quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Filosofia, a vizinha bisbilhoteira de Literatura


                                                                
 











                                                       Para Germano Xavier, 
                                 o poeta por quem Literatura se apaixonou.      


 Estava Literatura a delirar, gostosamente jogada no sofá, sob um grosso cobertor felpudo. Bebericava um bom vinho e até suspirava, buscando no teto a doce imagem do jovem poeta com quem cruzara à tarde. Se enamorara. Conhecendo-se bem, via aí uma só possibilidade: a do amor.
            O encontro havia sido rápido, em condições inapropriadas, mas o rapaz levava na mão Alguma Poesia. Segurava Drummond com segurança e leveza e vez ou outra acariciava suavemente os relevos dourados da capa. Mas era na expressão do rosto, cheia de dignidade e mistério, que residia a sedução. Literatura sabia que se desvirginasse aquele olhar, encontraria lá no fundo um sem fundo de emoções. Sob a aparente quietude, experiente, ela vislumbrava um turbilhão de ânsias, dúvidas, medos, paixões.
            Embora Drummond já tivesse iniciado o processo, Literatura, fascinada por inventar, matutava engenhosamente qual estratégia usaria, qual o subterfúgio para chamar-lhe a atenção, quando o soar incômodo da campainha insiste em lhe trazer pro chão.    
            Aborrecida, joga o cobertor de lado e abre a porta pra barulhenta vizinha, que encontra em total estado de confusão. Pálida, magra, rabo-de-cavalo desgrenhado, olheiras profundas sob o vidro de garrafa de enormes óculos redondos, se apresenta como Filosofia e estica, trêmula, um pote vazio. Tão perturbada estivera durante o dia, tentando achar pelo em ovo, que esquecera de passar no mercado. Agora se via assim: dependente e carente, precisando desesperadamente de uma xícara de café bem doce e quente.
 Tanta rima em alguém que parecia tão prosa soou estranho à Literatura. Enfim, se o vício do café vinha acompanhado pelo do açúcar, não seria ela, ainda mais no estado em que se encontrava, a negar um pouco de doçura. Enche o pote, pedindo a  Deus que a vizinha importuna se vá logo e a deixe de novo a devanear.
            Mas... como toda boa bisbilhoteira, Filosofia, em vez de se ir com seu açúcar, avança pelo corredor e invade a sala, na desculpa de admirar o belo quadro,  na parede sobre o sofá.
            Literatura, vaidosa, se deixa envolver pelo interesse e admiração da nova amiga, e num arroubo de exibicionismo, louca pra falar do borbulhar de seus sentimentos, a convida ao vinho e até mesmo ao cobertor.
Filosofia não resiste à tentação. Afinal, pra quem esperava da noite um bule de café na solidão, estar sob um cobertor quentinho, inebriada pelo vinho e em companhia de tão sedutora Literatura a levava a imaginar que, enfim, os deuses haviam se lembrado de a presentear.
            Já meio alta, Literatura, viciada em intimidade, envereda por conversas pessoais e acaba por narrar em detalhes suas intenções em relação ao jovem poeta. Como o conhecera, o que ele lhe despertara, o que vinha matutando desde o primeiro minuto em que o encontrara.
Filosofia, já corada, escuta, atenta, interferindo apenas com pequenos gestos, olhares assustados e suspiros de admiração. Não teria coragem de se expor assim... de falar de seus próprios sentimentos, de se confessar apaixonada por um inocente rapaz a alguém que acabara de conhecer. Nem ao menos sabia se seria capaz de se apaixonar, nalgum dia... Tamanha autoexposição parecia, a Filosofia, verdadeira extravagância. De seu deserto íntimo, tentava imaginar como Literatura conseguia mergulhar tanto em tão recente sentimento e se perguntava se nalgum dia teria tal capacidade de entrega.
