pequeno saco e então viu que estava furado. Assim como haviam entrado por um lado, as batatas haviam saído pelo outro. E, provavelmente, haviam rolado para o piso do carro de Jorge. Então se deixou dominar por uma aflição enorme. Numa fração de segundo pôde ver Jorge encontrando as batatas, no carro. Acharia estranho, as levaria para casa e comentaria com a mãe. Lúcia, imediatamente, ligaria os fatos. Chegaria à conclusão de que a mãe pegara as batatas sem avisá-la. Sentiu um mal-estar. Correu à cozinha, para sentar. Jamais poderia ter pego qualquer coisa sem pedir a permissão de Lúcia! De repente lhe ficava claro que um gesto que lhe parecera tão natural, poderia ser interpretado como... como roubo! É claro! - Pensou. Pegar algo sem o consentimento do dono era o quê? Roubo! Roubara as batatas e havia sido pega. Agora tinha que se explicar.
Voltou à cama. Olhou o relógio. Já era madrugada. Não poderia ligar agora para a filha. Assim que amanhecesse, iria à casa dos fundos, pediria para telefonar. Explicaria tudo à Lúcia. Que pegara as batatas num momento em que estava sozinha, que esquecera de lhe avisar... Pediria desculpas, havia agido mal. Passou a noite toda se revirando nos lençóis. Estava quente, e a preocupação não a deixou dormir.
De manhã, depois de um rápido banho, sem nem ao menos ter tomado um café, correu à vizinha.
- Lúcia! - Exclamou, ao ouvir a voz da filha ao telefone. Então, muito sem jeito, explicou-lhe o que acontecera.
Lúcia riu. Achou graça na preocupação da mãe. Deu-lhe até uma bronca carinhosa por ter se preocupado com tal bobagem.
Vovó desligou, com o coração aliviado. Percebeu-se trêmula, e respirou fundo, ainda meio angustiada. Agradeceu à vizinha e foi pra rua.
Durante a caminhada até a quitanda, pôde pensar com mais calma a respeito de tudo. Restou uma sensação estranha de que algo em sua vida dera errado. Mas o quitandeiro já perguntava: - Que vai querer?
- Batatas. - Vovó respondia, magoada.


Este conto faz parte da coletânea Acasos, da autora deste blog, à venda pela Internet.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

XV - Férias Selváticas

Olá! Acabaram-se minhas férias auto-impostas, e cá estou eu, cumprindo meus ciclos. Espero que você tenha entrado em 2008 com o pé direito, e que este ano te traga muitas coisas boas! Desejo, do fundo do meu coração, que você consiga viver de acordo com suas mais profundas convicções. E, se você perceber que nem ao menos sabe exatamente quais são suas convicções, meu desejo é o de que você pense profundamente sobre isso.

Foi o que fiz, no início de janeiro. Depois das festas de final de ano, e de toda aquela obrigatória euforia generalizada, veio uma calmaria gostosa, e entrei numa introspecção que me ajudou a rever tudo o que tenho feito na vida. Posso dizer que, verdadeiramente, mergulhei fundo em meus sentimentos e, mais uma vez, bati longos papos comigo mesma. E me senti super bem, porque vi que tenho estado a meu favor.

Durante os últimos anos eu vinha fazendo contatos íntimos com minha alma, que, muitas vezes, clamava por coragem, para realizar mudanças que a fariam mais feliz. Depois de conhecer “Mulheres que correm com os lobos”, vi que havia um respaldo científico para tudo aquilo em que acreditava e passei a escutar minha mulher selvagem com muito mais carinho e atenção. Como resposta, ela parece ter se expandido, se manifestando muito mais claramente, e me apoiando em decisões difíceis, mas que eu sabia que me trariam tranqüilidade. Nunca, em toda minha vida, eu havia vivido tão intensamente o que sou de fato, e isso foi muito bom! Nunca tive uma percepção tão clara do que me faz bem, e do que não me faz bem. E nunca consegui defender tão ferrenhamente meu direito de viver como gosto, estando com quem quero, fazendo as coisas que amo, adequando-me aos meus ciclos, respeitando e sendo respeitada, sem hipocrisias. Posso dizer que consegui delimitar meus territórios, que estive alerta, mais consciente e intuitiva, que falei e agi em minha própria defesa, sempre que foi necessário, que já sei a quê pertenço e, finalmente, que já estou tendo uma visão bem mais clara de quem é da minha matilha. Enfim, apesar de ter problemas, como todo mundo, nunca estive tão confortável na minha própria vida, e isso minimizou incrivelmente esses problemas. Além disso, tenho identificado cada vez mais os lados negros da minha psique, conseguindo, na maior parte das vezes, dialogar civilizadamente com eles.

Outro saldo positivo do ano foi o fato de eu ter provado a mim mesma, empiricamente, que, quando me aceito, e fico do meu lado, as pessoas que realmente valem a pena também me aceitam.

Passada a fase introspectiva, foi natural ter o desejo de criar (você se lembra da história dos três rabinos?). Estive envolvida com artesanato, confeccionando algumas peças decorativas para enfeitar a minha casa, que agora digo que é uma casa feita à mão, de acordo com essa vida feita à mão que quero ter (você entenderá melhor essa expressão quando estudarmos a história dos sapatinhos vermelhos). Fiz um abajur de passa-fita multicolorido, pintei um velho vaso e o enfeitei com flores secas, e comecei a fazer um par de quadros que ainda não consegui terminar, porque é um trabalho muito elaborado. Mas estão ficando bonitos. Decorei uma caixa de madeira com um desenho feito em alumínio, e a presenteei ao meu filho, para guardar algumas tranqueiras. Ficou bacana! E andei fazendo bijuterias, que, ao lado das revisões de texto, são minha fonte de renda mais imediata. Como sempre, não consigo fazer o óbvio. Pesquisei várias formas de moldar e colorir a cerâmica plástica, que é o material com o qual mais trabalho, porque me encanta a idéia de pegar um pedaço disforme de massa e transformá-lo numa peça de arte que fará com que alguma mulher se sinta mais bonita.

Também assisti vários filmes bons, que não havia assistido no cinema. E estive me dedicando às ilustrações de um conto que vou postar nesse blog, porque tem tudo a ver com o conteúdo dele. O nome do conto é “Batatas”, e fala sobre uma velhinha que se vê muito solitária depois de uma vida dedicando-se aos outros. Já fiz 73 ilustrações. Acho que até o final serão umas 90. Esse conto me emociona, e espero que emocione minhas leitoras também. As ilustrações darão um toque levemente divertido a uma história triste. Descobri que ilustrar pode ser incrivelmente interessante, e espero que seja uma das minhas atividades profissionais, num futuro não muito distante.

Puxa vida, quanta coisa! Se alguém tivesse me perguntado à queima-roupa o que fizera durante as férias, talvez eu não lembrasse de nada! Porque não viajei fisicamente para lugar nenhum e, no consenso geral, férias são feitas para se viajar. Mas viajei em tudo o que realmente gosto. E fico feliz por estar vivendo de acordo com o que acredito e prego, e constatar, com a minha experiência pessoal, que o que venho estudando e defendendo é real. Eu vinha, há muito tempo, recolhendo meus ossos e, durante o ano de 2007, comecei a cantar para eles.

