segunda-feira, 29 de junho de 2020
sexta-feira, 26 de junho de 2020
quinta-feira, 18 de junho de 2020
Relatos da Meritocracia – esse conceito estranho – sobre Bolsonaro e Weintraub
Menino franzino, canelas tão brancas e magras que
lhe renderam o apelido de “mito”, advindo da abreviação de “palmito”, Jair
Messias Bolsonaro tornou-se Cadete do Exército, virou Capitão e construiu uma
carreira de militar sem representatividade, de reputação “assustadora”, que preparava atentados à bomba como parte de
campanha por aumento de salários. Virou deputado. Como deputado só promoveu
intrigas e baixarias. Talvez por mérito –
não sei – angariou uma legião de seguidores que gritavam “mito” sem saber a
origem do apelido. Virou presidente. Como presidente, nomeou os piores
ministros de que se tem notícia, todos fortemente atuantes contra a pasta que
representam. Reuniu ao seu redor a pior espécie de gente que nossa imaginação
nem tão fértil consegue imaginar, destrói todos os dias um pouquinho a mais do Brasil e da sua reputação lá fora e
promove uma verdadeira carnificina, que já conta com quase 50 mil mortos, aliando-se
a um vírus que depende de aglomerações para se fazer valer.
O que ele merece? Não sei... Sei que tem poder para
promover mais meritocracia: hoje afastou o surreal Ministro da Educação Weintraub,
que fechou seu ciclo com chave de ouro: conseguiu, antes de sair, revogar portaria
sobre cotas para negros e indígenas na pós-graduação. E, por mérito talvez, o
mandou para o Banco Mundial para ganhar mais de R$1.000.000,00 por ano! E você?
Tem algum mérito?
Ana Lucia Sorrentino
quinta-feira, 4 de junho de 2020
segunda-feira, 1 de junho de 2020
segunda-feira, 25 de maio de 2020
segunda-feira, 18 de maio de 2020
quarta-feira, 6 de maio de 2020
segunda-feira, 27 de abril de 2020
Leitura - Saudade veio me ver
Leitura - Saudade veio me ver
Leitura de excerto de "Eu fico com a noite", de minha autoria, à venda na Amazon:
Eu fico com a noite
sábado, 25 de abril de 2020
Reencontrando sua alma: Platão, nós e o amor
Reencontrando sua alma: Platão, nós e o amor: No último mês estive estudando Platão. Seus diálogos Lísis, Fedro e O Banquete falam lindamente sobre amor e amizade....
domingo, 19 de abril de 2020
Passou da hora de levarmos Jair Messias Bolsonaro a sério
Tenho pra mim que ainda há muuuita gente subestimando a gravidade do momento que estamos vivendo. Por estarmos imersos nele e por estarmos lidando com as barbaridades que esse crápula faz todos os dias, há mais de um ano, a indignação vai se cansando e muitos já naturalizam a barbárie.
A violência moral é tamanha que, para nos salvarmos da depressão, temos recorrido ao humor, aos memes e às charges que, afinal, expressam muito mais instantaneamente o absurdo que vivemos e de alguma forma nos lavam a alma. Transformamos nossa dor em riso e seguimos, desgraçadamente enclausurados, sós e gritando no deserto.
Pergunto-me se não passou da hora de pararmos de rir, de pararmos de chamar Bolsonaro de Bozo e de tentarmos ridicularizá-lo, porque o que ele está conseguindo fazer e o tempo que está conseguindo se manter no poder apesar do que faz não é pra iniciantes.
Jair Messias Bolsonaro é mau, é desumano, não tem qualquer empatia com o povo, e é surdo ao que o mundo inteiro diz dele. Tem, sim, o perfil de um psicopata e creio que é isso que lhe permite ir adiante sem se importar com as vaias e, talvez, conseguindo dormir. Se é que não se droga pesadamente. A julgar pelos olhos sempre esbugalhados, a olhar como que para o infinito, é uma hipótese a se considerar.
Creio que corremos o risco de não conseguir enxergar que isso é similar, sim, ao Holocausto, e temo não estar caindo em exagero. Muda a forma de atuação, mudam as armas - afinal, se é possível propagar rapidamente um vírus com potencial pra matar os "mais fracos"; se é possível dificultar tanto o acesso a um benefício que pode salvar os mais pobres de morrer de fome ou de terem seu sistema imunológico gravemente afetado, a ponto de ficarem à mercê do vírus; se é possível ter a seu lado as milícias que, hoje, ameaçam com a morte os que se negam a se jogar deliberadamente nos braços dela, assim como é possível ter uma legião de seguidores de líderes religiosos negacionistas, pra quê câmara de gás, não é mesmo?