            O fato é que enquanto desenvolvia esse raciocínio, quase sem perceber, Filosofia se abandonava  à doce voz de Literatura. Aos poucos, a aflição do dia se desvanecia.  Desvencilha-se do apertado elástico do rabo- de-cavalo, desfaz-se dos sapatos e da tensão. Acomoda-se melhor, se serve de um pouco mais de vinho e percebe a figura da amiga ficar desfocada, seus lábios em movimentos mais lentos, a voz se distanciando. Envereda por um cochilo em que os sons se vestem de letras, e as letras dançam em harmoniosas frases de sedução. É o poeta, tão jovem, e suas mãos segurando um livro. A expressão cintilando de curiosidade. Seu sorriso comedido, a atenção focada. A paixão, invasiva, penetrando as palavras através do olhar do poeta e as palavras, atrevidas, penetrando o poeta...
            Embalada pelo sono, Filosofia sente a fina pele de Literatura empurrando suas pernas, procurando espaço. Ouve, longe, seus suspiros, talvez desejo de ar puro.
            Mas, tão possuída pelo sono estava Filosofia, e tanto lhe agradava aquele sono acompanhado, que pouco se importou com o desejo de liberdade da amiga.
Amanhece ao seu lado, e, ainda sonolenta, num susto, percebe-se apaixonada.  Sem desejar ir, se vai.
            Ao acordar, Literatura sente a sombra de Filosofia ainda pela casa. A taça vazia do vinho, o interesse enroscado ao cobertor, o elástico que lhe apertava as ideias jogado num canto qualquer. Guarda-o cuidadosamente, prevendo um retorno da amiga, que, com certeza, estranharia ter as próprias ideias circulando muito livremente.    
            Como era de se esperar, ao entardecer Filosofia vem em busca do elástico opressor.                                                       
           O primeiro encontro se dera por conta de alguma doçura. O segundo pelo esquecimento. O terceiro se daria por nenhum outro motivo senão o da já avançada paixão. E a cada dia, pílulas de novidades enchiam mais e mais de crescente interesse a já tão curiosa Filosofia. Porque o poeta fora fisgado e já tinha, com Literatura, todos os dias, um encontro marcado.  
            E se no primeiro momento Filosofia se apaixonara, a cada nova aventura amorosa da engenhosa amiga, sua paixão crescia. Um querer saber, um querer entender, um querer, talvez, ser, através da outra.
            Os encontros diários com o poeta vinham emprestando à Literatura um viço cada vez mais flagrante, e as pesquisas da curiosa amiga adicionavam a isso algo ainda mais instigante.  
E, se Filosofia vinha saber das carícias que Literatura trocava com o jovem rapaz, Literatura também não se furtava a tentar compreender as frustrações da amiga. Que lhe confidenciava coisas estranhas e tristes. Que se julgava incapaz de criar por si mesma, e que raramente dizia algo que não se baseasse em alguma aventura alheia. Que se enamorava muito, mas não se fixava nem entrava de cabeça. Que tinha dificuldade em se entregar. Que tomava, por precaução, um anticoncepcional que a tornava estéril e que, embora isso lhe frustrasse, lhe trazia alguma tranquilidade, pois sempre temera parir algo que lhe desse asas para voar.
Acontece, enfim, o previsível: Filosofia se vicia nos relatos de Literatura sobre os encontros com o novo amante. Nas descrições pormenorizadas de seu íntimo relacionamento. Na doçura de suas palavras ao falar do toque suave dos dedos gordinhos do poeta correndo por seus parágrafos. De seu hálito, invadindo suas páginas em suspiros prolongados sempre que se mostrava atrevida. De seus dentes, muito brancos e alinhados, em lindos sorrisos roubados. Das emoções, na partilha dos sentimentos, nas constatações de experiências similares. Do bater de seu coração, que se acelerava sempre que o provocava, perturbadora. De seu silêncio, um silêncio cheio de significados. E do desejo, um desejo pulsante de encontros infinitos, sem tréguas, sem pausas. Dos mergulhos profundos de um no outro. E do pesar, do imenso pesar no momento da separação diária.
Não foi preciso muito para que aquela que se julgava incapaz de se apaixonar se descobrisse duplamente apaixonada: por aquela que lhe relatava suas intimidades com o amante e pelo amante, cuja atenção  invejava.
