segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Barba Azul - a história, na íntegra

Existe uma mecha de barba que fica guardada no convento das freiras brancas nas montanhas distantes. Como chegou até o convento, ninguém sabe. Uns dizem que foram as freiras que enterraram o que sobrou do seu corpo já que ninguém mais se dispunha a nele tocar. Desconhece-se o motivo pelo qual as freiras iriam guardar uma relíquia dessa natureza, mas é verdade. Uma amiga de uma amiga minha viu com seus próprios olhos. Ela diz que a barba é azul, da cor índigo para ser exata. É tão azul quanto o gelo escuro no lago, tão azul quanto a sombra de um buraco à noite. Essa barba pertenceu um dia a alguém de quem se dizia ser um mágico fracassado, um homem gigantesco com uma queda pelas mulheres, um homem conhecido pelo nome de Barba-azul.
Dizia-se que ele cortejava três irmãs ao mesmo tempo. As moças tinham, porém, pavor de sua barba com aquele estranho reflexo azul e, por isso, se escondiam quando ele chamava. Num esforço para convencê-las da sua cordialidade, ele as convidou para um passeio na floresta. Chegou conduzindo cavalos enfeitados com sinos e fitas cor-de-carmim. Acomodou as irmãs e a mãe nos cavalos, e partiram a meio-galope floresta adentro. Lá passaram um dia maravilhoso cavalgando, e seus cães corriam a seu lado e à sua frente. Mais tarde, pararam debaixo de uma árvore gigantesca, e o Barba-azul as regalou com histórias e lhes serviu guloseimas.
"Bem, talvez esse Barba-azul não seja um homem tão mau assim", começaram a pensar as irmãs.
Voltaram para casa tagarelando sobre como o dia havia sido interessante e como haviam se divertido. Mesmo assim, as suspeitas e temores das duas irmãs mais velhas voltaram, e elas juraram quem não veriam o Barba-azul de novo. A irmã mais nova, no entanto, achou que, se um homem podia ser tão encantador, talvez ele não fosse tão mau. Quanto mais ela falava consigo mesma, menos assustador ele lhe parecia, e sua barba também parecia menos azul.
Portanto, quando o Barba-azul pediu sua mão em casamento, ela aceitou. Ela havia refletido muito sobre a sua proposta e concluído que ia se casar com um homem muito distinto. Foi assim que se casaram e, em seguida, partiram para seu castelo no bosque.
- Vou precisar viajar por algum tempo - disse ele um dia à mulher.
- Convide sua família para vir aqui se quiser. Você pode cavalgar nos bosques, mandar os cozinheiros prepararem um banquete, pode fazer o que quiser, qualquer desejo que seu coração tenha. Para você ver, tome minhas chaves. Pode abrir toda e qualquer porta das despensas, dos cofres, qualquer porta do castelo; mas essa chavinha, a que tem nos altos uns arabescos, você não deve usar.
- Está bem, vou fazer o que você pediu. Parece que está tudo certo. Portanto pode ir, meu querido, não se preocupe e volte logo.
- E assim ele partiu, e ela ficou.
Suas irmãs vieram visitá-la e elas sentiam, como todo mundo, muita curiosidade a respeito das instruções do dono da casa quanto ao que deveria ser feito enquanto ele estivesse fora. A jovem esposa falou alegremente: - Ele disse que podemos fazer o que quisermos e entrar em qualquer aposento que desejarmos, com exceção de um. Só que eu não sei qual é o aposento. Só tenho uma chave e não sei que porta ela abre.
As irmãs resolveram fazer um jogo para ver que chave servia em que porta. O castelo tinha três andares, com cem portas em cada ala, e como havia muitas chaves no chaveiro, elas iam de porta em porta, divertindo-se imensamente ao abrir cada uma delas. Atrás de uma porta, havia uma despensa para mantimentos, atrás de outra, um depósito de dinheiro. Todos os tipos de bens estavam atrás das portas, e tudo parecia maravilhoso o tempo todo. Afinal, depois de verem todas aquelas maravilhas, elas acabaram chegando ao porão e, ao final do corredor, a uma parede fechada. Ficaram intrigadas com a última chave, a que tinha o pequeno arabesco.
- Talvez essa chave não sirva para abrir nada - Enquanto diziam isso, ouviram um ruído estranho - errrrrrr.
Deram uma espiada na esquina do corredor e - que surpresa! - havia uma pequena porta que acabava de se fechar. Quando tentaram abri-la, ela estava trancada.
- Irmã, irmã, traga sua chave - gritou uma delas - Sem dúvida é essa a porta para aquela chavinha misteriosa.
Sem pestanejar, uma das irmãs pôs a chave na fechadura e a girou. O trinco rangeu, a porta abriu-se, mas lá dentro estava tão escuro que nada se via.
- Irmã, irmã, traga uma vela. - Uma vela foi acesa e mantida no alto um pouco mais para dentro do aposento, e as três mulheres gritaram ao mesmo tempo, porque no quarto havia uma enorme poça de sangue; ossos humanos enegrecidos estavam jogados por toda parte e crânios estavam empilhados nos cantos como pirâmides de maçãs.
Elas fecharam a porta com violência, arrancaram a chave da fechadura e se apoiaram umas nas outras arquejantes, com o peito arfando. Meu Deus! Meu Deus!
A esposa olhou para a chave e viu que ela estava manchada de sangue. Horrorizada, usou a saia para limpá-la, mas o sangue prevaleceu.
- Oh, não! - exclamou. Cada uma das irmãs apanhou a chave minúscula nas mãos e tentou fazer com que voltasse ao que era antes, mas o sangue não saía.
A esposa escondeu a chavinha no bolso e correu para a cozinha. Quando lá chegou, seu vestido branco estava manchado de vermelho do bolso até a bainha, pois a chave vertia lentamente lágrimas de sangue vermelho-escuro.
- Rápido, rápido, dê-me um esfregão de crina - ordenou ela à cozinheira. Esfregou a chave com vigor, mas nada conseguia deter seu sangramento. Da chave minúscula transpirava uma gota após a outra de sangue vermelho.
Ela levou a chave para fora, tirou cinzas do fogão a lenha, cobriu a chave de cinzas e esfregou mais. Colocou-a no calor do fogo para cauterizá-la. Pôs teia de aranha nela para estancar o fluxo, mas nada conseguia deter as lágrimas de sangue.
- Ai, o que vou fazer? - lamentou-se ela. - Já sei, vou guardar a chave. Vou colocá-la no guarda-roupa e fechar a porta. Isso é um pesadelo. Tudo vai dar certo.
E foi o que fez.
O marido chegou de volta exatamente na manhã do dia seguinte e entrou no castelo já procurando pela esposa.
- E então, como foram as coisas enquanto eu estive fora?
- Tudo bem, senhor.
- Como estão minhas dispensas? - trovejou o marido.
- Muito bem, senhor.
- E como estão meus depósitos de dinheiro? - rosnou ele.
- Os depósitos de dinheiro também estão bem, senhor.
- Então, tudo está certo, esposa?
- É, tudo está certo.
- Bem - sussurrou ele - então é melhor devolver minhas chaves.
Com um relancear de olhos, ele percebeu a falta de uma chave.
- Onde está a menorzinha?
- Eu... eu a perdi. É, eu a perdi. Estava passeando a cavalo, o chaveiro caiu e eu devo ter perdido uma chave.
- O que você fez com ela, mulher?
- Não... não me lembro.
- Não minta para mim! Diga-me o que fez com aquela chave!
Ele tocou seu rosto como se fosse lhe fazer carinho, mas em vez disso a segurou pelos cabelos.
- Sua traidora! - rosnou, jogando-a no chão. - Você entrou naquele quarto, não entrou?
Ele abriu o guarda-roupa com brutalidade e a pequena chave na prateleira de cima havia sangrado, manchando de vermelho todos os belos vestidos de seda que estavam pendurados.
- Chegou a sua vez, minha querida - berrou ele, arrastando-a pelo corredor e pelo porão adentro até pararem diante da terrível porta. O Barba-azul apenas olhou para a porta com seus olhos enfurecidos, e ela se abriu para ele. Ali jaziam os esqueletos de todas as suas esposas anteriores.
- Vai ser agora!!! - rugiu ele, mas ela se agarrou ao batente da porta sem largar, implorando por clemência.
- Por favor, permita que eu me acalme e me prepare para a morte. Conceda-me quinze minutos antes de me tirar a vida para que eu possa me reconciliar com Deus.
- Está bem - rosnou ele - Você tem seus quinze minutos, mas prepare-se.
A esposa correu escada acima até seus aposentos e determinou que suas irmãs fossem para as muralhas do castelo. Ajoelhou-se para rezar, mas, em vez de rezar, gritou para as irmãs.
- Irmãs, irmãs, vocês estão vendo a chegada dos nossos irmãos?
- Não vemos nada, nada na planície nua.
A cada instante ela gritava para as muralhas.
- Irmãs, irmãs, estão vendo nossos irmãos chegando?
- Vemos um redemoinho, talvez um redemoinho de areia bem longe.
Enquanto isso, o Barba-azul esbravejava para que sua esposa descesse até o porão para ser decapitada.
- Irmãs, irmãs! Estão vendo nossos irmãos chegando? - gritou ela mais uma vez.
O Barba-azul berrou novamente pela esposa e veio subindo a escada de pedra com passos pesados.
- Estamos, estamos vendo nossos irmãos - exclamaram as irmãs. - Eles estão aqui e acabaram de entrar no castelo.
O Barba-azul vinha pelo corredor na direção dos aposentos da esposa.
- Vim apanhá-la - gritou ele. Suas passadas eram pesadas; as pedras no piso se soltavam; a areia da gamassa caía esfarinhada no chão.
No instante em que ele entrou nos aposentos com as mãos esticadas para agarrá-la, seus irmãos chegaram galopando pelo corredor do castelo ainda montados, entrando assim no quarto. Ali eles encurralaram o Barba-azul fazendo com que caísse até a balaustrada. E ali mesmo, com suas espadas, avançaram contra ele, golpeando e cortando, fustigando e retalhando, até derrubá-lo ao chão e matando-o afinal, deixando para os abutres o que sobrou dele.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Aquecimento pra leitura de "A Bendita da Chavinha"


