quinta-feira, 18 de junho de 2020

Relatos da Meritocracia – esse conceito estranho – sobre Bolsonaro e Weintraub





Menino franzino, canelas tão brancas e magras que lhe renderam o apelido de “mito”, advindo da abreviação de “palmito”, Jair Messias Bolsonaro tornou-se Cadete do Exército, virou Capitão e construiu uma carreira de militar sem representatividade, de reputação “assustadora”,  que preparava atentados à bomba como parte de campanha por aumento de salários. Virou deputado. Como deputado só promoveu intrigas e  baixarias. Talvez por mérito – não sei – angariou uma legião de seguidores que gritavam “mito” sem saber a origem do apelido. Virou presidente. Como presidente, nomeou os piores ministros de que se tem notícia, todos fortemente atuantes contra a pasta que representam. Reuniu ao seu redor a pior espécie de gente que nossa imaginação nem tão fértil consegue imaginar, destrói todos os dias um pouquinho a  mais do Brasil e da sua reputação lá fora e promove uma verdadeira carnificina, que já conta com quase 50 mil mortos, aliando-se a um vírus que depende de aglomerações para se fazer valer.
O que ele merece? Não sei... Sei que tem poder para promover mais meritocracia: hoje afastou o surreal Ministro da Educação Weintraub, que fechou seu ciclo com chave de ouro: conseguiu, antes de sair, revogar portaria sobre cotas para negros e indígenas na pós-graduação. E, por mérito talvez, o mandou para o Banco Mundial para ganhar mais de R$1.000.000,00 por ano! E você? Tem algum mérito?
  
                                                                                 Ana Lucia Sorrentino

  

quarta-feira, 6 de maio de 2020

CEu de Quarentena






A quarentena 
                   me reinventa. 
Me reinvento 
                  na quarentena.

sábado, 25 de abril de 2020

domingo, 19 de abril de 2020

Passou da hora de levarmos Jair Messias Bolsonaro a sério



          
           
Tenho pra mim que ainda há muuuita gente subestimando a gravidade do momento que estamos vivendo. Por estarmos imersos nele e por estarmos lidando com as barbaridades que esse crápula faz todos os dias, há mais de um ano, a indignação vai se cansando e muitos já naturalizam a barbárie.
          
           A violência moral é tamanha que, para nos salvarmos da depressão, temos recorrido ao humor, aos memes e às charges que, afinal, expressam muito mais instantaneamente o absurdo que vivemos e de alguma forma nos lavam a alma. Transformamos nossa dor em riso e seguimos, desgraçadamente enclausurados, sós e gritando no deserto.

          Pergunto-me se não passou da hora de pararmos de rir, de pararmos de chamar Bolsonaro de Bozo e de tentarmos ridicularizá-lo, porque o que ele está conseguindo fazer e o tempo que está conseguindo se manter no poder apesar do que faz não é pra iniciantes.
         
         Jair Messias Bolsonaro é mau, é desumano, não tem qualquer empatia com o povo, e é surdo ao que o mundo inteiro diz dele. Tem, sim, o perfil de um psicopata e creio que é isso que lhe permite ir adiante sem se importar com as vaias e, talvez, conseguindo dormir. Se é que não se droga pesadamente. A julgar pelos olhos sempre esbugalhados, a olhar como que para o infinito, é uma hipótese a se considerar.

          Creio que corremos o risco de não conseguir enxergar que isso é similar, sim, ao Holocausto, e temo não estar caindo em exagero. Muda a forma de atuação, mudam as armas - afinal, se é possível propagar rapidamente um vírus com potencial pra matar os "mais fracos"; se é possível dificultar tanto o acesso a um benefício que pode salvar os mais pobres de morrer de fome ou de terem seu sistema imunológico gravemente afetado, a ponto de ficarem à mercê do vírus; se é possível ter a seu lado as milícias que, hoje, ameaçam com a morte os que se negam a se jogar deliberadamente nos braços dela, assim como é possível ter uma legião de seguidores de líderes religiosos negacionistas, pra quê câmara de gás, não é mesmo?

