sábado, 5 de abril de 2014

HeraclitiAna


 
 
 
 
 
 
 
 
Descobri, agora,
que gosto hoje de coisas
que pensava não gostar.
Percebi, de pronto,
que não descobri foi nada:
só fiz experimentar...
Refleti, na hora,
que a muito do que eu achava
que sempre havia gostado,
tinha só me habituado.
Relembrei, então,
de coisas que tanto amara
e, justo por tanto amar,
bem cedo eu me fartara.
Prossegui, por fim,
pensando nas tantas coisas
das quais  eu me afastara,
mas que depois de algum tempo,  
eu quis de novo provar.
Concluí, na sequência,
que devo ter uma essência
que não se deixa alterar:
altera-se por conta própria,
preservando seu princípio:
mudar, mudar, mudar...
Prometi-me, nesse instante,
prestar bem mais atenção:
se aceito por puro vício
ou rejeito por confusão.
E tentar não me fechar
ao que vem de supetão,
pra evitar me privar
do que possa me agradar.
Pois se há algo que diz
esse meu gosto mutante,
é que faz parte de mim
essa mudança sem fim.  

Ana Lucia Sorrentino

quarta-feira, 5 de março de 2014

Pulsão




















É na coxa que esbarra na coxa
na caminhada apressada.
É no peso dos seios,
fortemente sentido,
a cada nova passada.
É no arfar do peito,  
na boca sedenta,
nas pernas cansadas.
É nos poros que se abrem
e no suor que brota
ao esforço da subida.
É no alívio do chegar,
no gole de água gelada,  
no susto da ducha fria,
na toalha perfumada.  
É no frescor dos lençóis,
no aconchego do travesseiro,
na fresta que deixa passar
um feixe da luz do luar.
É na mão que afaga, suave,    
a pele, assim, por inteiro,
sem ter medo de errar.
É em mim mesma,
entregue e desprevenida,
que acontece, às vezes,
uma visita da vida.


Ana Lucia Sorrentino
          06/03/2014

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Meu desejo pra 2014


               
 
                 Já já 2013 acaba e começa 2014. A gente vai piscar e num instante vai ter passado toda essa euforia que trazem o Natal e o final do ano. E, como disse Saramago ao receber o Nobel: e daí?

                Não. Eu não quero criticar os que estão comemorando efusivamente. Desejo sinceramente que todos sejamos felizes à própria maneira.  

                Mas hoje me deu vontade de contar que duas perguntas insistiram em me acompanhar ao longo do ano: “e daí?” e “pra que tudo isso?”. E creio que elas me ajudaram, e muito, a definir minhas prioridades.

                Estive o ano todo fazendo o que era possível. Pouco pude escolher, o que muitas vezes me pareceu uma bênção. Mas, as poucas escolhas que pude fazer, as fiz todas no sentido de simplificar.   

                Enquanto 2013 caminhava, as pessoas polemizavam. Sobre tudo, absolutamente tudo. E eu me perguntava: e daí? O que resulta disso? Cansei de ver, neste ano que passou, inúmeras boas ações, públicas e privadas, serem duramente criticadas porque “poderiam ser melhores”. O bem se transformando em mal simplesmente porque havia uma grande disposição de muitos para a crítica destrutiva.  Compreendi que é melhor fazer, calado, mesmo correndo o risco de ser criticado, do que criticar e não fazer.

                Frente à enxurrada de contradições promovida pelos jogos midiáticos, por partidos políticos e por especialistas e leigos em todo e qualquer assunto, à febre opinativa que se deflagrou como praga pelas redes sociais, à falta de respeito pela opinião alheia, à agressividade em detrimento da boa argumentação, à leviandade das boatarias e à impossibilidade absoluta de se checar uma a uma as informações que se espalhavam com rapidez jamais vista, muitas vezes me vi ceticamente muda e muitas vezes senti que, afinal, o que importa de verdade é indizível. Escrevi pouco, fiquei mais introspectiva.