Subestimaram o potencial destrutivo de Bolsonaro quando era um deputado inútil e incivilizado e o julgaram simplesmente burro. Mas ele conseguiu colocar a família inteira a trabalhar contra o povo. Acreditaram que seria fácil tirá-lo do poder se se mostrasse um ditador e o elegeram apostando no escuro. Agora estamos assim, sem saber mais o que fazer, pra onde gritar, a quem recorrer pra nos salvarmos! Até quando vai isso? Será possível que ele tenha tanta força política a ponto do Congresso não conseguir derrubá-lo? Ou os aliados nessa loucura são mais numerosos do que imaginamos? Ou seu poder de chantagem é tão grande que consegue manter Congresso e STF calados? A agonia aqui é grande tentando entender essa situação! 🤕
Sugiro, humildemente, que paremos de rir e nos façamos respeitar como um povo adulto, que vai enfrentá-lo com seriedade, todos os minutos das nossas vidas, até que ele caia e leve junto toda a corja que lhe dá sustentação!
Nada, nada que fizerem para afastar Bolsonaro poderá ser chamado de golpe!Será, sim, seja lá como se der, salvação!
Ana Lucia Sorrentino
20/04/2020
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segunda-feira, 13 de abril de 2020
Carta para Cioran
A frivolidade é o
antídoto mais eficaz contra o mal de ser o que
se é: graças a ela iludimos o mundo e dissimulamos a inconveniência de nossas profundidades.
(Cioran, em Breviário de Decomposição)
(Cioran, em Breviário de Decomposição)
Caro Cioran:
Permita-me chamar-lhe de amigo, apesar
de termos nascido em épocas e lugares distantes e de jamais termos nos
encontrado, senão em pensamento. Estou lhe escrevendo porque sempre que entro
em contato com seus escritos tenho vontade de comentá-los e acabo lamentando
profundamente não ter seu e-mail. Não poderia esperar que tivesse um blog, onde
eu pudesse deixar-lhe uma palavrinha e, na verdade, é mesmo uma sorte sua não ter
um. Blogueiros sofrem muito. Se, na intenção de promover liberdade de
expressão, permitem comentários, precisam estar dispostos a receber todo tipo
de agressões verbais, seja lá pelo motivo que for, de gente que nem ao menos se
dá ao trabalho de ler o texto inteiro antes de comentar. Estamos vivendo uma
estranha época em que as pessoas se orgulham da própria falta de educação. Recentemente
aconteceram por aqui coisas do arco da velha. Prefiro nem contar para que não
fique mais desgostoso do que já é em relação ao ser humano, se é que isso é
possível. Fico feliz por você não estar à mercê disso.
Não havendo esse blog, pensei então
em lhe escrever pelo meu. Não sei por onde você anda e, como não acredito em
vida após a morte, creio que jamais me responderá. Mas isso não o faz diferente
de tantos “vivos” para os quais escrevo com frequência. A tremenda facilidade que
temos para nos comunicar virtualmente com gente do mundo todo a qualquer hora resultou
em uma quase impossibilidade de nos relacionarmos de verdade, seja lá com quem
for. Jogamos e-mails ao vento, trocamos gracinhas e fórmulas de bem-viver com
todo mundo, defendemos ferrenhamente partidos políticos questionáveis, usamos
imagens para sermos mais bem compreendidos e assim seguimos, solitários. Nosso
tempo é engolido pelas infinitas possibilidades e muitas vezes nem conseguimos perceber
a quem valeria a pena dar um pouco de atenção. Talvez nem mesmo acreditemos que
alguém assim exista. Somos “líquidos”, como diria Bauman. Escapamos entre os
dedos, escorregamos por baixo da porta, vez ou outra descemos ralo abaixo. Isso
é meu, não de Bauman.
Bem... escrevo então esta carta por
crer que, imaginando que a lerá, pensarei sobre tudo com mais cuidado e empenho
do que se estivesse conversando só comigo mesma. Costumo ser generosa e
tolerante comigo e isso às vezes me produz desmandos. Um bom interlocutor é
sempre um chamamento ao rigor, além de ser instigante.