          Subestimaram o potencial destrutivo de Bolsonaro quando era um deputado inútil e incivilizado e o julgaram simplesmente burro. Mas ele conseguiu colocar a família inteira a trabalhar contra o povo. Acreditaram que seria fácil tirá-lo do poder se se mostrasse um ditador e o elegeram apostando no escuro. Agora estamos assim, sem saber mais o que fazer, pra onde gritar, a quem recorrer pra nos salvarmos! Até quando vai isso? Será possível que ele tenha tanta força política a ponto do Congresso não conseguir derrubá-lo? Ou os aliados nessa loucura são mais numerosos do que imaginamos? Ou seu poder de chantagem é tão grande que consegue manter Congresso e STF calados? A agonia aqui é grande tentando entender essa situação! 🤕

          Sugiro, humildemente, que paremos de rir e nos façamos respeitar como um povo adulto, que vai enfrentá-lo com seriedade, todos os minutos das nossas vidas, até que ele caia e leve junto toda a corja que lhe dá sustentação!
Nada, nada que fizerem para afastar Bolsonaro poderá ser chamado de golpe!
Será, sim, seja lá como se der, salvação!

                                                                   Ana Lucia Sorrentino
                                                                       20/04/2020


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Carta para Cioran




         A frivolidade é o antídoto mais eficaz contra o mal de ser o que se é: graças a ela iludimos o mundo e dissimulamos a inconveniência de nossas profundidades.

             (Cioran, em Breviário de Decomposição)

Caro Cioran:



            Permita-me chamar-lhe de amigo, apesar de termos nascido em épocas e lugares distantes e de jamais termos nos encontrado, senão em pensamento. Estou lhe escrevendo porque sempre que entro em contato com seus escritos tenho vontade de comentá-los e acabo lamentando profundamente não ter seu e-mail. Não poderia esperar que tivesse um blog, onde eu pudesse deixar-lhe uma palavrinha e, na verdade, é mesmo uma sorte sua não ter um. Blogueiros sofrem muito. Se, na intenção de promover liberdade de expressão, permitem comentários, precisam estar dispostos a receber todo tipo de agressões verbais, seja lá pelo motivo que for, de gente que nem ao menos se dá ao trabalho de ler o texto inteiro antes de comentar. Estamos vivendo uma estranha época em que as pessoas se orgulham da própria falta de educação. Recentemente aconteceram por aqui coisas do arco da velha. Prefiro nem contar para que não fique mais desgostoso do que já é em relação ao ser humano, se é que isso é possível. Fico feliz por você não estar à mercê disso.

            Não havendo esse blog, pensei então em lhe escrever pelo meu. Não sei por onde você anda e, como não acredito em vida após a morte, creio que jamais me responderá. Mas isso não o faz diferente de tantos “vivos” para os quais escrevo com frequência. A tremenda facilidade que temos para nos comunicar virtualmente com gente do mundo todo a qualquer hora resultou em uma quase impossibilidade de nos relacionarmos de verdade, seja lá com quem for. Jogamos e-mails ao vento, trocamos gracinhas e fórmulas de bem-viver com todo mundo, defendemos ferrenhamente partidos políticos questionáveis, usamos imagens para sermos mais bem compreendidos e assim seguimos, solitários. Nosso tempo é engolido pelas infinitas possibilidades e muitas vezes nem conseguimos perceber a quem valeria a pena dar um pouco de atenção. Talvez nem mesmo acreditemos que alguém assim exista. Somos “líquidos”, como diria Bauman. Escapamos entre os dedos, escorregamos por baixo da porta, vez ou outra descemos ralo abaixo. Isso é meu, não de Bauman.

            Bem... escrevo então esta carta por crer que, imaginando que a lerá, pensarei sobre tudo com mais cuidado e empenho do que se estivesse conversando só comigo mesma. Costumo ser generosa e tolerante comigo e isso às vezes me produz desmandos. Um bom interlocutor é sempre um chamamento ao rigor, além de ser instigante.

            Tenho me perguntado o tempo todo para que escrevo, afinal. Certa vez ouvi de alguém que, se tivéssemos que escrever para ensinar alguma coisa ao mundo, não deveríamos escrever: deveríamos tratar o mundo a socos e pontapés. Não imagina quantas vezes me lembro disso antes de me envolver com as palavras... Acontece que há muito deixei de acreditar que possa “ensinar” algo ao mundo. Escrevo para me livrar das ideias que ficam me rondando como crianças sonolentas que se põem a rir e não me deixam tranquila se não as coloco para dormir em um berço de papel. E devo confessar que, enquanto o faço, ponho nisso tanto carinho que me liberto de todo e qualquer sofrimento que não o da angústia de combiná-las bem. Mas este é lúdico, e me distrai daqueles,  sobre os quais não tenho qualquer domínio.