Filosofia, ciumenta,  questionava Literatura pela imprudente bigamia. Como se atrevia a se entregar ao poeta e ao leitor, e sem culpa, sem remorso, sem qualquer ranço de pudor?
Literatura, paciente, tentava fazer com que Filosofia entendesse que nada havia de vergonhoso no que fazia. Era o poeta que lhe imprimia seus atributos mais caros. Era dele que lhe vinha a graça, a cadência, a intensidade. Era ele que a enriquecia com sentimentos confusos, rimas raras, esplendorosas imagens.  E o leitor, com sua admiração e fidelidade, lhe enchia de vaidade e dava sentido à sua vida. O poeta a paria, o leitor a consumia. E Literatura estava radiante, pois encontrara  os dois num só, e vinha se sentindo duplamente amada.
Que infinita agonia se apossou de Filosofia ao perceber que Literatura não mais se satisfaria com encontros públicos... Em uma conversa a portas muito fechadas Literatura confidenciou à amiga que encontros em agradáveis cafés já não lhe bastavam. Carícias leves, correr de dedos, olhares apaixonados sempre sob a vista de curiosos vinham deixando Literatura mais ansiosa a cada dia. Não. Ela queria o poeta ali, debaixo de seus lençóis. Queria que ele estremecesse aos seus sussurros, que navegasse em seus mistérios, que a desnudasse e se deixasse desnudar. Que a vasculhasse despudoradamente por todos os recantos, que se desgovernasse em suas entrelinhas mais sutis e que encontrasse nela alento para todos os desencantos da vida. Queria que ele pudesse, na intimidade de seu quarto, chorar aconchegado em seu peito, gemer juras de amor ao seu ouvido, gozar o mais puro gozo dos apaixonados. Que mergulhado nela, o poeta pudesse, enfim, esquecer por completo da realidade. Que ficassem longe, muito longe, todos os medos e todas as dúvidas. Que seu amor fosse a resposta para suas infinitas perguntas e que pudesse lhe trazer, enfim, alguma certeza.
Tão excitada estava Literatura, tão corada e possuída pela expectativa,  que nem percebia a palidez crescente da amiga enquanto lhe contava que o poeta lhe visitaria, ali mesmo, em sua casa, naquela noite. Que prepararia algo especial para o jantar, que haveria velas espalhadas por todos os ambientes, e que pretendia que a noite terminasse em sua cama. Separara alguns trechos de seus escritores preferidos, e seu plano era de que o poeta, bom leitor que é, os lêsse baixinho ao seu ouvido.
De repente, Filosofia se entrega a intensa vertigem e não fosse a amiga amparar-lhe nos braços, teria se estatelado de cara no chão. Segue-se então uma série de cuidados. Que sentasse confortavelmente no sofá, que respirasse fundo, que se acalmasse, que esperasse que já faria um chá... afinal, o que é que lhe perturbara tanto?
Depois de uma conversa cheia de reticências, rubores e aflições, firma-se um acordo. Generosa, Literatura não poderia deixar Filosofia minguar consumida pela curiosidade. Se era mesmo verdade o que lhe confessara sobre seu caráter parasitário, muito provavelmente, enquanto literatura estivesse fazendo amor com o poeta, Filosofia estaria sofrendo desgraçadamente no apartamento ao lado.
Não... embora às vezes fosse difícil e um tanto quanto sem graça, Filosofia não merecia isso...
Seria assim o combinado: caso mais à noite – e em todas as outras noites também – Filosofia se sentisse só e precisasse de um café, e percebesse ter esquecido de comprar açúcar, que viesse. A porta estaria sempre destrancada. Podia entrar e se servir. E... caso ouvisse gemidos de amor no fundo do corredor, se soubesse se aproximar pé ante pé, sem se fazer perceber, a porta do quarto estaria sempre entreaberta. Que fosse discreta.
Quanto ao receio de desagradar ao leitor e ao poeta com sua intrusão, Literatura sugeriu à amiga que deixasse por sua conta. Se já conhecia, ao menos um pouquinho, sua natureza, saber de alguém espreitando por uma fresta provavelmente seria mais um componente para aumentar-lhes o tesão.
E – conjecturou Literatura, sonhadora - quem sabe, nalgum dia, fizessem amor a quatro...



