Viver invejando
gregos e troianos,
se conformando em viver
sempre por baixo dos panos.
Viver escondendo as ânsias,
na inútil busca do recato,
quando a lascívia quer se mostrar
como vendaval,
em puro desacato à sensatez.
Viver escondendo a própria loucura,
cura da monotonia,
razão de orgulho e paixão.
Viver sendo a ideal sem-graça
quando meu real disfarça
pra não chocar os frustrados...
Será viver?
Ana Lucia Sorrentino em Alento(2007) - coletânea de poesias, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br
sábado, 27 de fevereiro de 2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Poesia - Meia-Noite (Alento, 2007)
É meia-noite
e os sinos não tocaram.
Eu não tive nenhum pressentimento
nem compartilhei com alguém
a transmissão de um pensamento.
Eu não temi,
não tremi,
não estremeci.
É meia-noite e é como se fossem duas da tarde.
Eu não apaguei as luzes,
não fechei os olhos,
não dancei uma valsa.
Não me abracei a ninguém.
É meia-noite
e os sons continuam diurnos,
indiscretos.
Ninguém sussurra ao meu ouvido,
ninguém me beija,
ninguém me encara,
ninguém me ama.
É meia-noite e ninguém chora,
ninguém geme,
ninguém cala.
É meia-noite e o lobisomem não veio.
Nem o vampiro.
É meia-noite
e nenhum suspiro forte
pode cortar o silêncio,
porque nem ao menos
há o silêncio próprio da hora.
É meia-noite e eu escrevo,
como em tantos dias, tantas manhãs
ou madrugadas.
Não há o clarão da lua,
não há uma silhueta de mulher nua,
não há nada.
É meia-noite
e eu não estou apaixonada.
Ana Lucia Sorrentino em Alento(2007) - coletânea de poesias, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Abrindo Meu Diário VIII - reflexões para Desromance
Hoje assisti Brilho eterno de uma mente sem lembranças ( http://www.youtube.com/watch?v=w4_ce4MyNcc ). Aliás, assisti ontem, hoje fiz questão de assistir de novo. Me apaixonei pelo Jim Carrey. Aquele aloprado de todos os outros filmes sumiu e apareceu o cara mais doce do mundo! E que história incrível! É tão bom quando a gente assiste um filme inteligente e romântico... Achei tudo demais. O filme é impregnado de charme do início ao fim... E a música? Peguei-o na locadora porque li uma entrevista no jornal em que Marina Person dizia que esse era o filme com final feliz mais feliz que ela já vira. E o final é realmente incrível! É maravilhoso pensar que duas pessoas que sabem que já se conheceram e já viveram um relacionamento que já se desgastou e que já os fez sofrer optem por viver seu amor novamente, porque sabem que vale a pena! É o cúmulo do romantismo! Comentei isso com meu filho, e ele me perguntou se eu namoraria novamente com o pai dele. Tristemente, disse-lhe que não. Já era de madrugada, e não era momento pra eu estar enumerando os motivos que tenho, e ele também não gostaria disso. Mas, no fundo, fiquei triste por não querer viver esse amor de novo. Porque no começo foi bom... Pena que tenhamos deixado durar demais... De qualquer forma, a coisa pode dar certo na ficção porque as lembranças foram apagadas, então a mente pode ter esse brilho eterno. Na vida real, é impossível, por mais que queiramos, apagar tudo. Os acontecimentos desagradáveis vêm em flashes e acabam tirando o brilho de tudo. É isso. Minha mente está opaca. E, infelizmente, sei que tenho que trabalhar isso, pra deixar de lado essa crença que adquiri de que todo relacionamento vai ter o mesmo fim. O fim da paixão, o desgaste da convivência, o aborrecimento, o desejo de liberdade. Preciso achar algum produto milagroso que dê polimento em meus neurônios...
(Ana Lucia Sorrentino em Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser...)
(Ana Lucia Sorrentino em Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser...)
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
POESIA - Reforma (Alento, 2007)
Talvez eu tivesse acreditado
que a samambaia de volta
ao canto da sala de estar
pudesse trazer de volta também
alguma coisa, que agora sei,
não vai voltar.
Trocar o tecido do sofá
talvez fosse uma tentativa de recuperar
os doces sonhos que sonhamos juntos,
as carícias que trocamos
sobre a maciez do cetim.
Há mais gente na casa,
há mais rugas no rosto,
há mais vida intelectual...
Nada, nada vai nos fazer de novo igual
ao que éramos antes –
jovens, belos, fortes, apaixonados...
Tanta coisa aconteceu...
Agora, talvez, troquemos o piso.
Isso, contudo, nada tem a ver
com o resgate do riso,
que nunca perdemos.
O riso de sarcasmo ou ironia,
o riso doce ou amargo,
o riso de bobeira, de folia,
o riso bom, sem embargo.
Acho que somos felizes.
Pra isso luto todo dia.
Lutamos, talvez.
Penso nos quadros
que queria espalhar pelo apartamento
e na vida, na vida,
tanta vida que há aqui dentro.
Penso em tudo e me calo, emocionada.
Tomara que nosso edifício
erguido com amor e arte
não desmorone, como o Palace,
feito de areia e conchas do mar.
(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br)
que a samambaia de volta
ao canto da sala de estar
pudesse trazer de volta também
alguma coisa, que agora sei,
não vai voltar.
Trocar o tecido do sofá
talvez fosse uma tentativa de recuperar
os doces sonhos que sonhamos juntos,
as carícias que trocamos
sobre a maciez do cetim.
Há mais gente na casa,
há mais rugas no rosto,
há mais vida intelectual...
Nada, nada vai nos fazer de novo igual
ao que éramos antes –
jovens, belos, fortes, apaixonados...
Tanta coisa aconteceu...
Agora, talvez, troquemos o piso.
Isso, contudo, nada tem a ver
com o resgate do riso,
que nunca perdemos.
O riso de sarcasmo ou ironia,
o riso doce ou amargo,
o riso de bobeira, de folia,
o riso bom, sem embargo.
Acho que somos felizes.
Pra isso luto todo dia.
Lutamos, talvez.
Penso nos quadros
que queria espalhar pelo apartamento
e na vida, na vida,
tanta vida que há aqui dentro.
Penso em tudo e me calo, emocionada.
Tomara que nosso edifício
erguido com amor e arte
não desmorone, como o Palace,
feito de areia e conchas do mar.
(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br)
domingo, 17 de janeiro de 2010
Poesia - Carente (Alento, 2007)
Eu queria um carinho,
um mimo qualquer.
A pele tá aqui
e eu tenho fungado muito.
Escanhoei meus pelos
pra ficar mais macia,
mas minhas próprias mãos
não me bastam.
Chove há dias
e eu umedeço aqui dentro.
Se quem me fala de longe
calasse de perto,
talvez então eu fosse mais feliz.
(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007)
um mimo qualquer.
A pele tá aqui
e eu tenho fungado muito.
Escanhoei meus pelos
pra ficar mais macia,
mas minhas próprias mãos
não me bastam.
Chove há dias
e eu umedeço aqui dentro.
Se quem me fala de longe
calasse de perto,
talvez então eu fosse mais feliz.
(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007)
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Abrindo Meu Diário VII - reflexões para Desromance
Hoje saí com uma amiga. Ontem tive um dia super introspectivo. Me recolhi, dormi fora de hora, curti ficar comigo mesma no quarto fechado, com meus pensamentos meio afetados pela TPM. Agora aceito isso muito melhor, acho que é pra fazer assim mesmo, se recolher. Aceitar essa vontade de ficar sozinha, quieta, comigo mesma. Hoje renasci. Já acordei com vontade de rua. De gente, de conversa.
Bem, o fato é que liguei pra essa minha amiga, e ela estava pra lá de sorumbática. Passara o domingo inteiro sozinha e isso a deixa perturbada. Até muitíssimo pouco tempo atrás, era certo que a família ficaria agregada ao seu redor durante todo o fim-de-semana. As filhas, os namorados das filhas, o pseudo-marido, que quase nunca vai pra casa... Todo mundo sugando-a de canudinho. De repente, as filhas cresceram, “desmamaram”, como não poderia deixar de ser, e cada uma vai vivendo sua vida pro seu lado, do seu próprio jeito. O marido se afundou em mais e mais compromissos, e quase não vai pra casa. E passou a ser normal, para as filhas, deixar a mãe por sua conta e risco. Está certo. Mais do que certo. É saudável. É pra isso que os filhos crescem. Pra descobrirem o mundo, as pessoas, a vida, enfim. E pra andarem com suas próprias pernas. E pra que nós, mães, possamos olhar novamente pra nós mesmas, reencontrar nossa alma e viver nossa vida.
E aí, o que é que acontece? Adivinha! O que era pra ser uma coisa muito legal, o que era pra ser festejado, vira uma síndrome! A síndrome do ninho vazio! Que inferno, não? A mulher vê a casa vazia e as tarefas feitas, e, em vez de se sentir tranquila, entra em depressão. Passou tantos anos cuidando dos outros, que esqueceu totalmente de si mesma. Agora quer se encontrar, mas não sabe onde, não sabe como. E vem a aflição. A casa está vazia e ela está vazia também. Já não sabe mais o que quer, já não sabe direito do que gosta, já não se reconhece mais. Na verdade, essa síndrome não é a síndrome do ninho vazio coisa nenhuma. É a síndrome da mulher vazia. Oca. Sem alma. A mulher que precisa ter companhia e estar atarefada o tempo todo para não perceber o quanto está vazia, pra não sentir o quanto isso dói. Todo mundo já não percebeu que quando as mulheres entram nessa fase, logo arrumam um cachorrinho pra distraí-las? Onde eu moro mesmo tem umas três ou quatro que são obrigadas a sair com seus cachorrinhos várias vezes por dia, pra que eles façam suas necessidades na calçada. (Que beleza, não?) Elas até poderiam ensiná-los a fazer o que têm que fazer na área de serviço, em cima de qualquer folha de jornal. Mas, e aí? Não vão ter a obrigação de levá-los para a rua várias vezes, e o dia vai ficar mais comprido... Essas mulheres são capazes de transformar seus pequeninos cachorros, às vezes doces e inocentes, em verdadeiros elefantes brancos. Mimam, exageram, estragam. E o cãozinho, que se fosse tratado com naturalidade seria uma maravilhosa fonte de carinho, passa a ser um verdadeiro estorvo, não só para suas mães, mas também para toda a vizinhança. Uma outra amiga minha nina o cão como se fosse um bebê recém-nascido com cólica. Se o deixa no chão, fica impossível conversar, porque o bicho late o tempo todo e fica ameaçando morder o infeliz interlocutor da sua dona. Trancá-lo em qualquer lugar é absolutamente impensável. Então ela o pega no colo, e a gente tem que ficar conversando meio mareada, porque aquele vai e vem não acaba nunca. Até que essa minha amiga se irrita e vai embora, quase sempre deixando a conversa pelo meio, como se a conversa não valesse absolutamente nada. E a amiga dela (eu!:o) fica se sentindo uma idiota por achar que vale a pena tentar conversar com uma pessoa assim!:(
Bem, mas eu estava falando sobre a minha outra amiga, a que saiu comigo... a gente foi ao Clube da Comédia Stand-up. Consegui tirá-la de casa, mesmo no meio de uma fossa, e fomos até lá, dar um pouco de risada e comer alguma bobagem.