Um último comentário: quando comecei a escrever este texto, repassei tudo o que havia escrito nesse blog. E, ao reler a descrição que Clarissa dá dessa verdadeira síndrome que acomete as mulheres modernas, a “falta de alma”, senti um prazer gostoso, de quem fez o dever de casa. Reveja estes sintomas:

“Sensações de vazio, fadiga, medo, depressão, fragilidade, bloqueio e falta de criatividade são sintomas cada vez mais freqüentes entre as mulheres modernas, assoberbadas com o acúmulo de funções na família e na vida profissional. Esse problema, no entanto, não é recente. Ele veio junto com o desenvolvimento de uma cultura que transformou a mulher numa espécie de animal doméstico. "

Você ainda está nessa? Eu, não mais! rsrsrs...

O próximo post será sobre “O Barba Azul”! E, em breve, “Batatas”, um conto ilustrado!

Beijão!

Analú

domingo, 11 de novembro de 2007

XIII - Um Pequeno Conto - "Vida Nova" - Você já viveu algo parecido?

Sei que havia prometido que o próximo post seria sobre o “Capote Expiatório”, mas andei relendo alguns textos dos meus livros, e um deles tem tanto a ver com essa questão do “voltar pra casa”, do interiorizar-se, que achei que caberia muito bem aqui para exemplificar a imensa necessidade que uma mulher tem de ter alguns momentos consigo mesma, principalmente nas fases em que o mundo objetivo está tirando demais dela. Nesse pequeno conto, que faz parte da minha coletânea “Acasos”, a protagonista elabora uma “manobra” dentro do seu dia-a-dia super agitado, para ter alguns momentos de paz.
Leia, e veja se você se identifica com esse tipo de situação. Se puder nos contar quais são suas próprias "estratégias", tenho certeza de que seu depoimento poderá ajudar muita gente!

Vida Nova

O espelho reflete uma silhueta pálida, cansada. Um corpo imóvel, relaxado, branco. Longos cabelos negros, chegando à cintura, parecem pesar demais para o pescoço tão fino. Os seios fartos, de bicos muito grandes, cheios de leite. O ventre ainda inchado. Ela se olha, quase sem se ver. Não a agrada a própria aparência. Suspira. Liga o chuveiro, rapidamente. Entra no banho. A água lhe alivia o cansaço. Fecha os olhos, sente os pingos nos lábios. Serão vinte minutos. Vinte minutos pra si mesma. Nem pode crer. Ainda não relaxou de todo, esperando qualquer chamado. Habituou-se... Esses minutos devem ser aproveitados, curtidos. Muito xampu, condicionador, sabonete perfumado. Vai fingir que não escuta o marido chamar, o filho maior batendo à porta, o bebê chorando. Que se virem. Ao menos por vinte minutos num dia... Abre totalmente a torneira, sentindo no peito o jato frio. Arrepia-se. Fecha, e sai pingando pelo banheiro. Enrola os cabelos numa toalha, joga outra atrás do pescoço. Sente o hidratante umedecendo o corpo todo. Está com a barriga flácida, a pele ainda ressentida da gravidez. Ficou imensa... Ouve o choro do pequeno, ao longe. Quase hora de mamar... Podiam pegá-lo, ao menos. A panela de pressão faz um barulho enorme... Será que ninguém sabe que é preciso abaixar o fogo? Passa o largo pente de madeira pelos fios negros, ensopados. O espelho agora reflete uma palidez limpa, e isso a agrada mais. Já tem a expressão mais descansada, ensaia sorrir de prazer. Está fresca. De um frescor que durará apenas alguns minutos, mas tudo bem. Passa um brilho rosado nos lábios, e faz biquinho, flertando consigo mesma. A TV está ligada no volume máximo. Será que são surdos? É o programa de esportes. O telefone toca insistentemente. O marido grita ao filho que atenda. - É pra mãe! - Assim fica impossível se alienar... Está pronta, e passaram-se apenas quinze dos vinte minutos com que se presenteia todo dia. Que fazer dos outros cinco? Não deve desperdiçá-los. Olha em volta, não há livro algum pra ler. Senta sobre a tampa do vaso sanitário, encosta a cabeça no azulejo frio. Fecha os olhos. Conta até sessenta. Mais uma vez. E mais uma. Faltam só dois minutos. Cochila. Acorda, sobressaltada. Batem à porta.
- Tem roupa pro tintureiro?
Ergue-se, assustada.
- Não!
Seus vinte minutos se foram. É o limite. Mais que isso, seria luxo excessivo. Nem tem tempo de abrir a porta, porque o marido já o fez. Tem o hábito de abri-la por fora, com a chave do carro. Tão respeitador... O filho despenca banheiro adentro, desesperado pra fazer xixi. O bebê chora. Ela corre, pra lhe pegar. Se veste rapidamente. Dispensa o tintureiro. Desliga o fogo. Tira o fone do gancho. Senta-se em frente à TV, e coloca o bebê no peito. E tenta ainda se manter um pouco alienada, enquanto o bebê mama e o marido, inconsolável, lhe pergunta - "Por quê?, meu Deus! Por quê tem que demorar tanto no banho?"
Não vai lhe responder...


Beijo!

Analú

terça-feira, 6 de novembro de 2007

XII - Como Recolher Ossos? (Ou: Algumas Formas de Fazer Contato Com Sua Alma)