Nesse momento estou escrevendo mais uma reflexão sobre o Barba Azul (sim, o chato!). Não tem jeito, é preciso.
Enquanto estava aqui, lendo e pensando sobre ele, me deparei com uma nota, a seu respeito, em Mulheres que Correm com os Lobos (Clarissa Pinkola Estés).
Achei que valeria a pena transcrever a nota aqui, porque ela, por si só, já diz muito, e sua leitura pode ser um bom aquecimento pra que, quando eu postar A Bendita da Chavinha, (que estou terminando), alguém já tenha pensado um pouco sobre o assunto, e, quem sabe, possa me ajudar na reflexão.
Lá vai:
No folclore, na mitologia e nos sonhos, o predador natural quase sempre tem seu próprio predador ou perseguidor. É o combate entre esses dois que afinal produz a mudança ou o equilíbrio. Quando isso não ocorre, ou quando não surge nenhum antagonista apreciável, o relato costuma ser chamado de história de terror. A ausência de uma força positiva que se oponha com sucesso ao predador negativo faz surgir um medo extremo no coração dos seres humanos.
Da mesma forma, no dia-a-dia, há uma quantidade de ladrões-de-luz e assassinos-da- consciência soltos por aí. Geralmente, uma pessoa predatória apropria-se indevidamente da seiva criadora da mulher, tomando-a para seu próprio uso ou prazer, deixando-a pálida e sem saber o que ocorreu enquanto o predador de certo modo vai ficando mais corado e animado. O predador deseja que a mulher não preste atenção aos seus próprios instintos para que ela não perceba o sifão que está preso à sua mente, sua imaginação, seu coração, sua sexualidade, ao que seja.

O modelo de renúncia à nossa vida essencial pode ter começado na infância, estimulado por quem se encarregava da criança e queria que o talento e beleza da criança suplementassem o vazio e a fome dessa mesma pessoa. Ter uma formação dessas dá enorme poder ao predador natural e nos prepara para ser uma presa para os outros. Enquanto seus instintos não voltarem a funcionar corretamente, a mulher criada dessa forma é extremamente vulnerável a ser dominada pelas necessidades psíquicas tácitas e devastadoras dos outros. Geralmente, a mulher com os instintos em ordem sabe que o predador está se insinuando por perto quando ela se descobre num relacionamento ou numa situação que faz com que sua vida se limite, em vez de se ampliar.


Vale a pena pensar um pouco sobre isso. ;)
Em seguida, vou comentar sobre a chavinha, espero participação, hein! ;)

Beeeijos!!! :)

Analú

domingo, 28 de novembro de 2010

Poesia - Alta Estação

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Tem gente dentro de mim.
Humanos, humaninhos, humanóides,
humanantes.
Gente das mais variadas.
Uma imensa gama de seres
das mais diferentes fornadas.
Completos, carentes,
bacanas, contentes,
sacanas, doentes,
risíveis,
possíveis,
incríveis.
Gente que anima
e que emociona, gente que ensina
e gente que não funciona.
Estacionam,
param, correm,
transitam.
Moram, lotam,
ocupam espaços,
me habitam.
Me aquecem o sangue,
dão frio na barriga,
disparam meu coração,
provocam intriga.
Me acalmam, serenam,
me fazem pensar.
Multiplicam neurônios,
fabricam sinapses,
produzem meus sonhos,
e dormem tranquilos.
Cada um em sua casa,
em sua cama,
seu sono profundo
de corpos cansados
e almas em férias.
Enquanto eu,
ponto turístico em pessoa,
fervilho, plena alta estação,
superlotada.
Nem venha!
Vagas esgotadas.

Analú (2007)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Coisas que as mulheres andam fazendo pelo mundo - alguém me ajuda a entender?




