domingo, 6 de junho de 2010

Poesia - Percebi - (Alento, 2007)

Esse orgulho bobo...
Que pequena eu sou...
Tanta coisa longe,
tanta coisa que passou...
Já não dá mais pra entortar a boca,
virar o rosto,
torcer o nariz.
Já não há tempo nem motivo
pra deixar de ser feliz.

Ana Lucia Sorrentino em Alento(2007) - coletânea de poesias, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br

domingo, 16 de maio de 2010

Poesia - Pública Vida Privada (Alento - 2007)

 
Tudo, tudo o que faço ecoa.
            Tudo repercute, tudo grita,
            tudo se espalha.
            Ensaio um psiu!, que de nada adianta.
            Meus segredos voam por aí,
            de boca em boca.
            Sou tão sozinha, e no entanto,
            tão devassada...
            Não dá. Não dá pra transgredir em nada.
            Mesmo que queira,
            mesmo que ninguém perceba,
            estou sendo sempre vigiada
            (quando não flagrada).
            Meus telefonemas são listados,
            meus e-mails são checados,
            minha gasolina computada,
            meu comportamento censurado.
            Os canhotos dos meus cheques são vistados,
            os extratos conferidos.
            E eu, com feridas no meu substrato,
            vou levando a vida convertida.
            Tentando, de certa forma,
ser até mesmo divertida.
E conseguindo, muitas vezes...
Meus reveses logo se agigantam.
Minha vida, de privada, não tem nada
e meu lado malandro
teve que ceder lugar
a um bom senso manco.
Mantenho o nível...
Mantenho o nível...
É o que querem de mim.
E ninguém se importa
se estou não a fim.

Ana Lucia Sorrentino em Alento(2007) - coletânea de poesias, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br

quinta-feira, 11 de março de 2010

Abrindo meu Diário IX - reflexões para Desromance (2007)

Julho/2007

Estou quase tendo um treco de tanta raiva. Há momentos em que a realidade despenca na minha cabeça de forma tão devastadora, que chorar não basta. Me dá vontade de chutar, xingar, sair gritando pras mulheres não fazerem a merda que fiz, pra não se descuidarem de si mesmas, porque só quem cuida da gente é a gente mesmo!

A vontade de escrever agora anda me acompanhando direto, acho que isso faz parte de voltar pra casa. Acho não, tenho certeza. Assim como tomar longos banhos, me trancar no quarto antes de dormir pra poder ler sossegada, ouvir minhas músicas preferidas cantando e dançando, e outras tantas coisas que tenho redescoberto, e que havia abandonado, por não conseguir conjugá-las ao meu casamento.

Sei que fico, desde a hora em que acordo, paquerando o computador, mas não dá, porque eu não tenho empregada, então me sinto na obrigação de fazer todas as obrigações domésticas antes de sentar pra escrever, que é uma obrigaçãozinha menor, é claro, porque ninguém me ensinou que a minha prioridade deveria ser sempre eu mesma. Estou aprendendo, levando porrada, mas é difícil largar os antigos hábitos sem ligar pra torcida. É claro, porque se eu sentasse para escrever com a casa bagunçada pareceria relaxo e uma boa mãe de família deve saber quais são suas obrigações obrigatórias. Manter a casa limpa e arrumada e o povo todo alimentado é crucial, sob pena de não conseguir mais ter paz na vida! Quando termino de ajeitar a casa e de cuidar das roupas, preciso fazer o almoço. Quando terminamos de comer, preciso limpar a cozinha. Quando termino de limpar a cozinha, muitas vezes tenho que ir ao mercado, ou ao banco, ou à farmácia ou ao raio que me parta. Então cuido do lanche da tarde, e do jantar, e do filho que levo e pego na escola, e sei lá mais do quê. Quando percebo, estou exausta, não consegui nem tomar banho e não sentei no computador nem ao menos pra ler meus e-mails. :(

Mas... Um dia ou outro, entre uma tarefa e outra, consigo uma brecha e sinto vontade de escrever. Quem sabe escrevendo me sentiria menos sufocada, quem sabe nalgum dia eu consiga publicar um livro e finalmente ganhar um dinheiro só meu, quem sabe talvez eu conseguisse ajudar outras mulheres tão ferradas quanto eu... Ufa! Quem sabe? Aí vou lá, no quarto do meu filho e ele está no msn conversando com os amigos. Tenho que pedir licença com muito jeitinho, esperar que ele termine o papo, se despeça, pra então fazer a gentileza de me ceder alguns minutinhos de uso em seu amigo preferido. É claro que ele fica me rodeando, esperando que eu termine logo o que quer que esteja fazendo, pra que ele volte rapidamente ao seu posto. Não consigo escrever uma frase sem ser monitorada.

Hoje não tive brecha. Fiquei pra lá e pra cá com as coisas de casa o dia todo. Levei meu filho pra escola, voltei e meu outro filho ainda não tinha voltado do trabalho onde, diga-se de passagem, fica o dia todinho criando na frente de uma tela de computador. Me vi sozinha em casa, e fiquei animada. Corri pra pegar minhas anotações dos últimos dias, que faço num caderno, antes de dormir. Pensei em organizá-las, quem sabe começar a montar um livro de poesias... Coloquei alguns textos em ordem lógica, e abri um arquivo novo. Pronto! Meu filho chegou do trabalho! Fez pouco caso de uns pãezinhos que eu havia feito com todo o amor do mundo, jogou-se na cama ao meu lado e ligou a TV com o som bem alto, pra curtir uma música agitada na MTV. Fiquei agoniada. Me ajeitei na cadeira. Pedi pra abaixar um pouquinho, com todo jeitinho (de novo!) ... Percebi que ele estava a fim de tirar um cochilo, e sugeri: - você bem que podia ir dormir na minha cama, assim eu podia escrever um pouquinho sossegada... (não estranhe, o tamanho da letra é condizente com a minha delicadeza pra falar com ele).