A princípio, só o fato de ler as histórias e pensar um pouco sobre elas já é recolher ossos. Naturalmente elas vão te reportar a situações que você viveu, às saídas que você achou para os seus problemas, a sentimentos que você nem ao menos compreendeu, a emoções que você sepultou. Lendo as histórias e pensando sobre elas você vai se “reconstruindo”, e tem a chance de relembrar do que te faz sentir-se viva. E de aprender a reagir de forma diferente em situações que te machucam, não se machucando mais ainda. Mais do que isso, tem a chance de identificar quais são essas situações, porque, muitas vezes, varamos nossos dias tão envolvidas em tarefas rotineiras obrigatórias, que “passamos por cima” de nossos próprios sentimentos. Seguimos, como máquinas, “à la zumbi”, como diz Clarissa, atendendo às necessidades de todos e negligenciando as nossas, e nem temos tempo de avaliar, ou de sentir profundamente o que estamos sentindo. Talvez seja por isso que, muitas vezes, repentinamente, uma palavra torta, um olhar enviesado, uma tola malcriadeza de filhos adolescentes tem um efeito bombástico, detonando em nós crises de choro que surpreendem a todos que estejam nos observando. “Afinal, não era motivo pra tanto...”
É claro que mesmo um observador desatento pode perceber, nesses momentos, que você está se rebelando por tudo o que tem passado, não apenas pelo que aconteceu naquele instante.
Lembro-me de uma situação que vivi em que ficou mais do que evidente que minha reação exagerada a uma bobagem momentânea na verdade foi uma explosão de sentimentos represados, que se aproveitou de um pequeno detonador para poder acontecer.
Meus dois filhos estavam numa idade difícil e eu vinha encontrando dificuldade para que me escutassem. Meu relacionamento com meu marido sempre foi complicado. Eu me abandonara, cuidando de tudo e de todos, e tinha pouquíssimos momentos de prazer. Não ficava comigo mesma nunca. Os meninos tinham mania de brincar com uma mini bola de futebol muito leve e macia em minha sala, que não é nada grande. Aquilo me irritava profundamente, mas eles eram surdos aos meus pedidos de que parassem. Certo dia, eu estava atravessando a sala, e, do corredor lateral, que dá acesso à cozinha, a pequena bola veio com toda velocidade e bateu bem no meio da minha testa. Claro que por ser inofensiva, não me machucou, mas me pareceu uma agressão tão grande, por ser a gota que faltava para que o copo transbordasse, que me pus a chorar como se estivesse gravemente ferida. Os meninos ficaram, a princípio, apavorados, mas quando perceberam que nada real havia acontecido, acabaram rindo de mim, sem compreender o exagero da minha reação. Mais tarde contaram ao pai o escândalo que eu havia feito por algo tão tolo!
Uma crise de choro detonada por qualquer motivo sempre traz junto as lembranças de nossas frustrações, de nossos desejos não realizados, de nossos sentimentos de auto-piedade, e de tudo aquilo que engavetamos para prosseguir em nosso dia-a-dia sem maiores abalos ou rupturas.
Durante minha infância e adolescência, enquanto morei na casa de meus pais, lembro-me que minha mãe sempre interpretava minhas crises de choro como um sinal de que “eu não estava normal”, e isso me magoava profundamente, porque eu sentia que estava apenas extravasando sentimentos que não pudera manifestar de outra forma, o que me ajudava a me conhecer. Mas isso sempre era motivo de críticas.
Depois de adulta, descobri que conseguir expressar os sentimentos é altamente saudável, funcionando, inclusive, como um preventivo contra a depressão. Uma tristeza vivida não se transforma em depressão. Cumpre seu ciclo, e se vai. E percebi com tanta clareza o grande serviço que essas crises de choro me prestavam, trazendo à tona sentimentos profundos, que aprendi até mesmo a manipulá-las, usando algum detonador que eu sabia que surtiria efeito. Muitas vezes, querendo me livrar de alguma angústia que a mim mesma não estava clara, fui até uma locadora de vídeos e procurei algum filme que sabia que mexeria com meus sentimentos. Assisti sozinha, à vontade. Era fatal. O filme retratava situações que me reportavam à minha própria vida, alguma cena mais emocionante me trazia lágrimas aos olhos e, quando percebia, já estava fazendo uma verdadeira catarse da minha angústia. Junto com o choro vinha tudo, e eu aproveitava a oportunidade para encarar minhas frustrações de frente e tentar descobrir formas de saná-las. Momentos em que choro são momentos em que posso dizer que converso com minha alma. Ou que recolho ossos, para depois tentar encontrar que música cantarei para reanimar meu esqueleto já montado.
Outra forma de recolher ossos é criar, dedicar-se ao que mais gosta, produzir arte, seja ela qual for. No meu caso, sei que escrever é a chave. Você tem que descobrir o seu próprio caminho. Dedicar-se a algo de todo coração, entregar-se à tarefa de corpo e alma, é um ato de introspecção que, com certeza, te colocará em contato com você mesma.
Mulheres sabem disso intuitivamente. Desde muito pequenas há atividades que despertam nossa curiosidade, nos atraem e nos encantam, sem que fiquemos racionalizando muito a esse respeito. Por um longo período, quando eu ainda era uma criança, um de meus irmãos montou uma fábrica de bolsas e cintos de couro no salão de nossa casa. Eu e minhas irmãs simplesmente enlouquecíamos olhando os materiais, catando sobras e inventando nossos próprios acessórios! A sensação de ter criado com nossas próprias mãos peças que depois até fariam sucesso entre nossas amigas era algo nem de longe comparável a comprar um acessório pronto, em qualquer loja! Muitas mulheres que conheço usam, intuitivamente, o artesanato como uma forma de terapia, mesmo que com isso não ganhem qualquer dinheiro. Estar totalmente absorvida numa atividade de que gostamos muito é uma das formas de “voltar pra casa”, reencontrar-se consigo mesma.
Há pouco tempo vi uma entrevista de Maria Rita, a filha de Elis Regina, no programa do Serginho Groissman, onde ela relatou, com muita simplicidade, que, desde que engravidou de seu filho, há três anos, faz e desfaz um pequeno pedaço de crochê, sem o objetivo de terminar o trabalho, apenas por fazer. Interessante que ao falar sobre isso ela parecia não saber expressar exatamente o porquê da coisa, e talvez ela mesma achasse “esquisita” tal dedicação a algo que nunca se transformaria em nada. Acredito que toda mulher saiba o que é isso. Quem aprendeu, desde cedo, a tricotar ou crochetar, sabe o quanto é prazeroso enquanto estamos totalmente envolvidas com nossas agulhas e linhas, vendo o movimento de nossas mãos fazer aquele pequeno pedaço de arte crescer! Tão prazeroso, que, muitas vezes, pouco importa se o resultado final será bom ou não! Ao assistir essa entrevista lembrei das inúmeras blusas de lã que comecei a tricotar no começo do inverno, para, com a chegada do verão, acabar dando aquele pedaço de blusa para alguém que quisesse terminá-la! E de um pedaço de tricô que fiquei tricotando e desmanchando enquanto ficava ao lado do meu pai, em seu último mês de vida, dentro de um hospital. E da enorme quantidade de caixinhas de madeira que comprei e decorei com o intuito de vender, sem nunca conseguir, o que acabava não me frustrando, porque, no fundo, sabia que estava preservando a saúde da minha psique, fazendo algo de que gostava. E tantas coisas mais...
Aquilo de que você gosta a ponto se envolver e esquecer-se de tudo o mais por algum tempo; aquilo que te faz se interiorizar, ficar totalmente absorvida e que você percebe que te “reabastece” para enfrentar novamente suas atividades rotineiras, merece sua total atenção.
Clarissa diz que “voltar pra casa” é fundamental para sua saúde física e mental. E que deve ser algo disciplinado, cuja freqüência será determinada pelo seu ritmo de vida. Você deve sentir quantas vezes por semana, ou por dia, deve parar para se reabastecer. E esse deve ser um momento respeitado por todos. Você precisa poder pegar suas coisas, ir para o seu canto, dizer “tchau, estou indo”, e as pessoas precisam saber o que isso significa. Que você quer estar consigo mesma e quer que a respeitem. Logo todos notarão que você volta de lá bem melhor, e ficarão felizes com isso.
No próximo post vou falar sobre “O Capote Expiatório”, um relato de Clarissa que me inspirou a sugerir a você uma outra forma de “remontar seu esqueleto”.

Beijão!

Analú

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

XI - Mais um estímulo pra você - Poesia - "Mentira"

Sempre gostei de escrever. Ao longo da minha vida, mesmo nos períodos em que me convencia de que esse sonho já estava "enterrado", ou de que "não valia a pena", porque, com isso, provavelmente não conseguiria ganhar dinheiro (o que é fatal na sociedade em que vivemos), quando sentia que minha alma precisava transbordar, procurava papel e caneta. Tenho absoluta certeza de que minha "Mulher Selvagem" é escritora. Quando li pela primeira vez "Mulheres que correm...", o primeiro passo que dei em direção à minha alma foi buscar, nos meus guardados, tudo o que já havia escrito. Reli tudo. Organizei por datas. Me emocionei. Percebi que em meus textos estava minha biografia. Todas as fases cruciais da minha vida estão registradas neles. O mais incrível é que, conforme ia desvendando as histórias do livro, ia percebendo que havia uma ligação direta entre as situações que Clarissa descreve e as que haviam me angustiado,na minha própria vida, resultando num conto ou poesia. Assim, é natural que, ao falar sobre o trabalho de Clarissa, muitas vezes, suas análises me remetam aos meus próprios textos. Quando eu considerar que um texto de minha autoria será enriquecedor para o nosso workshop, não terei pudor em usá-lo. É o que faço aqui, agora, usando minha poesia "Mentira" como um estímulo a mais pra você. Espero que você goste, e que aproveite a mensagem!