                Esse ano que passou eu me mudei de um décimo segundo andar - onde a vista era maravilhosa, mas de onde eu via o mundo de longe -, para um prédio antigo, sem elevador, em uma rua de paralelepípedos, que não parece estar dentro de São Paulo. Estou montando meu lar à mão. Eu mesma revesti a parede da minha cozinha, fiz meu abajur, forrei meu gaveteiro antigo, e fiquei orgulhosa do resultado! Minha casa está ficando com a minha cara. Tive o prazer de conseguir escutar novamente o silêncio da noite, o despertar dos pássaros logo cedinho, e crianças brincando na rua. De ouvir a chuva, de ver estrelas, de ficar debruçada na janela. Encontrei gente simples, mais solícita e interessada. Fui trabalhar a 150 passos de onde moro e meti a mão na massa, literalmente. Fabriquei montanhas de pão sem glúten, na certeza de estar dando um alento aos celíacos.  E um dos melhores dias do meu ano foi o último dia de trabalho, lavando todo o equipamento da cozinha sob um sol forte, me relacionando com a água como não fazia há tempos. Me perguntei por que foi mesmo que eu fiquei tanto tempo revisando textos alheios, de gente que nem ao menos escreve por amor ou pela verdade e que tem na escrita uma roupagem de gala para o Oscar de uma vida de mentira.  Pra que tudo isso?

                Nos últimos meses desse ano eu raramente me maquiei, raramente pintei as unhas, e aposentei de vez o salto alto. E como foi bom... E cada vez mais, quando vejo mulheres se autoflagelando em horas e horas de cabeleireiro, montadas em saltos-agulha de sapatos de bicos finos, enfiadas em soutiens estruturados e jeans esturricados, me pergunto: pra que tudo isso?

                No ano que vem, eu quero ter apenas as contas que eu possa pagar, pra poder trabalhar apenas o suficiente. Quero trabalhar com prazer e junto de pessoas gentis. Quero estudar, porque amo estudar. Quero poder não só comer, mas saborear. Quero poder dormir até descansar. Eu quero conseguir dar atenção a quem me procura, compreender quem quer se fazer entender, ser compreendida por quem tem interesse no que penso e estar perto de quem me quer perto. E quero produzir. Produzir coisas boas de todas as espécies. Comidinhas, textos, poesias, arte, afetos... Eu quero assumir cada vez mais a minha simplicidade, e quero que as pessoas sintam que é fácil lidar comigo. E quero lidar com gente também fácil, acessível, gente de verdade.

                Esse ano que passou eu voltei a sentir que tenho pele. Ano que vem eu quero estar de pé no chão, cara lavada, coração aberto. Eu quero uma vida simples. Eu quero simplesmente dar conta da minha vida.

                E, se há algo bacana pra eu desejar a todos que talvez venham a ler esse texto, acho que é isso: eu desejo que  vocês deem conta das suas vidas. Que tenham caráter e dignidade. E que tenham tempo e disponibilidade interna pra serem felizes. Porque, acredito eu, é em cada um que começa um mundo melhor. 
                                                                     
                                                                  Beijão! :)          
                                                        Ana Lucia Sorrentino
 
PS: A perereca aí em cima sou eu mesma. ;)
 

 

 

 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Faz sentido


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Que o momento filosófico
mais interessante
seja aquele em que,
por um instante,
você se perca.
Não na complexidade
do meu raciocínio,
mas em meus seios tesos
sob a camisa de tecido fino.
Que a inadequada questão pessoal
te flagre despreparado
e te faça corar,
inexperiente menino.
Que o que pulsa em mim
te deixe mais perturbado
que o fantasioso deus de Leibniz
e mais atônito
que o mundo ideal platônico.
Quando racionalmente
chegarmos à conclusão
de que ter prazer e ser feliz
é subversão
e quando,
buscando a minha verdade,
teus hábeis dedos
se embrenharem sem medo
por baixo do meu vestido,
terei então compreendido
que filosofar pode fazer sentido.
                                                             Ana Lucia Sorrentino
                                                                  07/11/2013                                                                       

terça-feira, 22 de outubro de 2013

De boa


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Eu vou desconsiderar prós e contras
e me livrar da confusão.
Quero estar por aí às tontas
e desformar  minha opinião
Quero viver que nem planta:
terra, sol, respiração.
Se chover, broto.
Florindo, então...
Desencano de vez de ter razão.
 