Ele me respondeu, tremendamente irritado, que era i n a c r e d i t á v e l (essa é a delicadeza dele!) trabalhar o dia todo e chegar em casa e não ter direito de ficar em seu próprio quarto!

– Mas, filhinho...(a tonta) o computador está no seu quarto, e se você quer ver TV, no meu quarto dá pra você ver... Ele não fez o menor movimento para demonstrar que se abalaria de sair de seu espaço pra me dar chance de escrever.

Então, é claro, minhas carótidas começaram a inchar. Parece que as lágrimas sobem por elas (será que minam do coração?) até chegar aos olhos, de onde deveriam sair em enxurrada, mas eu, controlada que sou, faço uma manobra auto-mutiladora e as engulo, na verdade a seco. Aliás, existe uma teoria que denomina essa situação de engolir sapo. Acredito, sim, que essa enxurrada de lágrimas que seca de repente transforma-se num sapo que a gente engole e que, depois de algum tempo aparece nos mais diversos cantinhos do nosso corpo em forma de nódulos. Eu já tive que passar por uma cirurgia pra tirar um. Bem, o fato é que chegaram, em milésimos de segundos, a meu cérebro, um número infinito de informações que tentavam me fazer compreender porquê cheguei a essa situação aviltante.

E a informação que mais gritava na minha cabeça era a de que eu havia me abandonado em nome da família, e que, enquanto eu passara anos trabalhando em prol do bem-estar de todo mundo, enquanto eu criara condições para que todos pudessem crescer, estudar, trabalhar, se desenvolver para virem a se tornar independentes, eu simplesmente esquecera de ter vida própria! Em nosso orçamento familiar, apesar de em muitos períodos estarmos bem tranquilos, nunca havia verba para que a idiota aqui pudesse fazer algum curso para se garantir. Teimosa que sempre fui, dava uma de autodidata e nisso o computador me ajudava incrivelmente. Só que, o computador, que, a princípio era meu, à medida que meus filhos foram crescendo, foi se tornando só deles, a tal ponto que hoje preciso ficar mendigando um espacinho nele pra mim! Eu escrevia, eu desenhava, eu me informava e adorava usá-lo! Eu nunca fui paga pra fazer o serviço de casa, eu nunca tive meu próprio dinheiro nem liberdade pra usar o do meu marido, eu precisava ganhar um computador! Mas ninguém nunca se preocupou com isso, mesmo que eu tivesse demonstrado minha necessidade claramente! BURRA! BURRA BURRA BURRA BURRA! Aaaaaaaargh! :(

Por um golpe de sorte, meu ex havia deixado seu notebook aqui. Agarrei-o, levei para o meu quarto, e o liguei. Logo depois, o dono do precioso bem passou por aqui e, num acesso de caridade, me mostrou que dava até pra usar internet no meu quarto! :) E me emprestou o notebook, porque ele já tem um computador novo em sua casa!!! Ohhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!

E aqui estou eu, desabafada! É muuuuuuuita sorte, não é? ;)

(Ana Lucia Sorrentino em Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser...) ;)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Poesia - Viver?

Viver invejando
gregos e troianos,
se conformando em viver
sempre por baixo dos panos.
Viver escondendo as ânsias,
na inútil busca do recato,
quando a lascívia quer se mostrar
como vendaval,
em puro desacato à sensatez.
Viver escondendo a própria loucura,
cura da monotonia,
razão de orgulho e paixão.
Viver sendo a ideal sem-graça
quando meu real disfarça
pra não chocar os frustrados...
Será viver?

Ana Lucia Sorrentino em Alento(2007) - coletânea de poesias, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Poesia - Meia-Noite (Alento, 2007)

É meia-noite
e os sinos não tocaram.
Eu não tive nenhum pressentimento
nem compartilhei com alguém
a transmissão de um pensamento.
Eu não temi,
não tremi,
não estremeci.
É meia-noite e é como se fossem duas da tarde.
Eu não apaguei as luzes,
não fechei os olhos,
não dancei uma valsa.
Não me abracei a ninguém.
É meia-noite
e os sons continuam diurnos,
indiscretos.
Ninguém sussurra ao meu ouvido,
ninguém me beija,
ninguém me encara,
ninguém me ama.
É meia-noite e ninguém chora,
ninguém geme,
ninguém cala.
É meia-noite e o lobisomem não veio.
Nem o vampiro.
É meia-noite
e nenhum suspiro forte
pode cortar o silêncio,
porque nem ao menos
há o silêncio próprio da hora.
É meia-noite e eu escrevo,
como em tantos dias, tantas manhãs
ou madrugadas.
Não há o clarão da lua,
não há uma silhueta de mulher nua,
não há nada.
É meia-noite
e eu não estou apaixonada.

Ana Lucia Sorrentino em  Alento(2007) - coletânea de poesias,  à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Abrindo Meu Diário VIII - reflexões para Desromance

Hoje assisti Brilho eterno de uma mente sem lembranças ( http://www.youtube.com/watch?v=w4_ce4MyNcc ).  Aliás, assisti ontem, hoje fiz questão de assistir de novo. Me apaixonei pelo Jim Carrey. Aquele aloprado de todos os outros filmes sumiu e apareceu o cara mais doce do mundo! E que história incrível! É tão bom quando a gente assiste um filme inteligente e romântico... Achei tudo demais. O filme é impregnado de charme do início ao fim... E a música? Peguei-o na locadora porque li uma entrevista no jornal em que Marina Person dizia que esse era o filme com final feliz mais feliz que ela já vira. E o final é realmente incrível! É maravilhoso pensar que duas pessoas que sabem que já se conheceram e já viveram um relacionamento que já se desgastou e que já os fez sofrer optem por viver seu amor novamente, porque sabem que vale a pena! É o cúmulo do romantismo! Comentei isso com meu filho, e ele me perguntou se eu namoraria novamente com o pai dele. Tristemente, disse-lhe que não. Já era de madrugada, e não era momento pra eu estar enumerando os motivos que tenho, e ele também não gostaria disso. Mas, no fundo, fiquei triste por não querer viver esse amor de novo. Porque no começo foi bom... Pena que tenhamos deixado durar demais... De qualquer forma, a coisa pode dar certo na ficção porque as lembranças foram apagadas, então a mente pode ter esse brilho eterno. Na vida real, é impossível, por mais que queiramos, apagar tudo. Os acontecimentos desagradáveis vêm em flashes e acabam tirando o brilho de tudo. É isso. Minha mente está opaca. E, infelizmente, sei que tenho que trabalhar isso, pra deixar de lado essa crença que adquiri de que todo relacionamento vai ter o mesmo fim. O fim da paixão, o desgaste da convivência, o aborrecimento, o desejo de liberdade. Preciso achar algum produto milagroso que dê polimento em meus neurônios...