Mentira

Você já desistiu de algo?
Fica um fio, fica um rabo.
Se quis do fundo do coração,
se pediu numa oração,
se sentiu um expandir do peito,
não tem jeito,
não tem jeito.
Se quis, quer e está feito.
Se foi com alma,
se foi sem calma,
se foi bem cedo,
se foi sem medo,
se tinha como,
era real.
Se era bom,
faria bem,
se tinha com,
se tinha quem,
não tem “desisto”,
não tem “give up”.
Se adormeceu,
ou cochilou,
se esqueceu
ou só guardou,
não matou,
não morreu de fato.
Naquela porta que mal fechou,
naquela fresta que sobrou,
olha a pontinha,
olha a pontinha...
É só puxar.
Vai encontrar
todo o novelo,
toda a novela,
todo o vazio.
E na lembrança
do que não fez,
que frio...


Beijo! Analú

terça-feira, 30 de outubro de 2007

X - Você está se boicotando?

Quando comento entre mulheres o fantástico efeito das histórias de “Mulheres Que Correm Com os Lobos”, a reação sempre é de interesse. Sempre há alguma, ou algumas, que se dizem portadoras da “síndrome da falta de alma”, e mesmo que outras não se enquadrem totalmente nos sintomas, sempre há algo no assunto que as impressiona. Se conto, mesmo resumidamente, uma das histórias, logo percebem que com a leitura do livro têm muito a ganhar. Algumas anotam o nome do livro e da escritora, e acredito que tenham a séria intenção de lê-lo.
Mas... da intenção à ação há uma looonga distância. Acabou-se a conversa, cada uma vai pra sua casa, enfrenta seus problemas da forma como sempre tem feito, sente-se “adaptada” à própria realidade, conclui que está “segura” e que um simples livro não será a “chave para a felicidade”.
“Afinal, que grandes mudanças poderiam ocorrer a esta altura da sua vida?” E eu respondo, agora: TODAS AS QUE FOREM NECESSÁRIAS PARA VOCÊ VIVER MAIS PLENAMENTE E SER MAIS FELIZ. E quando digo TODAS não estou me referindo ao seu mundo objetivo, material. Não estou dizendo que você vá abandonar seus relacionamentos, seu trabalho, ou que vá virar seu mundo de cabeça pra baixo. Estou dizendo que as verdadeiras mudanças que vão fazer realmente a diferença na sua vida vão ocorrer dentro de você. Se, a partir daí, mais forte, você concluir que deve mudar algo na sua vida objetiva, com certeza você o fará, e certamente a mudança será para melhor.
Mas... a esta altura, você já se convenceu de que não vai conseguir tempo pra ler um livro complicado, de mais de seiscentas páginas. E eu argumento: acompanhe esse workshop virtual, que com alguns minutos de leitura de cada vez, um pouquinho por dia, e nem precisa ser todos os dias, você vai fazer esse trabalho sem nem perceber. Aliás, vai perceber e muito, nos seus efeitos! A leitura, aqui, está facilitada, porque estou extraindo do livro as questões principais, estou traduzindo a linguagem, às vezes acadêmica, da escritora, para uma linguagem simples, de fácil compreensão. E estou exemplificando com situações rotineiras, com as quais você deve se identificar o tempo todo.
Mas... entrar na internet, acessar o blog, ler dez minutos... Você não tem tempo pra isso? Mas, se o seu filho, ou sua filha, chegar da rua, de um trabalho ou um estudo que é puro investimento em seu próprio crescimento (sim, eles têm direito de crescer e se melhorar!), e disser que está com fome e lhe pedir um misto quente, você vai fazer, não vai? “Você vai deixar seu filho ou filha com fome???” (a voz que fez essa pergunta é a daquela parte da sua psique que te boicota, que não tem interesse no seu crescimento) Você a escuta e ignora o fato de que seu filho já é um adulto e, mesmo que não fosse, teria plena capacidade para fazer algo tão simples como um misto quente, o que, como adicional, ainda lhe daria uma agradável sensação de independência. “Mas, ele chegou da rua agora, coitadinho...” (ela de novo!!!) E você? Chegou de onde? Da lavanderia? Ou da beira do fogão? Ou do ferro de passar? Ou do banco? Ou do mercado?
Vou poupar-lhe aqui de ler uma lista interminável de coisas que, provavelmente, você faz em benefício de outras pessoas, quando elas mesmas poderiam se fazer, porque você já deve saber isso de cor e salteado. Então, a questão não é falta de tempo. A questão é que VOCÊ NÃO É A SUA PRIORIDADE.
Você sabe o que acontece quando você não é a sua prioridade? Provavelmente, todos os que estão à sua volta vão crescer, vão evoluir, vão se tornar independentes (mesmo que você faça a maior força pra que isso não aconteça), e quando você perceber que só você ficou estagnada, ou desinteressante, até pra você mesma, você vai se magoar. Aí vai ser culpa da vida, de Deus, do marido, de todo mundo, e não sua... Mulheres magoadas costumam adoecer.
Que tal começar a mudar esse futuro sombrio agora?
Bem, você pode ter em sua mente as inúmeras vezes que pensou exatamente isso e tentou fazer algo diferente, pra se sentir bem consigo mesma, e não deu certo. Cursos começados e não acabados, projetos que não saíram do papel, investimentos que não vingaram, trabalhos que não foram adiante por falta de tempo... Tanta ilusão! E as críticas que lhe faziam por “pular de galho em galho”? Cada tentativa frustrada e cada crítica recebida eram como um pequeno choque elétrico, cuja lembrança, agora, faz com que você se pergunte se vale a pena. Nesse ponto tenho a obrigação de te lembrar que mesmo que você não tente mais nada, sempre vão te criticar, porque isso é normal.
O que você tem que se perguntar é: todas as vezes que tentei fazer algo, onde busquei inspiração? Foi dentro de mim? Ou segui uma onda, um modismo, um conselho? “Algo” daria dinheiro, ou estava na moda, ou seria a profissão do futuro... Porque é só seguindo a sua inspiração que você vai conseguir prosseguir seja lá no que for. Se o seu problema é realização pessoal ou profissional, ou independência financeira, você vai atingir isso quando escutar a sua alma.