Só que também me parece que algumas mulheres têm um pouco de dificuldade de relaxar e se divertir, simplesmente. A impressão que tive foi a de que ela ficou se sentindo meio mal o tempo todo, porque não está acostumada a tantos palavrões, e tantas expressões grosseiras... Tá bem, tá bem, eu também achei exagerado. Pra dizer a verdade, eu não sei porquê o humor está sempre tão associado a banheiros, privadas, fezes e outras porcarias. Mas, se estávamos lá, e o povo todo ria, e os comediantes eram realmente engraçados, por que não relaxar e gozar, como diria nossa respeitável ministra do turismo? Então, a minha amiga parece que ficou meio constrangida durante todo o show, sem falar que teve que atender o celular todas as vezes que ele tocou. E olha que não foram poucas!
Bem, viemos embora e ela, talvez percebendo que eu tinha vontade de conversar, sugeriu que fôssemos a algum café. Topei na hora, como sempre. Mas a ilusão durou muito pouco. No caminho, o celular dela começou a tocar sem parar. Era a filha que estava em casa pedindo que pegasse um filme na Blockbuster, a filha que ainda nem tinha chegado em casa perguntando o que tomar pra dor-de-barriga e a filha que eu nem sei onde estava discutindo com a mãe porque queria dormir na casa do namorado. Uma atrás da outra. E a minha amiga não deixou de atender esse celular uma vez sequer e acabou desistindo de ir ao café! E me despejou, frustrada, na porta de casa, para ir correndo atender sua prole.
Caraca! Quando eu a chamei ela estava totalmente arrasada porque a família se esquecera dela! Agora a família estala os dedos e ela vai correndo, como se o mundo fosse acabar se não fosse! E me deixa no vazio! Aquela conversa legal que íamos ter, saboreando um delicioso cafezinho, foi pras cucuias!
Bom...com certeza, pra ela, também seria uma conversa totalmente inútil, como as que tenho com a amiga que nina o cachorro...
(Ana Lucia Sorrentino em Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser...)
Bem, o fato é que liguei pra essa minha amiga, e ela estava pra lá de sorumbática. Passara o domingo inteiro sozinha e isso a deixa perturbada. Até muitíssimo pouco tempo atrás, era certo que a família ficaria agregada ao seu redor durante todo o fim-de-semana. As filhas, os namorados das filhas, o pseudo-marido, que quase nunca vai pra casa... Todo mundo sugando-a de canudinho. De repente, as filhas cresceram, “desmamaram”, como não poderia deixar de ser, e cada uma vai vivendo sua vida pro seu lado, do seu próprio jeito. O marido se afundou em mais e mais compromissos, e quase não vai pra casa. E passou a ser normal, para as filhas, deixar a mãe por sua conta e risco. Está certo. Mais do que certo. É saudável. É pra isso que os filhos crescem. Pra descobrirem o mundo, as pessoas, a vida, enfim. E pra andarem com suas próprias pernas. E pra que nós, mães, possamos olhar novamente pra nós mesmas, reencontrar nossa alma e viver nossa vida.
E aí, o que é que acontece? Adivinha! O que era pra ser uma coisa muito legal, o que era pra ser festejado, vira uma síndrome! A síndrome do ninho vazio! Que inferno, não? A mulher vê a casa vazia e as tarefas feitas, e, em vez de se sentir tranquila, entra em depressão. Passou tantos anos cuidando dos outros, que esqueceu totalmente de si mesma. Agora quer se encontrar, mas não sabe onde, não sabe como. E vem a aflição. A casa está vazia e ela está vazia também. Já não sabe mais o que quer, já não sabe direito do que gosta, já não se reconhece mais. Na verdade, essa síndrome não é a síndrome do ninho vazio coisa nenhuma. É a síndrome da mulher vazia. Oca. Sem alma. A mulher que precisa ter companhia e estar atarefada o tempo todo para não perceber o quanto está vazia, pra não sentir o quanto isso dói. Todo mundo já não percebeu que quando as mulheres entram nessa fase, logo arrumam um cachorrinho pra distraí-las? Onde eu moro mesmo tem umas três ou quatro que são obrigadas a sair com seus cachorrinhos várias vezes por dia, pra que eles façam suas necessidades na calçada. (Que beleza, não?) Elas até poderiam ensiná-los a fazer o que têm que fazer na área de serviço, em cima de qualquer folha de jornal. Mas, e aí? Não vão ter a obrigação de levá-los para a rua várias vezes, e o dia vai ficar mais comprido... Essas mulheres são capazes de transformar seus pequeninos cachorros, às vezes doces e inocentes, em verdadeiros elefantes brancos. Mimam, exageram, estragam. E o cãozinho, que se fosse tratado com naturalidade seria uma maravilhosa fonte de carinho, passa a ser um verdadeiro estorvo, não só para suas mães, mas também para toda a vizinhança. Uma outra amiga minha nina o cão como se fosse um bebê recém-nascido com cólica. Se o deixa no chão, fica impossível conversar, porque o bicho late o tempo todo e fica ameaçando morder o infeliz interlocutor da sua dona. Trancá-lo em qualquer lugar é absolutamente impensável. Então ela o pega no colo, e a gente tem que ficar conversando meio mareada, porque aquele vai e vem não acaba nunca. Até que essa minha amiga se irrita e vai embora, quase sempre deixando a conversa pelo meio, como se a conversa não valesse absolutamente nada. E a amiga dela (eu!:o) fica se sentindo uma idiota por achar que vale a pena tentar conversar com uma pessoa assim!:(
Bem, mas eu estava falando sobre a minha outra amiga, a que saiu comigo... a gente foi ao Clube da Comédia Stand-up. Consegui tirá-la de casa, mesmo no meio de uma fossa, e fomos até lá, dar um pouco de risada e comer alguma bobagem.
Só que também me parece que algumas mulheres têm um pouco de dificuldade de relaxar e se divertir, simplesmente. A impressão que tive foi a de que ela ficou se sentindo meio mal o tempo todo, porque não está acostumada a tantos palavrões, e tantas expressões grosseiras... Tá bem, tá bem, eu também achei exagerado. Pra dizer a verdade, eu não sei porquê o humor está sempre tão associado a banheiros, privadas, fezes e outras porcarias. Mas, se estávamos lá, e o povo todo ria, e os comediantes eram realmente engraçados, por que não relaxar e gozar, como diria nossa respeitável ministra do turismo? Então, a minha amiga parece que ficou meio constrangida durante todo o show, sem falar que teve que atender o celular todas as vezes que ele tocou. E olha que não foram poucas!
Bem, viemos embora e ela, talvez percebendo que eu tinha vontade de conversar, sugeriu que fôssemos a algum café. Topei na hora, como sempre. Mas a ilusão durou muito pouco. No caminho, o celular dela começou a tocar sem parar. Era a filha que estava em casa pedindo que pegasse um filme na Blockbuster, a filha que ainda nem tinha chegado em casa perguntando o que tomar pra dor-de-barriga e a filha que eu nem sei onde estava discutindo com a mãe porque queria dormir na casa do namorado. Uma atrás da outra. E a minha amiga não deixou de atender esse celular uma vez sequer e acabou desistindo de ir ao café! E me despejou, frustrada, na porta de casa, para ir correndo atender sua prole.
Caraca! Quando eu a chamei ela estava totalmente arrasada porque a família se esquecera dela! Agora a família estala os dedos e ela vai correndo, como se o mundo fosse acabar se não fosse! E me deixa no vazio! Aquela conversa legal que íamos ter, saboreando um delicioso cafezinho, foi pras cucuias!
Bom...com certeza, pra ela, também seria uma conversa totalmente inútil, como as que tenho com a amiga que nina o cachorro...
(Ana Lucia Sorrentino em Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser...)
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Crônica - Amor Casual
Havia fantasiado aquela situação por tanto tempo, e agora ia rolar. E como sempre, as coisas rolavam quando deixava de planejar... quando desencanava. Estava tão cheia de homens enrolados, se desgastara tanto com pretensos garanhões que na hora "h" saltavam fora, que o que viesse era lucro. Um homem que não tivesse medo de ir com ela pra cama já seria um herói. Todas as vezes que questionara isso claramente, as respostas haviam sido sempre evasivas. Medo? Medo de quê? - eles perguntavam, se fazendo de bobos. Tinham medo, sim, isso era inegável. Medo de não saber o que fazer, medo de não agradar, medo de não gostar, medo da própria performance deixar a desejar... O medo se sobrepujava a tudo: ao amor, ao tesão, à curiosidade... Só queria um pouco de carinho, será que isso era tão complicado? A cena de Um Lugar Chamado Notting Hill, em que Julia Roberts pedia a Hugh Grant que não esquecesse de que ela era apenas uma garota querendo ser amada voltava com frequência a sua mente. Estava uma perfeita Julia Roberts: uma garota querendo amor.
Agora conhecera alguém que aparentava não ter medo de nada. Espontaneidade a toda prova. A questão da possível brochada parecia simplesmente não existir. Um primeiro contato e uma inegável química detonara um processo irreversível de "querotecomercomamaiorurgênciapossívelpeloamordedeus". Um telefonema atrás do outro. Pressa. Torpedos em profusão. Ansiedade, arrepios, expectativa... Mal dera tempo de raciocinar, e já sentira tudo. Talvez assim fosse melhor... nada de pensar, só sentir. Ia viver o agora, como vinha preconizando há um bom tempo... E o tão afamado sexo casual, que até então só parecia ser vivido pelas protagonistas do Sex and the City deixaria de ser tabu. Por que não? Era o que vinha se perguntando há tanto tempo a respeito disso, e de muitas outras coisas. Não tinha nada a perder... Se bem que, depois dessas reticências sempre havia um pequeno ponto de interrogação... Mas, se nunca fizesse, nunca saberia. Daria a cara a tapa, mas havia de quebrar esse encantamento.