            Estive vendo alguns vídeos sobre você. O que mais gosto em você, nesses vídeos, é da lucidez com que se descreve e da forma como ri de si mesmo. Talvez porque eu também ande sempre a rir de mim, mesmo nas adversidades. Mas hoje me emocionou em especial um em que sua imagem aparece mais longamente, você calado, passando as mãos nos cabelos brancos, e sua expressão de inteligência ocupando a tela inteira. Inteligência maciça acrescida da experiência de toda uma vida. Inteligência que vaza pelo olhar cansado de quem já viu muito e de quem se desiludiu também com as palavras. Uma inteligência em silêncio. Cheia de dignidade. Às perguntas do jornalista você respondia com frases econômicas  e com uma voz rouca que parecia carregar o peso da inutilidade de respondê-las. Revi o trecho algumas vezes, quis reter. Escrevendo agora sobre isso posso te ver e me emociono novamente.

            Frequentemente tenho tido vontade de te escrever. Para contar que a academia continua roubando nossas almas, e que, à medida que consigo, me protejo disso escrevendo. Roubo dela o tempo que ela me rouba e escrevo sobre o que quero. Depois, subtraída do tempo que eu mesma roubei, escrevo precariamente sobre aquilo que ela me obriga a escrever... Não tenho tido notas muito boas, mas reduzir-nos a um número é algo tão injusto que evito até pensar nisso. Sigo, para ser legitimada como profissional. E, afinal, preciso ganhar a vida de alguma forma... Na prática, você sabe... Proliferam no mundo imbecis diplomados e muita gente brilhante morre sem diploma algum... Produtores de futilidades se “dão bem”, enquanto pessoas seriamente dedicadas muitas vezes passam a vida em dificuldade. Contingência pura.

            Também penso sempre em te escrever para te contar que sei muito bem a que se refere quando diz que os grandes enfermos não se enfastiam porque a doença os preenche, pois conheço isso muito de perto. E, por isso, como você, decidi jamais dar muita importância a meus pequenos sofrimentos... Também vivo querendo te contar que sempre que olho para as luzes da noite sinto um ímpeto de me embrenhar por elas, e lembro com inveja de suas noites insones caminhando pelas ruas de Sibiu... amo a noite. A tudo isso resisti. Conversava com você mentalmente, e me satisfazia. Mas hoje quis escrever.

            Quero te contar que um fenômeno atual registra em textos e fotos uma dessas suas percepções de precisão cirúrgica. Se estivesse entre nós, provavelmente você se surpreenderia ao ver, em murais virtuais, a materialização do que captou e descreveu tão bem observando o comportamento humano. O início do século XXI trouxe uma enorme intensificação do movimento nas redes sociais e por volta de 2004 deu-se um "boom" que mudou nossas vidas. Ao longo dos últimos anos, Cioran, o fenômeno da autoexposição nessas redes só cresceu e atinge, hoje, um nível que eu diria de verdadeira provocação. A inclusão digital misturou, no mundo virtual, classes sociais que, no mundo real, não se misturavam. As classes desfavorecidas passaram a circular virtualmente por mundos cujo acesso, antes, no mundo real, lhes era negado.      Por outro lado, a juventude das classes mais abastadas, que foi criada a pão de ló, desfrutou de privilégios desde sempre e nunca teve que batalhar pela liberdade, que lhe foi “dada” por uma geração de pais inseguros e permissivos, parece não fazer ideia do que significa a palavra “compaixão”. Também desconhece os malefícios que sentimentos como a inveja e a cobiça, inerentes ao ser humano, podem causar. Sentimentos que nossos avós, sabiamente prudentes, nos ensinavam a evitar, evitando a exposição exagerada da própria sorte.

            Ocorre, nas redes sociais, exatamente o contrário do que nossos avós aconselhavam: o escancaramento da vida privada, uma autoexposição exagerada, um fenômeno a que a filósofa Márcia Tiburi se refere como sendo a substituição do cogito cartesiano “penso, logo existo” pela crença “sou visto, logo existo”.

            Essa frivolidade tornou-se um vício nas redes sociais. A geração que posta tudo o que faz e toda a “felicidade” que vive, parece encontrar mais felicidade em postar do que em viver. Os perfis criam ilusões que só sabem ser ilusões aqueles que conhecem pessoalmente seus donos. As palavras trocadas em murais entre familiares e amigos quase sempre são de efusivo amor e carinho. Uma verdadeira banalização do afeto. A vida da maior parte dos internautas se assemelha em muito a uma grande balada lotada de gente bonita e de acontecimentos excitantes. As pessoas postam lindos pratos da alta gastronomia, viagens fantásticas, férias incríveis... Quase ninguém posta o que não contribua para a construção de uma imagem de ser humano agraciado pelos deuses.