Ontem, logo cedo, me deparei com uma notícia que me pareceu estapafúrdia e que ficou voltando à minha cabeça durante o dia. Fiquei me perguntando se eu não entendera direito, e se a minha interpretação dos fatos estava prejudicada demais pela minha ignorância quanto à cultura e ao contexto da Ucrânia. Pode ser.
Segundo a notícia, lá, desde 2008, um grupo de ativistas femininas intitulado Femen, formado por universitárias de Kiev, defende os direitos humanos e das mulheres, protestando sem a parte de cima da roupa, no estilo topless.
O interessante é que o alvo principal dos protestos é a indústria do sexo, que hoje, na Ucrânia, um dos principais pontos de turismo sexual do mundo, atinge níveis assustadores, e corre o risco de crescer mais ainda, devido à crise econômica e ao alto índice de desemprego. Segundo a matéria, estima-se que 60% das universitárias recorra à prostituição para se manter.
Veja o paradoxo: para protestar contra a prostituição e o turismo sexual, a Femen criou a campanha A Ucrânia Não é Bordel, em que as garotas vão às ruas vestidas como prostitutas. Fui ao Google (é claaro! ) e, encontrando lá uma quantidade enorme de fotos dos protestos que essas mulheres fazem mostrando-se e assumindo posturas realmente de prostitutas, fiquei embasbacada. Olhando as fotos, é inevitável imaginar a Ucrânia como um imenso bordel a céu aberto. O mundo está vendo isso. Imagino que aqueles que têm interesse na indústria do sexo, nesse momento devem estar fazendo as malas pra ir pra lá.
Uma das estudantes explicou que na sociedade ucraniana a mulher tem um papel menor, e o lugar que lhe cabe é na cozinha ou na cama.
Diz a matéria:
Questionadas se o fato de usarem o corpo para chamar atenção não diminui o valor ou contraria o movimento, elas dizem não ver problemas.
“Nós começamos vestidas e ninguém reparava. Eu sou uma grande fã de tirarmos nossas roupas. É como conseguimos atenção da nossa plateia”, diz Shevchenko. “É tudo o que temos, nosso corpo. Nós não temos vergonha disso”, diz a estudante de jornalismo, Inna, 20, à Reuters.
Ou seja: cada um usa a arma que tem.
A Femen vem intensificando seus protestos, cada vez mais políticos, e o protesto da semana passada foi a favor da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte no Irã por adultério.
Lendo a matéria, percebe-se que as garotas não devem ter só o corpo, como afirmou a estudante, mas também inteligência, uma vez que se mobilizam politicamente e defendem causas justas.
Aí, fico me perguntando: será que a nudez é mesmo a única arma que essas mulheres têm pra se fazerem enxergar? Isso me soou tão estranho...
A garota também se queixa da sociedade ucraniana achar que lugar de mulher é na cozinha.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, elas poderiam protestar contra aqueles que pensam assim cozinhando e oferecendo-lhes um maravilhoso banquete em praça pública... Mas a impressão que tenho é de que não gostam de cozinhar tanto quanto gostam de ficar nuas.
Eu não sei. Será que essas meninas estão tão mergulhadas na cultura da prostituição, que, apesar de conseguirem enxergar o mal que há nisso, não conseguem vislumbrar qualquer alternativa à de usar seus corpos nus para obter algo? Será que elas não estão premiando aqueles a quem querem atingir? Será que um bando de mulheres vestidas como prostitutas andando pelas ruas da Ucrânia pode mesmo combater a indústria da prostituição? Ou elas estão fazendo um marketing gratuito a favor dessa indústria?
Nunca me passou pela cabeça, e eu não quero que passe, que um corpo nu de mulher pudesse ser usado como protesto ou agressão.
Que ninguém me acuse de pudica, porque, realmente, a nudez não é algo que me assusta. O que me assusta é esse uso abusivo da nudez em nome de qualquer coisa.
A nudez compartilhada com quem gostamos em situações de afetividade é algo divino.
Imagino que se eu viesse a usar meu corpo nu para protestar ou agredir, isso me faria muito triste...
Como me faz triste essa banalização da nudez feminina.
Há tantas formas de se chamar a atenção a uma causa... será que essas mulheres acreditam mesmo que seu corpo é a única coisa que têm?
Sou mulher, e fico me esforçando para não julgar aquilo que não entendo. Mas eu não vejo homens fazendo essas coisas...
Às vezes me parece que uma das grandes desgraças da mulher é não saber lidar direito com esse fascínio que um belo corpo feminino exerce sobre os homens.
Somos corpos, sim, mas somos mais do que isso, muito mais. Não é necessário que saiamos nuas às ruas para que nos enxerguem, porque, barganha por barganha, uma mulher que simplesmente cruza os braços pára tudo à sua volta. A qualquer mulher que queira protestar contra algo, eu sugiro: cruze os braços. Cruze os braços e não faça nada e observe o que acontece.
Às meninas da Ucrânia, talvez eu sugerisse que simplesmente fechassem as pernas.
Mulheres que se expõe como carne sem alma, em nome de algo que não o afeto, emprestam ao olhar dos homens um desdém triste de se ver, e que acaba atingindo todas nós.
Eu tenho saudade de um tempo que não vivi, mas sobre o qual leio ou escuto falar, em que um tornozelo de mulher à mostra causava frisson nos homens. Em que nossos corpos eram tratados como algo realmente precioso.
Afinal, alguém pode me elucidar? O que querem, de fato, as meninas da Ucrânia?

domingo, 7 de novembro de 2010

Poesia - Enfim, adulta












Perambulo entre realidade e fantasia
com destreza de menina levada.
Afinal, a realidade – disseram-me -
não passa de um truque.
Vivo uma como outra,
outra como uma
e vice-versa.
Não questiono mais a possibilidade
do virtual vir a ser real.
Não cobro, não espero, não minto.
Apenas aceito e sinto.
O que toco pode ser enganoso.
O intangível, às vezes, me faz feliz de verdade.
Flerto com a loucura bem de perto,
e loucamente preservo-me sã.
Brincar é pra maduros,
e o grande barato é estar sóbria
pra sentir tudo com intensidade...

Analú :)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Eu tenho muitamuitamuita vergonha disso tudo. :(