Tenho me perguntado o tempo todo
para que escrevo, afinal. Certa vez ouvi de alguém que, se tivéssemos que
escrever para ensinar alguma coisa ao mundo, não deveríamos escrever: deveríamos
tratar o mundo a socos e pontapés. Não imagina quantas vezes me lembro disso
antes de me envolver com as palavras... Acontece que há muito deixei de
acreditar que possa “ensinar” algo ao mundo. Escrevo para me livrar das ideias
que ficam me rondando como crianças sonolentas que se põem a rir e não me
deixam tranquila se não as coloco para dormir em um berço de papel. E devo
confessar que, enquanto o faço, ponho nisso tanto carinho que me liberto de
todo e qualquer sofrimento que não o da angústia de combiná-las bem. Mas este é
lúdico, e me distrai daqueles, sobre os
quais não tenho qualquer domínio.
Estive vendo alguns vídeos sobre
você. O que mais gosto em você, nesses vídeos, é da lucidez com que se descreve
e da forma como ri de si mesmo. Talvez porque eu também ande sempre a rir de
mim, mesmo nas adversidades. Mas hoje me emocionou em especial um em que sua
imagem aparece mais longamente, você calado, passando as mãos nos cabelos
brancos, e sua expressão de inteligência ocupando a tela inteira. Inteligência
maciça acrescida da experiência de toda uma vida. Inteligência que vaza pelo olhar
cansado de quem já viu muito e de quem se desiludiu também com as palavras. Uma
inteligência em silêncio. Cheia de dignidade. Às perguntas do jornalista você respondia
com frases econômicas e com uma voz
rouca que parecia carregar o peso da inutilidade de respondê-las. Revi o trecho
algumas vezes, quis reter. Escrevendo agora sobre isso posso te ver e me
emociono novamente.
Frequentemente tenho tido vontade de
te escrever. Para contar que a academia continua roubando nossas almas, e que,
à medida que consigo, me protejo disso escrevendo. Roubo dela o tempo que ela
me rouba e escrevo sobre o que quero. Depois, subtraída do tempo que eu mesma
roubei, escrevo precariamente sobre aquilo que ela me obriga a escrever... Não
tenho tido notas muito boas, mas reduzir-nos a um número é algo tão injusto que
evito até pensar nisso. Sigo, para ser legitimada como profissional. E, afinal,
preciso ganhar a vida de alguma forma... Na prática, você sabe... Proliferam no
mundo imbecis diplomados e muita gente brilhante morre sem diploma algum... Produtores
de futilidades se “dão bem”, enquanto pessoas seriamente dedicadas muitas vezes
passam a vida em dificuldade. Contingência pura.
Também penso sempre em te escrever
para te contar que sei muito bem a que se refere quando diz que os grandes
enfermos não se enfastiam porque a doença os preenche, pois conheço isso muito
de perto. E, por isso, como você, decidi jamais dar muita importância a meus
pequenos sofrimentos... Também vivo querendo te contar que sempre que olho para
as luzes da noite sinto um ímpeto de me embrenhar por elas, e lembro com inveja
de suas noites insones caminhando pelas ruas de Sibiu... amo a noite. A tudo
isso resisti. Conversava com você mentalmente, e me satisfazia. Mas hoje quis
escrever.
Quero te contar que um fenômeno
atual registra em textos e fotos uma dessas suas percepções de precisão
cirúrgica. Se estivesse entre nós, provavelmente você se surpreenderia ao ver,
em murais virtuais, a materialização do que captou e descreveu tão bem observando
o comportamento humano. O início do século XXI trouxe uma enorme intensificação
do movimento nas redes sociais e por volta de 2004 deu-se um "boom"
que mudou nossas vidas. Ao longo dos últimos anos, Cioran, o fenômeno da
autoexposição nessas redes só cresceu e atinge, hoje, um nível que eu diria de
verdadeira provocação. A inclusão digital misturou, no mundo virtual, classes
sociais que, no mundo real, não se misturavam. As classes desfavorecidas
passaram a circular virtualmente por mundos cujo acesso, antes, no mundo real,
lhes era negado. Por outro lado, a juventude
das classes mais abastadas, que foi criada a pão de ló, desfrutou de
privilégios desde sempre e nunca teve que batalhar pela liberdade, que lhe foi
“dada” por uma geração de pais inseguros e permissivos, parece não fazer ideia
do que significa a palavra “compaixão”. Também desconhece os malefícios que sentimentos
como a inveja e a cobiça, inerentes ao ser humano, podem causar. Sentimentos
que nossos avós, sabiamente prudentes, nos ensinavam a evitar, evitando a
exposição exagerada da própria sorte.
Ocorre, nas redes sociais,
exatamente o contrário do que nossos avós aconselhavam: o escancaramento da
vida privada, uma autoexposição exagerada, um fenômeno a que a filósofa Márcia Tiburi
se refere como sendo a substituição do cogito cartesiano “penso, logo existo”
pela crença “sou visto, logo existo”.