(Ana Lucia Sorrentino em Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser...)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

POESIA - Reforma (Alento, 2007)

Talvez eu tivesse acreditado
que a samambaia de volta
ao canto da sala de estar
pudesse trazer de volta também
alguma coisa, que agora sei,
não vai voltar.
Trocar o tecido do sofá
talvez fosse uma tentativa de recuperar
os doces sonhos que sonhamos juntos,
as carícias que trocamos
sobre a maciez do cetim.
Há mais gente na casa,
há mais rugas no rosto,
há mais vida intelectual...
Nada, nada vai nos fazer de novo igual
ao que éramos antes –
jovens, belos, fortes, apaixonados...
Tanta coisa aconteceu...
Agora, talvez, troquemos o piso.
Isso, contudo, nada tem a ver
com o resgate do riso,
que nunca perdemos.
O riso de sarcasmo ou ironia,
o riso doce ou amargo,
o riso de bobeira, de folia,
o riso bom, sem embargo.
Acho que somos felizes.
Pra isso luto todo dia.
Lutamos, talvez.
Penso nos quadros
que queria espalhar pelo apartamento
e na vida, na vida,
tanta vida que há aqui dentro.
Penso em tudo e me calo, emocionada.
Tomara que nosso edifício
erguido com amor e arte
não desmorone, como o Palace,
feito de areia e conchas do mar.

(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br)

domingo, 17 de janeiro de 2010

Poesia - Carente (Alento, 2007)

Eu queria um carinho,
um mimo qualquer.
A pele tá aqui
e eu tenho fungado muito.
Escanhoei meus pelos
pra ficar mais macia,
mas minhas próprias mãos
não me bastam.
Chove há dias
e eu umedeço aqui dentro.
Se quem me fala de longe
calasse de perto,
talvez então eu fosse mais feliz.

(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Abrindo Meu Diário VII - reflexões para Desromance

Hoje saí com uma amiga. Ontem tive um dia super introspectivo. Me recolhi, dormi fora de hora, curti ficar comigo mesma no quarto fechado, com meus pensamentos meio afetados pela TPM. Agora aceito isso muito melhor, acho que é pra fazer assim mesmo, se recolher. Aceitar essa vontade de ficar sozinha, quieta, comigo mesma. Hoje renasci. Já acordei com vontade de rua. De gente, de conversa.
Bem, o fato é que liguei pra essa minha amiga, e ela estava pra lá de sorumbática. Passara o domingo inteiro sozinha e isso a deixa perturbada. Até muitíssimo pouco tempo atrás, era certo que a família ficaria agregada ao seu redor durante todo o fim-de-semana. As filhas, os namorados das filhas, o pseudo-marido, que quase nunca vai pra casa... Todo mundo sugando-a de canudinho. De repente, as filhas cresceram, “desmamaram”, como não poderia deixar de ser, e cada uma vai vivendo sua vida pro seu lado, do seu próprio jeito. O marido se afundou em mais e mais compromissos, e quase não vai pra casa. E passou a ser normal, para as filhas, deixar a mãe por sua conta e risco. Está certo. Mais do que certo. É saudável. É pra isso que os filhos crescem. Pra descobrirem o mundo, as pessoas, a vida, enfim. E pra andarem com suas próprias pernas. E pra que nós, mães, possamos olhar novamente pra nós mesmas, reencontrar nossa alma e viver nossa vida.
E aí, o que é que acontece? Adivinha! O que era pra ser uma coisa muito legal, o que era pra ser festejado, vira uma síndrome! A síndrome do ninho vazio! Que inferno, não? A mulher vê a casa vazia e as tarefas feitas, e, em vez de se sentir tranquila, entra em depressão. Passou tantos anos cuidando dos outros, que esqueceu totalmente de si mesma. Agora quer se encontrar, mas não sabe onde, não sabe como. E vem a aflição. A casa está vazia e ela está vazia também. Já não sabe mais o que quer, já não sabe direito do que gosta, já não se reconhece mais. Na verdade, essa síndrome não é a síndrome do ninho vazio coisa nenhuma. É a síndrome da mulher vazia. Oca. Sem alma. A mulher que precisa ter companhia e estar atarefada o tempo todo para não perceber o quanto está vazia, pra não sentir o quanto isso dói. Todo mundo já não percebeu que quando as mulheres entram nessa fase, logo arrumam um cachorrinho pra distraí-las? Onde eu moro mesmo tem umas três ou quatro que são obrigadas a sair com seus cachorrinhos várias vezes por dia, pra que eles façam suas necessidades na calçada. (Que beleza, não?) Elas até poderiam ensiná-los a fazer o que têm que fazer na área de serviço, em cima de qualquer folha de jornal. Mas, e aí? Não vão ter a obrigação de levá-los para a rua várias vezes, e o dia vai ficar mais comprido... Essas mulheres são capazes de transformar seus pequeninos cachorros, às vezes doces e inocentes, em verdadeiros elefantes brancos. Mimam, exageram, estragam. E o cãozinho, que se fosse tratado com naturalidade seria uma maravilhosa fonte de carinho, passa a ser um verdadeiro estorvo, não só para suas mães, mas também para toda a vizinhança. Uma outra amiga minha nina o cão como se fosse um bebê recém-nascido com cólica. Se o deixa no chão, fica impossível conversar, porque o bicho late o tempo todo e fica ameaçando morder o infeliz interlocutor da sua dona. Trancá-lo em qualquer lugar é absolutamente impensável. Então ela o pega no colo, e a gente tem que ficar conversando meio mareada, porque aquele vai e vem não acaba nunca. Até que essa minha amiga se irrita e vai embora, quase sempre deixando a conversa pelo meio, como se a conversa não valesse absolutamente nada. E a amiga dela (eu!:o) fica se sentindo uma idiota por achar que vale a pena tentar conversar com uma pessoa assim!:(
Bem, mas eu estava falando sobre a minha outra amiga, a que saiu comigo... a gente foi ao Clube da Comédia Stand-up. Consegui tirá-la de casa, mesmo no meio de uma fossa, e fomos até lá, dar um pouco de risada e comer alguma bobagem.
Só que também me parece que algumas mulheres têm um pouco de dificuldade de relaxar e se divertir, simplesmente. A impressão que tive foi a de que ela ficou se sentindo meio mal o tempo todo, porque não está acostumada a tantos palavrões, e tantas expressões grosseiras... Tá bem, tá bem, eu também achei exagerado. Pra dizer a verdade, eu não sei porquê o humor está sempre tão associado a banheiros, privadas, fezes e outras porcarias. Mas, se estávamos lá, e o povo todo ria, e os comediantes eram realmente engraçados, por que não relaxar e gozar, como diria nossa respeitável ministra do turismo? Então, a minha amiga parece que ficou meio constrangida durante todo o show, sem falar que teve que atender o celular todas as vezes que ele tocou. E olha que não foram poucas!
Bem, viemos embora e ela, talvez percebendo que eu tinha vontade de conversar, sugeriu que fôssemos a algum café. Topei na hora, como sempre. Mas a ilusão durou muito pouco. No caminho, o celular dela começou a tocar sem parar. Era a filha que estava em casa pedindo que pegasse um filme na Blockbuster, a filha que ainda nem tinha chegado em casa perguntando o que tomar pra dor-de-barriga e a filha que eu nem sei onde estava discutindo com a mãe porque queria dormir na casa do namorado. Uma atrás da outra. E a minha amiga não deixou de atender esse celular uma vez sequer e acabou desistindo de ir ao café! E me despejou, frustrada, na porta de casa, para ir correndo atender sua prole.
Caraca! Quando eu a chamei ela estava totalmente arrasada porque a família se esquecera dela! Agora a família estala os dedos e ela vai correndo, como se o mundo fosse acabar se não fosse! E me deixa no vazio! Aquela conversa legal que íamos ter, saboreando um delicioso cafezinho, foi pras cucuias!
Bom...com certeza, pra ela, também seria uma conversa totalmente inútil, como as que tenho com a amiga que nina o cachorro...