Eu não tenho por hábito escrever sobre política. A vivo em todos os minutos da minha vida, pois tenho consciência do quanto somos, realmente, governados pelos governos. Não se faz nada com liberdade total, e cada passo que damos, tem sempre, por trás dele, um monitoramento. Vivemos sob as consequências da má gestão governamental, em todos os sentidos. São leis mal feitas e mal aplicadas, tributos cobrados e mal administrados, descaso com a natureza e com nossa qualidade de vida. Descaso com nossa saúde e com nossa educação. Pouco caso, desmazelo, desrespeito. Dormimos e acordamos, nos alimentamos e trabalhamos, tentamos nos divertir e ter acesso a um pouco de cultura, tentamos ter uma vida amorosa, tudo isso de acordo com o que nossos governos nos permitem.
Por mais que estejamos momentaneamente bem, não há como estar totalmente bem quando o todo é extremamente problemático. Ou seja: não tem como. Mesmo que não queiramos, somos afetados.
Mas, não costumo falar sobre isso, talvez justamente por ceticismo, e não creio que seja possível defender um ou outro político, porque, ao longo da vida, fui percebendo que mal conseguimos pôr a mão no fogo por nós mesmos, que dirá por outros, e envolvidos em ambiente tão contaminado...
Vejo que as coisas não mudam. Vejo que os mesmos permanecem por infinitos mandatos, em cargos diversos, provavelmente pra que o descaramento não pareça tão descarado. Vejo que as tetas devem ser muito gordas, porque, por menos que alguns façam, o que menos lhes passa pela cabeça é abrir mão da mamata. Vejo que pelos ralos da corrupção escoa nosso suado dinheiro, e que trabalhamos muito mais do que deveríamos pra ter uma vida minimamente decente. E que, quando precisamos apelar para os serviços públicos, melhor rezar, porque a competência passa longe dali.
A péssima qualidade da nossa educação vem criando gerações incapazes de atuar positivamente no meio em que vivem. Incapazes de se revoltar seriamente contra as injustiças. Incapazes de brigar por seus direitos. A ignorância e impotência alimenta o sistema, e onde vamos parar?
Daqui a alguns dias seremos obrigados a votar. Sim, isso é uma democracia, mas somos obrigados a votar. Claro, porque quem, em sã consciência, se mobilizaria voluntariamente para apoiar alguém desse maravilhoso elenco que nos tem sido apresentado todos dias?
Eu não gosto de generalizar, mas nesse balaio de gatos fica muito complicado detectar se há algo que valha a pena.
E quero deixar aqui a minha indignação por sermos submetidos a essa enooorme vergonha.
O horário político me vexa profundamente. Há os que se apresentam como portadores de caráter ilibado, quando sabemos, há muito, que não o são. Há os que se gabam por terem ficha limpa, como se isso fosse virtude e não obrigação. Há os que já prometeram, tiveram inúmeras oportunidades, não cumpriram e continuam prometendo.
Mas, esse ano, há mais alguns que me fizeram sentir muuuita vergonha do que estamos vivendo. Não é possível que um povo tenha que aceitar o fato de que não é preciso se ter feito nada de bom nessa vida pra se merecer ser candidato a qualquer coisa. Não é possível que só o dinheiro determine quem possa estar lá, pleiteando um mandato. Não é possível que aja pessoas que pensem em votar em candidatos que nem ao menos alfabetizados são. E não é possível que eu tenha que ligar a TV e me deparar com gente pedindo voto e se dizendo abestada. Com gente que mal saiba falar e expor suas idéias. Com mulheres que se vestem como prostitutas, invadindo nossas casas e tripudiando sobre nossa inteligência. Com gente que se diz contra a pedofilia, mas demonstra, pela postura, algum tipo de psicopatia.
O que é isso??????????????????????????????
Tenho recebido longos e-mails de gente gabaritada extremamente revoltada com tudo. As pessoas repassam esses e-mails, numa tentativa de espalhar as informações e a indignação. Mas, infelizmente, percebo que longos textos de profundos conhecedores não atingem o povo, que não acessa a Internet, que não tem tempo para ler, e que, ao se defrontar com um texto mais intelectualizado, simplesmente desiste de entender.
Tenho visto alguns adolescentes defendendo a idéia da anulação do voto, numa tentativa de impugnação das eleições e renovação geral. Sinceramente, não acredito que isso fosse algo passível de se realizar.
Mas também, sinceramente, estou pensando seriamente em fazer isso.
E espero que esse meu texto, simples e indignado, atinja ao menos alguma meia dúzia de leitores, pra que eu não me sinta totalmente inútil nesse cenário tão vergonhoso.

Obrigada a quem teve a paciência de ler esse desabafo.

Analú

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Romance - Traições - parte XVIII

Caio apenas cochilava, quando se foram, e Raul achou que o menino poderia andar. Natália deixava o garoto se recostar nela, quase dormindo em pé. Raul abriu a porta do carro e ergueu o encosto. Natália ajudou Caio a se ajeitar no banco traseiro, enquanto Raul chamava o porteiro. O menino queria dormir a todo custo, e não ajudava em nada. Natália ajeitou seus pés, depois sua cabeça, e levou o encosto do banco de volta ao lugar. Então deu de cara com um verdadeiro emaranhado de cabelos loiros. A porta do carro estava aberta e a luz interna, ainda acesa, lhe permitiu ver com total clareza que eram cabelos loiros e longos. Antes de Raul voltar ao carro, conseguiu, atrapalhadamente, pegar os fios e, embolando-os, colocá-los no bolso da calça. Não sabia exatamente o que estava fazendo, nem pra quê. Numa fração de segundo considerou várias possibilidades. Sentiu-se mal por não conseguir ser mais direta e simplesmente perguntar a Raul de quem eram aqueles cabelos. Mas não conseguia raciocinar direito. Não conseguia falar. Não conseguia nem ao menos olhar pra ele, que acabava de entrar no carro. Não sentia nada. Queria chegar em casa e poder ver com clareza aqueles fios. Queria estar certa do que estava vendo. Talvez, então, se sentisse segura para perguntar qualquer coisa para Raul. Mas não queria ser ridícula, demonstrando qualquer desconfiança. Ficou calada. Quase não respirava. Raul também estava quieto. Sabia que a aborrecera, fazendo pouco caso do seu trabalho na frente dos outros. E não estava querendo brigar. Não se trocaram uma só palavra até chegarem em casa. Natália pediu a Raul que carregasse o garoto. Já adormecera. Raul não quis desagradá-la mais uma vez. Entraram, e ele colocou o garoto sobre a cama. Natália teve ímpetos de correr ao banheiro, para verificar o que tinha no bolso, mas se controlou. Não queria demonstrar que havia qualquer coisa errada. Tirou as roupas de Caio, vestiu-lhe um pijama, cobriu-o e deu-lhe um beijo no rosto. Ficou quieta, olhando para o menino. Não queria sair dali. Não queria verificar nada. Arrependera-se por ter guardado os fios. Queria ficar ali, quieta, ao lado do filho.

- Ei! - Raul a despertou - Não vem pra cama?

- Já vou.

Ela se levantou morosamente e se fechou no banheiro. Passou a mão pelo rosto, fechando os olhos. Respirou fundo, tentando pensar melhor. Ficou quieta por alguns instantes, sentindo uma mórbida expectativa. Enfiou os dedos no bolso apertado da calça jeans e procurou os fios. Achou-os com facilidade. Puxou-os, sentindo um certo nojo. Se encostou na pia, aproveitando a luz sobre o espelho, que iluminava melhor. Então puxou um fio. E o fio foi se desenrolando, ficando cada vez mais longo e parecia cada vez mais loiro. Brilhava, muito claro. Sentiu aflição. Puxou um pedaço de papel higiênico, embrulhou muito bem os fios e jogou o embrulho no lixo. Abriu a torneira e começou a lavar as mãos. Lavou, lavou, lavou até se cansar. Então arrancou as roupas e se enfiou novamente no banho. Não queria sair do banheiro. Não queria perguntar nada a Raul, correndo o risco de ouvir qualquer mentira. Desejou que ele adormecesse, pra que pudesse pensar com mais calma. Estava assustada com a própria reação. Jamais duvidara de Raul. Infidelidade, traição, eram palavras que não existiam em seu vocabulário. Sempre fora tão segura de si... Saiu do chuveiro, deu de cara com a própria imagem, no espelho, e se perguntou: - Por quê? Então sentou e sentiu uma agonia enorme. Por quê? - Insistia, pra si mesma. Era uma mulher comum demais... Por anos seguidos priorizara o bem-estar do marido, a educação do filho... Estivera tão preocupada com as dificuldades financeiras, com os problemas caseiros, que esquecera por completo de si mesma... Aprendera, cada vez mais, a ser uma boa dona-de-casa... Mas quem dava valor pra isso?

- Não. - Tentava se manter fria. -Alguns fios de cabelo loiro no carro de Raul não eram prova concreta de nada. Seria mais normal lhe perguntar quem entrara no carro, se dera carona a alguém... Mas Raul jamais dera carona a ninguém. E sempre lhe alertava para que também não desse... Então percebeu que estavam distantes demais. Porque se sentia completamente sem coragem para expressar qualquer sentimento. Teve um medo horrível de que ele lhe dissesse qualquer tolice, ou de que disfarçasse... Ficou um tempo imaginando de que outras formas aqueles cabelos podiam ter chegado lá. Estava sendo idiota. Não havia outras formas. Com certeza uma loura estivera sentada ao lado dele. E se tivesse emprestado o carro a algum amigo? Não. Isso era totalmente improvável. Jamais emprestara o carro a ninguém...