Essa frivolidade tornou-se um vício
nas redes sociais. A geração que posta tudo o que faz e toda a “felicidade” que
vive, parece encontrar mais felicidade em postar do que em viver. Os perfis
criam ilusões que só sabem ser ilusões aqueles que conhecem pessoalmente seus
donos. As palavras trocadas em murais entre familiares e amigos quase sempre são
de efusivo amor e carinho. Uma verdadeira banalização do afeto. A vida da maior
parte dos internautas se assemelha em muito a uma grande balada lotada de gente
bonita e de acontecimentos excitantes. As pessoas postam lindos pratos da alta
gastronomia, viagens fantásticas, férias incríveis... Quase ninguém posta o que
não contribua para a construção de uma imagem de ser humano agraciado pelos
deuses.
Nesse mundo de realidades virtuais
não basta que a vida não seja justa. Não basta que, enquanto alguns mal têm o
que comer, outros, sem mérito algum, se regalem com tudo que há do bom e do
melhor. É preciso expor isso sem a menor compaixão, sem a menor empatia pelos
que têm muito pouco, que hoje não sofrem apenas por não ter, mas também por ter
mais consciência do quanto não têm, uma vez que presenciam diariamente a
fartura e o gozo alheios. Assim, um mundo que, na realidade, já é desigual e
cruel, transforma-se, virtualmente, em uma verdadeira brutalidade. Se já é complicado lidar com as diferenças sociais reais, quão mais
complicado é lidar com diferenças criadas em redes virtuais? Creio que uma simples passeada pelo
Facebook provoque em um jovem que não ganha nada de mão beijada e que enfrenta
as condições mais adversas na vida, o mesmo insight que você teve ao escrever
em seu Breviário que “a injustiça governa o universo”. Acontece
que o mundo das redes sociais, ao privilegiar o lado belo da vida, também é, de
certa forma, ficção. Então, como se isso já não
bastasse para criar rivalidade entre diferentes classes, veio somar-se a isso o
fato de que, nessas redes, as pessoas estão dizendo tudo o que pensam sobre
tudo, sem a menor reflexão. O fato de não estar cara a cara com seu
interlocutor e de poder bloqueá-lo ou deletá-lo e até mesmo de poder deletar os
próprios comentários produz uma leviandade corrosiva. E, infelizmente, está
vindo à tona tanto preconceito, tanta arrogância, tanto desrespeito pelo outro,
que é de dar vontade de chorar. E não é paradoxal estarmos vivendo isso em uma
época de acirrada militância do politicamente correto. Parece-me que os mais
sórdidos sentimentos humanos, existentes apesar do nosso desejo em contrário,
quando patrulhados, fermentam.
Assim, Cioran, nas
redes sociais, a imensa vontade de expor o próprio “sucesso” caminha lado a
lado com a exposição da própria miséria interna. Miséria que, talvez, em um
movimento circular, venha crescendo justamente por conta dessa ânsia de viver
para o outro e dessa enorme incapacidade de olhar para dentro de si mesmo. Olhar
pra dentro de si, como bem sabe, é desconfortável, porque, por dentro, muitas
vezes, não há essa beleza que as academias, os cosméticos e as clínicas de
cirurgia conseguem produzir para o mundo ver. Essa "galvanização" que
Benjamin já vislumbrava em "Experiência e Pobreza", que não
transforma ninguém por dentro... E nada muda internamente mesmo com um apartamento
de luxo, o carro do ano ou o celular de última geração. A maior parte de nós
segue, assim, caro Cioran, como você sabiamente detectou: dissimulando a
inconveniência de suas profundidades. De mal a pior.
Não pedirei que me
responda, pois não quero incomodá-lo aí onde está, ou onde não está, mais do
que já incomodei com meu desabafo. E, muito provavelmente, não terá palavras
para me consolar. Mas agradeço de coração por ter deixado registros tão honestos
sobre tudo o que é humano. Lendo-os sinto-me menos só.
Com
carinho, Ana Lucia Sorrentino
Novembro/2015
quarta-feira, 8 de abril de 2020
Reencontrando sua alma: Pequeno diário de uma semana intensa, perambulando...
Reencontrando sua alma: Pequeno diário de uma semana intensa, perambulando...: Sábado. Como nada é garantia de nada, uma estrada tranquila não foi garantia de uma viagem tranquila...
terça-feira, 7 de abril de 2020
Magia
Magia
pra voltar ao meu normal.
Defeitos aqui, bem de perto,
bem de perto o seu real.
bem de perto o seu real.