Por uma questão de urgência mesclada à falta de tempo hábil, o primeiro encontro se deu, atabalhoadamente, dentro do carro dele, o que só foi possível graças a um insulfilm absurdamente fora dos padrões seguros. Com certeza, quando fossem pra algum lugar melhor, seria mais prudente ir com seu próprio carro... Se policiou pra não começar a raciocinar demais, e não pôr tudo a perder.
Depois de alguns longos segundos em que ele parecia ter sido acometido por alguma espécie de paralisia, olhando-a, com um sorriso de encantamento, ela o estimulou a beijá-la, perguntando-lhe se não era isso o que dissera, repetidas vezes, por celular, estar louco pra fazer. Ele avançou nela como um desidratado numa jarra d' água. Não só beijou. Beijou, lambeu, mordeu, chupou, apalpou... Deus do céu... foi o que ela pensou, imaginando que ele devia estar enfrentando uma seca pior do que a dela, talvez há mais tempo... coitadinho... Deixou, deixou sem reservas, em total abnegação.
Nos intervalos entre um abraço e uma futura mancha roxa, teve oportunidade de fazer algumas perguntas-chave. Quantos anos você tem? A constatação de que ele era quinze anos mais novo que ela a transformou, numa fração de segundo, em pedófila. De onde você é? A origem nordestina projetou, instantaneamente, em sua imaginação fértil, o quadro de uma vida de sofrimento. Pôde vê-lo, retirante, chegando a Sampa com a cara e a coragem, e, provavelmente, mal alimentado. Perninhas finas e bambas... E finalmente: você ainda tem mãe viva? Nooossa... saber que ficara órfão de mãe aos dois anos de idade foi o golpe fatal. Chegava a ser covardia... se pudesse, o adotaria ali, naquele exato instante. O levaria pra casa, lhe daria um pratinho de sopa quente, e o colocaria numa cama quentinha... Coitadinho...
Saiu do carro amarrotada, se recompôs rapidamente, ajeitou os cabelos desgrenhados e foi pra casa pensando. Pensando não. Sentindo. A pele dele era macia, a boca gostosa, o desespero estimulante. Até que isso podia ser bom...
O segundo encontro começou estapafúrdio. Ele vinha de dois plantões de doze horas, seguidos. Tivera apenas uma hora para descansar. O constrangimento dele por ser ela dirigindo não cabia dentro do carro. O lugar que ela escolhera, a dedo, pra que tudo desse certo, foi rejeitado por ele, cuja ansiedade parecia não permitir que se fosse a algum lugar além da esquina. Quando ela sugeriu à recepcionista que lhes oferecesse alguma cortesia, a aflição dele fez com que se arrependesse imediatamente, pois, a seus olhos, ela devia ter extrapolado todos os limites da ousadia.
Depois de uma inspeção prévia em todos os cantos do quarto, ela pediu uns minutos e entrou no banheiro. Tudo parecia meio fora de lugar e não tão limpo quanto deveria. Resolveu passar por cima e curtir o momento. Não era pra isso que estava ali?
Saiu do banheiro, já enrolada numa toalha, e o encontrou mais do que pronto. E, no primeiro abraço, já querendo mergulhar nela, ele soltou uma frase que de tão proibida para a ocasião lhe pareceu quase pornográfica: eu tô morreeendo de medo de gostar demais de você e você só me querer pra sexo.
Ela se liquidificou. Seu estado passou de sólido pra gasoso e seu corpo se transformou num instrumento de caridade. Faça, faça o que quiser... Ele devia ter uma vida tão dura, bem que merecia possuir uma mulher sem restrições, sem muita frescura... Era tão jovem, provavelmente nem devia ter muita experiência naquilo que estava fazendo... Tão viril e forte, tão desesperado e agressivo... Ela previu que estaria quebrada no dia seguinte.
Ele dormiu profundamente. Ela o abraçou e, embora não tivesse sono, acabou cochilando, embalada pela respiração forte provocada pela exaustão dele. Pela janela se percebia a tarde cair e uma chuva gostosa serviu de trilha sonora praquele momento tão diferente de tudo o que previra em suas malucas fantasias de mulher em abstinência. Olhou o corpo jovem dele, e viu que, ainda ressonando, ele estava de novo pronto. Sorriu. Brincou com ele. Ele reagiu de imediato, como se estivesse acordado o tempo todo. Era um garoto... Que a usasse, como bem quisesse... Havia pouco tempo agora. Logo ele teria que ir pra outro turno de seu trabalho tão sacrificado. Coitadinho...
Na volta, estavam calados e ele se preocupou em lhe perguntar se estava tudo bem. Ela assentiu, com um sorriso. Despediram-se com beijinhos na boca, como se fossem namorados. E ela o deixou, penalizada por não poder estar mais um pouco ao lado dele, talvez adoçando um pouquinho sua vida, que parecia ser tão dura...
De repente, percebeu que esquecera por completo de si mesma. Nem lembrara de seu próprio prazer, de suas carências, de seus desejos há tanto macerados... Ele não fora nada generoso com ela na cama... mas estava se sentindo agradecida. Ele lhe dera, de pronto, a experiência de que tanto precisava para conhecer um pouco mais sobre si mesma. O quê, por exemplo? - se perguntou, sorrindo. Numa primeira análise, que ainda podia ser muito desejada... E que, provavelmente, nunca saberia fazer sexo casual. Aliás, estava tendo a sensação de que acabara de inventar uma nova modalidade, da qual nunca ouvira falar: o amor casual. Casual, sim. Mas não sexo. Amor.
Analú ;)
domingo, 29 de novembro de 2009
Poesia - Agora Alento, 2007
Agora broto, orvalhada.
Eu, que já fui despetalada.
Agora nasço,
revivo,
aprendo.
Agora anseio
e agora creio.
Há algo pra mim.
Agora gosto
e agora quero.
Agora sinto.
Agora sim.
Analú
(Alento - 2007)
Abrindo Meu Diário VI - reflexões para Desromance
Estou aqui e não dá tempo, não dá tempo, não dá tempo... As coisas rotineiras me estrafogam, me estrangulo. Vivo servindo e resolvendo problemas alheios e à noite, ou de madrugada, tento fazer o que não fiz por mim. Não fiz nada...
Quero me achar dentro desse corpo que cumpriu, mas não gozou. Vou lá no fundo procurar o que me agrada, de onde tiro prazer, o que me faz sentir viva.
Transformo-me em notívaga. Zumbi criador, que à luz da lua pensa, sonha, borda, escreve...
De dia, com olheiras e sonada, sou tachada de contrária, cheia de manias, indisciplinada...
Às vezes me sinto cansada demais, então recuo, e tento seguir a ordem normal das coisas. Dormir cedo, acordar cedo... Me deter às obrigações, fazer café da manhã, almoço e jantar... Levar filhos pra lá e pra cá... Sou o esteio – é o que pensam. A responsável pelo bom desempenho de cada um da família. Do pai, que tem seu trabalho, dos filhos, que têm seus estudos... Tenho que dar subsídios para que todos se dêem bem, cada um com seu dom, cada um em sua área...
E então, mais tarde, talvez, padecer da síndrome do ninho vazio. Vivi para eles, esqueci de mim... É o que escuto muito freqüentemente de cinqüentonas que entraram no jogo da família de cabeça.
É duro ter que se enquadrar em regras que não foi você que criou...
Por que o trabalho matutino é mais nobre que o noturno, se a disposição só me vem à noite, bem como a inspiração?
Atrapalho os outros, que também me atrapalham...
Dou mau exemplo a meus filhos, funcionando em horário nobre.
Será mesmo?
O que faço de madrugada não parece, aos outros, ser trabalho. Que raio de critério é esse, que só reconhece o valor do que se faz em horário comercial?
Meu companheiro disse, outro dia, que não adianta, que não tenho jeito, que isso é batalha perdida.
Meu horário é uma batalha que ele perdeu! Ai ai ai ai ai...
De quem é, afinal, essa minha vida?
O que é que prometi? Mais que isso: jurei! Eu sei que jurei, mas era nova demais... Não sabia nada...
Naquela época, minha grande, enorme, profunda e intensa necessidade era de sexo. Estava apaixonadamente apaixonada e queria fazer sexo quando bem entendesse, sem restrições e com a consciência tranquila. Sim, tranquila. Queria não ter que dar satisfação a ninguém. Mãe, pai, avó, irmãos... Minha vida tinha sido, desde o dia em que nasci, permanentemente vigiada por oito pares de olhos. Dezesseis olhos atentos sempre prontos pra me flagrar num tropeço. Num escorregão. Num erro. Numa safadeza. Numa imperfeição de caráter. E eu, que sempre me achei, desde a infância, tão mau caráter... Era normal, agora sei. Mas cresci acreditando nas coisas que me falavam. Vendo só as coisas que podiam ser vistas... Como é que eu poderia ter consciência da safadeza dos outros, se tudo o que se faz de safado se faz escondido?
E eu acreditava. Acreditava piamente que – pelo menos na minha família – o único ser humano capaz de fazer traquinagens era eu. Coitadinha... Que tamanha e inútil dor na consciência...
Aquele juramento diante do padre poderia ter sido diferente: “Eu prometo transar sempre que tivermos vontade. Na cama e no chão, em cima da mesa e no sofá, na cadeira de balanço ou no quarto de televisão... De dia e de noite, com ou sem tesão... só por distração...” Então, não haveria traição. Traição de mim para mim. É assim que se diz? Ou seja: Eu não me trairia. Não faria, todos os dias, coisas que não quero fazer, apenas para cumprir uma promessa vazia.
(Fragmento de Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser);)
Quero me achar dentro desse corpo que cumpriu, mas não gozou. Vou lá no fundo procurar o que me agrada, de onde tiro prazer, o que me faz sentir viva.
Transformo-me em notívaga. Zumbi criador, que à luz da lua pensa, sonha, borda, escreve...