Estava fraca, vulnerável demais. Devia sair dali e sondar Raul. Perguntar-lhe o que fizera durante o dia, onde estivera... Devia dar chance a ele de lhe contar se estivera com alguém, em que circunstância...

Quando deitou ao lado dele, ele já dormia. Ficou olhando seu rosto imóvel. Tinha uma expressão totalmente inocente. Sentiu um certo pavor, pensando na possibilidade de estar enganada. Tinha tanta confiança nele que jamais pensara em nada parecido com aquilo. Ele era seu marido, seu companheiro, o pai de seu filho... Era o homem com quem compartilhava tudo... Era o homem que sabia de seus sentimentos mais íntimos... Se estavam distantes, nos últimos tempos, era devido àquela situação miserável... Era a falta de dinheiro, as dificuldades, o desemprego... Tinham tantos problemas práticos que há muito não falavam dos próprios sentimentos. Ela deixara de questionar o amor dele, deixara de ter dúvidas tolas em relação às coisas do coração... Tentaram unir suas forças pra superar a crise, pra aguentarem viver com tantas dificuldades... Mas ela se sentia tão carente e precisava tanto de outras coisas... Sentia tanta falta da paixão... Sentia tanta falta de namorar, de se sentir amada... Mas o culpava por isso tudo. Será que ele também se sentia assim? Mas, então, por que não a procurava mais, por que não se abria? Não... Não era possível. Seria ingratidão demais, se ele a estivesse traindo. Ou se estivesse pensando em fazer isso... Estavam com problemas há tanto tempo e ela jamais deixara de estar ao lado dele... Mas então percebeu que a recíproca não era verdadeira. Não sentia que ele estivesse sempre ao seu lado... Agora estava ali, dormindo como um anjo... Não sabia o que era uma insônia. Parecia estar sempre cansado, talvez saciado... Pensou em quantas vezes perdia o sono por desejá-lo. E ele dormia. Parecia não ter desejo algum. Sentiu uma vertigem. Fechou os olhos, colocou as mãos sobre o rosto. Estava enjoada. Tinha um peso no estômago. Seu mundo podia estar ruindo sem que ela estivesse percebendo. Não teria mais paz. Sabia que estaria sempre procurando pistas, evidências... Se transformaria nessas mulheres neuróticas que viviam à cata de perfumes, cabelos, marcas de batom... Não! - ordenou mentalmente a si mesma. Não podia cair nessa. Tinha que ser clara com ele. Tinha que lhe perguntar à queima-roupa. Mas... E se não fosse nada disso? Ia ofendê-lo. Poderia criar um péssimo clima entre eles. Estaria demonstrando uma fraqueza que não devia existir. Ele não a levaria a sério. A chamaria de tola. Diria, mais uma vez, que enquanto se preocupava com um emprego e com coisas vitais, lá estava ela com futilidades. Ele considerava "futilidades" seus desejos, suas angústias, suas dúvidas.

Teve dó de si mesma. De seu corpo prostrado, impotente. De sua covardia. De sua ansiedade. De sua fraqueza. Sentia-se fraca, fraca, minada. Ao seu lado estava o homem a quem dedicava todos os seus pensamentos, todas as suas ações, todo o seu tempo. Jamais estivera tão claro em sua mente o quanto se doava, o quanto vivia em função dos outros. Jamais estivera tão claro que tudo, absolutamente tudo o que fazia, era esperando alguma reação dele. Mas também jamais estivera tão claro que ele era um homem. Antes de ser seu marido, antes de ser o pai de Caio, era um homem. E talvez não fosse tão especial como ela sempre desejara que fosse... Talvez fosse um homem comum... Estava na rua, no mundo, se expunha muito mais do que ela... Era possível se apaixonar por alguém. Por que não? Algumas cenas de sua vida lhe passavam pela memória como uma retrospectiva. Como um resumo. Cenas que não compreendera, atitudes que não conseguira justificar... Suas ausências, seus atrasos, seu desinteresse. A falta de paciência com o filho. O nervosismo. A falta de diálogo.

Lembrou-se da semana anterior, quando haviam transado. Fora tudo tão rápido, tão desesperado... E estava sendo sempre assim. Sempre julgava que o desespero se devia à abstinência, porque quase não ficavam juntos. Agora via a coisa por outra ótica. Talvez, pra ele, aquilo fosse uma obrigação que tinha que cumprir de vez em quando. Talvez aquilo que considerava desespero não fosse desespero, mas desafeto...

Quis morrer. A idéia de que ele pudesse fazer amor com ela por pura obrigação, de que ele pudesse nem gostar muito daquilo, lhe doeu como um soco no peito. Se sentiu sufocar. Sentou-se, tentou respirar melhor. Olhou novamente pra ele. Não se mexera. Estava ali, quieto, sem poder imaginar tudo o que a apavorava naquele momento. Confiava nele como se confia numa mãe, num irmão. Será que teria que se considerar uma idiota por ter sido tão crente? Pensou em acordá-lo. Mas ele não conseguiria. Tinha o sono muito pesado. Não acordaria direito, não a levaria a sério... Foi até a cozinha, tomou um copo de água com açúcar. Talvez a ajudasse a dormir. Só precisava dormir bem para ficar com as idéias mais claras. Estava cansada demais. Era como se estivesse vendo tudo através de uma lente de aumento. As coisas estavam se agigantando, e a dominavam... Voltou pra cama, deitou, sem se deixar encostar nele, e procurou dormir. Pediu a Deus que lhe permitisse acordar melhor, no dia seguinte. Fechou os olhos e deixou aquela tristeza toda invadi-la. Dormiu em minutos, enrolada como um caracol.

(Trecho do romance Traições, de Ana Lucia Sorrentino, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br)

sábado, 11 de setembro de 2010

Confusões Tecnológicas




              A carência vinha batendo tão forte, que qualquer ambiente parecia promissor. Uma amiga havia recebido uma cantada avassaladora na fila do açougue. Por que não? Estar sempre preparada passou a fazer parte de uma estratégia de otimização do aproveitamento de oportunidades. Nunca mais saiu de rasteirinha, cara lavada, cabelo desgrenhado. Chapinha, rímel e salto alto tornaram-se itens imprescindíveis na composição do visual dia a dia. Assim, sempre: montada.
       A internet já provocara um certo desencantamento... O perambular constante pelas várias redes de relacionamento esvaziara a ilusão de que podia haver gente interessante e bem intencionada no espaço virtual. Mais fácil ir pra Marte... :(
        Mas... ainda restara Maurício. A simples lembrança da possível existência de um exemplar masculino singular cheio de qualidades, já a fez esboçar um sorriso no rosto pensativo. Puta cara legal... Interessado, constante, solícito... E de perfil diferenciado. Palestrante, frequentador de Budismo e Yoga, apreciador de bons vinhos. Até de gastronomia entendia. Se a imagem que vendia correspondesse razoavelmente à realidade, esse homem realmente devia valer a pena... 
            Excetuando o fato de que seu Face parecia uma vitrine um pouco elaborada demais, nada mais nele lhe provocava desconfiança. Nunca encontrava nada que chocasse em seu mural. Uma xavequeira ou outra fazendo alguma gracinha na óbvia intenção de tornar público algo que, talvez, em algum momento, tivesse rolado, ou não, era a coisa mais normal do mundo. Ter os recados abertos a quem quisesse ver parecia sinal de transparência... 
           Quem sabe, qualquer hora criaria coragem pra lhe mandar um torpedo? Torpedos quebravam um galhão...  numa ligação normal, uma certa insegurança na voz podia delatar fragilidade, e resultar em fracasso. Um torpedinho inocente e, se tudo desse certo, ele responderia positivamente. Se não respondesse, restaria a dúvida quanto ao recebimento da mensagem. Isso era sempre um consolo. Melhor o benefício da dúvida do que a certeza de um NÃO em alto e bom som. O risco parecia bem menor. Enfim, não morreria se não desse certo.
            Estava assim, nessas divagações, Em Carne Viva e o maravilhoso Mark Ruffalo na mão, numa fila emperrada, dentro da Blockbuster, e um esbarrão estabanado leva DVD, pipoca, chocolate, tudo pro chão. Pra aliviar o desconforto, a inevitável pergunta: 
             - Esse filme é bom? 