Tenho que citar aqui uma frase que Gasparetto sempre diz:
“Com alma você tem tudo. Sem alma você não tem nada”
Acredito piamente nisso. E espero que, daqui em diante, você faça bons contatos com a mulher selvagem que está dentro de você, para que essa intuição comece a fluir sem dificuldades e você consiga escutá-la sempre que for necessário. Você estará escutando a sua alma.
Agora, se você ainda se sente desvitalizada, com preguiça, ou sem ânimo para começar a se dedicar a esse workshop, se você sente que desistiu de lutar por aquilo em que acredita, se você não quer mais “fugir” de uma vida que está te magoando, o que me ocorre é que você está como o cão da experiência científica que vou transcrever agora, exatamente como está no “Mulheres que correm...”:

No início da década de 1960, alguns cientistas realizaram experiências com animais para tentar determinar algo a respeito do "instinto de fuga" nos seres humanos. Numa das experiências, eles fizeram uma instalação elétrica na metade direita de uma grande jaula, de modo que um cão preso nela recebesse um choque cada vez que pisasse no lado direito. O cão aprendeu rapidamente a permanecer no lado esquerdo da jaula. Em seguida, o lado esquerdo da jaula recebeu o mesmo tipo de instalação, que foi desligada no lado direito. O cão logo se reorientou, aprendendo a ficar no lado direito da jaula. Então, todo o piso da gaiola foi preparado para dar choques aleatórios, de tal modo que, onde quer que o cão estivesse parado ou deitado, ele acabaria levando um choque. Ele a princípio aparentou estar confuso e depois entrou em pânico. Finalmente, o cão desistiu e se deitou, aceitando os choques à medida que surgissem, sem tentar fugir deles ou descobrir de onde viriam. No entanto, a experiência não estava encerrada. No próximo passo, a jaula foi aberta. Os cientistas esperavam que o cão saísse dali correndo, mas ele não fugiu. Muito embora pudesse abandonar a jaula quando bem entendesse, ele ficou ali deitado recebendo os choques aleatórios. A partir dessa experiência, os cientistas levantaram a hipótese de que, quando um animal é exposto à violência, ele apresentará a tendência a se adaptar a essa perturbação, de tal forma que, quando a violência pára ou ele tem acesso à liberdade, o instinto saudável de fugir é extremamente reduzido, e em vez de escapar o animal fica paralisado. Em termos da natureza selvagem das mulheres, é essa trivialização da violência, assim como o que os cientistas subseqüentemente denominaram "aprendizado da impotência", que não só influencia as mulheres a ficar com parceiros alcoólatras, patrões exploradores e grupos que se aproveitam delas e as importunam, mas também faz com que elas se sintam incapazes de se erguer para apoiar aquilo em que acreditam profundamente: sua arte, seu amor, seu estilo de vida, sua preferência política.

Pergunto: Você acha que perdeu seu poder de lutar pelos elementos da alma e da vida que mais valoriza?

Quero te dizer que há uma porta aberta, e se você der alguns passos e sair dessa jaula, descobrirá que existe um mundo onde você consegue reagir, se defender, defender o que ama. Onde você vive plenamente, e pode ser feliz. Esse mundo é a sua alma, você só precisa deixá-la se manifestar.

Se eu estivesse presente na experiência com o cão e visse sua impotência, dentro da jaula, claro que eu iria até ele e, se fosse preciso, o carregaria no colo até o lado de fora. E o apoiaria, até que ele percebesse que ali não levaria choques.

É o que estou tentando fazer com você, da forma que sei. Mas não vai dar pra te carregar no colo! Você é uma mulher, cheia de vida e de inteligência. Espero que faça algo por você mesma.

Beijo!

Analú

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

IX - La Loba

A Ressurreição da Mulher Selvagem – Um estudo sobre “La Loba”, a Mulher-Lobo
Antes de começar a narrativa, vou dar algumas dicas que podem servir como “chaves” para a compreensão das histórias. Provavelmente, com essas informações, sua mente já começará a se abrir para captar o que nelas a reporta à sua mulher selvagem. Porque essa condição – a de estar aberta para receber o conhecimento, de estar receptiva, de sentir-se dentro da história e não como simples observadora é condição essencial para o bom resultado desse trabalho. Vou me dar o direito de contar as minhas próprias histórias e experiências, pra ilustrar mais ainda as situações. Leia as histórias com sua alma, pois elas são as “escavações ‘psíquico-arqueológicas’ nas ruínas do seu mundo subterrâneo”. Elas podem restaurar sua vitalidade perdida. Elas podem te trazer uma vida muito mais plena e feliz.

Clarissa compara a mulher moderna a um “borrão de atividade”, que sofre pressões para ser tudo para todos, e não consegue mais manifestar a velha sabedoria.
Você sofre essas pressões? Você se sente cobrada, você assume responsabilidades que na verdade não são suas, você acumula funções, você passa o dia inteiro trabalhando e no final, sente que não realizou nada? E então, perante algum problema, perante a necessidade de tomar uma atitude, de fazer uma escolha, de aconselhar a si mesma, você simplesmente fica sem ação? E, em nome de quê você enveredou por esse caminho? Comece a se perguntar.

Ao longo da História, os que não compreendem as mulheres agem como verdadeiros predadores da sua alma, perseguindo, acossando, acusando-as de serem trapaceiras e vorazes, excessivamente agressivas e de terem menos valor que eles. Para se proteger de seus predadores, há muito, muito tempo, mulheres passam a vida disfarçadas. Quando você se disfarça por muito tempo, começa a esquecer do que você realmente é.

Vou listar abaixo as características psíquicas que Clarissa considera comuns em lobos e mulheres saudáveis (nossas características selvagens), para que, identificando-as, você comece o trabalho de se desfazer de seus disfarces:

- percepção aguçada;
- espírito brincalhão;
- elevada capacidade para a devoção;
- natureza gregária (gostam de companhia, são sociáveis);
- curiosidade;
- grande resistência e força;
- intuição;
- têm grande preocupação com seus filhos, seu parceiro e sua família;
- têm experiência em adaptar-se a circunstâncias em constante mutação;
- determinação feroz e extrema coragem.

Seria interessante que você se perguntasse, nesse momento, e daqui pra frente, quais dessas características você reconhece em você. O quanto algumas estão fortes e claras, e o quanto outras simplesmente parecem ter desaparecido, tão distantes estão. A partir de que momento algumas se afastaram, e porquê. Claro que você não vai ter todas as respostas imediatamente, mas perguntar-se é um começo. Essa questão vai aflorar em algumas situações e, enquanto lê as histórias você vai perceber, vai questionar, vai “desencavar”, bem lá no fundo do seu ser.

Durante todo o livro Clarissa fala, inúmeras vezes, sobre a “descida”. Todas as vezes que você ler isso, saiba que estamos falando da descida ao mundo subterrâneo feminino, ou do seu aprofundamento em sua alma.

Outra expressão que ela vai usar muito, referindo-se ao seu encontro com sua alma, é a expressão "voltar para casa". Quando você "volta para casa" está em contato direto com sua alma.

A autora diz que há algumas situações que normalmente são “iluminadoras”, fazendo-nos sentir a presença da mulher selvagem, o que provoca em nós uma vontade louca de senti-la mais e mais. Vou transcrevê-las aqui:

- a gravidez;
- a amamentação;
- perante o milagre das mudanças que surgem quando se educa um filho;
- quando vivemos um relacionamento amoroso;
- através da visão de algo que nos desperta os instintos;
- através dos sons mais variados – uma música, o som de um tambor, um assobio, um grito;
- através das palavras – um verso, um poema, uma frase perfeita.