(Ana Lucia Sorrentino em Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser...)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Crônica - Amor Casual


Havia fantasiado aquela situação por tanto tempo, e agora ia rolar. E como sempre, as coisas rolavam quando deixava de planejar... quando desencanava. Estava tão cheia de homens enrolados, se desgastara tanto com pretensos garanhões que na hora "h" saltavam fora, que o que viesse era lucro. Um homem que não tivesse medo de ir com ela pra cama já seria um herói. Todas as vezes que questionara isso claramente, as respostas haviam sido sempre evasivas. Medo? Medo de quê? - eles perguntavam, se fazendo de bobos. Tinham medo, sim, isso era inegável. Medo de não saber o que fazer, medo de não agradar, medo de não gostar, medo da própria performance deixar a desejar... O medo se sobrepujava a tudo: ao amor, ao tesão, à curiosidade... Só queria um pouco de carinho, será que isso era tão complicado? A cena de Um Lugar Chamado Notting Hill, em que Julia Roberts pedia a Hugh Grant que não esquecesse de que ela era apenas uma garota querendo ser amada voltava com frequência a sua mente. Estava uma perfeita Julia Roberts: uma garota querendo amor.

Agora conhecera alguém que aparentava não ter medo de nada. Espontaneidade a toda prova. A questão da possível brochada parecia simplesmente não existir. Um primeiro contato e uma inegável química detonara um processo irreversível de "querotecomercomamaiorurgênciapossívelpeloamordedeus". Um telefonema atrás do outro. Pressa. Torpedos em profusão. Ansiedade, arrepios, expectativa... Mal dera tempo de raciocinar, e já sentira tudo. Talvez assim fosse melhor... nada de pensar, só sentir. Ia viver o agora, como vinha preconizando há um bom tempo... E o tão afamado sexo casual, que até então só parecia ser vivido pelas protagonistas do Sex and the City deixaria de ser tabu. Por que não? Era o que vinha se perguntando há tanto tempo a respeito disso, e de muitas outras coisas. Não tinha nada a perder... Se bem que, depois dessas reticências sempre havia um pequeno ponto de interrogação... Mas, se nunca fizesse, nunca saberia. Daria a cara a tapa, mas havia de quebrar esse encantamento.

Por uma questão de urgência mesclada à falta de tempo hábil, o primeiro encontro se deu, atabalhoadamente, dentro do carro dele, o que só foi possível graças a um insulfilm absurdamente fora dos padrões seguros. Com certeza, quando fossem pra algum lugar melhor, seria mais prudente ir com seu próprio carro... Se policiou pra não começar a raciocinar demais, e não pôr tudo a perder.

Depois de alguns longos segundos em que ele parecia ter sido acometido por alguma espécie de paralisia, olhando-a, com um sorriso de encantamento, ela o estimulou a beijá-la, perguntando-lhe se não era isso o que dissera, repetidas vezes, por celular, estar louco pra fazer. Ele avançou nela como um desidratado numa jarra d' água. Não só beijou. Beijou, lambeu, mordeu, chupou, apalpou... Deus do céu... foi o que ela pensou, imaginando que ele devia estar enfrentando uma seca pior do que a dela, talvez há mais tempo... coitadinho... Deixou, deixou sem reservas, em total abnegação.