Analú
22/02/2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

Sina





















Vi meu sangue correndo no roxo das veias,
sob a pele tão branca, tão transparente,
e tive dó de tanta fragilidade.
Os homens não têm sido mais
do que ilusões de homens.
Parece-me, afinal,
que pouca gente existe de verdade.
Contorço-me, circense,
sobrevivendo num mundo
onde impera a falsidade.
Desejo intensamente o distante.
Desisti de esperar do próximo proximidade.
Pago caro, todos os dias,
a conta alta que me apresenta
o vício da liberdade.
Resistente, me nego à hipocrisia.
Entrego-me, então, à mais fiel amante:
minha doce amiga Solidão.

Analú 
22/01/2012

domingo, 15 de janeiro de 2012

Bons Tempos


O Rio em tons de cinza.
O Cristo imerso em neblina.
A voz de Chico num samba.
Na praia, de preto, meninas.
Os corpos dançando, leves,
e o flerte rolando solto.
A festa monocromática
acordou cores em mim.  

Analú
15/01/2012

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Meu presente de Natal - O Livro das Certezas



Dias atrás, lendo um artigo de Germano Xavier – O que você vai dar de presente neste Natal? - http://oequadordascoisas.blogspot.com/2011/12/o-que-voce-vai-dar-de-presente-neste.html  - comecei a viajar nessa ideia do livro como presente. Germano defende enfaticamente o livro como um dos melhores presentes que se possa dar, e, realmente, não há como negar isso. Sempre curto demais escolher a dedo um livro para dar a algum amigo querido, imaginando o quanto ele ganhará com isso, além do prazer da leitura.
E, então, pensando no livro que eu gostaria de dar neste Natal, e a quem eu daria, me ocorreu o quanto seria bacana dar um livro que tivesse um encantamento especial. E aí desandei a imaginar qual o melhor texto, o melhor autor, a melhor mensagem. Enfim, numa crise aguda de imodéstia, se seguiu um delírio:
Eu queria poder dar, de presente de Natal,  a todos os meus amigos... não... à toda humanidade, um livro. Um livro escrito por mim. 
Mas, pra que eu pudesse escrever esse livro, antes Papai Noel teria que me presentear com um dom. O dom de saber escrever palavras mágicas que devolvessem a fé às pessoas.
Eu escreveria, então, O Livro das Certezas.
Porque, mulher  feita, já tive tempo suficiente para concluir que talvez aquilo de que mais somos carentes é de ter alguma certeza nessa vida.
Se Papai Noel me agraciasse com esse divino dom, eu escreveria um livro que, ao ser folheado,  já trouxesse algum alento ao leitor. Que seu simples manusear, seu cheiro, o passar dos dedos por sobre a capa em relevo, o tatear da textura do papel, o correr dos olhos pelas letras miúdas, já o acalmasse, como um bom colo de mãe.
E que, ao escolher pequenos trechos, talvez aleatoriamente, o leitor pudesse se deparar com afirmações dignas de uma boa e sábia avó.
Mais ou menos assim.
Que ao feto, ainda no ventre da mãe, eu conseguisse dar a certeza de um nascimento tranquilo, de muito leite do peito, de um berço quentinho e muito, muito carinho. A certeza de poder vir sem medo, porque o mundo é um lugar seguro, e pais são sempre amorosos.  
Que à criança que começa a correr pelos quintais da vida eu desse a certeza de um caminho sem pedras traiçoeiras, de uma infância feliz, de um adolescer sem vícios, de um amadurecer sereno, de uma velhice saudável.
Que a todo ser humano eu pudesse dar a certeza categórica de que laços de sangue são garantia de se  pertencer a um grupo fiel, de jamais se sentir um patinho feio, de ter apoio em momentos cruciais, e nunca ter que se defrontar com a extrema solidão.
Que aos apaixonados eu  conseguisse dar a certeza da reciprocidade. Que ao romântico que ao deitar, antes do sono, pensa no ser amado, eu desse a certeza de que o ser amado também o tem no pensamento.
Que ao fiel eu desse a certeza da fidelidade.
Que ao estudante eu pudesse afirmar com toda certeza do mundo que com foco e dedicação é possível superar todos os obstáculos e ter emprego, comida no prato, cultura, lazer e, enfim, felicidade.
Que ao jovem que começa a se jogar no mundo eu desse a garantia de que vale a pena ser honesto, não se vender ou corromper.
Que ao trabalhador  eu pudesse dar a certeza de justa recompensa, de sono tranquilo e de dignidade.
Que àquele que se esforça para fazer as coisas muito bem feitas eu pudesse dar  a certeza de sucesso e de um reconhecimento maior do que o daquele que faz as coisas apenas por fazer.
Que àqueles que cuidam bem da saúde eu pudesse dar a certeza de agradável longevidade.
Que a pais zelosos eu desse a certeza de uma velhice feliz, ao lado de filhos e netos cuidadosos.
Bem... são tantas as certezas com que eu gostaria de presentear a humanidade, que talvez esse livro precisasse ter um número infinito de  páginas... Ou não.
Talvez pudesse ser um livro de uma página só. Uma página só, com uma só frase: no final da contas, tudo vai ficar bem... E que junto à frase fosse meu sorriso, meu carinho e meu abraço caloroso e demorado, porque se há uma coisa de que tenho certeza nessa vida – e aqui nem preciso recorrer a Papai Noel - é de que um bom abraço amoroso pode curar muitas feridas.