            Nesse mundo de realidades virtuais não basta que a vida não seja justa. Não basta que, enquanto alguns mal têm o que comer, outros, sem mérito algum, se regalem com tudo que há do bom e do melhor. É preciso expor isso sem a menor compaixão, sem a menor empatia pelos que têm muito pouco, que hoje não sofrem apenas por não ter, mas também por ter mais consciência do quanto não têm, uma vez que presenciam diariamente a fartura e o gozo alheios. Assim, um mundo que, na realidade, já é desigual e cruel, transforma-se, virtualmente, em uma verdadeira brutalidade. Se já é complicado lidar com as diferenças sociais reais, quão mais complicado é lidar com diferenças criadas em redes virtuais?     Creio que uma simples passeada pelo Facebook provoque em um jovem que não ganha nada de mão beijada e que enfrenta as condições mais adversas na vida, o mesmo insight que você teve ao escrever em seu Breviário que “a injustiça governa o universo”. Acontece que o mundo das redes sociais, ao privilegiar o lado belo da vida, também é, de certa forma, ficção. Então, como se isso já não bastasse para criar rivalidade entre diferentes classes, veio somar-se a isso o fato de que, nessas redes, as pessoas estão dizendo tudo o que pensam sobre tudo, sem a menor reflexão. O fato de não estar cara a cara com seu interlocutor e de poder bloqueá-lo ou deletá-lo e até mesmo de poder deletar os próprios comentários produz uma leviandade corrosiva. E, infelizmente, está vindo à tona tanto preconceito, tanta arrogância, tanto desrespeito pelo outro, que é de dar vontade de chorar. E não é paradoxal estarmos vivendo isso em uma época de acirrada militância do politicamente correto. Parece-me que os mais sórdidos sentimentos humanos, existentes apesar do nosso desejo em contrário, quando patrulhados, fermentam.

            Assim, Cioran, nas redes sociais, a imensa vontade de expor o próprio “sucesso” caminha lado a lado com a exposição da própria miséria interna. Miséria que, talvez, em um movimento circular, venha crescendo justamente por conta dessa ânsia de viver para o outro e dessa enorme incapacidade de olhar para dentro de si mesmo. Olhar pra dentro de si, como bem sabe, é desconfortável, porque, por dentro, muitas vezes, não há essa beleza que as academias, os cosméticos e as clínicas de cirurgia conseguem produzir para o mundo ver. Essa "galvanização" que Benjamin já vislumbrava em "Experiência e Pobreza", que não transforma ninguém por dentro... E nada muda internamente mesmo com um apartamento de luxo, o carro do ano ou o celular de última geração. A maior parte de nós segue, assim, caro Cioran, como você sabiamente detectou: dissimulando a inconveniência de suas profundidades. De mal a pior.

            Não pedirei que me responda, pois não quero incomodá-lo aí onde está, ou onde não está, mais do que já incomodei com meu desabafo. E, muito provavelmente, não terá palavras para me consolar. Mas agradeço de coração por ter deixado registros tão honestos sobre tudo o que é humano. Lendo-os sinto-me menos só. 

                                                                                                  Com carinho,                                                                                                                                Ana Lucia Sorrentino
                                   Novembro/2015                            

quarta-feira, 8 de abril de 2020

terça-feira, 7 de abril de 2020

Magia



























Magia


Quero te desconstruir
pra voltar ao meu normal.
   Defeitos aqui, bem de perto,
   bem de perto o seu real.  
   Quero ver se é só engano,
   impressão, fantasia.
   Entender o que é que foi
   que me tirou da apatia.
   Entender como é que pode,
   depois de tanto sossego,
   tremenda disritmia.
   Como é que da noite pro dia
   de repente me flagrei
   achando algum sentido,  
   sentindo alguma alegria.
   Vem pra eu te esquadrinhar
   pra tentar compreender
   se fui eu que te inventei
   ou se isso é magia.

                                                                      Ana Lucia Sorrentino
                                                                            07/04/2020




sexta-feira, 3 de abril de 2020

Reencontrando sua alma: Solidão

Reencontrando sua alma: Solidão:                                         Hoje, logo cedo, conversando com Solidão, desandei a me queixa...