Nos intervalos entre um abraço e uma futura mancha roxa, teve oportunidade de fazer algumas perguntas-chave. Quantos anos você tem? A constatação de que ele era quinze anos mais novo que ela a transformou, numa fração de segundo, em pedófila. De onde você é? A origem nordestina projetou, instantaneamente, em sua imaginação fértil, o quadro de uma vida de sofrimento. Pôde vê-lo, retirante, chegando a Sampa com a cara e a coragem, e, provavelmente, mal alimentado. Perninhas finas e bambas... E finalmente: você ainda tem mãe viva? Nooossa... saber que ficara órfão de mãe aos dois anos de idade foi o golpe fatal. Chegava a ser covardia... se pudesse, o adotaria ali, naquele exato instante. O levaria pra casa, lhe daria um pratinho de sopa quente, e o colocaria numa cama quentinha... Coitadinho...

Saiu do carro amarrotada, se recompôs rapidamente, ajeitou os cabelos desgrenhados e foi pra casa pensando. Pensando não. Sentindo. A pele dele era macia, a boca gostosa, o desespero estimulante. Até que isso podia ser bom...

O segundo encontro começou estapafúrdio. Ele vinha de dois plantões de doze horas, seguidos. Tivera apenas uma hora para descansar. O constrangimento dele por ser ela dirigindo não cabia dentro do carro. O lugar que ela escolhera, a dedo, pra que tudo desse certo, foi rejeitado por ele, cuja ansiedade parecia não permitir que se fosse a algum lugar além da esquina. Quando ela sugeriu à recepcionista que lhes oferecesse alguma cortesia, a aflição dele fez com que se arrependesse imediatamente, pois, a seus olhos, ela devia ter extrapolado todos os limites da ousadia.

Depois de uma inspeção prévia em todos os cantos do quarto, ela pediu uns minutos e entrou no banheiro. Tudo parecia meio fora de lugar e não tão limpo quanto deveria. Resolveu passar por cima e curtir o momento. Não era pra isso que estava ali?

Saiu do banheiro, já enrolada numa toalha, e o encontrou mais do que pronto. E, no primeiro abraço, já querendo mergulhar nela, ele soltou uma frase que de tão proibida para a ocasião lhe pareceu quase pornográfica: eu tô morreeendo de medo de gostar demais de você e você só me querer pra sexo.

Ela se liquidificou. Seu estado passou de sólido pra gasoso e seu corpo se transformou num instrumento de caridade. Faça, faça o que quiser... Ele devia ter uma vida tão dura, bem que merecia possuir uma mulher sem restrições, sem muita frescura... Era tão jovem, provavelmente nem devia ter muita experiência naquilo que estava fazendo... Tão viril e forte, tão desesperado e agressivo... Ela previu que estaria quebrada no dia seguinte.

Ele dormiu profundamente. Ela o abraçou e, embora não tivesse sono, acabou cochilando, embalada pela respiração forte provocada pela exaustão dele. Pela janela se percebia a tarde cair e uma chuva gostosa serviu de trilha sonora praquele momento tão diferente de tudo o que previra em suas malucas fantasias de mulher em abstinência. Olhou o corpo jovem dele, e viu que, ainda ressonando, ele estava de novo pronto. Sorriu. Brincou com ele. Ele reagiu de imediato, como se estivesse acordado o tempo todo. Era um garoto... Que a usasse, como bem quisesse... Havia pouco tempo agora. Logo ele teria que ir pra outro turno de seu trabalho tão sacrificado. Coitadinho...

Na volta, estavam calados e ele se preocupou em lhe perguntar se estava tudo bem. Ela assentiu, com um sorriso. Despediram-se com beijinhos na boca, como se fossem namorados. E ela o deixou, penalizada por não poder estar mais um pouco ao lado dele, talvez adoçando um pouquinho sua vida, que parecia ser tão dura...

De repente, percebeu que esquecera por completo de si mesma. Nem lembrara de seu próprio prazer, de suas carências, de seus desejos há tanto macerados... Ele não fora nada generoso com ela na cama... mas estava se sentindo agradecida. Ele lhe dera, de pronto, a experiência de que tanto precisava para conhecer um pouco mais sobre si mesma. O quê, por exemplo? - se perguntou, sorrindo. Numa primeira análise, que ainda podia ser muito desejada... E que, provavelmente, nunca saberia fazer sexo casual. Aliás, estava tendo a sensação de que acabara de inventar uma nova modalidade, da qual nunca ouvira falar: o amor casual. Casual, sim. Mas não sexo. Amor.

Analú ;)

domingo, 29 de novembro de 2009

Poesia - Agora Alento, 2007



Agora broto, orvalhada.
Eu, que já fui despetalada.
Agora nasço,
revivo,
aprendo.
Agora anseio
e agora creio.
Há algo pra mim.
Agora gosto
e agora quero.
Agora sinto.
Agora sim.

Analú

(Alento - 2007)