Quero ver se é só engano,
impressão, fantasia.
Entender o que é que foi
que me tirou da apatia.
Entender como é que pode,
depois de tanto sossego,
tremenda disritmia.
Como é que da noite pro dia
de repente me flagrei
achando algum sentido,
sentindo alguma alegria.
Vem pra eu te esquadrinhar
pra tentar compreender
se fui eu que te inventei
ou se isso é magia.
Ana Lucia Sorrentino
07/04/2020
sexta-feira, 3 de abril de 2020
Reencontrando sua alma: Solidão
Reencontrando sua alma: Solidão: Hoje, logo cedo, conversando com Solidão, desandei a me queixa...
segunda-feira, 19 de novembro de 2018
Pensemos o mundo com Bauman
Uma caravana de cerca de 3 mil imigrantes, em sua maioria saídos de Honduras há cerca de um mês, tenta chegar aos EUA para pedir asilo. Segundo matéria do G1, dezenas deles disseram, em entrevista ao Associated Press, que deixaram o país por conta da violência e da extrema pobreza. Na passagem por Tijuana, cidade fronteiriça do México, a caravana enfrentou um protesto de centenas de moradores. Uma manifestante disse aos repórteres que o governo deles é que deveria tomar conta deles, enquanto manifestantes gritavam "Fora!" e "Não os queremos em Tijuana!".
Todos os dias Bauman me ajuda a pensar sobre o que acontece no mundo. No capítulo VII de O conceito de amor líquido em Bauman, de minha autoria, faço uma compilação de fácil leitura das análises de Bauman sobre a questão migratória. Transcrevo abaixo alguns trechos esclarecedores:
Bauman afirma que a
modernidade "produziu desde o início, e continua a produzir, enormes
quantidades de lixo humano". Ao produzir e reproduzir determinada ordem
social, a modernidade considera lixo tudo o que não serve a essa ordem. Por
outro lado, o progresso econômico também transforma em lixo todos os modos de
subsistência que não servem aos padrões de produtividade e rentabilidade em
constante elevação. À medida que o modo de vida moderno se espalha pelo
planeta, diminuem os "aterros sanitários" que poderiam recolher tal "lixo
humano", que passa a representar sério perigo de autocombustão e "explosão
iminente".[...]
[...] o mundo [...] tratou
de criar métodos cada vez mais rígidos para controlar os movimentos humanos: "Passaportes,
vistos de entrada e saída, alfândegas e controles de imigração foram invenções
originais da moderna arte de governar."
[...] Bauman lembra que a
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, foi objeto de crítica
de Hannah Arendt e de Giorgio Agamben por sua falta de clareza quanto aos
termos "homem" e "cidadão" e por vincular a cidadania ao
pertencimento a uma nação, fazendo com que os direitos do homem se tornassem
inaplicáveis a qualquer ser humano que não se encaixasse na definição de "cidadão",
por não pertencer a algum Estado soberano. Aos "refugiados"- como são
chamados a partir de meados do século XX "aqueles que não têm um lugar
próprio no mapa-múndi mental dos cidadãos dos Estados soberanos" – cabiam
múltiplas rejeições antes que o Estado aceitasse seu ingresso na família
nacional, não sem a exigência prévia de que "imitassem a nudez do
recém-nascido", ou seja: aniquilando seus valores anteriores. Bauman
esclarece que a soberania praticada pelos modernos Estados-nação está "inextricavelmente
limitada a um território". A
trindade "Estado – nação – território"
trata tudo o que não se componha desses três elementos como "anomalia"
e se reserva a arrogante posição de metrópole, transformando o resto do planeta
em periferia e sujeitando-a às suas regras. Aqueles a quem a trindade rejeita
são lançados à terra de ninguém, a uma vida "que não vale a pena ser
vivida".
[...] Eles são expulsos ou
afugentados de seus países e sua entrada em outros é recusada. Perdem seu lugar
na Terra. Enquanto a elite global flutua, poderosa, pela extraterritorialidade,
eles se tornaram "um alvo fixo em que se descarregar o excesso de
angústia..." Onde quer que estejam, são indesejados.
[...] Bauman conta que os
imigrantes cuja deportação é mais difícil são confinados em campos de
refugiados em locais remotos e isolados, o que impossibilita definitivamente
sua assimilação à vida econômica do país. Não pertencem ao país em que vivem,
não são sedentários nem nômades, são alvo de suspeitas e ressentimentos, não
podem voltar ao país de que saíram, enfim: são "impensáveis", "inimagináveis", "inefáveis".