            É assim que, numa fila, não de açougue, mas de locadora, descobre um sorriso lindo de um outro... Maurício??? Ela não consegue deixar de rir, surpresa com a louca coincidência. 
            Pensava em um, esbarra em outro... uma troca de opiniões sobre os respectivos filmes, uma semelhança de gostos, e caminham juntos pro estacionamento. Tanta empatia, celulares na mão, por que não? Cria coragem e pede o número dele. E não é que ele dá? :)

            Voltou pra casa pensando. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. O outro Maurício era todo especial, mas amarrado. Já haviam se falado tantas vezes, o xaveco rolava solto, mas ele não se atrevia a nada. Quem sabe esse, encontrado assim, num susto, fosse mais promissor? Tão simpático...
            De repente, o torpedo tão ensaiado pra um acabaria sendo mandado pro outro. Afinal, gostoso é o que rola tranquilamente, não o suado, como apregoam por aí.
            Em casa, num acesso de solidão e ousadia, pegou o celular. Nova mensagem. Resolveu ser objetiva: - Maurício, vem me ver! :) Não pensou duas vezes. Apertou "enviar", meio apavorada, e já era. Agora era esperar. Surpreendentemente, a resposta veio em menos de um minuto! - Um chopp à noitinha? Arregalou os olhos, desacreditando em tamanha objetividade. Esse cara devia ser descomplicado! Milaaagre! Combinaram, através de torpedos, a hora e o local. Ele a pegaria em casa mesmo, assim já conheceria o território dela.
            A aflição no estômago, o ritual do banho, depilação (nunca se sabe), o perfume, o espelho... a insegurança, a espera, a campainha!!! 
            Abre a porta e dá de cara com um enorme maço de flores, que a desestabiliza. Deusdocéu, que homem é esse? Pega as flores, agradecendo, e enxerga que homem é esse: é Maurício, o ... Maurício!!! O do Face, e não o da locadora!!! Na ânsia por superar a insegurança e ser ousada, quis ser rápida e mandou o torpedo pro Maurício errado! Que coooisa!!!
            Agora era respirar fundo e não deixar o pobre perceber a confusão. Ir em frente, apesar do engano. Bem... se Deus escrevia certo por linhas tortas, quem sabe essa não era mais uma das suas? O jeito era curtir. 
            Choppinho, conversa, sorrisos, insinuações. A firmeza da mão cheia de vontade, ensaiando umas investidas mais ousadas. Um beijo de leve no rosto, um outro no pescoço, um roçar dos lábios na orelha, arrepios, arrepios, arrepios... Finalmente, um beijo invasivo e atrevido como ela tanto gosta. A mão dele se apoiando no joelho dela, escorregando de leve pra caminhos perigosos... e um alarme interno soa, como uma sirene mesmo, barulhenta e assustadora, dentro do cérebro: o que é iiiiisso, menina???? Se recompõe, diz já ser tarde e pede que ele a leve direto pra casa. Fazer-se de difícil é básico pra continuidade de um primeiro contato. Inventa um compromisso no domingo de manhã, difícil de colar, mas útil. Despedidas, um gostinho de quero mais no ar, uma intenção de ficar, mas uma impossibilidade: ela tem filhos, devem chegar jájá, melhor que se vá.
             Esse charminho final anima uma vontade louca de deixarem algo marcado. Mas é mais charmoso ainda deixar a dúvida no ar. Um beijo de verdade, dois ou três dorme com Deus, e ela fecha a porta, atrás de si, ainda meio tonta. 
             No quarto, tenta imaginar por onde andaria o outro Maurício. Se o encontro tivesse sido com ele, teria sido melhor? Difícil... noite interessante aquela. Começara com um erro crasso, seguira com flores, gentilezas, atrevimentos, e a constatação de que, de fato, esse Maurício parecia ser o que aparentava. Agradabilíssimo ele... 
             O gostoso da novidade e alguns flashes dos olhares e toques e sensações a levaram no colo prum soninho adolescente, sem culpa nem dor na consciência. Há tempos não dormia assim, foi o que pensou, já despertando, a lembrança do final da noite vindo forte à mente. 
             No celular, nenhum torpedo. O café da manhã atropelado por uma vontade maluca de ligar o computador pra checar os recados. Ligar o computador antes de tomar café da manhã caracteriza sintoma de loucura. Agora se segurava, mas com muito custo... 
             Enfim, página de recados: nada. Mensagens: uma nova mensagem! :) Friozinho na barriga. Boa essa adrenalina, já tava com saudades... 


"Marina, tudo bem? Você não me conhece, mas eu sou namorada do Maurício, que saiu com você ontem à noite. Estou escrevendo pra te alertar: ele tá me enganando, mas ele tá te enganando também!!! :( "

             Um estremecimento, uma aflição, e... facebookcídio na veia!!! Argh!!! Pelo menos por uns quinze dias... Desliga o computador e resolve sair , ver gente de verdade, pegar um sol na cabeça. Durante a caminhada, aproveita pra deletar Maurício dos contatos do celular. Certifica-se de não fazer confusão. 
             Quem sabe, mais uns dois dias, já recuperada, resiliente que é, não manda um torpedo pro Maurício certo? Será que ele tem Face???



                                                                                              Analú

domingo, 1 de agosto de 2010

Poesia - Cuidado, Meninas (Alento, 2007)












Cuidado, meninas,não nasçam na Índia.
Lá meninas bonitas
não são bem-vindas.
Cuidado, meninas,
não nasçam na Índia.
Lá o colo e o peito da mãe
não são certos.
Lá pode-se morrer ainda feto.
Cuidado, meninas.
Lá vocês são o dote, a despesa, o fardo.
Seu choro sentido de fome
Será abafado com toalhas molhadas,
asfixia, morte.
Cuidado,meninas.    
Seus pais querem o Nirvana,
não há lugar pra meninas...
Fujam, fujam da Índia, meninas,
antes mesmo de nascer.
Unam-se num movimento emigratório
e deixem a Índia
à mercê da própria loucura
e esterilidade.

                                                         
Ana Lucia Sorrentino em Alento(2007) - coletânea de poesias, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br

sábado, 3 de julho de 2010

A "Trivialização da Violência", ou "O Aprendizado da Impotência"




Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés conta:

"No início da década de 1960, alguns cientistas realizaram experiências com animais para tentar determinar algo a respeito do "instinto de fuga" nos seres humanos.