Abrindo Meu Diário VI - reflexões para Desromance

Estou aqui e não dá tempo, não dá tempo, não dá tempo... As coisas rotineiras me estrafogam, me estrangulo. Vivo servindo e resolvendo problemas alheios e à noite, ou de madrugada, tento fazer o que não fiz por mim. Não fiz nada...
Quero me achar dentro desse corpo que cumpriu, mas não gozou. Vou lá no fundo procurar o que me agrada, de onde tiro prazer, o que me faz sentir viva.
Transformo-me em notívaga. Zumbi criador, que à luz da lua pensa, sonha, borda, escreve...
De dia, com olheiras e sonada, sou tachada de contrária, cheia de manias, indisciplinada...
Às vezes me sinto cansada demais, então recuo, e tento seguir a ordem normal das coisas. Dormir cedo, acordar cedo... Me deter às obrigações, fazer café da manhã, almoço e jantar... Levar filhos pra lá e pra cá... Sou o esteio – é o que pensam. A responsável pelo bom desempenho de cada um da família. Do pai, que tem seu trabalho, dos filhos, que têm seus estudos... Tenho que dar subsídios para que todos se dêem bem, cada um com seu dom, cada um em sua área...
E então, mais tarde, talvez, padecer da síndrome do ninho vazio. Vivi para eles, esqueci de mim... É o que escuto muito freqüentemente de cinqüentonas que entraram no jogo da família de cabeça.
É duro ter que se enquadrar em regras que não foi você que criou...
Por que o trabalho matutino é mais nobre que o noturno, se a disposição só me vem à noite, bem como a inspiração?
Atrapalho os outros, que também me atrapalham...
Dou mau exemplo a meus filhos, funcionando em horário nobre.
Será mesmo?
O que faço de madrugada não parece, aos outros, ser trabalho. Que raio de critério é esse, que só reconhece o valor do que se faz em horário comercial?
Meu companheiro disse, outro dia, que não adianta, que não tenho jeito, que isso é batalha perdida.
Meu horário é uma batalha que ele perdeu! Ai ai ai ai ai...
De quem é, afinal, essa minha vida?



O que é que prometi? Mais que isso: jurei! Eu sei que jurei, mas era nova demais... Não sabia nada...
Naquela época, minha grande, enorme, profunda e intensa necessidade era de sexo. Estava apaixonadamente apaixonada e queria fazer sexo quando bem entendesse, sem restrições e com a consciência tranquila. Sim, tranquila. Queria não ter que dar satisfação a ninguém. Mãe, pai, avó, irmãos... Minha vida tinha sido, desde o dia em que nasci, permanentemente vigiada por oito pares de olhos. Dezesseis olhos atentos sempre prontos pra me flagrar num tropeço. Num escorregão. Num erro. Numa safadeza. Numa imperfeição de caráter. E eu, que sempre me achei, desde a infância, tão mau caráter... Era normal, agora sei. Mas cresci acreditando nas coisas que me falavam. Vendo só as coisas que podiam ser vistas... Como é que eu poderia ter consciência da safadeza dos outros, se tudo o que se faz de safado se faz escondido?
E eu acreditava. Acreditava piamente que – pelo menos na minha família – o único ser humano capaz de fazer traquinagens era eu. Coitadinha... Que tamanha e inútil dor na consciência...
Aquele juramento diante do padre poderia ter sido diferente: “Eu prometo transar sempre que tivermos vontade. Na cama e no chão, em cima da mesa e no sofá, na cadeira de balanço ou no quarto de televisão... De dia e de noite, com ou sem tesão... só por distração...” Então, não haveria traição. Traição de mim para mim. É assim que se diz? Ou seja: Eu não me trairia. Não faria, todos os dias, coisas que não quero fazer, apenas para cumprir uma promessa vazia.


(Fragmento de Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser);)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Poesia : Lobo Bom

Dorme, neném,
que um dia o lobo vem.
Quem é esse lobo, afinal,
que não vem, nem me faz nenhum mal?
I'm waiting for you.
I'm always waiting for you.
Em todas as línguas,
todos os cômodos,
todos os tempos.
Te espero.
Te quero.
Deliro.
Meu sonho sempre é melhor.
Gemo, transpiro...
Chapeuzinho Vermelho em plena descoberta,
se perdendo no meio da floresta.
Esquecendo da vovozinha.
Que me perdoe, vovó...
Dei seus bolinhos.
Que me perdoe, mamãe,
me perdi no meio do caminho.
Não... Não foi uma pedra.
Só encontrei com o lobo.
Um lobo bonzinho...
Que me perdoem...

(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007)

domingo, 1 de novembro de 2009

Abrindo Meu Diário V - reflexões para Desromance

Ler, ler, ler Jean Paul Sartre e pensar, pensar, pensar... não, não apenas pensar: sentir, sentir, sentir. Mergulhar fundo em mim. É assim mesmo. Por mais estafada de mim que possa estar, por mais insatisfeita, por mais tudo, só eu posso me sentir, só eu me percebo, só a mim cabe me conhecer. E é de mim que sei, de mais ninguém. É comigo que durmo e que acordo, é comigo que passo o dia, é comigo que vivo, que penso, que sinto.
Coisa boa essa, meu Deus, de dizer coisas tão profundas, tão verdadeiras, tão inebriantes! Coisa linda essa de descrever com tanta precisão gestos tão corriqueiros, que poderiam não dizer nada, mas que dizem, dizem, dizem sem parar o que somos, o que fazemos, o que sentimos... Sartre, te amo, meu Deus!
Será que é isso o que almejo? Amor? Será que, no final das contas, só o que importa é isso? Quero ser amada. Quero ser amada. Quero ser amada.
Será que essa gana por querer escrever não é apenas um gesto de exibição? Quero que me conheçam, que me vejam, que me leiam, que me amem, amando o que escrevi.
Talvez me digam: mas você é amada, não há dúvida! Eu sei... Sei que sou. Sou amada por gente de verdade, que vive uma vida de verdade junto a mim. Mas, não sei porquê, só isso não me satisfaz. Quero mais, quero mais, quero mais...
Terminei de ler “A Idade da Razão” e meu peito parece inchado, parece ter mais ar do que pode agüentar. Será que era isso o que Sartre queria? É isso o que quero. Amargar essa frustração é algo que me mata. Tenho que escrever, quero viver, preciso agir! Sei que talvez essa plenitude venha apenas quando estiver madura o suficiente pra não ficar tão deslumbrada. Tudo, tudo na vida parece ser assim. Se não está na hora, não está na hora e fim! À vida, afinal!