De dia, com olheiras e sonada, sou tachada de contrária, cheia de manias, indisciplinada...
Às vezes me sinto cansada demais, então recuo, e tento seguir a ordem normal das coisas. Dormir cedo, acordar cedo... Me deter às obrigações, fazer café da manhã, almoço e jantar... Levar filhos pra lá e pra cá... Sou o esteio – é o que pensam. A responsável pelo bom desempenho de cada um da família. Do pai, que tem seu trabalho, dos filhos, que têm seus estudos... Tenho que dar subsídios para que todos se dêem bem, cada um com seu dom, cada um em sua área...
E então, mais tarde, talvez, padecer da síndrome do ninho vazio. Vivi para eles, esqueci de mim... É o que escuto muito freqüentemente de cinqüentonas que entraram no jogo da família de cabeça.
É duro ter que se enquadrar em regras que não foi você que criou...
Por que o trabalho matutino é mais nobre que o noturno, se a disposição só me vem à noite, bem como a inspiração?
Atrapalho os outros, que também me atrapalham...
Dou mau exemplo a meus filhos, funcionando em horário nobre.
Será mesmo?
O que faço de madrugada não parece, aos outros, ser trabalho. Que raio de critério é esse, que só reconhece o valor do que se faz em horário comercial?
Meu companheiro disse, outro dia, que não adianta, que não tenho jeito, que isso é batalha perdida.
Meu horário é uma batalha que ele perdeu! Ai ai ai ai ai...
De quem é, afinal, essa minha vida?
O que é que prometi? Mais que isso: jurei! Eu sei que jurei, mas era nova demais... Não sabia nada...
Naquela época, minha grande, enorme, profunda e intensa necessidade era de sexo. Estava apaixonadamente apaixonada e queria fazer sexo quando bem entendesse, sem restrições e com a consciência tranquila. Sim, tranquila. Queria não ter que dar satisfação a ninguém. Mãe, pai, avó, irmãos... Minha vida tinha sido, desde o dia em que nasci, permanentemente vigiada por oito pares de olhos. Dezesseis olhos atentos sempre prontos pra me flagrar num tropeço. Num escorregão. Num erro. Numa safadeza. Numa imperfeição de caráter. E eu, que sempre me achei, desde a infância, tão mau caráter... Era normal, agora sei. Mas cresci acreditando nas coisas que me falavam. Vendo só as coisas que podiam ser vistas... Como é que eu poderia ter consciência da safadeza dos outros, se tudo o que se faz de safado se faz escondido?
E eu acreditava. Acreditava piamente que – pelo menos na minha família – o único ser humano capaz de fazer traquinagens era eu. Coitadinha... Que tamanha e inútil dor na consciência...
Aquele juramento diante do padre poderia ter sido diferente: “Eu prometo transar sempre que tivermos vontade. Na cama e no chão, em cima da mesa e no sofá, na cadeira de balanço ou no quarto de televisão... De dia e de noite, com ou sem tesão... só por distração...” Então, não haveria traição. Traição de mim para mim. É assim que se diz? Ou seja: Eu não me trairia. Não faria, todos os dias, coisas que não quero fazer, apenas para cumprir uma promessa vazia.
(Fragmento de Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser);)
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Poesia : Lobo Bom
Dorme, neném,
que um dia o lobo vem.
Quem é esse lobo, afinal,
que não vem, nem me faz nenhum mal?
I'm waiting for you.
I'm always waiting for you.
Em todas as línguas,
todos os cômodos,
todos os tempos.
Te espero.
Te quero.
Deliro.
Meu sonho sempre é melhor.
Gemo, transpiro...
Chapeuzinho Vermelho em plena descoberta,
se perdendo no meio da floresta.
Esquecendo da vovozinha.
Que me perdoe, vovó...
Dei seus bolinhos.
Que me perdoe, mamãe,
me perdi no meio do caminho.
Não... Não foi uma pedra.
Só encontrei com o lobo.
Um lobo bonzinho...
Que me perdoem...
(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007)
que um dia o lobo vem.
Quem é esse lobo, afinal,
que não vem, nem me faz nenhum mal?
I'm waiting for you.
I'm always waiting for you.
Em todas as línguas,
todos os cômodos,
todos os tempos.
Te espero.
Te quero.
Deliro.
Meu sonho sempre é melhor.
Gemo, transpiro...
Chapeuzinho Vermelho em plena descoberta,
se perdendo no meio da floresta.
Esquecendo da vovozinha.
Que me perdoe, vovó...
Dei seus bolinhos.
Que me perdoe, mamãe,
me perdi no meio do caminho.
Não... Não foi uma pedra.
Só encontrei com o lobo.
Um lobo bonzinho...
Que me perdoem...
(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007)
domingo, 1 de novembro de 2009
Abrindo Meu Diário V - reflexões para Desromance
Ler, ler, ler Jean Paul Sartre e pensar, pensar, pensar... não, não apenas pensar: sentir, sentir, sentir. Mergulhar fundo em mim. É assim mesmo. Por mais estafada de mim que possa estar, por mais insatisfeita, por mais tudo, só eu posso me sentir, só eu me percebo, só a mim cabe me conhecer. E é de mim que sei, de mais ninguém. É comigo que durmo e que acordo, é comigo que passo o dia, é comigo que vivo, que penso, que sinto.
Coisa boa essa, meu Deus, de dizer coisas tão profundas, tão verdadeiras, tão inebriantes! Coisa linda essa de descrever com tanta precisão gestos tão corriqueiros, que poderiam não dizer nada, mas que dizem, dizem, dizem sem parar o que somos, o que fazemos, o que sentimos... Sartre, te amo, meu Deus!
Será que é isso o que almejo? Amor? Será que, no final das contas, só o que importa é isso? Quero ser amada. Quero ser amada. Quero ser amada.
Será que essa gana por querer escrever não é apenas um gesto de exibição? Quero que me conheçam, que me vejam, que me leiam, que me amem, amando o que escrevi.
Talvez me digam: mas você é amada, não há dúvida! Eu sei... Sei que sou. Sou amada por gente de verdade, que vive uma vida de verdade junto a mim. Mas, não sei porquê, só isso não me satisfaz. Quero mais, quero mais, quero mais...
Terminei de ler “A Idade da Razão” e meu peito parece inchado, parece ter mais ar do que pode agüentar. Será que era isso o que Sartre queria? É isso o que quero. Amargar essa frustração é algo que me mata. Tenho que escrever, quero viver, preciso agir! Sei que talvez essa plenitude venha apenas quando estiver madura o suficiente pra não ficar tão deslumbrada. Tudo, tudo na vida parece ser assim. Se não está na hora, não está na hora e fim! À vida, afinal!
Às vezes tenho arroubos de sentimentos exagerados e, em seguida, questiono tudo. Ser amada não faz uma mulher mais feliz, amar sim. O que senti ao ler Sartre, possivelmente ele não sentiu ao escrever. E quando escrevo, na verdade, nunca estou preocupada com quem vai ler. Poderia escrever e guardar os textos para sempre numa gaveta trancada, que o meu sentimento de alegria por ter escrito algo bom não mudaria em nada. Porque o grande prazer é na hora em que escrevo, enquanto sinto o deslizar da caneta no papel, ou curto o barulhinho característico do teclado. O grande prazer é conseguir ordenar os pensamentos e sentimentos, porque o texto é apenas um facilitador dessa auto-compreensão. O grande prazer é tentar entender esse mundo e eu mesma. Ou será um grande sofrimento?
(Fragmento de Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser);)
Coisa boa essa, meu Deus, de dizer coisas tão profundas, tão verdadeiras, tão inebriantes! Coisa linda essa de descrever com tanta precisão gestos tão corriqueiros, que poderiam não dizer nada, mas que dizem, dizem, dizem sem parar o que somos, o que fazemos, o que sentimos... Sartre, te amo, meu Deus!
Será que é isso o que almejo? Amor? Será que, no final das contas, só o que importa é isso? Quero ser amada. Quero ser amada. Quero ser amada.
Será que essa gana por querer escrever não é apenas um gesto de exibição? Quero que me conheçam, que me vejam, que me leiam, que me amem, amando o que escrevi.
Talvez me digam: mas você é amada, não há dúvida! Eu sei... Sei que sou. Sou amada por gente de verdade, que vive uma vida de verdade junto a mim. Mas, não sei porquê, só isso não me satisfaz. Quero mais, quero mais, quero mais...
Terminei de ler “A Idade da Razão” e meu peito parece inchado, parece ter mais ar do que pode agüentar. Será que era isso o que Sartre queria? É isso o que quero. Amargar essa frustração é algo que me mata. Tenho que escrever, quero viver, preciso agir! Sei que talvez essa plenitude venha apenas quando estiver madura o suficiente pra não ficar tão deslumbrada. Tudo, tudo na vida parece ser assim. Se não está na hora, não está na hora e fim! À vida, afinal!
Às vezes tenho arroubos de sentimentos exagerados e, em seguida, questiono tudo. Ser amada não faz uma mulher mais feliz, amar sim. O que senti ao ler Sartre, possivelmente ele não sentiu ao escrever. E quando escrevo, na verdade, nunca estou preocupada com quem vai ler. Poderia escrever e guardar os textos para sempre numa gaveta trancada, que o meu sentimento de alegria por ter escrito algo bom não mudaria em nada. Porque o grande prazer é na hora em que escrevo, enquanto sinto o deslizar da caneta no papel, ou curto o barulhinho característico do teclado. O grande prazer é conseguir ordenar os pensamentos e sentimentos, porque o texto é apenas um facilitador dessa auto-compreensão. O grande prazer é tentar entender esse mundo e eu mesma. Ou será um grande sofrimento?
(Fragmento de Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser);)
sábado, 17 de outubro de 2009
Abrindo Meu Diário IV - reflexões para Desromance
A frase da música do Los Hermanos se repete infinitamente na minha cabeça. Ah... Faça-me um favor... E essa pergunta que o vocalista entoa de forma tão arrastada e dolorida se arrasta doloridamente através dos meus neurônios, arranhando-os. Como é que eu fui ter um filho assim, tão diferente de mim?