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Pensemos o mundo com Bauman


Uma caravana de cerca de 3 mil imigrantes, em sua maioria saídos de Honduras há cerca de um mês, tenta chegar aos EUA para pedir asilo. Segundo matéria do G1, dezenas deles disseram, em entrevista ao Associated Press, que deixaram o país por conta da violência e da extrema pobreza. Na passagem por Tijuana, cidade fronteiriça do México, a caravana enfrentou um protesto de centenas de moradores. Uma manifestante disse aos repórteres que o governo deles é que deveria tomar conta deles, enquanto manifestantes gritavam "Fora!" e "Não os queremos em Tijuana!".

Todos os dias Bauman me ajuda a pensar sobre o que acontece no mundo. No capítulo VII de O conceito de amor líquido em Bauman, de minha autoria, faço uma compilação de fácil leitura das análises de Bauman sobre a questão migratória. Transcrevo abaixo alguns trechos esclarecedores:  

Bauman afirma que a modernidade "produziu desde o início, e continua a produzir, enormes quantidades de lixo humano". Ao produzir e reproduzir determinada ordem social, a modernidade considera lixo tudo o que não serve a essa ordem. Por outro lado, o progresso econômico também transforma em lixo todos os modos de subsistência que não servem aos padrões de produtividade e rentabilidade em constante elevação. À medida que o modo de vida moderno se espalha pelo planeta, diminuem os "aterros sanitários" que poderiam recolher tal "lixo humano", que passa a representar sério perigo de autocombustão e "explosão iminente".[...]
[...] o mundo [...] tratou de criar métodos cada vez mais rígidos para controlar os movimentos humanos: "Passaportes, vistos de entrada e saída, alfândegas e controles de imigração foram invenções originais da moderna arte de governar."
[...] Bauman lembra que a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, foi objeto de crítica de Hannah Arendt e de Giorgio Agamben por sua falta de clareza quanto aos termos "homem" e "cidadão" e por vincular a cidadania ao pertencimento a uma nação, fazendo com que os direitos do homem se tornassem inaplicáveis a qualquer ser humano que não se encaixasse na definição de "cidadão", por não pertencer a algum Estado soberano. Aos "refugiados"- como são chamados a partir de meados do século XX "aqueles que não têm um lugar próprio no mapa-múndi mental dos cidadãos dos Estados soberanos" – cabiam múltiplas rejeições antes que o Estado aceitasse seu ingresso na família nacional, não sem a exigência prévia de que "imitassem a nudez do recém-nascido", ou seja: aniquilando seus valores anteriores. Bauman esclarece que a soberania praticada pelos modernos Estados-nação está "inextricavelmente limitada a um território". A trindade "Estado – nação – território" trata tudo o que não se componha desses três elementos como "anomalia" e se reserva a arrogante posição de metrópole, transformando o resto do planeta em periferia e sujeitando-a às suas regras. Aqueles a quem a trindade rejeita são lançados à terra de ninguém, a uma vida "que não vale a pena ser vivida".
[...] Eles são expulsos ou afugentados de seus países e sua entrada em outros é recusada. Perdem seu lugar na Terra. Enquanto a elite global flutua, poderosa, pela extraterritorialidade, eles se tornaram "um alvo fixo em que se descarregar o excesso de angústia..." Onde quer que estejam, são indesejados.
[...] Bauman conta que os imigrantes cuja deportação é mais difícil são confinados em campos de refugiados em locais remotos e isolados, o que impossibilita definitivamente sua assimilação à vida econômica do país. Não pertencem ao país em que vivem, não são sedentários nem nômades, são alvo de suspeitas e ressentimentos, não podem voltar ao país de que saíram, enfim: são "impensáveis", "inimagináveis", "inefáveis".
[...] Bauman considera que "até aqui as perspectivas são sombrias", mas afirma que nosso consolo "é o fato de que a história ainda está conosco e pode ser construída".

Se você tem vontade de entender como chegamos onde estamos e se interessou por Bauman, pode começar lendo O conceito de amor líquido em Bauman, de minha autoria. Tenho certeza de que isso facilitará seu mergulho nas obras do próprio autor. Para ler um excerto gratuitamente, adquirir o livro ou conhecer um pouco mais do meu trabalho, basta acessar minha página - Ana Lucia Sorrentino - no site da Amazon. Lá você encontrará a versão digital e também o livro físico. E boa leitura!