Numa das experiências, eles fizeram uma instalação elétrica na metade direita de uma grande jaula, de modo que um cão preso nela recebesse um choque cada vez que pisasse no lado direito. O cão aprendeu rapidamente a permanecer no lado esquerdo da jaula.

Em seguida, o lado esquerdo da jaula recebeu o mesmo tipo de instalação, que foi desligada no lado direito. O cão logo se reorientou, aprendendo a ficar no lado direito da jaula. Então, todo o piso da gaiola foi preparado para dar choques aleatórios, de tal modo que, onde quer que o cão estivesse parado ou deitado, ele acabaria levando um choque.

Ele, a princípio, aparentou estar confuso e depois entrou em pânico. Finalmente, o cão desistiu e se deitou, aceitando os choques à medida que surgissem, sem tentar fugir deles ou descobrir de onde viriam. No entanto, a experiência não estava encerrada. No próximo passo, a jaula foi aberta.

Os cientistas esperavam que o cão saísse dali correndo, mas ele não fugiu. Muito embora pudesse abandonar a jaula quando bem entendesse, ele ficou ali deitado recebendo os choques aleatórios.

A partir dessa experiência, os cientistas levantaram a hipótese de que, quando um animal é exposto à violência, ele apresentará a tendência a se adaptar a essa perturbação, de tal forma que, quando a violência pára ou ele tem acesso à liberdade, o instinto saudável de fugir é extremamente reduzido, e em vez de escapar, o animal fica paralisado.

Em termos da natureza selvagem das mulheres, é essa trivialização da violência, assim como o que os cientistas subsequentemente denominaram aprendizado da impotência, que não só influencia as mulheres a ficar com parceiros alcoólatras, patrões exploradores e grupos que se aproveitam delas e as importunam, mas também faz com que elas se sintam incapazes de se erguer para apoiar aquilo em que acreditam profundamente: sua arte, seu amor, seu estilo de vida, sua preferência política."

Pergunto: Você acha que perdeu seu poder de lutar pelos elementos da alma e da vida que mais valoriza?

Vamos conversar sobre isso? Se não tivermos coragem para falar sobre essas questões, elas jamais se resolverão...

Analú

domingo, 6 de junho de 2010

Poesia - Percebi - (Alento, 2007)

Esse orgulho bobo...
Que pequena eu sou...
Tanta coisa longe,
tanta coisa que passou...
Já não dá mais pra entortar a boca,
virar o rosto,
torcer o nariz.
Já não há tempo nem motivo
pra deixar de ser feliz.

Ana Lucia Sorrentino em Alento(2007) - coletânea de poesias, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br

domingo, 16 de maio de 2010

Poesia - Pública Vida Privada (Alento - 2007)

 
Tudo, tudo o que faço ecoa.
            Tudo repercute, tudo grita,
            tudo se espalha.
            Ensaio um psiu!, que de nada adianta.
            Meus segredos voam por aí,
            de boca em boca.
            Sou tão sozinha, e no entanto,
            tão devassada...
            Não dá. Não dá pra transgredir em nada.
            Mesmo que queira,
            mesmo que ninguém perceba,
            estou sendo sempre vigiada
            (quando não flagrada).
            Meus telefonemas são listados,
            meus e-mails são checados,
            minha gasolina computada,
            meu comportamento censurado.
            Os canhotos dos meus cheques são vistados,
            os extratos conferidos.
            E eu, com feridas no meu substrato,
            vou levando a vida convertida.
            Tentando, de certa forma,
ser até mesmo divertida.
E conseguindo, muitas vezes...
Meus reveses logo se agigantam.
Minha vida, de privada, não tem nada
e meu lado malandro
teve que ceder lugar
a um bom senso manco.
Mantenho o nível...
Mantenho o nível...
É o que querem de mim.
E ninguém se importa
se estou não a fim.

Ana Lucia Sorrentino em Alento(2007) - coletânea de poesias, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br

quinta-feira, 11 de março de 2010

Abrindo meu Diário IX - reflexões para Desromance (2007)

Julho/2007

Estou quase tendo um treco de tanta raiva. Há momentos em que a realidade despenca na minha cabeça de forma tão devastadora, que chorar não basta. Me dá vontade de chutar, xingar, sair gritando pras mulheres não fazerem a merda que fiz, pra não se descuidarem de si mesmas, porque só quem cuida da gente é a gente mesmo!

A vontade de escrever agora anda me acompanhando direto, acho que isso faz parte de voltar pra casa. Acho não, tenho certeza. Assim como tomar longos banhos, me trancar no quarto antes de dormir pra poder ler sossegada, ouvir minhas músicas preferidas cantando e dançando, e outras tantas coisas que tenho redescoberto, e que havia abandonado, por não conseguir conjugá-las ao meu casamento.

Sei que fico, desde a hora em que acordo, paquerando o computador, mas não dá, porque eu não tenho empregada, então me sinto na obrigação de fazer todas as obrigações domésticas antes de sentar pra escrever, que é uma obrigaçãozinha menor, é claro, porque ninguém me ensinou que a minha prioridade deveria ser sempre eu mesma. Estou aprendendo, levando porrada, mas é difícil largar os antigos hábitos sem ligar pra torcida. É claro, porque se eu sentasse para escrever com a casa bagunçada pareceria relaxo e uma boa mãe de família deve saber quais são suas obrigações obrigatórias. Manter a casa limpa e arrumada e o povo todo alimentado é crucial, sob pena de não conseguir mais ter paz na vida! Quando termino de ajeitar a casa e de cuidar das roupas, preciso fazer o almoço. Quando terminamos de comer, preciso limpar a cozinha. Quando termino de limpar a cozinha, muitas vezes tenho que ir ao mercado, ou ao banco, ou à farmácia ou ao raio que me parta. Então cuido do lanche da tarde, e do jantar, e do filho que levo e pego na escola, e sei lá mais do quê. Quando percebo, estou exausta, não consegui nem tomar banho e não sentei no computador nem ao menos pra ler meus e-mails. :(

Mas... Um dia ou outro, entre uma tarefa e outra, consigo uma brecha e sinto vontade de escrever. Quem sabe escrevendo me sentiria menos sufocada, quem sabe nalgum dia eu consiga publicar um livro e finalmente ganhar um dinheiro só meu, quem sabe talvez eu conseguisse ajudar outras mulheres tão ferradas quanto eu... Ufa! Quem sabe? Aí vou lá, no quarto do meu filho e ele está no msn conversando com os amigos. Tenho que pedir licença com muito jeitinho, esperar que ele termine o papo, se despeça, pra então fazer a gentileza de me ceder alguns minutinhos de uso em seu amigo preferido. É claro que ele fica me rodeando, esperando que eu termine logo o que quer que esteja fazendo, pra que ele volte rapidamente ao seu posto. Não consigo escrever uma frase sem ser monitorada.

Hoje não tive brecha. Fiquei pra lá e pra cá com as coisas de casa o dia todo. Levei meu filho pra escola, voltei e meu outro filho ainda não tinha voltado do trabalho onde, diga-se de passagem, fica o dia todinho criando na frente de uma tela de computador. Me vi sozinha em casa, e fiquei animada. Corri pra pegar minhas anotações dos últimos dias, que faço num caderno, antes de dormir. Pensei em organizá-las, quem sabe começar a montar um livro de poesias... Coloquei alguns textos em ordem lógica, e abri um arquivo novo. Pronto! Meu filho chegou do trabalho! Fez pouco caso de uns pãezinhos que eu havia feito com todo o amor do mundo, jogou-se na cama ao meu lado e ligou a TV com o som bem alto, pra curtir uma música agitada na MTV. Fiquei agoniada. Me ajeitei na cadeira. Pedi pra abaixar um pouquinho, com todo jeitinho (de novo!) ... Percebi que ele estava a fim de tirar um cochilo, e sugeri: - você bem que podia ir dormir na minha cama, assim eu podia escrever um pouquinho sossegada... (não estranhe, o tamanho da letra é condizente com a minha delicadeza pra falar com ele).