Sei que não é isso. O que me perturba não são diferenças estruturais, genéticas ou sei lá quais. O que me perturba é a adolescência. Essa adolescência que hoje em dia se prolonga até sabe-se lá quando, porque isso é conveniente aos adolescentes. Estou esperando meu filho de 21 e seus amigos de 22, 23, 24, darem algum sinal de que já está chegando a hora. A hora de se sentirem responsáveis por si mesmos, ou pelo menos por alguns setores das suas vidas. Estou esperando tanta coisa, há tanto tempo, mas não vejo mudança alguma, não pressinto nada de diferente pra tão já...
Espero, também, assustada, que o meu outro filho, de 15, comece a dar sinais de adolescentite aguda. Assusto-me demasiado com suas malcriadezas, comparo-o com o maior, fico apavorada ao pensar que talvez, de um dia para o outro, ele perca toda essa mansuetude e docilidade que sempre teve e que sempre me acalmaram e consolaram perante os problemas todos da vida. Sei que isso acontecerá, em maior ou menor grau, e já me defendo, agredindo-o de vez em quando, por já não estar me dando o amor que há até bem pouco tempo era verdadeiramente transbordante. Meu nenezão, de pele muito macia e coração muito grande. O menino que nunca pôde me ver chorar ao assistir qualquer cena de um filme, porque se preocupava demais com o meu sofrimento, mesmo sabendo ser um sofrimento causado por algo fictício. O menino que me enxergava por dentro e percebia que, se eu chorava, era porque, no fundo, havia algo de triste dentro de mim... Estou esperando, assustada, mas já começo a me acostumar com essa idéia. Já estagiei, com o primeiro.
O pior é que gosto. Gosto de meus filhos adolescentes, de seus amigos, do movimento que fazem pela casa, de sua excitação permanente. São tão excitados e excitáveis, que me excito. Quando percebo, já caí na conversa, na bagunça, na fantasia. Rapidamente como chegaram eles se vão e a casa fica vazia. Deveria dizer tranquila, mas acontece que, enquanto estão aqui o movimento é tanto, que quando se vão a sensação que tenho é a de vazio. Respiro fundo, tranco a porta, preencho-me de mim mesma e volto aos meus afazeres e pensamentos de mulher adulta (?). Mas não tem como: eles são totalmente entremeados de idéias imaturas, de expectativas inocentes, de piadas infantis e grosseiras. Até meu senso de humor já mudou. Aos poucos, as enormes grosserias vão se tornando tão familiares, que acabam por contaminar meu espírito feminino. Flagro-me fazendo coro com eles nos comentários mais esdrúxulos a respeito das mulheres. Essa raça que pensam ter nascido para trazê-los ao mundo, alimentá-los, servi-los e satisfazê-los sexualmente, além, é claro, de tentar educá-los, mas que desperta neles, às vezes, tamanha raiva que me assusta. Todos, em casa, hoje em dia, rimos ao escutar o vizinho do andar de baixo chamar a esposa – mãe de seu filho – de piranha, safada e vagabunda. Algo que há algum tempo me punha nervosa a ponto de pensar em chamar a polícia ou qualquer um que pudesse ajudar a safada (!).
Acostumamo-nos com tudo. E vamos nos modificando de acordo com nossa convivência, de acordo com nossa necessidade de sobreviver, de crescer, de ficar mais forte.
Sempre fui de falar um pouco alto. Me colocar, me expressar, me fazer ouvir. Só que hoje, quando saio com amigas, às vezes percebo que estou incisiva demais. Percebo que me imponho demais, que falo alto demais. Interessante que recebi algumas críticas dos meus próprios filhos, e do meu marido também. Ao analisá-las, percebi que tinham fundamento, mas acontece que desenvolvi essa técnica para conseguir ser ouvida dentro da minha própria casa. Você senta numa mesa com três machões sabe-tudo loucos por futebol, e, se não quiser virar um nada, às vezes tem que gritar. Não raro levanto as mãos, faço sinais, “quero ser ouvida!” E, como eles realmente não se importam com as coisas que me importam, sou obrigada a entrar em seu assunto. E acabo familiarizando-me com todo tipo de conversa masculina ou machista, infantil, jovem ou adulta. Entro na deles, porque sei que seria um pouco demais pra cabeça deles pedir-lhes que entrem na minha.
(Fragmento de Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser);)
Sei que não é isso. O que me perturba não são diferenças estruturais, genéticas ou sei lá quais. O que me perturba é a adolescência. Essa adolescência que hoje em dia se prolonga até sabe-se lá quando, porque isso é conveniente aos adolescentes. Estou esperando meu filho de 21 e seus amigos de 22, 23, 24, darem algum sinal de que já está chegando a hora. A hora de se sentirem responsáveis por si mesmos, ou pelo menos por alguns setores das suas vidas. Estou esperando tanta coisa, há tanto tempo, mas não vejo mudança alguma, não pressinto nada de diferente pra tão já...
Espero, também, assustada, que o meu outro filho, de 15, comece a dar sinais de adolescentite aguda. Assusto-me demasiado com suas malcriadezas, comparo-o com o maior, fico apavorada ao pensar que talvez, de um dia para o outro, ele perca toda essa mansuetude e docilidade que sempre teve e que sempre me acalmaram e consolaram perante os problemas todos da vida. Sei que isso acontecerá, em maior ou menor grau, e já me defendo, agredindo-o de vez em quando, por já não estar me dando o amor que há até bem pouco tempo era verdadeiramente transbordante. Meu nenezão, de pele muito macia e coração muito grande. O menino que nunca pôde me ver chorar ao assistir qualquer cena de um filme, porque se preocupava demais com o meu sofrimento, mesmo sabendo ser um sofrimento causado por algo fictício. O menino que me enxergava por dentro e percebia que, se eu chorava, era porque, no fundo, havia algo de triste dentro de mim... Estou esperando, assustada, mas já começo a me acostumar com essa idéia. Já estagiei, com o primeiro.
O pior é que gosto. Gosto de meus filhos adolescentes, de seus amigos, do movimento que fazem pela casa, de sua excitação permanente. São tão excitados e excitáveis, que me excito. Quando percebo, já caí na conversa, na bagunça, na fantasia. Rapidamente como chegaram eles se vão e a casa fica vazia. Deveria dizer tranquila, mas acontece que, enquanto estão aqui o movimento é tanto, que quando se vão a sensação que tenho é a de vazio. Respiro fundo, tranco a porta, preencho-me de mim mesma e volto aos meus afazeres e pensamentos de mulher adulta (?). Mas não tem como: eles são totalmente entremeados de idéias imaturas, de expectativas inocentes, de piadas infantis e grosseiras. Até meu senso de humor já mudou. Aos poucos, as enormes grosserias vão se tornando tão familiares, que acabam por contaminar meu espírito feminino. Flagro-me fazendo coro com eles nos comentários mais esdrúxulos a respeito das mulheres. Essa raça que pensam ter nascido para trazê-los ao mundo, alimentá-los, servi-los e satisfazê-los sexualmente, além, é claro, de tentar educá-los, mas que desperta neles, às vezes, tamanha raiva que me assusta. Todos, em casa, hoje em dia, rimos ao escutar o vizinho do andar de baixo chamar a esposa – mãe de seu filho – de piranha, safada e vagabunda. Algo que há algum tempo me punha nervosa a ponto de pensar em chamar a polícia ou qualquer um que pudesse ajudar a safada (!).
Acostumamo-nos com tudo. E vamos nos modificando de acordo com nossa convivência, de acordo com nossa necessidade de sobreviver, de crescer, de ficar mais forte.
Sempre fui de falar um pouco alto. Me colocar, me expressar, me fazer ouvir. Só que hoje, quando saio com amigas, às vezes percebo que estou incisiva demais. Percebo que me imponho demais, que falo alto demais. Interessante que recebi algumas críticas dos meus próprios filhos, e do meu marido também. Ao analisá-las, percebi que tinham fundamento, mas acontece que desenvolvi essa técnica para conseguir ser ouvida dentro da minha própria casa. Você senta numa mesa com três machões sabe-tudo loucos por futebol, e, se não quiser virar um nada, às vezes tem que gritar. Não raro levanto as mãos, faço sinais, “quero ser ouvida!” E, como eles realmente não se importam com as coisas que me importam, sou obrigada a entrar em seu assunto. E acabo familiarizando-me com todo tipo de conversa masculina ou machista, infantil, jovem ou adulta. Entro na deles, porque sei que seria um pouco demais pra cabeça deles pedir-lhes que entrem na minha.
(Fragmento de Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser);)
Poesia - Números
Eu tento falar de coisas tão minhas
e ele pega a calculadora, na gaveta.
Seus dedos digitam números
que parecem resolver tudo.
Números contra a monotonia,
o tédio, a mesmice.
Comento as gracinhas do bebê,
as artes do maiorzinho,
pergunto se a comida está boa,
faço qualquer fofoca à toa...
e ele voa.
Viaja o tempo todo.
São seus planos,
seus ganhos ou não ganhos,
seu tempo, seus negócios...
É o horário,
sua performance,
sua chance.
Dinheiro é o grande lance.
Com ele andaríamos pelo mundo,
nos aventuraríamos...
Sei não...
Não sei se cheios da grana
seríamos mais amigos,
ou iríamos mais pra cama...
(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007)
e ele pega a calculadora, na gaveta.
Seus dedos digitam números
que parecem resolver tudo.
Números contra a monotonia,
o tédio, a mesmice.
Comento as gracinhas do bebê,
as artes do maiorzinho,
pergunto se a comida está boa,
faço qualquer fofoca à toa...
e ele voa.
Viaja o tempo todo.
São seus planos,
seus ganhos ou não ganhos,
seu tempo, seus negócios...
É o horário,
sua performance,
sua chance.
Dinheiro é o grande lance.
Com ele andaríamos pelo mundo,
nos aventuraríamos...
Sei não...
Não sei se cheios da grana
seríamos mais amigos,
ou iríamos mais pra cama...
(Esta poesia faz parte da coletânea Alento - 2007)
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Poesia - Amor Borrado (Alento)
Eu passo tantos cremes no rosto
pra ficar mais bonita pra mim,
mas muito mais pra ele,
e ele não pode me beijar,
porque estou emplastrada.
Ele não me abraça, não me toca,
porque me mumifiquei
pra melhorar pra ele.
Eu fico aqui,
imagem intocável e brilhante,
e ele lá, preocupado em não esbarrar
nessa meleca toda.
De repente, numa noite, numa festa,
eu vestida especialmente,
maquiada demais,
ele me nota, mais do que às outras.
Ele me vê bonita, retocada.