                                                                                                          Ana Lucia Sorrentino

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Perturbação




Quando conheci Perturbação, eu era ainda menininha. Não sei precisar o momento exato em que a vi pela primeira vez. Talvez tenha sido numa dessas interrupções abruptas de alguma brincadeira de criança à qual me entregava prazerosamente. Sei que algo quebrou o encanto e me lembro de grandes olhos de malícia me fitando e certa maldade no sorriso de canto de boca. Embora a estivesse percebendo pela primeira vez, me jurou que me conhecia desde o berço e conjecturou que, provavelmente, a essa época, por estar tão protegida pelos cuidados familiares, eu não registrara sua presença.
Como se atendendo a um pedido meu, me prometeu que nunca me abandonaria, mesmo que nalguns momentos precisasse se ausentar. Que eu esperasse, porque a qualquer instante voltaria. Orgulha-se de ser fiel.
Depois disso, de fato, Perturbação nunca mais deixou de me visitar. Em certas fases com maior frequência, em outras esporadicamente. Chegava sempre como quem não quer nada, com seus tamanquinhos de sola de madeira batucando algo que não música no chão. Embora o tamanco, com seu barulhinho irritante, fosse marca registrada, percebi, há pouco tempo, que Perturbação não tem um estilo. Às vezes vem séria, de preto, às vezes toda florida. Algumas vezes me apareceu linda, linda, toda em corações vermelhos, quase em fogo, e foi então que mais me tirou do prumo.
Com seu jeito convincente de quem se julga necessária, se fez presente em todos os momentos cruciais da minha existência.
Não raro imaginei ter Perturbação algo de diabólico, tão de supetão surgia do nada e pro nada se ia. Mas então notei que, vez ou outra, me avisava, sim, com algum pequeno sinal, de sua aproximação. Desatenta que sou, sempre lhe abri as portas e permiti que viesse, me abraçasse e me beijasse, ora com doces lábios úmidos, ora com dura frieza.
Certa vez, tendo sua visita sido demasiado prolongada, perguntei-lhe se não negligenciava outros amigos, que, com certeza, estranhavam sua ausência. Respondeu-me que se desdobra em muitas, ignorando por completo aquela baboseira de que um corpo não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo – e riu gostosamente.
É brincalhona, com certeza. Mas quase sempre seu senso de humor me parece de duvidoso gosto.
Hoje, mais madura, e tendo percorrido mil caminhos e chegado a mil destinos, lembro-me de ter cruzado com essa presença em quase todas as estradas. E permiti que me acompanhasse, ora por longos trechos, ora só por alguns passos. Às vezes me indicou caminhos, às vezes os atravancou. E em muitas e muitas ocasiões me pegou pela mão e me tirou de uma encruzilhada em que eu insistia em sentar e ficar, cansada que estava.
Em nossos últimos encontros percebi algo diferente em sua feição. Perturbação não é mais a menina agitada que me viu adolescer e me acompanhou na minha primeira paixão. Não é mais a figura forte e determinada que me paralisou nas doenças, nas decepções, nas tristes constatações de impotência e solidão.
Parece-me um pouco cansada, já traz rugas no rosto e às vezes cede à minha desatenção. Dá meia volta e se vai, um tanto quanto desgostosa, mas até que conformada. Eu a olho se distanciando morosamente e não consigo não sorrir, pensando que deve se aborrecer por não me provocar mais paixão. Mas confesso sentir algum carinho e ter até, por ela, grande consideração.
Embora Perturbação seja inegavelmente perturbadora e tenha esse espírito promíscuo, não há como negar: é fiel e presente. E intuo que, apesar de tantas vezes rejeitada e mal recebida, é a amiga que me viu crescer e que me acompanhará, cada vez mais calma, até o último minuto da minha vida.