Simplesmente lendo a lista acima fui reportada aos melhores momentos da minha vida. A simples lembrança dos períodos em que amamentei já me traz felicidade. Sempre que reflito a respeito disso chego à conclusão de que essa sensação de plenitude vinha, além da própria maternidade, pelo fato de que me sentia absolutamente necessária para meus filhos, então deixava de me atormentar com questões menores, deixava de querer ser melhor do que eu era e permitia que o amor fluísse, na sua forma mais pura, dedicando-me de todo coração. Eram momentos em que estava em puro estado selvagem. Daí a paz interior. Daí a felicidade.

A música é outra coisa que me coloca em contato direto com minha alma. Seu poder é tão natural e maravilhoso, que sei que posso usá-la como recurso real quando quero sair de um estado de tristeza, ou entrar num estado de romantismo, ou quando quero me sentir mais forte. Desanimada, coloco o CD infantil da Adriana Calcanhoto e instantaneamente, aos primeiros acordes, já saio cantando, pulando e rodopiando, a ponto de provocar riso em quem me vê. Esqueço de tudo, alma pura. Quando estou muito cética escuto John Mayer e sou capaz de sentir o romantismo se apossando de mim, uma docilidade agradável, uma disposição instantânea para a paixão. Se me sinto fraca, apelo pra Cássia Eller e na terceira música já estou forte, cantando tão rebelde quanto ela. Sei que a música é ligação direta para minha alma.

Há uma experiência sonora interessante, que não tem a ver com música, que foi bem viva pra mim. Sou a última de seis irmãos. Quando nasci, minha irmã mais nova já tinha cinco anos. Ao chegar aos oito, eu era a única criança da casa. Para mim, meus irmãos eram todos adultos. Eu sentia um grande distanciamento deles, o que me dava uma certa sensação de solidão. Hoje percebo que naquela época provavelmente eu já começara a me “disfarçar”, para não desagradar demais minha família de adultos. A grande sorte que tive foi que nunca me incomodei muito em desagradar, talvez por já ter uma alma bem presente, o que me deu fama de rebelde.
Durante um bom período da minha infância e adolescência, sempre que as férias chegavam minha melhor amiga me convidava para passá-las em seu apartamento, em Santos. Era uma verdadeira farra! Estava com alguém da minha idade, num lugar agradável, íamos à praia, dormíamos tarde, falávamos muito e comíamos as maravilhosas iguarias que sua cozinheira nos fazia! Verdadeira receita de felicidade! Eram momentos muito bons, nos quais eu não me importava com nada, a não ser em me divertir como bem entendesse, e ser eu mesma.
Vez ou outra, quando estávamos na sala, jogando cartas ou assistindo TV, escutávamos uma voz ao longe gritando: “Olha o pão de cará! Pão de cará fresquinho...” Pulávamos de onde estivéssemos e íamos em busca de dinheiro para comprar o maravilhoso pãozinho! Quando subíamos, a cozinheira de minha amiga, uma negra que me fazia viver o sonho de estar no Sítio do Pica-pau Amarelo com Tia Anastácia, já colocara a mesa, já fizera o café e já fervera o leite. Passávamos a manteiga nos pães e os comíamos, alegres, e o prazer do paladar misturava-se ao prazer de estarmos juntas, de férias e despreocupadas, numa sensação que, na época, talvez eu não imaginasse que seria inesquecível.
A vida nos levou pra rumos diferentes, nunca mais vi minha “melhor amiga”, mas aquela sensação ficou guardada em algum compartimento da minha alma, para que nalgum dia, alguma “chave” o abrisse e a libertasse.
Poucos anos atrás, eu já com mais de quarenta anos, estava numa viagem de férias numa praia do Litoral Norte de São Paulo, com toda a minha família, e me balançava levemente numa rede, num fim de tarde, quando escuto ao longe: “Olha o pão de cará! Pão de cará fresquinho...” Aquilo foi como um retorno à minha infância, e veio com tanta força, que pulei da rede e saí correndo em busca de dinheiro para alcançar o vendedor antes que fosse embora! Coei café, fervi leite, pus a mesa, e comi aquele pãozinho de cará sentindo a mesma alegria em minha alma que sentia nas minhas férias em Santos! O vendedor de pães passava todas as tardes, e todas as tardes, até voltarmos pra São Paulo, eu comprei pães de cará e os comi como se estivesse resgatando um pedaço alegre da minha natureza. E aquela sensação específica de alegria aflorava no momento em que eu ouvia, longe, o chamado do vendedor. Voltei pra casa mais gorda, é claro! Foi a percepção mais forte que tive do poder de nossa memória auditiva, e de como um simples som pode abrir uma porta para a alma. E foi fantástico!

E as palavras... Quantas vezes, lendo um livro, senti que uma forma de dizer, que uma frase certeira, haviam me atingido em cheio, desvendando tudo o que existia dentro de mim... E quantas vezes, sentindo-me longe, sem ao menos saber exatamente o que desejava, peguei um papel e uma caneta e deixei as palavras saírem, à toa, sem planejamento, sem pretensão, sem objetivo, apenas com a certeza de que aquilo me traria de volta. E trazia. Umas poucas palavras, às vezes alguma rima, muito sentimento, e lá estava eu de novo! E que alegria vinha junto! Que sensação de plenitude!

Sei, agora, que quando ouço meus CDs, quando danço e canto, quando côo meu sagrado café da tarde, quando leio, quando escrevo, quando crio, estou correndo atrás da minha mulher selvagem. Através dessas atividades, encontro-me com ela e a vivencio prazerosamente. É muito, muito bom!

Essa inspiração fugaz que se apossa de nós nesses momentos, e que nos faz perceber que ainda estamos vivas é a motivação para que “viremos a mesa”, porque não vamos mais prosseguir sem ela. Essa mulher intuitiva, esse oráculo, essa inspiradora, essa criadora, vai passar a sustentar a nossa vida, que será mais natural, mais vibrante.

Eu gostaria agora que você pensasse a esse respeito, e tentasse encontrar em sua memória suas próprias experiências, suas próprias histórias.

Um alerta: você deve estar preparada para o seguinte: no início da restauração do seu relacionamento com a mulher selvagem ela pode se dissolver em fumaça a qualquer instante. Se lhe damos um nome estamos criando um espaço de pensamento e sentimento para ela dentro de nós. Ela virá, e se a valorizarmos, permanecerá. Espero sinceramente, que você a chame, que a nomeie (pode ser “mulher selvagem” mesmo, ou qualquer outro nome que queira lhe dar, mas que você saiba que é ela), que tenha um pouco de paciência para esperar que ela se manifeste, que a receba bem, e que permita que fique.

Conhecer a mulher selvagem é um processo permanente, que deve durar a vida inteira. As histórias que a autora escolheu para “Mulheres que correm com os lobos” abrirão a porta para esse conhecimento, mas essa não é a única porta. Não devemos nos contentar somente com essas histórias. É por esse motivo que peço a você que enriqueça ainda mais o conteúdo desse blog contando-nos as suas. Pequenas histórias que você ouviu em qualquer fase da sua vida e que vibraram no fundo da sua alma podem nos ajudar muito. Histórias pessoais de enfrentamento de problemas, de superação de dificuldades, de crescimento, de auto-conhecimento, de aproximação com a própria alma, e o que mais lhe vier à mente. Cada uma será um pequeno ossinho do seu esqueleto já tão fragmentado, e você poderá colocá-lo de volta em seu lugar. Se você se libertar de qualquer amarra e as relatar aqui nesse espaço, que foi feito pra isso, será maravilhoso para todas nós!