Trocamos olhares, sorrisos,
conversa fiada,
nos damos as mãos,
como dois namorados.
Na volta, ele toca meu rosto desbotado,
meus olhos negros emoldurados
pelo rímel derretido,
minha boca rosada do resto do batom vermelho.
Ele diz me achar bonita.
Me beija, me despenteia,
se esfrega em mim,
agora tão palpável.
Se aperta contra mim, me sente.
Fim de festa.
Ele parece me amar tanto
que até me espanto,
tenho medo.
Demoro pra aproveitar, me soltar.
Minha cara toda borrada,
meu corpo suado, quente.
Foi preciso acabar a festa
pra nossa festa começar.
Eu, indigna de um espelho,
e ele dizendo me amar.
(Ana Lucia Sorrentino em Alento)
pra ficar mais bonita pra mim,
mas muito mais pra ele,
e ele não pode me beijar,
porque estou emplastrada.
Ele não me abraça, não me toca,
porque me mumifiquei
pra melhorar pra ele.
Eu fico aqui,
imagem intocável e brilhante,
e ele lá, preocupado em não esbarrar
nessa meleca toda.
De repente, numa noite, numa festa,
eu vestida especialmente,
maquiada demais,
ele me nota, mais do que às outras.
Ele me vê bonita, retocada.
Trocamos olhares, sorrisos,
conversa fiada,
nos damos as mãos,
como dois namorados.
Na volta, ele toca meu rosto desbotado,
meus olhos negros emoldurados
pelo rímel derretido,
minha boca rosada do resto do batom vermelho.
Ele diz me achar bonita.
Me beija, me despenteia,
se esfrega em mim,
agora tão palpável.
Se aperta contra mim, me sente.
Fim de festa.
Ele parece me amar tanto
que até me espanto,
tenho medo.
Demoro pra aproveitar, me soltar.
Minha cara toda borrada,
meu corpo suado, quente.
Foi preciso acabar a festa
pra nossa festa começar.
Eu, indigna de um espelho,
e ele dizendo me amar.
(Ana Lucia Sorrentino em Alento)
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Poesia - Noite (Alento - 2007)
Noite
O vento frio penetra
nas aberturas da minha blusa.
Arrepio.
A luz forte, redonda,
pendente no céu,
me faz fechar as pálpebras.
O breu desvenda o meu corpo,
que as estrelas iluminam.
Um ruído ou outro,
animais no cio.
Sorrio.
Afago meus cabelos,
me abro toda.
Que o intocável me penetre.
Faço amor com a noite.
(Ana Lucia Sorrentino, em Alento - 2007)
O vento frio penetra
nas aberturas da minha blusa.
Arrepio.
A luz forte, redonda,
pendente no céu,
me faz fechar as pálpebras.
O breu desvenda o meu corpo,
que as estrelas iluminam.
Um ruído ou outro,
animais no cio.
Sorrio.
Afago meus cabelos,
me abro toda.
Que o intocável me penetre.
Faço amor com a noite.
(Ana Lucia Sorrentino, em Alento - 2007)
sábado, 12 de setembro de 2009
Pausa para Poesia - Dia-a-Dia
Dia-a-Dia
Passo o dia na fantasia.
Vem a noite e durmo.
Meu príncipe é só um homem
que chega cansado e com fome.
Eu visto uma camiseta
e esqueço a cinta-liga
que me fez delirar.
Tudo é tão caro e difícil...
Não dá pra inventar.
Ele se encosta às minhas costas
e em vez do beijo na nuca
me mete a mão na bunda.
Me encolho, violada,
mas não digo nada.
Não é uma noite de orgia.
É só meia hora vadia.
Tudo é meio às pressas,
e logo vem o sono.
Amanhã é outro dia.
(Alento, de Ana Lucia Sorrentino)
Passo o dia na fantasia.
Vem a noite e durmo.
Meu príncipe é só um homem
que chega cansado e com fome.
Eu visto uma camiseta
e esqueço a cinta-liga
que me fez delirar.
Tudo é tão caro e difícil...
Não dá pra inventar.
Ele se encosta às minhas costas
e em vez do beijo na nuca
me mete a mão na bunda.
Me encolho, violada,
mas não digo nada.
Não é uma noite de orgia.
É só meia hora vadia.
Tudo é meio às pressas,
e logo vem o sono.
Amanhã é outro dia.
(Alento, de Ana Lucia Sorrentino)
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Poesia - Culpa Tua (Alento)
Culpa Tua
Na rua me elogiam
meus cabelos anelados.
Me olho no espelho
e quero cortá-los,
mudar sua cor.
Invejam minha magreza,
que eu sei ser doentia.
Cansaço puro.
Fico nua na tua frente,
mas jamais consigo.
Teus olhos parecem ficar nas costas,
cegos, inibidos.
Nada adianta...
Meus tratos, meus carinhos,
meus cuidados...
Perto de você sou assexuada,
amiga, irmã de aluguel.
Você dorme do meu lado
e já não se encosta mais,
se isola.
Me machuca e me reprime.
Me peguei sonhando, uma manhã,
com um garoto loiro, da TV.
Eu tinha quinze anos no sonho,
leve, solta, crente.
Ele me deu um beijo
e eu tremi, dormindo.
Não queria acordar.
Quando o revi, no vídeo, corei.
Adolescente total.
Talvez eu tenha quinze anos...
Meus suspiros engolidos
se espalham por aí,
meus desejos se dispersam,
não aceitam mais comando.
A cada ombro largo,
cada sorriso aberto,
a cada olhar maroto,
me derreto toda,
sorvete ao sol tropical.
Eu sou tropical,
mas meu lar é glacial.
Meus ais são por tudo
e tudo me lembra você.
Tudo me queima, me arde,
tudo eu quero.
E você deita do meu lado e dorme.
Eu não te olho de frente,
porque o você dos meus sonhos
é mais excitante, mais quente.
Me agarra, me beija a nuca,
me despe, me faz carinhos,
morre por mim.
É como o você de antigamente.
Eu queria poder dizer que não é nada disso,
mas há uma pressão entre as minhas coxas.
Meus nervos já não dão
pras cenas de amor no cinema.
Agora escolho ficção,
violência.
Alivia a tensão...
Distrai, ao menos.
Eu te queria tanto,
agora eu quero tanto tudo,
o mundo parece que vai acabar amanhã,
não dá mais tempo, não dá...
Você dorme e eu me mexo,
energia pura.
Tentei canalizá-la pra coisas mais nobres,
mas parece que ela se multiplica.
Você me gela e eu fico cada vez mais quente.
Eu tenho me gostado tanto, de repente...
E os quadris...
Ah! Os quadris me deixam louca...
Quadris finos em calças desbotadas.
Quadris jovens, esbeltos, espertos...
Meu Deus, que tarada!
Todos, todos os quadris
me lembram os teus
jogados displicentemente pra frente,
em conversas descontraídas.
Teus quadris em calças justas...
Se me der coragem,
algum dia vou fotografá-los.
Um "close" da cintura ao início das coxas:
jeans justos, surrados,
vestindo quadris debochados.
Quando ficar velhinha, vou olhar pra foto,
no porta-retratos,
e lembrar dos meus desejos
infantis,
adolescentes,
juvenis,
adultos,
sei lá...
Meus desejos exagerados,
porque nunca saciados.
Meus desejos escondidos,
proibidos.
E você dorme do meu lado.
Inocente...
Totalmente culpado.
Da minha ânsia,
da minha aflição,
do meu desagrado.
Às vezes me dá medo,
porque me sobram duas opções:
ou você acorda,
ou me acabo numa combustão espontânea.
Acorda, por favor...
(Alento - 2007)
Beeeijos!!!
Analú :)
Na rua me elogiam
meus cabelos anelados.
Me olho no espelho
e quero cortá-los,
mudar sua cor.
Invejam minha magreza,
que eu sei ser doentia.
Cansaço puro.
Fico nua na tua frente,
mas jamais consigo.
Teus olhos parecem ficar nas costas,
cegos, inibidos.
Nada adianta...
Meus tratos, meus carinhos,
meus cuidados...
Perto de você sou assexuada,
amiga, irmã de aluguel.
Você dorme do meu lado
e já não se encosta mais,
se isola.
Me machuca e me reprime.
Me peguei sonhando, uma manhã,
com um garoto loiro, da TV.
Eu tinha quinze anos no sonho,
leve, solta, crente.
Ele me deu um beijo
e eu tremi, dormindo.
Não queria acordar.
Quando o revi, no vídeo, corei.
Adolescente total.
Talvez eu tenha quinze anos...
Meus suspiros engolidos
se espalham por aí,
meus desejos se dispersam,
não aceitam mais comando.
A cada ombro largo,
cada sorriso aberto,
a cada olhar maroto,
me derreto toda,
sorvete ao sol tropical.
Eu sou tropical,
mas meu lar é glacial.
Meus ais são por tudo
e tudo me lembra você.
Tudo me queima, me arde,
tudo eu quero.
E você deita do meu lado e dorme.
Eu não te olho de frente,
porque o você dos meus sonhos
é mais excitante, mais quente.
Me agarra, me beija a nuca,
me despe, me faz carinhos,
morre por mim.
É como o você de antigamente.
Eu queria poder dizer que não é nada disso,
mas há uma pressão entre as minhas coxas.
Meus nervos já não dão
pras cenas de amor no cinema.
Agora escolho ficção,
violência.
Alivia a tensão...
Distrai, ao menos.
Eu te queria tanto,
agora eu quero tanto tudo,
o mundo parece que vai acabar amanhã,
não dá mais tempo, não dá...
Você dorme e eu me mexo,
energia pura.
Tentei canalizá-la pra coisas mais nobres,
mas parece que ela se multiplica.
Você me gela e eu fico cada vez mais quente.
Eu tenho me gostado tanto, de repente...
E os quadris...
Ah! Os quadris me deixam louca...
Quadris finos em calças desbotadas.
Quadris jovens, esbeltos, espertos...
Meu Deus, que tarada!
Todos, todos os quadris
me lembram os teus
jogados displicentemente pra frente,
em conversas descontraídas.
Teus quadris em calças justas...
Se me der coragem,
algum dia vou fotografá-los.
Um "close" da cintura ao início das coxas:
jeans justos, surrados,
vestindo quadris debochados.
Quando ficar velhinha, vou olhar pra foto,
no porta-retratos,
e lembrar dos meus desejos
infantis,
adolescentes,
juvenis,
adultos,
sei lá...