Às vezes tenho arroubos de sentimentos exagerados e, em seguida, questiono tudo. Ser amada não faz uma mulher mais feliz, amar sim. O que senti ao ler Sartre, possivelmente ele não sentiu ao escrever. E quando escrevo, na verdade, nunca estou preocupada com quem vai ler. Poderia escrever e guardar os textos para sempre numa gaveta trancada, que o meu sentimento de alegria por ter escrito algo bom não mudaria em nada. Porque o grande prazer é na hora em que escrevo, enquanto sinto o deslizar da caneta no papel, ou curto o barulhinho característico do teclado. O grande prazer é conseguir ordenar os pensamentos e sentimentos, porque o texto é apenas um facilitador dessa auto-compreensão. O grande prazer é tentar entender esse mundo e eu mesma. Ou será um grande sofrimento?

(Fragmento de Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser);)

sábado, 17 de outubro de 2009

Abrindo Meu Diário IV - reflexões para Desromance

A frase da música do Los Hermanos se repete infinitamente na minha cabeça. Ah... Faça-me um favor... E essa pergunta que o vocalista entoa de forma tão arrastada e dolorida se arrasta doloridamente através dos meus neurônios, arranhando-os. Como é que eu fui ter um filho assim, tão diferente de mim?
Sei que não é isso. O que me perturba não são diferenças estruturais, genéticas ou sei lá quais. O que me perturba é a adolescência. Essa adolescência que hoje em dia se prolonga até sabe-se lá quando, porque isso é conveniente aos adolescentes. Estou esperando meu filho de 21 e seus amigos de 22, 23, 24, darem algum sinal de que já está chegando a hora. A hora de se sentirem responsáveis por si mesmos, ou pelo menos por alguns setores das suas vidas. Estou esperando tanta coisa, há tanto tempo, mas não vejo mudança alguma, não pressinto nada de diferente pra tão já...
Espero, também, assustada, que o meu outro filho, de 15, comece a dar sinais de adolescentite aguda. Assusto-me demasiado com suas malcriadezas, comparo-o com o maior, fico apavorada ao pensar que talvez, de um dia para o outro, ele perca toda essa mansuetude e docilidade que sempre teve e que sempre me acalmaram e consolaram perante os problemas todos da vida. Sei que isso acontecerá, em maior ou menor grau, e já me defendo, agredindo-o de vez em quando, por já não estar me dando o amor que há até bem pouco tempo era verdadeiramente transbordante. Meu nenezão, de pele muito macia e coração muito grande. O menino que nunca pôde me ver chorar ao assistir qualquer cena de um filme, porque se preocupava demais com o meu sofrimento, mesmo sabendo ser um sofrimento causado por algo fictício. O menino que me enxergava por dentro e percebia que, se eu chorava, era porque, no fundo, havia algo de triste dentro de mim... Estou esperando, assustada, mas já começo a me acostumar com essa idéia. Já estagiei, com o primeiro.
O pior é que gosto. Gosto de meus filhos adolescentes, de seus amigos, do movimento que fazem pela casa, de sua excitação permanente. São tão excitados e excitáveis, que me excito. Quando percebo, já caí na conversa, na bagunça, na fantasia. Rapidamente como chegaram eles se vão e a casa fica vazia. Deveria dizer tranquila, mas acontece que, enquanto estão aqui o movimento é tanto, que quando se vão a sensação que tenho é a de vazio. Respiro fundo, tranco a porta, preencho-me de mim mesma e volto aos meus afazeres e pensamentos de mulher adulta (?). Mas não tem como: eles são totalmente entremeados de idéias imaturas, de expectativas inocentes, de piadas infantis e grosseiras. Até meu senso de humor já mudou. Aos poucos, as enormes grosserias vão se tornando tão familiares, que acabam por contaminar meu espírito feminino. Flagro-me fazendo coro com eles nos comentários mais esdrúxulos a respeito das mulheres. Essa raça que pensam ter nascido para trazê-los ao mundo, alimentá-los, servi-los e satisfazê-los sexualmente, além, é claro, de tentar educá-los, mas que desperta neles, às vezes, tamanha raiva que me assusta. Todos, em casa, hoje em dia, rimos ao escutar o vizinho do andar de baixo chamar a esposa – mãe de seu filho – de piranha, safada e vagabunda. Algo que há algum tempo me punha nervosa a ponto de pensar em chamar a polícia ou qualquer um que pudesse ajudar a safada (!).
Acostumamo-nos com tudo. E vamos nos modificando de acordo com nossa convivência, de acordo com nossa necessidade de sobreviver, de crescer, de ficar mais forte.
Sempre fui de falar um pouco alto. Me colocar, me expressar, me fazer ouvir. Só que hoje, quando saio com amigas, às vezes percebo que estou incisiva demais. Percebo que me imponho demais, que falo alto demais. Interessante que recebi algumas críticas dos meus próprios filhos, e do meu marido também. Ao analisá-las, percebi que tinham fundamento, mas acontece que desenvolvi essa técnica para conseguir ser ouvida dentro da minha própria casa. Você senta numa mesa com três machões sabe-tudo loucos por futebol, e, se não quiser virar um nada, às vezes tem que gritar. Não raro levanto as mãos, faço sinais, “quero ser ouvida!” E, como eles realmente não se importam com as coisas que me importam, sou obrigada a entrar em seu assunto. E acabo familiarizando-me com todo tipo de conversa masculina ou machista, infantil, jovem ou adulta. Entro na deles, porque sei que seria um pouco demais pra cabeça deles pedir-lhes que entrem na minha.

(Fragmento de Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser);)

Poesia - Números

Eu tento falar de coisas tão minhas
e ele pega a calculadora, na gaveta.
Seus dedos digitam números
que parecem resolver tudo.
Números contra a monotonia,
o tédio, a mesmice.
Comento as gracinhas do bebê,
as artes do maiorzinho,
pergunto se a comida está boa,
faço qualquer fofoca à toa...
e ele voa.
Viaja o tempo todo.
São seus planos,
seus ganhos ou não ganhos,
seu tempo, seus negócios...
É o horário,
sua performance,
sua chance.
Dinheiro é o grande lance.
Com ele andaríamos pelo mundo,
nos aventuraríamos...
Sei não...
Não sei se cheios da grana
seríamos mais amigos,
ou iríamos mais pra cama...