                                                             
                                                    Ana Lucia Sorrentino

Imagem: Google

domingo, 8 de abril de 2018

Espalhemos as sementes de Lula





Lula, enfim, foi preso. A saga de desmonte da democracia que se iniciou quando da vitória de Dilma, em 2014, e que foi se desdobrando em tristes episódios de escancarado desrespeito à Constituição, só possíveis com a conivência de um judiciário totalmente comprometido com a direita e de uma multidão de brasileiros entorpecidos pelo ódio implantado pela grande mídia enfim, atingiu seu ápice. A prisão de Lula marca definitivamente a quebra do Estado de Direito no Brasil e seus desdobramentos me põem medo.  Entretanto, ela não se deu como, talvez, Moro desejasse e, creio, não surtirá todos os efeitos que Moro, presumivelmente, imaginou. Lula se entregou embalado pelo povo e, evidentemente, seu espírito não ficará enclausurado, mas se impregnará em todos os que enxergam que são os trabalhadores que movem o mundo.
Eu não sinto pena do Lula, porque Lula JAMAIS será digno de pena. Tenho certeza de que, esteja onde estiver, será o grande líder que sempre foi. Tenho certeza de que suas ideias reverberarão pelos quatro cantos do planeta. Tenho certeza de que se dará bem dormindo em qualquer cama, comendo qualquer tipo de comida, a céu aberto ou confinado. Tenho certeza de que conquistará os corações de todos os que tiverem contato com ele nesses estranhos dias. Lula terá direito a duas horas diárias de banho de sol e, nossa!, quanta fertilidade isso gerará! Mujica ficou sete anos em uma solitária e afirma que não enlouqueceu porque talvez já fosse louco. Sofreu, mas tornou-se o que é hoje. Lula é louco, porque só mesmo um louco consegue tanta força para lutar pelo que acredita. E Lula nos enlouquece porque nos contamina com esse desejo de justiça social. Lula receberá cartas, milhares de cartas, receberá visitas, refletirá, e nos terá aqui, espalhando consciência política.
Esse momento, de dor profunda, pede resistência. Mas não apenas resistência no sentido de cobrar da justiça o que é sua obrigação: fazer justiça. A resistência deve ir além. Não podemos desistir daquilo em que acreditamos. Se o Brasil está sitiado, o destemor é necessário. A cada oportunidade, a cada brecha, em todos os espaços em que possamos nos infiltrar, de todas as formas possíveis, temos que assumir a responsabilidade de espalhar a ideia de compaixão, a fé na possibilidade da construção de um mundo menos desigual, a consciência de que fora da política não há salvação e de que política se faz todos os dias, em todos os ambientes e situações. Temos que conscientizar os menos favorecidos de que sua situação não é natural e de que, se nos ajudarmos uns aos outros contra a tirania dos poderosos, havemos de obter avanços.
O recado que nos tem sido passado desde a eleição de Dilma, culminando no assassinato brutal de Marielle e na igualmente brutal prisão de Lula, é o de que temos que aceitar que o mundo será sempre comandado pelos mesmos. De que temos que nos sujeitar à escravidão para apenas sobreviver, porque sempre foi assim e assim sempre será. Mas os que querem perpetuar a escravidão sabem que são escravos de seus servos e é o medo que os torna tão cruéis. Ter que meter a mão na massa os assombra.
Tornemo-nos educadores, cada um de nós. Vamos espalhar as sementes que Lula plantou em nós, sem trégua.   


                                                           Ana Lucia Sorrentino

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Solidão

            
          