Meus desejos exagerados,
porque nunca saciados.
Meus desejos escondidos,
proibidos.
E você dorme do meu lado.
Inocente...
Totalmente culpado.
Da minha ânsia,
da minha aflição,
do meu desagrado.
Às vezes me dá medo,
porque me sobram duas opções:
ou você acorda,
ou me acabo numa combustão espontânea.
Acorda, por favor...
(Alento - 2007)
Beeeijos!!!
Analú :)
terça-feira, 28 de julho de 2009
Abrindo Meu Diário III - reflexões para Desromance
Vou tentar entender.
Quando as mulheres ergueram a bandeira do feminismo, queimaram sutiãs (para mais tarde voltar a usá-los, em versões incrivelmente mais sofisticadas e sufocantes), e se lançaram no mercado de trabalho, creio que estavam à procura de respeito. Não estou me referindo àquelas que, muito antes, tiveram que trabalhar para ajudar no orçamento doméstico, ou para sobreviver. Falo das feministas mesmo. Em algum momento – clic! – haviam percebido que não eram respeitadas. Ou, talvez, por toda a história da humanidade, elas soubessem que não eram respeitadas, mas não tinham força para lutar contra isso. Bem, então, em algum momento elas perceberam que podiam, de alguma forma, reagir. No modelo vigente, o homem era respeitado porque era o “provedor”. Engraçado que sempre achei que devíamos ser respeitados por sermos seres humanos, mas... Bem, o homem saía para o mundo para ganhar dinheiro e pagar as contas da família, e isso lhe dava o direito de mandar na mulher, que ficava em casa cuidando dos filhos, da alimentação, da limpeza, enfim: fornecendo subsídios para que o homem pudesse sair sossegado para trabalhar e, ao voltar, gozasse de um total bem-estar. (Ela não teria direito a 50% do salário dele?)
Peraí... de que época estou falando? Da pré-história, da Idade Média, do século XVIII, XIX, XX, XXI ou exatamente de hoje? Ai ai ai ai ai...
Bem, de qualquer forma, estou montando esse raciocínio sem grande embasamento científico, portanto, tanto faz.
Voltando ao assunto: elas chegaram à conclusão de que para merecer respeito, precisavam ter seu próprio dinheiro. E para ter dinheiro, precisavam trabalhar, igualzinho aos homens! Aquele trabalho todo que faziam em casa já passou para segundo plano, porque, sabe como é, não era remunerado. Invertendo o raciocínio, fica assim: se não era remunerado, não era importante! (Num mundo em que Deus é o dinheiro isso é natural).
Não sei como é que foi, mas acreditaram piamente nisso e passaram a fazer apologia dessa estranha idéia!
Agora, eu me pergunto: se o trabalho não era importante porque não era remunerado, por que não exigir uma remuneração por ele? Quanto maior a remuneração, mais importante seria!:) E uma greve no setor doméstico com certeza causaria verdadeira comoção!
Mas, deixando de me perder em elucubrações, as mulheres, que a princípio, deveriam ser respeitadas simplesmente por serem seres humanos, se acharam na obrigação de conquistar o mercado de trabalho para obter esse direito. E essa jornada começou a levá-las por um caminho que, pra dizer a verdade, não sei onde vai dar. Estou cansada de me deparar com mulheres exaustas que deixam filhos nas mãos de qualquer um (não adianta tentar me convencer de que são profissionais, porque eu já soube de muita coisa triste) para trabalhar o dia todo nas mesmas funções que os homens, apenas ganhando menos. E, ao chegar em casa, à noite, depois de atravessarem a cidade num trânsito horroroso, onde se defrontam com inúmeros dedos do meio e xingamentos machistas, encontram todas as tarefas caseiras esperando por elas, para que as realizem. E, mais tarde, quando talvez ainda sejam procuradas por seus maridos para dar uma transadinha, estão totalmente sem forças, sem ânimo e sem vontade. O que, com o passar do tempo, vai aumentando as chances de se tornarem cornas. Sim, porque os homens, com certeza, estão sempre mais descansados e, quando insatisfeitos, devido à liberdade intrínseca a essa espécie, têm muito menos dor na consciência se praticam o adultério. Que, na linguagem deles, seria só “uma escapadinha”.
Quando resolveram sair para trabalhar “fora”, as mulheres esqueceram de treinar os homens para trabalhar “dentro”! Aliás, também esqueceram de lhes perguntar se eles queriam isso! E é claro que a maioria deles está se fazendo de desentendida até hoje.
Por que ter que se igualar a seres tão estruturalmente diferentes, se a riqueza está justamente na diferença? Onde é que erramos, para que o convívio entre homens e mulheres se tornasse essa luta diária por direitos iguais, quando, na verdade, poderia ser uma agradável convivência em que se ajudassem mutuamente, cada um atuando na área sobre a qual tivesse maior domínio, tornando, assim, sua vida e a vida do outro mais agradável, seu fardo mais leve?
E o mais triste: depois de tanta luta, já estamos chegando à conclusão de que respeito não está atrelado à independência financeira, não. Independência financeira pode trazer maior liberdade, mas não necessariamente respeito. Impor respeito parece ser algo intrínseco da pessoa. Há seres humanos que impõem respeito, e há outros que simplesmente não conseguem. E vou mais longe: em relação à liberdade é a mesma coisa: há pessoas que se sentem livres e há pessoas que jamais se sentirão, mesmo que paguem todas as contas!
O fato é que estou triste com essa situação, porque vejo que as mulheres estão se distanciando cada vez mais da sua essência, estou no meio disso sentindo toda a pressão contrária, mas sei, intuitivamente, que seria imensamente feliz se simplesmente assumisse a mulher de verdade, absurdamente rica, que existe dentro de mim, e conseguisse relaxar. Ao menos de vez em quando...
(2007)
Beeeijos!!!
Analú :)
Quando as mulheres ergueram a bandeira do feminismo, queimaram sutiãs (para mais tarde voltar a usá-los, em versões incrivelmente mais sofisticadas e sufocantes), e se lançaram no mercado de trabalho, creio que estavam à procura de respeito. Não estou me referindo àquelas que, muito antes, tiveram que trabalhar para ajudar no orçamento doméstico, ou para sobreviver. Falo das feministas mesmo. Em algum momento – clic! – haviam percebido que não eram respeitadas. Ou, talvez, por toda a história da humanidade, elas soubessem que não eram respeitadas, mas não tinham força para lutar contra isso. Bem, então, em algum momento elas perceberam que podiam, de alguma forma, reagir. No modelo vigente, o homem era respeitado porque era o “provedor”. Engraçado que sempre achei que devíamos ser respeitados por sermos seres humanos, mas... Bem, o homem saía para o mundo para ganhar dinheiro e pagar as contas da família, e isso lhe dava o direito de mandar na mulher, que ficava em casa cuidando dos filhos, da alimentação, da limpeza, enfim: fornecendo subsídios para que o homem pudesse sair sossegado para trabalhar e, ao voltar, gozasse de um total bem-estar. (Ela não teria direito a 50% do salário dele?)
Peraí... de que época estou falando? Da pré-história, da Idade Média, do século XVIII, XIX, XX, XXI ou exatamente de hoje? Ai ai ai ai ai...
Bem, de qualquer forma, estou montando esse raciocínio sem grande embasamento científico, portanto, tanto faz.
Voltando ao assunto: elas chegaram à conclusão de que para merecer respeito, precisavam ter seu próprio dinheiro. E para ter dinheiro, precisavam trabalhar, igualzinho aos homens! Aquele trabalho todo que faziam em casa já passou para segundo plano, porque, sabe como é, não era remunerado. Invertendo o raciocínio, fica assim: se não era remunerado, não era importante! (Num mundo em que Deus é o dinheiro isso é natural).
Não sei como é que foi, mas acreditaram piamente nisso e passaram a fazer apologia dessa estranha idéia!
Agora, eu me pergunto: se o trabalho não era importante porque não era remunerado, por que não exigir uma remuneração por ele? Quanto maior a remuneração, mais importante seria!:) E uma greve no setor doméstico com certeza causaria verdadeira comoção!
Mas, deixando de me perder em elucubrações, as mulheres, que a princípio, deveriam ser respeitadas simplesmente por serem seres humanos, se acharam na obrigação de conquistar o mercado de trabalho para obter esse direito. E essa jornada começou a levá-las por um caminho que, pra dizer a verdade, não sei onde vai dar. Estou cansada de me deparar com mulheres exaustas que deixam filhos nas mãos de qualquer um (não adianta tentar me convencer de que são profissionais, porque eu já soube de muita coisa triste) para trabalhar o dia todo nas mesmas funções que os homens, apenas ganhando menos. E, ao chegar em casa, à noite, depois de atravessarem a cidade num trânsito horroroso, onde se defrontam com inúmeros dedos do meio e xingamentos machistas, encontram todas as tarefas caseiras esperando por elas, para que as realizem. E, mais tarde, quando talvez ainda sejam procuradas por seus maridos para dar uma transadinha, estão totalmente sem forças, sem ânimo e sem vontade. O que, com o passar do tempo, vai aumentando as chances de se tornarem cornas. Sim, porque os homens, com certeza, estão sempre mais descansados e, quando insatisfeitos, devido à liberdade intrínseca a essa espécie, têm muito menos dor na consciência se praticam o adultério. Que, na linguagem deles, seria só “uma escapadinha”.
Quando resolveram sair para trabalhar “fora”, as mulheres esqueceram de treinar os homens para trabalhar “dentro”! Aliás, também esqueceram de lhes perguntar se eles queriam isso! E é claro que a maioria deles está se fazendo de desentendida até hoje.
Por que ter que se igualar a seres tão estruturalmente diferentes, se a riqueza está justamente na diferença? Onde é que erramos, para que o convívio entre homens e mulheres se tornasse essa luta diária por direitos iguais, quando, na verdade, poderia ser uma agradável convivência em que se ajudassem mutuamente, cada um atuando na área sobre a qual tivesse maior domínio, tornando, assim, sua vida e a vida do outro mais agradável, seu fardo mais leve?
E o mais triste: depois de tanta luta, já estamos chegando à conclusão de que respeito não está atrelado à independência financeira, não. Independência financeira pode trazer maior liberdade, mas não necessariamente respeito. Impor respeito parece ser algo intrínseco da pessoa. Há seres humanos que impõem respeito, e há outros que simplesmente não conseguem. E vou mais longe: em relação à liberdade é a mesma coisa: há pessoas que se sentem livres e há pessoas que jamais se sentirão, mesmo que paguem todas as contas!