Um Feliz Natal a todos, e que em 2012 possamos ser o que de melhor há em nós! 

Beeijos!!! 

Analú :)

domingo, 13 de novembro de 2011

Estudo sobre: NIETZSCHE, FRIEDRICH. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral


Estudo sobre:
NIETZSCHE, FRIEDRICH. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral  (Aforismo 1).
In: Obras Incompletas. São Paulo, Abril Cultural, Col. “Os Pensadores”, 1978. 

Introdução
Debruçando-se sobre  Sobre Verdade e Mentira No Sentido Extra-Moral qualquer leitor, por mais desatento que seja, perceberá, de imediato, o porquê de Nietzsche ser conhecido como o filósofo que construiu sua filosofia à marteladas.   
Sobre Verdade e Mentira se compõe de uma sucessão de marteladas certeiras sobre a ordem estabelecida de sua época. Crítico impiedoso da moral vigente, em pleno pessimismo romântico, ao mesmo tempo em que coloca em dúvida a validade da linguagem como expressão adequada de todas as realidades e zomba da pretensão humana de fazer com que o mundo caiba em metáforas, é através da linguagem e das metáforas, abundantes em seu texto, e que usa com maestria, que exprime sua indignação. A linguagem é, sem dúvida, o martelo de Nietzsche.
Ao longo da leitura, deparando-se com enorme quantidade de alegorias e citações que acabam por emprestar ao texto um caráter enigmático, e cujo significado não parece importar a Nietzsche deixar muito claro para o leitor, este pode, em alguns momentos, sentir ímpetos de investigar a fundo a origem de cada imagem, tão instigantes que todas elas são.
É assim que se dá quando lemos “para fugir tão rapidamente quanto o filho de Lessing” e nos sentimos tentados a investigar toda a vida de Lessing para descobrir qual o motivo de seu filho ter sido obrigado a fugir rapidamente. Ou quando lemos: “repousa o homem, na indiferença de seu não-saber e como que pendente em sonhos sobre o dorso de um tigre” e nos atrevemos a elucubrar sobre a possibilidade do tigre representar os perigos aos quais o homem fica à mercê por ser ignorante, mas acabamos por nos curvar à nossa própria ignorância, imaginando ser a imagem do tigre proveniente de alguma obra literária lida por Nietzsche, uma vez que sabemos de sua imensa erudição. E quando ele cita as figuras sonoras de Chladni,  ou árvores que podem falar como ninfas, ou um deus que, disfarçado de touro, sequestra donzelas,  e tantas outras citações que provocam nossa curiosidade.
Embora com olhar extremamente crítico e analisando as ilusões humanas com ácida seriedade, Nietzsche não se furta a ser engraçado, como quando usa a expressão Cucolândia das Nuvens  ao final de um longo raciocínio em que conclui que o conhecimento não se constrói sobre a essência das coisas.
Em alguns momentos, durante a leitura, sentimos a forte presença do filólogo, como quando Nietzsche se estende em análises pormenorizadas sobre a criação e o uso das palavras e sobre a precariedade dos conceitos. Em outros, prevalece o filósofo, que escarnece da natureza mentirosa de sua espécie. Seja lá em que momento for, acima do filólogo ou do filósofo, está o homem Nietzsche, cuja característica mais marcante parece ser a coragem. Coragem de enxergar e de falar sobre o que vê, sem receio da crítica, sem uso de eufemismos, de forma incisiva e até trágica.  