Ele me respondeu, tremendamente irritado, que era i n a c r e d i t á v e l (essa é a delicadeza dele!) trabalhar o dia todo e chegar em casa e não ter direito de ficar em seu próprio quarto!

– Mas, filhinho...(a tonta) o computador está no seu quarto, e se você quer ver TV, no meu quarto dá pra você ver... Ele não fez o menor movimento para demonstrar que se abalaria de sair de seu espaço pra me dar chance de escrever.

Então, é claro, minhas carótidas começaram a inchar. Parece que as lágrimas sobem por elas (será que minam do coração?) até chegar aos olhos, de onde deveriam sair em enxurrada, mas eu, controlada que sou, faço uma manobra auto-mutiladora e as engulo, na verdade a seco. Aliás, existe uma teoria que denomina essa situação de engolir sapo. Acredito, sim, que essa enxurrada de lágrimas que seca de repente transforma-se num sapo que a gente engole e que, depois de algum tempo aparece nos mais diversos cantinhos do nosso corpo em forma de nódulos. Eu já tive que passar por uma cirurgia pra tirar um. Bem, o fato é que chegaram, em milésimos de segundos, a meu cérebro, um número infinito de informações que tentavam me fazer compreender porquê cheguei a essa situação aviltante.

E a informação que mais gritava na minha cabeça era a de que eu havia me abandonado em nome da família, e que, enquanto eu passara anos trabalhando em prol do bem-estar de todo mundo, enquanto eu criara condições para que todos pudessem crescer, estudar, trabalhar, se desenvolver para virem a se tornar independentes, eu simplesmente esquecera de ter vida própria! Em nosso orçamento familiar, apesar de em muitos períodos estarmos bem tranquilos, nunca havia verba para que a idiota aqui pudesse fazer algum curso para se garantir. Teimosa que sempre fui, dava uma de autodidata e nisso o computador me ajudava incrivelmente. Só que, o computador, que, a princípio era meu, à medida que meus filhos foram crescendo, foi se tornando só deles, a tal ponto que hoje preciso ficar mendigando um espacinho nele pra mim! Eu escrevia, eu desenhava, eu me informava e adorava usá-lo! Eu nunca fui paga pra fazer o serviço de casa, eu nunca tive meu próprio dinheiro nem liberdade pra usar o do meu marido, eu precisava ganhar um computador! Mas ninguém nunca se preocupou com isso, mesmo que eu tivesse demonstrado minha necessidade claramente! BURRA! BURRA BURRA BURRA BURRA! Aaaaaaaargh! :(

Por um golpe de sorte, meu ex havia deixado seu notebook aqui. Agarrei-o, levei para o meu quarto, e o liguei. Logo depois, o dono do precioso bem passou por aqui e, num acesso de caridade, me mostrou que dava até pra usar internet no meu quarto! :) E me emprestou o notebook, porque ele já tem um computador novo em sua casa!!! Ohhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!

E aqui estou eu, desabafada! É muuuuuuuita sorte, não é? ;)

(Ana Lucia Sorrentino em Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser...) ;)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Poesia - Viver?

Viver invejando
gregos e troianos,
se conformando em viver
sempre por baixo dos panos.
Viver escondendo as ânsias,
na inútil busca do recato,
quando a lascívia quer se mostrar
como vendaval,
em puro desacato à sensatez.
Viver escondendo a própria loucura,
cura da monotonia,
razão de orgulho e paixão.
Viver sendo a ideal sem-graça
quando meu real disfarça
pra não chocar os frustrados...
Será viver?

Ana Lucia Sorrentino em Alento(2007) - coletânea de poesias, à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Poesia - Meia-Noite (Alento, 2007)

É meia-noite
e os sinos não tocaram.
Eu não tive nenhum pressentimento
nem compartilhei com alguém
a transmissão de um pensamento.
Eu não temi,
não tremi,
não estremeci.
É meia-noite e é como se fossem duas da tarde.
Eu não apaguei as luzes,
não fechei os olhos,
não dancei uma valsa.
Não me abracei a ninguém.
É meia-noite
e os sons continuam diurnos,
indiscretos.
Ninguém sussurra ao meu ouvido,
ninguém me beija,
ninguém me encara,
ninguém me ama.
É meia-noite e ninguém chora,
ninguém geme,
ninguém cala.
É meia-noite e o lobisomem não veio.
Nem o vampiro.
É meia-noite
e nenhum suspiro forte
pode cortar o silêncio,
porque nem ao menos
há o silêncio próprio da hora.
É meia-noite e eu escrevo,
como em tantos dias, tantas manhãs
ou madrugadas.
Não há o clarão da lua,
não há uma silhueta de mulher nua,
não há nada.
É meia-noite
e eu não estou apaixonada.

Ana Lucia Sorrentino em  Alento(2007) - coletânea de poesias,  à venda através do e-mail analugare@yahoo.com.br

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Abrindo Meu Diário VIII - reflexões para Desromance

Hoje assisti Brilho eterno de uma mente sem lembranças ( http://www.youtube.com/watch?v=w4_ce4MyNcc ).  Aliás, assisti ontem, hoje fiz questão de assistir de novo. Me apaixonei pelo Jim Carrey. Aquele aloprado de todos os outros filmes sumiu e apareceu o cara mais doce do mundo! E que história incrível! É tão bom quando a gente assiste um filme inteligente e romântico... Achei tudo demais. O filme é impregnado de charme do início ao fim... E a música? Peguei-o na locadora porque li uma entrevista no jornal em que Marina Person dizia que esse era o filme com final feliz mais feliz que ela já vira. E o final é realmente incrível! É maravilhoso pensar que duas pessoas que sabem que já se conheceram e já viveram um relacionamento que já se desgastou e que já os fez sofrer optem por viver seu amor novamente, porque sabem que vale a pena! É o cúmulo do romantismo! Comentei isso com meu filho, e ele me perguntou se eu namoraria novamente com o pai dele. Tristemente, disse-lhe que não. Já era de madrugada, e não era momento pra eu estar enumerando os motivos que tenho, e ele também não gostaria disso. Mas, no fundo, fiquei triste por não querer viver esse amor de novo. Porque no começo foi bom... Pena que tenhamos deixado durar demais... De qualquer forma, a coisa pode dar certo na ficção porque as lembranças foram apagadas, então a mente pode ter esse brilho eterno. Na vida real, é impossível, por mais que queiramos, apagar tudo. Os acontecimentos desagradáveis vêm em flashes e acabam tirando o brilho de tudo. É isso. Minha mente está opaca. E, infelizmente, sei que tenho que trabalhar isso, pra deixar de lado essa crença que adquiri de que todo relacionamento vai ter o mesmo fim. O fim da paixão, o desgaste da convivência, o aborrecimento, o desejo de liberdade. Preciso achar algum produto milagroso que dê polimento em meus neurônios...

(Ana Lucia Sorrentino em Desromance, a ser publicado nalgum dia, se Deus quiser...)