[...] Bauman considera que
"até aqui as perspectivas são sombrias", mas afirma que nosso consolo
"é o fato de que a história ainda está conosco e pode ser construída".
Se você tem vontade de entender como chegamos onde estamos e se
interessou por Bauman, pode começar lendo O conceito de amor líquido em Bauman, de minha autoria. Tenho certeza de que isso facilitará seu mergulho nas obras do próprio autor. Para ler um
excerto gratuitamente, adquirir o livro ou conhecer um pouco mais do meu
trabalho, basta acessar minha página - Ana Lucia Sorrentino - no site da Amazon. Lá você encontrará a versão digital e também
o livro físico. E boa leitura!
Ana Lucia Sorrentino
segunda-feira, 16 de julho de 2018
Perturbação
Quando conheci Perturbação, eu era ainda menininha. Não sei precisar o momento exato em que a vi pela primeira vez. Talvez tenha sido numa dessas interrupções abruptas de alguma brincadeira de criança à qual me entregava prazerosamente. Sei que algo quebrou o encanto e me lembro de grandes olhos de malícia me fitando e certa maldade no sorriso de canto de boca. Embora a estivesse percebendo pela primeira vez, me jurou que me conhecia desde o berço e conjecturou que, provavelmente, a essa época, por estar tão protegida pelos cuidados familiares, eu não registrara sua presença.
Como se atendendo a um pedido meu, me prometeu que nunca me abandonaria, mesmo que nalguns momentos precisasse se ausentar. Que eu esperasse, porque a qualquer instante voltaria. Orgulha-se de ser fiel.
Depois disso, de fato, Perturbação nunca mais deixou de me visitar. Em certas fases com maior frequência, em outras esporadicamente. Chegava sempre como quem não quer nada, com seus tamanquinhos de sola de madeira batucando algo que não música no chão. Embora o tamanco, com seu barulhinho irritante, fosse marca registrada, percebi, há pouco tempo, que Perturbação não tem um estilo. Às vezes vem séria, de preto, às vezes toda florida. Algumas vezes me apareceu linda, linda, toda em corações vermelhos, quase em fogo, e foi então que mais me tirou do prumo.
Com seu jeito convincente de quem se julga necessária, se fez presente em todos os momentos cruciais da minha existência.
Não raro imaginei ter Perturbação algo de diabólico, tão de supetão surgia do nada e pro nada se ia. Mas então notei que, vez ou outra, me avisava, sim, com algum pequeno sinal, de sua aproximação. Desatenta que sou, sempre lhe abri as portas e permiti que viesse, me abraçasse e me beijasse, ora com doces lábios úmidos, ora com dura frieza.
Certa vez, tendo sua visita sido demasiado prolongada, perguntei-lhe se não negligenciava outros amigos, que, com certeza, estranhavam sua ausência. Respondeu-me que se desdobra em muitas, ignorando por completo aquela baboseira de que um corpo não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo – e riu gostosamente.
É brincalhona, com certeza. Mas quase sempre seu senso de humor me parece de duvidoso gosto.
Hoje, mais madura, e tendo percorrido mil caminhos e chegado a mil destinos, lembro-me de ter cruzado com essa presença em quase todas as estradas. E permiti que me acompanhasse, ora por longos trechos, ora só por alguns passos. Às vezes me indicou caminhos, às vezes os atravancou. E em muitas e muitas ocasiões me pegou pela mão e me tirou de uma encruzilhada em que eu insistia em sentar e ficar, cansada que estava.
Em nossos últimos encontros percebi algo diferente em sua feição. Perturbação não é mais a menina agitada que me viu adolescer e me acompanhou na minha primeira paixão. Não é mais a figura forte e determinada que me paralisou nas doenças, nas decepções, nas tristes constatações de impotência e solidão.
Parece-me um pouco cansada, já traz rugas no rosto e às vezes cede à minha desatenção. Dá meia volta e se vai, um tanto quanto desgostosa, mas até que conformada. Eu a olho se distanciando morosamente e não consigo não sorrir, pensando que deve se aborrecer por não me provocar mais paixão. Mas confesso sentir algum carinho e ter até, por ela, grande consideração.
Embora Perturbação seja inegavelmente perturbadora e tenha esse espírito promíscuo, não há como negar: é fiel e presente. E intuo que, apesar de tantas vezes rejeitada e mal recebida, é a amiga que me viu crescer e que me acompanhará, cada vez mais calma, até o último minuto da minha vida.