Principais ideias do texto
Nietzsche inicia Sobre Verdade e Mentira imaginando uma fábula criada por alguém que estivesse em algum ponto longínquo situado fora da Terra, observando- a  e aos homens, com distanciamento suficiente para perceber com clareza a pequenez do ser humano diante da imensidão do universo.
Mais de cem anos antes, em Micromégas, Voltaire conceberia um extraterrestre com inteligência superior visitando a Terra e percebendo os absurdos humanos. Quase cinquenta anos depois, em Metamorfose, Kafka escreveria sobre um homem repentinamente transformado em inseto, vendo a própria família através do olhar de um inseto.
É de se imaginar que ao longo de toda a história da Filosofia pensadores fizeram e farão esse mesmo exercício: tentar escapar da perspectiva limitada de homem e do relativismo ao qual, afinal de contas, estamos fadados, para enxergar mais nitidamente o ser humano.  
É esse o mote que Nietzsche usa – um observador longínquo - para começar a falar sobre a insignificância cosmológica e cronológica da humanidade. Para ele, não há criação, o Universo sempre existiu e sempre existirá e o homem está aqui em caráter passageiro, sem qualquer missão mais importante que a de sua própria sobrevivência.  Vaidoso, o homem – em especial o filósofo - supervaloriza o conhecimento e ignora a superioridade da natureza sobre a inteligência humana, chegando à extrema ingenuidade de se acreditar centro do universo.
Para Nietzsche, o intelecto do homem, o mais delicado e perecível dos seres, o engana sobre seu próprio valor, uma vez que nada mais é do que um instrumento que o ajuda a manter-se vivo,  assim como chifres ou presas aguçadas garantem a sobrevivência dos animais. Se Pascal (1623-1662) se referira ao homem como um caniço pensante, o ser mais fraco da natureza, mas cuja dignidade residia no pensamento, Nietzsche iguala os homens aos animais e parece fazer pouco caso desse pensamento, atribuindo-lhe um caráter enganador que, pela dissimulação, conserva o indivíduo.  Seguindo essa linha de raciocínio, Nietzsche conclui que o homem, tendo na mentira sua garantia de sobrevivência, haverá de tornar-se mestre nisso. Regido pela vaidade, o homem vive mergulhado no sonho e na ilusão, à margem da verdade, e nenhum sentimento moral  o impede de enganar e deixar-se enganar o tempo todo. É ignorante e ignorante quanto à própria ignorância. 
Questionando se em algum momento o homem seria capaz de perceber-se completamente, como se estivesse em uma vitrina iluminada, Nietzsche afirma que o homem não sabe nada sobre si mesmo e seu orgulho o faz negar até sua natureza fisiológica, mantendo-o tão alheio à condição humana e tão imerso na ilusão, que vive à mercê dos perigos da vida.
Por precisar viver socialmente, até para manter-se vivo, o homem firma um tratado de paz baseado em leis criadas por ele mesmo, em que se estabelece o que é verdade e onde a linguagem terá papel fundamental nomeando as coisas e determinando uma uniformidade válida para todos, e ainda pretendendo que a vida caiba dentro dessa representação. Conclui-se daí que tudo é criação do homem e que este quer viver na ilusão.
Afinal - questiona Nietzsche – é a linguagem a expressão adequada de todas as realidades? E ele mesmo responde, afirmando ser impossível à linguagem captar as coisas em si. Ela serviria apenas pra designar as relações das coisas com os homens e isso se daria através do uso de metáforas. Atribuímos um nome a algo e, num movimento circular, determinamos que doravante esse algo será o nome que lhe atribuímos e passamos a crer nisso como verdade. A linguagem simplifica tudo, desprezando a riqueza das diferenças individuais. A desconsideração do individual nos dá o conceito, que não consegue abarcar totalmente o real.
A verdade seria, assim, figuras de linguagem que pelo longo uso e aceitação geral se solidificam, mas que não conseguem pintar um quadro da realidade que não seja pálido. Ao esquematizar o mundo, o homem o empobrece, pois o grande espetáculo da vida não cabe nas palavras.
E onde está, aqui, o impulso à verdade? – continua questionando Nietzsche.
A sociedade estabelece que dizer a verdade é mentir segundo as leis que ela mesma cria. O homem aceita as regras do jogo e ao se perceber aceito pela sociedade crê estar com a verdade. Sente-se honrado e digno de confiança e passa a desprezar as próprias impressões e intuições. É aí que o homem se diferencia do animal. E é através desse processo que cria um mundo que dita regras, que funciona baseando-se em hierarquias em que alguns menos afortunados subordinam-se a privilegiados, em que limites são impostos de forma rígida e em que o homem “honesto” é aquele que aceita sem questionamentos as regras do jogo.
Nesse ponto, há um retorno à questão do relativismo. Uma vez que o homem só consegue assimilar algo das coisas através de seu próprio entendimento, ele tem, em sua visão limitada, a ilusão de que as coisas são somente o que ele consegue captar delas. Tenta expressar isso em palavras e impõe as palavras como verdades, como se fossem as coisas em si. O homem diminui o mundo e a vida para que o mundo e a vida caibam dentro do pequeno quarto do seu entendimento. Seu desejo de verdade se dá em um sentido restrito. O homem quer e aceita as verdades que lhe sejam agradáveis. Ele fica feliz quando falsas verdades lhe fazem feliz. É aqui que percebemos claramente o envolvimento de Nietzsche com as ideias de Schopenhauer1. Porque  ele conclui que essa propensão do homem a deixar-se enganar encontra na arte a escapatória para  um mundo regular e rígido esquematizado a partir de uma realidade nada regular ou rígida. 
1) Filósofo alemão do século XIX (1788-1860), Arthur Schopenhauer  via a arte como um dos caminhos para o homem escapar da vontade e da dor que ela acarreta. A arte representaria um paliativo para o sofrimento humano.  Schopenhauer influenciou fortemente vários pensadores, entre os quais está Nietzsche.
Novamente a metáfora, agora manifesta no mito e na arte, entrará na vida do homem como uma possibilidade de aproximá-lo da felicidade.
Por fim, Nietzsche contrapõe o homem racional ao homem intuitivo, não defendendo, a princípio, um extremo ou outro, mas considerando o desejo de ambos de ter domínio sobre a vida. É então que demonstra toda a sua admiração pelo mundo antigo grego, citando a Grécia antiga como um exemplo de civilização em que o homem intuitivo e a arte se impõem, resultando em algo favorável à felicidade.
            Quanto ao homem racional, governado por conceitos, Nietzsche  sugere que, perante a infelicidade, só lhe resta mesmo o disfarce, no qual já é mestre.