Ana Lucia Sorrentino
        23/10/2013

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Timidez


                                                         
                                                 A timidez, inesgotável origem de tantas infelicidades
                                                 na vida prática, é a causa direta, mesmo única, de toda
                                                 a riqueza interior.

                                                                                              Emil Cioran

 
Sempre que não foi, nunca mais seria. Passou.
Como o sonho que se quis prolongar e ao amanhecer voou.  Como o sol que a nuvem encobriu e a noite, por fim, roubou. Como a palavra atrasada, o consentimento tardio, o fervilhante beijo que sumiu pela balada. O olhar não percebido, o telefone perdido, a espera que desistiu. O encontro adiado, o entusiasmo amainado, o desejo domado. A gozada tão sonhada que a temida brochada frustrou. Vuupt! Já era.
Há, entre a vontade e a ação, o quase nunca vencido medo, que se fortalece em segredo.
A oportunidade é fumaça em campo aberto, qualquer brisa leva pra longe...
Seguimos, sem saber de nós nem de ninguém. 
 
                                                               Ana Lucia Sorrentino
                                                                                                       19/10/2013

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A Liberdade é Monogâmica





















Firmei compromisso com a liberdade
e, de pronto, perdi a liberdade
de amasiar-me com qualquer outro alguém.
Com seu jeito serelepe,
promessas de grandes voos
e de muita novidade,
contraditoriamente
a liberdade é, das amantes,
a mais possessiva e monogâmica.
Ingenuamente pensei que teria liberdade.  
Hoje sei que me enganei.
Na verdade, a liberdade é que me tem. 

Analú
26/07/2012
 

domingo, 29 de setembro de 2013

Serena




                               
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Enovelei as teias
das minhas desilusões
e teço,
em fios de desesperança,
macia manta
que nem pronta já me aquece.
Silêncio de fim de tarde.  
Eu e minhas agulhas.
Pela cortina,
um sol que arde.
Em mim,
um coração sem fagulhas.
Me introspecto,
me assereno,
me aquieto.
Embalada pelo prazer
de não mais querer tanto,   
pra meu próprio espanto
descanso em mim,
enfim.
 
Ana Lucia Sorrentino  
Set/2013
 
Imagem:
 http://lilianaporter.com/individual.php?sectionId=5&section=installations&pieceId=668&title=Weaver (with hat)&currentImage=Weaver_with_blue_hat 10.jpg&pageNo=1&orderBy=date
Liliana Porter
Weaver (with hat) (2010)
wooden shelf, figurine, fabric
 

domingo, 16 de junho de 2013

Alckmin - tiro no pé


           

 
            “De repente surge um movimento que vem da internet e tem sua dose de irracionalidade e incendeia milhares de jovens.” (Luis Nassif, entrevistando Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, sobre a atual onda de protestos).           

            Dilma estava com a popularidade a mil. Haddad assumiu e em menos de seis meses já deu mostras de enorme competência. De repente, um aumento de tarifa dentro do já previsto, abaixo da inflação, detona uma onda de protestos que se dá de forma desorganizada, constituída tanto por gente que age de forma democrática e racional, quanto por mal intencionados que agem irracionalmente, depredando, bagunçando, provocando tumultos e, pior, que não respondem à abertura que Haddad dá para a conversa, uma vez que nem ao menos uma liderança organizada têm. Gente que se alia a um movimento sem prestar muita atenção a que bandeira estão defendendo ou a exatamente o que estão combatendo. E que acaba se deixando usar por uma direita mal intencionada que, ao abusar do poder que tem, atinge Haddad e Dilma e, enfim, ao governo PT.            