               Hoje, logo cedo, conversando com Solidão, desandei a me queixar. Que essa rua era pra ser tranquila. Que o mundo tá muuito zoado... Que o velhinho do 31 some com a correspondência. Que eu acho que não vou dar conta de tudo o que tenho pra fazer... Que eu acho que não vou dar conta de nada... Que, afinal, pra que tudo isso? Que como era possível ter vivido uma vida cuidando dos outros e ficar assim, sem ninguém pra cuidar de mim???
            Solidão me acompanhava, indo pra lá e pra cá, sem desgrudar um minuto. Não sei como me aguenta... De repente, o cão da casa em frente latiu. Nos debruçamos na janela da lavanderia e ali ficamos. Contei-lhe que todas as manhãs me divirto observando-o brincar, enquanto coo o café. Ela me olhou espantada, como que me lembrando: “eu sei!” Ah, sim... Ela mesma me sugere, às vezes, adotar um animalzinho. "Um monte de gente resolve a vida cuidando de bichinhos..." Mas diz isso de um jeito meio falso, querendo se fazer de desapegada. No fundo, percebo nela um medo enorme de que eu siga seu conselho e a afaste. De mais a mais, ela sabe que eu tenho compromisso com Liberdade, que é extremamente possessiva. Não dá muito certo me meter com ninguém... nem com bichinhos, apesar de gostar tanto deles...
            Solidão gosta de mim e eu gosto dela também. Mas não foi sempre assim... Suas primeiras visitas eu mal percebia. Depois, quando percebia, me aborrecia. Ela vinha como quem não queria nada e trazia um vazio com o qual eu não sabia lidar. Eu ficava pensando que se estivesse aqui ou ali, com amigos, ou se tivesse um amor... Pensava em encher o vazio com coisas de fora e não me ligava de que solidão me fazia um favor, abrindo esse espaço. Um espaço só meu que até então eu não fizera muita questão de acessar, nem sei por quê...  De repente, um dia, como sempre sem ser chamada, ela veio conversadeira. Pediu que me aquietasse e que lhe prestasse atenção. Que estava ali justamente pra me tirar de toda aquela agitação. Que a sentisse, que era amiga e interessada. Que aproveitasse sua companhia, pois uma solidão produtiva era para poucos. As pessoas todas viviam em meio a tantos ruídos que nunca conseguiam ouvi-la. Metiam-se nos mais variados afazeres e passavam por cima dela, sem notar sua presença. Trabalho, compras, trânsito, discussões... necessidades. Criavam muitas necessidades, para depois saná-las. E aí tinham que trabalhar muito. E, para compensar o desgaste, faziam as mais variadas coisas: academia, meditação, análise, yoga... Nunca sobrava tempo pra um bom bate-papo com ela. Percebi Solidão um pouco solitária. E, como quem cede a um desejo há muito guardado, sentei ao seu lado e a ouvi. Ouvi com os ouvidos da alma. E sua voz me pareceu tão doce e segura que me perguntei de onde é que poderia vir tanta doçura. Ela pressentiu minha questão e sorriu, sinalizando o óbvio. De mim? Sei não...
            Habituamo-nos a conversar. Sem TV, rádio, livros, sem nada pra atrapalhar. Às vezes papel e caneta. Porque solidão, vez em quando, solta umas pérolas imperdíveis que anoto, pra não esquecer.
            Certo dia, sutilmente, mas com a transparência de sempre, pôs-se a argumentar em favor próprio, fazendo- me lembrar de coisas que talvez explicassem minha inicial resistência a ela. Não exatamente uma antipatia, mas uma incompreensão. Ou uma impensada adesão ao senso comum, que prega por aí que é preciso estar com alguém para ser feliz, andar em turma pra se divertir, ter um bando pra se sentir pertencendo a algo... Mostrou-me, recordação por recordação, o quanto estivera ao meu lado, fiel, quando eu imaginava, inocentemente, viver uma relação amorosa. Quando eu frequentava a família, tentando encontrar nela alguma compreensão e, talvez, até - vejam só! - cumplicidade. Quando eu interagia direto com gente que eu pensava ter os mesmos ideais que eu, mas cujas práticas diferiam tanto das minhas... E pouco a pouco Solidão foi me ganhando. Carinhosa, realista, crítica, companheira... Comecei a gostar das suas propostas. E comecei a sentir sua falta, em dias mais agitados, e desejar sua presença. Passei a me planejar para recebê-la com carinho quando viesse. A reservar momentos pra ela, bloqueando interferências externas. E, de repente, percebi que solidão me cativara e que a iminência de tê-la comigo me punha em um especial estado criativo que, à sua chegada, se aguçava.
            Quanto mais íntimas ficávamos, mais à vontade e cheia de iniciativa Solidão se mostrava. Começou a insinuar que gostaria de acessar umas amigas, pra que nossos encontros fossem mais produtivos. Um dia veio Memória, no outro Saudade... Então Solidão teve até a ousadia de chamar Perturbação. Agora vira e mexe ela vem. E toda vez que vem, o bicho pega. Não se aquieta, instiga, zomba, ironiza... fantasia... Esses encontros estão virando verdadeiros saraus. Sei que, ultimamente, Liberdade anda meio ressentida. Deve temer que com tantas amigas eu a deixe de lado. Não entende, a pobre, que sem ela, esses ricos encontros seriam quase impossíveis. Que foi ela que começou tudo isso, com sua obsessiva monogamia. Sem Liberdade talvez eu não tivesse conhecido Solidão nem estreitado laços com essa trupe toda... Provavelmente estaria enredada em teias mal tecidas de amores complicados, de amizades possessivas, de frustrantes pseudo-relacionamentos.  E, vou dizer... Na companhia delas eu me escuto, eu me repreendo, eu me entendo, eu me perdoo. Sentada no meu sofá eu alço voo. E até esqueço da imensa falta que um bom abraço me faz...

                                                                       Ana Lucia Sorrentino

*Este texto é um excerto de "Eu fico com a noite", publicado na Amazon. 
Para saber mais visite: Ana Lucia Sorrentino na Amazon