            Últimas Considerações
            Ao terminar de ler Sobre Verdade e Mentira, é inevitável comparar Nietzsche a outros filósofos. E começamos a entender o porquê da enorme importância de sua filosofia no mundo todo.
            Platão olhou para cima e convenceu-se – e a outros – da existência de um mundo ideal, onde a virtude negaria nossa natureza material.  Descartes negou-se a ir à festa, fechou-se num quarto, se persuadiu de que tudo poderia ser uma grande  mentira e quis descrever a festa da vida sem estar nela. Nietzsche, longe de olhar para o céu ou de  negar a matéria, parece ter ido à festa e ter olhado bem dentro dos olhos de cada convidado, radiografando a alma humana. Detectou aí uma moral negligente, cujas intenções caminham muito longe de qualquer rota que possa levar à verdade.
            Husserl e Merleau-Ponty, depois de Nietzsche, com a fenomenologia, combateram, como ele, a ideia do homem ser o umbigo do universo e a pretensão de se ter uma visão de Deus. Também como ele,  sugeriram que olhássemos a nós mesmos com certo distanciamento, para que pudéssemos nos enxergar de forma mais realista. Perceberam que a vida se dá na relação e sempre dentro do mundo. Romperam com o pensamento clássico e entenderam o valor fundamental da arte para a vida humana.  
            Muito provavelmente, hoje, nesse exato  momento, há no mundo um sem número de filósofos lendo Nietzsche e se impressionando fortemente com suas ideias e com sua coragem. Criando sua própria filosofia, tendo-o como referência e inspiração.               
E, parece-me, é exatamente assim que deve ser.   