            A ação da polícia nas últimas manifestações foi realmente revoltante, mas temos que nos perguntar o porquê disso. Nada como colocar uma polícia agressiva e repressora nas ruas, calando à força uma juventude que não tem uma cultura de participação política e que tenta um ensaio, para provocar uma revolta geral contra tudo e contra todos. Surgem, de repente, protestos sobre tudo aquilo que está entalado em nossas gargantas. Num contexto em que todos os dias nos envergonhamos por ter que engolir políticos que se mantêm a todo custo no governo, mamando nas tetas do povo, sem ao menos termos a oportunidade de deliberar diretamente sobre isso (vide Renan Calheiros), é natural que a violência policial detone uma verdadeira revolução. O povo quer se fazer ouvir, e deve querer. Mas é preciso se organizar para atuar em causa própria, e não acabar virando joguete na mão de uma direita que não aceita o bom andamento dos dez anos de governos pós-neoliberais no Brasil. Lula e Dilma são uma pedra no sapato de uma direita conservadora que não engole o fato de um trabalhador ter provocado uma verdadeira revolução no Brasil, ao inserir a classe menos favorecida em um contexto no qual nunca teve espaço. Para aqueles que, como Danuza Leão, sofrem desgraçadamente ao perceber que o porteiro de seu prédio já pode ir a Nova Iorque fazer comprinhas, Lula e Dilma são como uma bala que entalou na garganta e que tem que ser cuspida a todo custo, mesmo que para isso seja necessário usar de golpes baixos.            

            Quem se manifesta precisa estar muito bem organizado e informado para fazer valer seu protesto. Segundo Haddad, manifestantes abordaram motoristas de ônibus exigindo que se aliassem ao movimento, uma vez que não haviam tido aumento de salários. Ao que os motoristas se surpreendiam, pois sabiam que haviam tido, sim, aumento de 22% ao longo dos últimos 3 anos. Os manifestantes também desconsideraram o bilhete único, que, ao ser implantado, fez com que os R$3,20 passassem a representar uma passagem e meia, não apenas uma passagem. Faltou informação, foco e organização.  

            Walter Benjamin, pensador do começo do século XX, em seu texto “Experiência e pobreza”, fala sobre os resultados do inacreditável desenvolvimento tecnológico da época. Diz Benjamin que uma geração que usara bondes puxados por cavalos na primeira fase da vida se viu, na idade adulta, agredida com extrema violência por uma tecnologia que se desenvolvera em ritmo dramático, em função da destruição. A esse desenvolvimento tecnológico que deu ao homem um poder de destruição do próprio homem jamais antes imaginado, Benjamin se referirá como “uma nova forma de miséria”. A experiência das duas guerras mundiais do início do século empobreceu o homem a tal ponto que ele precisou começar novamente do nada. Isso foi resultado do imenso poder da tecnologia. Para Benjamin, a extrema valorização da racionalidade terminou por produzir a irracionalidade. 
 
            De lá para cá, temos convivido com uma tecnologia que se impõe à força através da publicidade de forma tão agressiva, que a maior parte de nós se curva a ela sem muito questionamento. É claro que é fantástico podermos escrever, denunciar, mobilizar. Nunca tivemos tanta chance de gritar e de sermos ouvidos. Mas precisamos ter consciência de que estamos fazendo uso de instrumentos poderosos e de que, se é graças a eles que podemos nos informar, divulgar nossas ideias, formar opiniões e até mesmo organizar movimentos extremamente importantes para que o mundo caminhe para a frente, também é graças a eles que recebemos muita informação confusa, e, se não tomarmos cuidado, podemos encabeçar movimentos fundamentados em informação errônea, nos transformar em massa de manobra e promover o atraso. Isso é racionalidade produzindo irracionalidade.   

            Por fim, quero comentar que, embora seja possível teorizar sobre a forma ideal de se agir politicamente, há na política, como na vida, interessantes reviravoltas que parecem subverter qualquer planejamento e que me dão, às vezes, uma gostosa sensação de que vale a pena esperar pra ver. Um protesto que começou com a revolta por um aumento de R$0,20 nas passagens de ônibus, respondido pelo governo do estado com violência policial – e aqui precisamos lembrar que policiais são trabalhadores como todos nós, que cumprem ordens, mesmo que muitas vezes a contragosto, para continuar tendo o seu ganha-pão (seja isso válido ou não), está se transformando em uma enorme manifestação que pede a saída de Geraldo Alckmin. Tiro no pé. Bem feito. ;)
 

Ana Lucia Sorrentino
 

sábado, 20 de abril de 2013

Perspectiva



















Meu olhar me desencoraja
sinalizando que mais além
a larga alameda florida
finda em beco sem saída.
A experiência me assopra
que lhe dirija desdém.
Sigo em frente com coragem
e, passo a passo, abro passagem.
Então já não me detém
o que parecia findar.
Pois o fim nada mais era
senão o limite do meu pobre olhar.

                                               Ana Lucia Sorrentino