Agora, finalmente, vamos à história!

La Loba

Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos-de-fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço. Dizem que foi vista viajando para o sul, para o monte Alban, num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-Lobo.
O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia de ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.
Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar. Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pêlos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La Loba canta mais e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr-do-sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo – algo da alma.


Algumas elucidações que Clarissa nos fornece, para a compreensão da história:

- La Loba indica o que devemos procurar – os ossos, que representam a indestrutível força da vida.

- A ressurreição da Mulher Selvagem se dá quando La Loba canta sobre os ossos que reuniu. “Cantar” significa usar a voz da alma, soprar alma sobre aquilo que está doente ou precisando de restauração.

- Reencontrar-nos com nossa própria alma é um mergulho profundo em nosso amor e em nossos sentimentos, e é um trabalho solitário, realizado no deserto da psique (alma).

- La Loba, a velha, Aquela Que Sabe, está dentro de nós.

- A casa de La Loba é o lugar onde o espírito das mulheres e o dos lobos se encontram, onde a mente e os instintos se misturam, onde a vida profunda da mulher embasa sua vida rotineira, onde as mulheres correm com os lobos.

- Deve-se ter alguma preparação antes de mergulhar nesse espaço psíquico tão rico, para que ele não se transforme numa armadilha de êxtase , de onde não se queira mais voltar, por ser muitíssimo agradável, mas seja como um mergulho numa água revitalizante.

- Toda mulher pode chegar lá. Os caminhos são os mais variados: a meditação profunda, a dança, a arte de escrever, de pintar, de rezar, de cantar, de tamborilar, de imaginar, o caminho das artes, e também através da solidão intencional.

A seguir, vou transcrever mais uma história, “Os Quatro Rabinos”, que ilustra bem o cuidado com que se deve penetrar nesse estado psíquico:


Os Quatro Rabinos

Uma noite quatro rabinos receberam a visita de um anjo que os acordou e os levou para a Sétima Abóbada do Sétimo Céu. Ali eles contemplaram a sagrada Roda de Ezequiel.
Em algum ponto da descida do Paraíso, para a Terra, um rabino, depois de ver tanto esplendor, enlouqueceu e passou a perambular espumando de raiva até o final dos seus dias. O segundo rabino teve uma atitude extremamente cínica. “Ah, eu só sonhei com a Roda de Ezequiel, só isso. Nada aconteceu de verdade.” O terceiro rabino falava incessantemente no que havia visto, demonstrando sua total obsessão. Ele pregava e não parava de falar no projeto da Roda e no que tudo aquilo significava... e dessa forma ele se perdeu e traiu sua fé. O quarto rabino, que era poeta, pegou um papel e uma flauta, sentou-se junto à janela e começou a compor uma canção atrás da outra elogiando a pomba do anoitecer, sua filha no berço e todas as estrelas do céu. E daí em diante ele passou a viver melhor.


Para mim, a história acima sugere que, quando entramos em contato com nossa essência, com o Divino”, e nos sentimos preenchidos com uma sensação de amplitude e grandeza, o melhor a fazer é criar.

Clarissa faz uma comparação entre muitas mulheres que conheceu e o deserto. Ela diz que o deserto tem uma vida ínfima na superfície, mas imensa por baixo, e que a vida de muitas mulheres também é assim. Diz que muitas mulheres que analisou chegavam em seu consultório queixando-se de não se sentir mal, mas também não se sentir bem. E diz que faltava, em suas raízes, esterco. E sugere como cura La Loba. Porque é ela que cuida do que já morreu e do que está morrendo nas mulheres.

Acredito que nossa tarefa seja ir fundo em nossas recordações, buscar o que, em alguma época da nossa vida, nos satisfazia plenamente, o que nos deixava felizes, o que nos preenchia a ponto de parecer que não precisávamos de mais nada na vida, analisar em que momento perdemos isso, deixamos de fazer, deixamos de sentir, abrimos mão por algum motivo banal, por falta de tempo, por sermos tiranizadas pela sociedade, ou por não priorizarmos nosso próprio prazer. Ou sabe-se lá que outros motivos todas possamos ter. Mas nossa obrigação é adubar essas recordações, fazê-las renascerem, pouco-a-pouco deixá-las florescerem, e embelezar o mundo que nos rodeia com elas.
Sempre tive dentro de mim que o ato de criar é divino. Analise se aquilo que você vem criando vem da sua alma. Se você o faz porque quer do fundo do seu coração ou se está apenas cumprindo tarefas automaticamente, mal prestando atenção. Busque dentro de você aquilo que, quando realiza, se sente em paz com a vida. Claro que não podemos imaginar que só faremos o que amamos (lembre dos rabinos), mas quando nos damos chance de fazer o que amamos, ficamos melhor em tudo, e até nossas obrigações rotineiras acabam sendo mais prazerosas.
Sugiro que você releia “La Loba” e encontre suas próprias interpretações. Eu, de minha parte, expus, resumidamente, as diretrizes que Clarissa nos dá e tentei chegar à minha própria interpretação. Mas você não deve se contentar com ela. Não me cansarei de dizer que vale a pena ler o livro na íntegra, pois é riquíssimo! Cada frase cala fundo dentro de nós. É só clicar no link, na primeira página do blog, bem abaixo do arquivo do blog. E ler o livro também não significa deixar de participar desse workshop virtual. Ao contrário: você terá mais elementos para pensar, discutir, para lembrar de suas próprias histórias e nos contar. Conto com você!
Pra finalizar, como não poderia deixar de ser, vou transcrever aqui a última frase do capítulo que estamos estudando, exatamente como Clarissa coloca:

“Está querendo ajuda psicanalítica?
Vá recolher ossos.”

Beijão!

Ana Lucia

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

VIII - "Mulheres..." - Presentão! - "Mulheres Que Correm Com os Lobos" na íntegra!


Recebi um e-mail do Gustavo Gitti, do nao2nao1.com.br (um site sobre relacionamentos lúcidos) com uma agradabilíssima surpresa, um presente e tanto: o link para o texto do "Mulheres que correm com os lobos", na íntegra! É só clicar:
http://www.scribd.com/doc/29957/CLARISSA-PINKOLA-ESTES-MULHERES-QUE-CORREM-COM-OS-LOBOS - e aproveitar!
Gustavo, o cara mais intelectualizado que já conheci, é esse garotão aqui:


Obrigada, Gustavo!


E essa é a capa do livro:


Beijão, e Boa leitura!

Analú

domingo, 30 de setembro de 2007

VII – "Mulheres..." - Um adendo para a História sem nome – Pequena história sobre Mahatma Gandhi

Essa pequena história que vou contar não está no "Mulheres..." É uma história que conheço e que acho que pode estimular um pouco mais nosso questionamento em relação à ditadura da moda (mundo objetivo) e também às ditaduras comportamentais (mundo subjetivo).

Mahatma Gandhi costumava usar apenas uma tanga a fim de se identificar com as massas simples da Índia. Certa vez chegou assim vestido numa festa dada pelo governador inglês.Os criados não o deixaram entrar. Voltou para casa e enviou um pacote ao governador, por um mensageiro. Continha um terno. O governador ligou para a casa dele e lhe perguntou o significado do embrulho.Gandhi respondeu: - Fui convidado para a sua festa, mas não me permitiram entrar por causa da minha roupa. Se é a roupa que vale, eu lhe enviei o meu terno...