Ana Lucia Sorrentino  

 

domingo, 25 de setembro de 2011

Ilusões


            Estanquei alguns segundos em frente ao mural onde se lia: “Concurso de Poesia Fábio Teixeira”. A cena veio inteira: trinta anos antes, a menina que eu era, subindo ao palco, emocionada, pra receber um pequeno troféu por “Baú de Ilusões”.
A foto, no jornal da faculdade, com a melhor amiga, também vencedora, hoje já totalmente desbotada.
            Alguns versos, singelos, me vieram à mente, como se sendo escritos naquele momento:

            Nessa fragilidade de ser humano sensível
            fica, aos olhos de quem me veja, visível,
            um certo tremor, assim como o da paixão.
            É que eu vejo o baú quase cheio
            e me vem então um receio
            de nalgum dia não ter mais
            onde colocar tanta ilusão.

            Nos versos finais, meu consolo era a minha crença de que, nesse mundo, pra quem quer que estivesse vivo, um baú de ilusões nunca teria fundo.
           Entrei na sala de aula levando a lembrança da poesia e, com ela, o rolo do filme da minha vida, que se desenrolou ali, na minha frente. As ilusões que eu colocara naquele baú sem fundo provavelmente haviam se desvanecido pelo tempo, tão etéreas me pareceram naquele momento.
            O olhar pra trás não durou mais que um fiapo, tão desimportante me parece o passado agora. O que sobra dele é apenas o que de fato interessa: aquilo que sou.
            O canto de Cazuza me vem forte, como sempre, quando penso no tanto que nos iludimos, o tempo todo, em relação a tudo:
           
            O nosso amor a gente inventa pra se distrair e quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu.

            Acho mesmo que a garota de 18 anos tinha alguma sabedoria...
            Porque segui pela vida enfiando ilusões nesse baú.
            Que importa se elas saíram por baixo, se se perderam no ar, se hoje nem ao menos conseguem ser lembradas com nitidez?
            O que importa é que as tive.
            E quero aqui confessar que mantenho meu baú bem guardado, e continuo a usá-lo.
            E que o que me diferencia da menina de trinta anos atrás, é apenas o tanto de lucidez que hoje tenho em relação à natureza das ilusões que coloco ali. Hoje sei que, assim como Cazuza inventava seu amor, sou eu mesma que invento minhas ilusões. Deliberadamente. E é delas que me alimento. Mesmo sabendo de antemão que quando se forem, talvez eu vá imaginar que nunca tenham existido.



Analú

Imagem: www.deviantart.com

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Não sei do amor



Eu nunca sei
- e sei que jamais saberei -
que espécie de amor seria,
não abortado fosse,
o amor que, por covardia,
como engodo abortei.
E se a minha profecia
não se auto-cumprisse
e o verdadeiro engodo
fosse a minha covardia?
Que amor eu pariria?
Que espécie de amor seria? 











Analú 

Imagem: www.deviantart.com