Ana Lucia Sorrentino
Imagem: Google
domingo, 8 de abril de 2018
Espalhemos as sementes de Lula
Lula, enfim, foi preso. A saga de desmonte da
democracia que se iniciou quando da vitória de Dilma, em 2014, e que foi se
desdobrando em tristes episódios de escancarado desrespeito à Constituição, só
possíveis com a conivência de um judiciário totalmente comprometido com a
direita e de uma multidão de brasileiros entorpecidos pelo ódio implantado pela
grande mídia enfim, atingiu seu ápice. A prisão de Lula marca definitivamente a
quebra do Estado de Direito no Brasil e seus desdobramentos me põem medo. Entretanto, ela não se deu como, talvez, Moro
desejasse e, creio, não surtirá todos os efeitos que Moro, presumivelmente,
imaginou. Lula se entregou embalado pelo povo e, evidentemente, seu espírito
não ficará enclausurado, mas se impregnará em todos os que enxergam que são os
trabalhadores que movem o mundo.
Eu não sinto pena do Lula, porque Lula JAMAIS será
digno de pena. Tenho certeza de que, esteja onde estiver, será o grande líder
que sempre foi. Tenho certeza de que suas ideias reverberarão pelos quatro
cantos do planeta. Tenho certeza de que se dará bem dormindo em qualquer cama,
comendo qualquer tipo de comida, a céu aberto ou confinado. Tenho certeza de
que conquistará os corações de todos os que tiverem contato com ele nesses
estranhos dias. Lula terá direito a duas horas diárias de banho de sol e,
nossa!, quanta fertilidade isso gerará! Mujica ficou sete anos em uma solitária
e afirma que não enlouqueceu porque talvez já fosse louco. Sofreu, mas
tornou-se o que é hoje. Lula é louco, porque só mesmo um louco consegue tanta
força para lutar pelo que acredita. E Lula nos enlouquece porque nos contamina
com esse desejo de justiça social. Lula receberá cartas, milhares de cartas,
receberá visitas, refletirá, e nos terá aqui, espalhando consciência política.
Esse momento, de dor profunda, pede resistência.
Mas não apenas resistência no sentido de cobrar da justiça o que é sua
obrigação: fazer justiça. A resistência deve ir além. Não podemos desistir daquilo
em que acreditamos. Se o Brasil está sitiado, o destemor é necessário. A cada
oportunidade, a cada brecha, em todos os espaços em que possamos nos infiltrar,
de todas as formas possíveis, temos que assumir a responsabilidade de espalhar
a ideia de compaixão, a fé na possibilidade da construção de um mundo menos
desigual, a consciência de que fora da política não há salvação e de que
política se faz todos os dias, em todos os ambientes e situações. Temos que
conscientizar os menos favorecidos de que sua situação não é natural e de que,
se nos ajudarmos uns aos outros contra a tirania dos poderosos, havemos de
obter avanços.
O recado que nos tem sido passado desde a eleição
de Dilma, culminando no assassinato brutal de Marielle e na igualmente brutal
prisão de Lula, é o de que temos que aceitar que o mundo será sempre comandado
pelos mesmos. De que temos que nos sujeitar à escravidão para apenas
sobreviver, porque sempre foi assim e assim sempre será. Mas os que querem
perpetuar a escravidão sabem que são escravos de seus servos e é o medo que os
torna tão cruéis. Ter que meter a mão na massa os assombra.
Tornemo-nos educadores, cada um de nós. Vamos
espalhar as sementes que Lula plantou em nós, sem trégua.
Ana Lucia Sorrentino
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Solidão
Solidão me acompanhava, indo pra lá
e pra cá, sem desgrudar um minuto. Não sei como me aguenta... De repente, o cão
da casa em frente latiu. Nos debruçamos na janela da lavanderia e ali ficamos.
Contei-lhe que todas as manhãs me divirto observando-o brincar, enquanto coo o
café. Ela me olhou espantada, como que me lembrando: “eu sei!” Ah, sim... Ela
mesma me sugere, às vezes, adotar um animalzinho. "Um monte de gente
resolve a vida cuidando de bichinhos..." Mas diz isso de um jeito meio
falso, querendo se fazer de desapegada. No fundo, percebo nela um medo enorme
de que eu siga seu conselho e a afaste. De mais a mais, ela sabe que eu tenho compromisso
com Liberdade, que é extremamente possessiva. Não dá muito certo me meter com
ninguém... nem com bichinhos, apesar de gostar tanto deles...