Claro que não quero pregar aqui o relaxo generalizado. É bom ser bonita, mas...
O que é "ser bonita?" Você acredita que alguém sem "conteúdo" possa ser realmente bonito? Você se preocupa o tempo todo em estar "adequada", e se percebe que não está "de acordo" com a situação social, fica arrasada? Em que valores você está se baseando? O que mais essa história lhe sugere? Pense nisso, e, se possível, compartilhe com a gente!

VI – "Mulheres..." - Aprendendo a analisar as histórias do ponto-de-vista do mundo objetivo e subjetivo

Tenho certeza de que você entendeu que esse “conforto” a que me referi no texto anterior não é só o conforto do mundo objetivo (suas roupas, seus sapatos, etc.). É também o seu conforto subjetivo (como você se sente nas diferentes situações que vive diariamente, com você mesma, com sua família, em seu trabalho, no seu lazer, etc.).
Essa percepção será extremamente importante sempre que você pensar nas histórias que vou propôr nesse blog. Porque as situações abordadas nas histórias retratam tanto o mundo objetivo quanto o subjetivo. Explico: no mundo objetivo (material) você está cercada de pessoas que, muitas vezes, têm certo papel na sua vida. Por exemplo: você tem um irmão que critica tudo o que você faz, e que sempre te induz a desistir de seus projetos. No mundo subjetivo (sua psique, ou sua alma) você também tem vários personagens que exercem influências sobre você. Assim, da mesma forma que seu irmão objetivo boicota seus projetos, há, dentro da sua psique, uma parte dela que também os boicota, boicotando você. Pode ter certeza: dentro de você há um sem número de “você mesma” que age das mais diversas formas, te ajudando a crescer ou bloqueando o seu crescimento. Te ajudando a se realizar ou te transformando numa frustração ambulante. Te ajudando a ser feliz ou te transformando numa eterna insatisfeita. E assim por diante...
O seu trabalho, através das histórias, será identificar e conhecer cada vez melhor todas essas mulheres que existem dentro de você. A partir daí, afastar ou minimizar a importância daquelas que te fazem mal e aproximar-se cada vez mais e fazer crescer aquelas que te fazem bem. Parece difícil? Nem tanto. É uma questão de treino.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

V - "Mulheres que Correm com os Lobos" - História sem nome

Vou me dar aqui o direito de não apresentar as histórias na ordem exata que elas estão no livro de Clarissa. Explico porquê: Há uma história, meio perdida no meio do livro, que nem ao menos nome tem, mas que, a meu ver, é a que melhor e de forma mais simples explica a "perda da essência" em função da sociedade. É através desse mecanismo, do "querer agradar", querer "adequar-se", que começamos, em tenra idade, a nos distanciar de nós mesmas, a nos mutilar.

Antes de começar a ler, relaxe. Respire fundo. Solte devagar. Nesse momento, você está perfeitamente à vontade? Você está de sapatos? Que tal fechar os olhos por alguns segundos, e sentir seus pés, seus dedos... O quanto dá pra você movimentar seus dedos dentro do seu sapato? O seu sapato é macio ou duro? É bico fino, salto agulha? Perceba se você está confortável da forma como está agora. Que tal tirar os sapatos? Estique os pés, mexa os dedos, relaxe. Encoste a sola dos pés no chão. Sinta a textura e a temperatura do piso. Foi gostoso? Seria bom se fosse sempre assim? Seus pés ficaram contentes? E a sua roupa? Está confortável? Solte-se. Fique assim, e leia a primeira história:


Um homem foi a um alfaiate, para experimentar um terno. Parado diante do espelho, ele percebeu que o colete estava um pouco irregular na parte inferior.
- Ora – disse o alfaiate – Não se preocupe com isso. Basta você puxar a ponta mais curta para baixo com a mão esquerda, que ninguém jamais vai perceber nada.
Enquanto o cliente fazia exatamente isso, ele notou que a lapela do paletó estava com uma ponta enrolada em vez de estar rente.
- Isso? – Perguntou o alfaiate. – Isso não é nada. É só você virar a cabeça um pouquinho e segurar a lapela no lugar com o queixo.
O freguês obedeceu e, quando o fez, observou que a costura de entrepernas estava meio curta e que o zíper lhe parecia um pouco apertado demais.
- Ora, nem pense nisso. Puxe o zíper para baixo com a mão direita, e tudo vai ficar perfeito. – O freguês concordou e comprou o terno.
No dia seguinte, o homem estreou o terno com todas as alterações de queixo e mãos. Enquanto ia mancando pelo parque, com o queixo segurando a lapela no lugar, uma das mãos puxando o colete, e a outra mão agarrada ao zíper, dois velhos pararam de jogar damas para vê-lo passando com dificuldade.
- Meu Deus! – disse o primeiro velho. – Veja aquele pobre aleijado!
O segundo homem refletiu por um instante antes de sussurrar:
- É, ele é bem aleijado mesmo, mas sabe o que eu queria saber... onde será que ele comprou um terno tão elegante?



O que eu quero que você perceba é o seguinte: da mesma forma que você parou para sentir o quanto seus sapatos e suas roupas estavam confortáveis ou não, você pode se perguntar por que você estava usando algo que não era confortável, assim como o personagem da história. Raciocine sobre isso. Então, você pode usar essa imagem, essa situação, para perceber o quanto você está confortável com tudo na vida. E se perguntar em nome de quê você está passando por esse desconforto.

Essa paradinha que você deu para observar e sentir como é que seus dedos estavam dentro do sapato, esse tempinho, você pode passar a se dar em vários momentos, na sua rotina, para detectar o quanto você está confortável em relação a tudo.

É claro, falar em “estar confortável na sua vida" parece ser tão abrangente, que você pode pensar que isso vá ser muito complicado. Mas não. Eu peço, simplesmente, que você comece a se perguntar. Aos poucos, você vai adquirindo maior consciência do quanto você está confortável ou não em pequenas situações. E tenho certeza de que isso vai levá-la a perceber o quanto você está confortável dentro da sua própria vida.

A partir de agora, na medida em que você for detectando seus confortos ou desconfortos, você pode começar a pensar: como eu poderia melhorar isso? O que é que a minha alma quer de mim nesse momento? Como a minha alma ficaria feliz e confortável agora?

Não é pra chutar o pau da barraca! Vamos com calma, sentindo e tentando, devagar, melhorar essa situação. Ok?

O mais importante é você começar a se relacionar com a sua alma. Se você achar que não está tendo resposta, num primeiro momento, não desista, porque, aos poucos, ela vai surgir, e eu tenho certeza de que você vai gostar. Ela é sua melhor amiga.

Posso acreditar que você vai reviver essa experiência no seu dia-a-dia?

Se você achar interessante, pode anotar as impressões que terá durante essa próxima semana. Faça uma espécie de diário e anote em que situação se sentiu mais ou menos confortável, talvez o que poderia fazer para melhorar isso.

E se você puder comentar essas experiências nesse blog, com certeza, estará enriquecendo esse conteúdo e ajudando muitas outras mulheres!