O fato é que estou triste com essa situação, porque vejo que as mulheres estão se distanciando cada vez mais da sua essência, estou no meio disso sentindo toda a pressão contrária, mas sei, intuitivamente, que seria imensamente feliz se simplesmente assumisse a mulher de verdade, absurdamente rica, que existe dentro de mim, e conseguisse relaxar. Ao menos de vez em quando...
(2007)
Beeeijos!!!
Analú :)
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Poesia - Olhares (Alento)
Eu quero que todos os seus olhares
recaiam sobre meus seios impúberes
enquanto conversa comigo nesse tom tão familiar
sobre trabalho, desemprego, crianças, feriados.
Eu quero que o vinho me suba à cabeça,
me desça aos pés,
me leve pra longe,
me faça gargalhar...
Me toque de leve, me esbarre, se esfregue,
sem que ninguém perceba.
Não... Não deixe ninguém notar.
Eu quero que a noite não passe,
que o sono não venha, eu quero gozar...
Amanhã você me liga e a gente não troca uma só palavra.
Nem eu mesma acredito que aconteceu,
ou que possa acontecer de novo...
Não vamos estragar tudo...
Seus olhos em mim, seus olhos em mim,
seus dedos tão leves,
nosso apetite voraz...
Domingo ainda amanheço embriagada.
Segunda tenho que engrenar.
Mas a sensação fica.
Seus olhos em mim,
meus seios meninos,
a pele a roçar.
Crianças chorando,
me pego corando,
já sem respirar.
Me toque de leve, me beije, me pegue,
me faça tremer.
A vida é tão dura...
No meio da dor
me deixe viver...
Ana Lucia Sorrentino, em Alento
sábado, 11 de julho de 2009
Um conto, pra variar: É Sol (primeiro dia do Rafael na escola)
Almoçamos, escovamos os dentes e abri a gaveta. A primeira gaveta do lado direito. É a gaveta do Rafael. Tiro dela um pequeno uniforme. Short vermelho, camiseta e meias brancas. Abro a porta do guarda-roupa e pego o "conguinha".
Rafael espera, meio tenso.
Coloco a roupa nele. Elogio. Elogio muito. Exagero, pra ser sincera. Ele está lindo. Orgulhoso de seu uniforme. Eu me desmancho. Deito-o sobre a cama e beijo, beijo, beijo... Nunca vi uma criança gostar de amasso como esse menino. Ele deixa, deixa, deixa... Meu coração está grande.
Chamo o elevador, toco a campainha da Marilda.
- Ele vai pra escola - exibo-o, mão na mão dele. Ela faz festa, beija, abraça. Um verdadeiro escândalo.
Vamos embora.
Estaciono perto do portão de entrada. A escola fica numa praça, o Largo do Bom Parto. Nos bancos, sentados, brincando, correndo, mil "Rafaelzinhos", de vermelho e branco. Uma parte das crianças já conhece a escola. Pra outra parte, tudo é novidade. Expectativa.
São três e quinze, e ainda temos cinco minutos. Dá tempo de procurar no rosto dos outros um tiquinho de angústia. Dá tempo de apertar a mãozinha dele, tentando passar segurança.
O portão abre, e as mães não podem entrar. Dou um beijo comprido, peço outro, não quero que ele me sinta insegura. Ele entra, acompanhando a turma. A escola é pequena, há uma só sala. Não tem como se perder. Mas ele vacila. Nem sabe pra onde ir. Nem sabe o que esperar... Chora e corre na minha direção. Tio Joaquim o resgata e o leva pra sala. Parece que parou de chorar. Não custa esperar um pouco. As mães vão indo embora, o portão se fecha e tudo está calmo. Silêncio. Não procuro mais o choro dele, porque tenho fé. Vou indo embora. As pernas pesadas, o peito apertado. O carro parece tão longe... Engato a primeira e saio. Vem um vento fresco pela janela. Terei duas horas. Uma sensação de liberdade me possui. Duas horas só pra mim. Estou precisando. Não sei pra quê, não sei o que fazer, mas sei que tenho duas horas pra mim. Duas horas comigo mesma. Há quanto tempo não tenho isso! Vou pra casa. Olho em volta. Há mil coisas por fazer, mas não quero. Ligo o rádio, pra espantar o silêncio. Vou ao banheiro, pego uma revista. Folheio. Tudo igual. Posso telefonar pra quem quiser, dá pra bater um bom papo. Nada disso. Já são quase quatro, logo serão cinco... Talvez chova, e eu não tenho guarda-chuva. Devia comprar um. Esse outono promete chuva. Choveu tanto durante o verão...
Deito no sofá, relaxo, respiro. Rafael tá lá, no meio de um monte de crianças que não conhece. Foi preciso pendurar nele um crachá, com seu nome, pra que o pessoal da escola o identificasse.
Fecho os olhos. Deixo o silêncio entrar em mim. Um zumbido só.
Minha cabeça tá aqui, tentando descansar, mas meu coração está no Largo do Bom Parto. É sempre assim... Cabeça e coração nunca andam juntos...
Tenho medo de adormecer, perder a hora. Levanto, num salto. Já é tarde.
O asfalto está úmido. Cai uma garoa fina, que molha mais que chuva de verdade. O tempo fechou de vez. Tá tudo cinza. Pego o caminho mais longo, só pra fazer hora. Chego cinco minutos antes. Os pais e mães já estão todos lá, do lado de fora do portão vermelho. Todos, todos ansiosos e preocupados. O portão se abre e eu entro, empurrada. Rapidamente se forma uma fila. Fico no meio, esperando a minha vez. Olho pelo vidro da porta, avisto-o lá dentro, sentadinho, quieto. Reconheço-o pela cabeça. Tão redondinha, tão perfeita... Ele estica o olhar pra fora e me vê. Seu rosto se ilumina, num sorriso lindo. Está feliz.
A tia me pergunta o nome, e eu digo "Rafael". Ele levanta, disciplinado, e vem ao meu encontro. Um beijo, um abraço. Dou a mão pra ele e saímos, na garoa.
Pra mim é sol de novo.
Este conto faz parte da coletânea Acasos - 2007
Beeeijos!
Analú :)
Rafael espera, meio tenso.
Coloco a roupa nele. Elogio. Elogio muito. Exagero, pra ser sincera. Ele está lindo. Orgulhoso de seu uniforme. Eu me desmancho. Deito-o sobre a cama e beijo, beijo, beijo... Nunca vi uma criança gostar de amasso como esse menino. Ele deixa, deixa, deixa... Meu coração está grande.
Chamo o elevador, toco a campainha da Marilda.
- Ele vai pra escola - exibo-o, mão na mão dele. Ela faz festa, beija, abraça. Um verdadeiro escândalo.
Vamos embora.
Estaciono perto do portão de entrada. A escola fica numa praça, o Largo do Bom Parto. Nos bancos, sentados, brincando, correndo, mil "Rafaelzinhos", de vermelho e branco. Uma parte das crianças já conhece a escola. Pra outra parte, tudo é novidade. Expectativa.
São três e quinze, e ainda temos cinco minutos. Dá tempo de procurar no rosto dos outros um tiquinho de angústia. Dá tempo de apertar a mãozinha dele, tentando passar segurança.
O portão abre, e as mães não podem entrar. Dou um beijo comprido, peço outro, não quero que ele me sinta insegura. Ele entra, acompanhando a turma. A escola é pequena, há uma só sala. Não tem como se perder. Mas ele vacila. Nem sabe pra onde ir. Nem sabe o que esperar... Chora e corre na minha direção. Tio Joaquim o resgata e o leva pra sala. Parece que parou de chorar. Não custa esperar um pouco. As mães vão indo embora, o portão se fecha e tudo está calmo. Silêncio. Não procuro mais o choro dele, porque tenho fé. Vou indo embora. As pernas pesadas, o peito apertado. O carro parece tão longe... Engato a primeira e saio. Vem um vento fresco pela janela. Terei duas horas. Uma sensação de liberdade me possui. Duas horas só pra mim. Estou precisando. Não sei pra quê, não sei o que fazer, mas sei que tenho duas horas pra mim. Duas horas comigo mesma. Há quanto tempo não tenho isso! Vou pra casa. Olho em volta. Há mil coisas por fazer, mas não quero. Ligo o rádio, pra espantar o silêncio. Vou ao banheiro, pego uma revista. Folheio. Tudo igual. Posso telefonar pra quem quiser, dá pra bater um bom papo. Nada disso. Já são quase quatro, logo serão cinco... Talvez chova, e eu não tenho guarda-chuva. Devia comprar um. Esse outono promete chuva. Choveu tanto durante o verão...
Deito no sofá, relaxo, respiro. Rafael tá lá, no meio de um monte de crianças que não conhece. Foi preciso pendurar nele um crachá, com seu nome, pra que o pessoal da escola o identificasse.
Fecho os olhos. Deixo o silêncio entrar em mim. Um zumbido só.
Minha cabeça tá aqui, tentando descansar, mas meu coração está no Largo do Bom Parto. É sempre assim... Cabeça e coração nunca andam juntos...
Tenho medo de adormecer, perder a hora. Levanto, num salto. Já é tarde.
O asfalto está úmido. Cai uma garoa fina, que molha mais que chuva de verdade. O tempo fechou de vez. Tá tudo cinza. Pego o caminho mais longo, só pra fazer hora. Chego cinco minutos antes. Os pais e mães já estão todos lá, do lado de fora do portão vermelho. Todos, todos ansiosos e preocupados. O portão se abre e eu entro, empurrada. Rapidamente se forma uma fila. Fico no meio, esperando a minha vez. Olho pelo vidro da porta, avisto-o lá dentro, sentadinho, quieto. Reconheço-o pela cabeça. Tão redondinha, tão perfeita... Ele estica o olhar pra fora e me vê. Seu rosto se ilumina, num sorriso lindo. Está feliz.
A tia me pergunta o nome, e eu digo "Rafael". Ele levanta, disciplinado, e vem ao meu encontro. Um beijo, um abraço. Dou a mão pra ele e saímos, na garoa.
Pra mim é sol de novo.
Este conto faz parte da coletânea Acasos - 2007
Beeeijos!
Analú :)
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