Solidão gosta de mim e eu gosto dela
também. Mas não foi sempre assim... Suas primeiras visitas eu mal percebia. Depois,
quando percebia, me aborrecia. Ela vinha como quem não queria nada e trazia um
vazio com o qual eu não sabia lidar. Eu ficava pensando que se estivesse aqui
ou ali, com amigos, ou se tivesse um amor... Pensava em encher o vazio com coisas
de fora e não me ligava de que solidão me fazia um favor, abrindo esse espaço. Um
espaço só meu que até então eu não fizera muita questão de acessar, nem sei por
quê... De repente, um dia, como sempre
sem ser chamada, ela veio conversadeira. Pediu que me aquietasse e que lhe
prestasse atenção. Que estava ali justamente pra me tirar de toda aquela agitação.
Que a sentisse, que era amiga e interessada. Que aproveitasse sua companhia,
pois uma solidão produtiva era para poucos. As pessoas todas viviam em meio a
tantos ruídos que nunca conseguiam ouvi-la. Metiam-se nos mais variados
afazeres e passavam por cima dela, sem notar sua presença. Trabalho, compras, trânsito,
discussões... necessidades. Criavam
muitas necessidades, para depois saná-las. E aí tinham que trabalhar muito. E, para
compensar o desgaste, faziam as mais variadas coisas: academia, meditação,
análise, yoga... Nunca sobrava tempo pra um bom bate-papo com ela. Percebi Solidão
um pouco solitária. E, como quem cede a um desejo há muito guardado, sentei ao
seu lado e a ouvi. Ouvi com os ouvidos da alma. E sua voz me pareceu tão doce e
segura que me perguntei de onde é que poderia vir tanta doçura. Ela pressentiu
minha questão e sorriu, sinalizando o óbvio. De mim? Sei não...
Habituamo-nos a conversar. Sem TV,
rádio, livros, sem nada pra atrapalhar. Às vezes papel e caneta. Porque
solidão, vez em quando, solta umas pérolas imperdíveis que anoto, pra não
esquecer.
Certo dia, sutilmente, mas com a
transparência de sempre, pôs-se a argumentar em favor próprio, fazendo- me
lembrar de coisas que talvez explicassem minha inicial resistência a ela. Não
exatamente uma antipatia, mas uma incompreensão. Ou uma impensada adesão ao
senso comum, que prega por aí que é preciso estar com alguém para ser feliz,
andar em turma pra se divertir, ter um bando pra se sentir pertencendo a
algo... Mostrou-me, recordação por recordação, o quanto estivera ao meu lado,
fiel, quando eu imaginava, inocentemente, viver uma relação amorosa. Quando eu
frequentava a família, tentando encontrar nela alguma compreensão e, talvez,
até - vejam só! - cumplicidade.
Quando eu interagia direto com gente que eu pensava ter os mesmos ideais que
eu, mas cujas práticas diferiam tanto das minhas... E pouco a pouco Solidão foi
me ganhando. Carinhosa, realista, crítica, companheira... Comecei a gostar das
suas propostas. E comecei a sentir sua falta, em dias mais agitados, e desejar
sua presença. Passei a me planejar para recebê-la com carinho quando viesse. A
reservar momentos pra ela, bloqueando interferências externas. E, de repente,
percebi que solidão me cativara e que a iminência de tê-la comigo me punha em
um especial estado criativo que, à sua chegada, se aguçava.
Quanto mais íntimas ficávamos, mais
à vontade e cheia de iniciativa Solidão se mostrava. Começou a insinuar que
gostaria de acessar umas amigas, pra que nossos encontros fossem mais
produtivos. Um dia veio Memória, no outro Saudade... Então Solidão teve até a
ousadia de chamar Perturbação. Agora vira e mexe ela vem. E toda vez que vem, o
bicho pega. Não se aquieta, instiga, zomba, ironiza... fantasia... Esses
encontros estão virando verdadeiros saraus. Sei
que, ultimamente, Liberdade anda meio ressentida. Deve temer que com tantas
amigas eu a deixe de lado. Não entende, a pobre, que sem ela, esses ricos
encontros seriam quase impossíveis. Que foi ela que começou tudo isso, com sua
obsessiva monogamia. Sem Liberdade talvez eu não tivesse conhecido Solidão nem estreitado
laços com essa trupe toda... Provavelmente estaria enredada em teias mal
tecidas de amores complicados, de amizades possessivas, de frustrantes
pseudo-relacionamentos. E, vou dizer...
Na companhia delas eu me escuto, eu me repreendo, eu me entendo, eu me perdoo.
Sentada no meu sofá eu alço voo. E até esqueço da imensa falta que um bom
abraço me faz...
Ana
Lucia Sorrentino
*Este texto é um excerto de "Eu fico com a noite", publicado na Amazon.
Para saber mais visite: Ana Lucia Sorrentino na Amazon
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