(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Poesia - Amor Borrado (Alento)

Eu passo tantos cremes no rosto
pra ficar mais bonita pra mim,
mas muito mais pra ele,
e ele não pode me beijar,
porque estou emplastrada.
Ele não me abraça, não me toca,
porque me mumifiquei
pra melhorar pra ele.
Eu fico aqui,
imagem intocável e brilhante,
e ele lá, preocupado em não esbarrar
nessa meleca toda.
De repente, numa noite, numa festa,
eu vestida especialmente,
maquiada demais,
ele me nota, mais do que às outras.
Ele me vê bonita, retocada.
Trocamos olhares, sorrisos,
conversa fiada,
nos damos as mãos,
como dois namorados.
Na volta, ele toca meu rosto desbotado,
meus olhos negros emoldurados
pelo rímel derretido,
minha boca rosada do resto do batom vermelho.
Ele diz me achar bonita.
Me beija, me despenteia,
se esfrega em mim,
agora tão palpável.
Se aperta contra mim, me sente.
Fim de festa.
Ele parece me amar tanto
que até me espanto,
tenho medo.
Demoro pra aproveitar, me soltar.
Minha cara toda borrada,
meu corpo suado, quente.
Foi preciso acabar a festa
pra nossa festa começar.
Eu, indigna de um espelho,
e ele dizendo me amar.

(Ana Lucia Sorrentino em Alento)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Poesia - Noite (Alento - 2007)

Noite

O vento frio penetra
nas aberturas da minha blusa.
Arrepio.
A luz forte, redonda,
pendente no céu,
me faz fechar as pálpebras.
O breu desvenda o meu corpo,
que as estrelas iluminam.
Um ruído ou outro,
animais no cio.
Sorrio.
Afago meus cabelos,
me abro toda.
Que o intocável me penetre.
Faço amor com a noite.

(Ana Lucia Sorrentino, em Alento - 2007)

sábado, 12 de setembro de 2009

Pausa para Poesia - Dia-a-Dia

Dia-a-Dia

Passo o dia na fantasia.
Vem a noite e durmo.
Meu príncipe é só um homem
que chega cansado e com fome.
Eu visto uma camiseta
e esqueço a cinta-liga
que me fez delirar.
Tudo é tão caro e difícil...
Não dá pra inventar.
Ele se encosta às minhas costas
e em vez do beijo na nuca
me mete a mão na bunda.
Me encolho, violada,
mas não digo nada.
Não é uma noite de orgia.
É só meia hora vadia.
Tudo é meio às pressas,
e logo vem o sono.
Amanhã é outro dia.


(Alento, de Ana Lucia Sorrentino)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Poesia - Culpa Tua (Alento)

Culpa Tua

Na rua me elogiam
meus cabelos anelados.
Me olho no espelho
e quero cortá-los,
mudar sua cor.
Invejam minha magreza,
que eu sei ser doentia.
Cansaço puro.
Fico nua na tua frente,
mas jamais consigo.
Teus olhos parecem ficar nas costas,
cegos, inibidos.
Nada adianta...
Meus tratos, meus carinhos,
meus cuidados...
Perto de você sou assexuada,
amiga, irmã de aluguel.
Você dorme do meu lado
e já não se encosta mais,
se isola.
Me machuca e me reprime.
Me peguei sonhando, uma manhã,
com um garoto loiro, da TV.
Eu tinha quinze anos no sonho,
leve, solta, crente.
Ele me deu um beijo
e eu tremi, dormindo.
Não queria acordar.
Quando o revi, no vídeo, corei.
Adolescente total.
Talvez eu tenha quinze anos...
Meus suspiros engolidos
se espalham por aí,
meus desejos se dispersam,
não aceitam mais comando.
A cada ombro largo,
cada sorriso aberto,
a cada olhar maroto,
me derreto toda,
sorvete ao sol tropical.
Eu sou tropical,
mas meu lar é glacial.
Meus ais são por tudo
e tudo me lembra você.
Tudo me queima, me arde,
tudo eu quero.
E você deita do meu lado e dorme.
Eu não te olho de frente,
porque o você dos meus sonhos
é mais excitante, mais quente.
Me agarra, me beija a nuca,
me despe, me faz carinhos,
morre por mim.
É como o você de antigamente.
Eu queria poder dizer que não é nada disso,
mas há uma pressão entre as minhas coxas.
Meus nervos já não dão
pras cenas de amor no cinema.
Agora escolho ficção,
violência.
Alivia a tensão...
Distrai, ao menos.
Eu te queria tanto,
agora eu quero tanto tudo,
o mundo parece que vai acabar amanhã,
não dá mais tempo, não dá...
Você dorme e eu me mexo,
energia pura.
Tentei canalizá-la pra coisas mais nobres,
mas parece que ela se multiplica.
Você me gela e eu fico cada vez mais quente.
Eu tenho me gostado tanto, de repente...
E os quadris...
Ah! Os quadris me deixam louca...
Quadris finos em calças desbotadas.
Quadris jovens, esbeltos, espertos...
Meu Deus, que tarada!
Todos, todos os quadris
me lembram os teus
jogados displicentemente pra frente,
em conversas descontraídas.
Teus quadris em calças justas...
Se me der coragem,
algum dia vou fotografá-los.
Um "close" da cintura ao início das coxas:
jeans justos, surrados,
vestindo quadris debochados.
Quando ficar velhinha, vou olhar pra foto,
no porta-retratos,
e lembrar dos meus desejos
infantis,
adolescentes,
juvenis,
adultos,
sei lá...
Meus desejos exagerados,
porque nunca saciados.
Meus desejos escondidos,
proibidos.
E você dorme do meu lado.
Inocente...
Totalmente culpado.
Da minha ânsia,
da minha aflição,
do meu desagrado.
Às vezes me dá medo,
porque me sobram duas opções:
ou você acorda,
ou me acabo numa combustão espontânea.
Acorda, por favor...

(Alento - 2007)

Beeeijos!!!

Analú :)