sábado, 7 de março de 2015

Querido Bauman:



É movediça a zona em que patino.
Mar aberto, sem cais pra ancorar.
Não há passado que valha
como semente de qualquer destino,
não há valor que sustente
o que já não tem como se sustentar.
O tempo ido não deixa rastro
nem há experiência duradoura
que possa nos servir de lastro.  
O hoje é pressa, instante, desatino...
Não há mais um olhar calmo,
um ouvido atento,
uma conversa que perdure
para além de um momento.
Tábua de salvação feita de fé e força,
me agarro no que me resta de sentimento
e resisto, valente, à deriva.
Mas por dentro me arrebento.

                                                          Ana Lucia Sorrentino













segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Menos, menos...












Eu quero que o produto interno
deixe de ser bruto
e que a teoria se dane,
pois há muito que a verdade está de luto
e que o mundo entrou em pane.
Eu quero que os corruptos afundem
nesse imenso mar de lama
e que chafurdem lá no inferno,
atolados em sua má fama.
Que a grande mídia se cale
num milênio de silêncio
em respeito à própria morte
e que não tenha mais voz
nem para lamentar
sua amarga e triste sorte.
Que suas crias indecentes,
papagaios do apocalipse,
como num passe de mágica
entrem em total eclipse.
Que os intervencionistas
sofram uma intervenção
e fiquem impossibilitados
de semear guerras
em alheios arados.
Que caiam os muros,
que se abram as fronteiras,
que se distribua a riqueza
e que cessem as asneiras.
Que prevaleça então
a humilde constatação
de que todo orgulho é vão.  
Porque, no crucial da vida,
estamos desgraçadamente sós
e, vaidades à parte,
nos nutre um prato de comida,
um bom banho de sol,
um sono sem peso na consciência
e  o amor, na sua mais pura inocência.


                                               Ana Lucia Sorrentino

O que a TV está fazendo com você - desenhando:



            Certa vez um amigo me contou que, quando da chegada da TV ao Brasil, ocasião em que Assis Chateaubriand - fundador da TV Tupi e autor da célebre frase "se a lei está contra mim, vamos ter que mudar a lei" - instalou vários aparelhos de TV pela cidade, para plantar na população o hábito de assisti-la, seu pai, homem de visão, profetizou que aquele aparelho "imbecilizaria as pessoas".
            Ouvi, desse mesmo amigo, pela primeira vez, uma historinha, acredito que hoje já bem conhecida, do sapo que, mergulhado em água cuja temperatura se eleva gradualmente, não percebe a mudança gradual e acaba morrendo cozido. E meu amigo me disse que, em relação a essa história, seu pai dizia que um dos piores problemas do ser humano era a "acostumação". O ser humano se acostuma com tudo e, infelizmente, o que talvez possa parecer algo positivo, muitas vezes é a sua desgraça.
            Creio que o objetivo do empenho de Chateaubriand em semear o vício da TV no Brasil nunca tenha sido outro senão, em última instância, o da obtenção de lucros. Ele pensava em fazer as pessoas se viciarem em um veículo que, por sua vez, plantaria nelas o desejo de possuir tudo o que fosse anunciado e as transformaria em consumidores vorazes. Quanto mais se consumisse o que era anunciado na TV, mais as emissoras lucrariam com a supervalorização do minuto comercial. Assim, aquele aparelhinho inocente que prometia trazer informação e entretenimento, na verdade, trazia um tipo muito específico de conteúdo, elaborado para vender produtos e semear ideologias. Lembro-me bem de, quando adolescente, ter sido alertada sobre as mensagens subliminares dos programas. Era preciso estar atento, porque, além da propaganda explícita, havia um merchandising que nos afetava enquanto assistíamos, distraídos, a uma cena romântica de novela, ou a um seriado qualquer. O jogo das mensagens subliminares era mais desonesto do que o da publicidade dos intervalos, porque atuava em nós sem que tivéssemos consciência disso. Os jovens de hoje nasceram sabendo o que é mensagem subliminar. E elas são, agora, tão ridiculamente escancaradas que de subliminares não têm mais nada. O problema é que, se antes você estava sujeito à publicidade nos intervalos comerciais, e se depois passou a estar sujeito às mensagens subliminares, agora você está sujeito à manipulação em tempo integral. Durante TODO o tempo em que você está à frente da TV, pode ter certeza de que aquilo a que você está assistindo tem um objetivo: te vender algo. Ou um produto, ou uma ideia. Ou uma ideologia que te transforme exatamente naquilo que a emissora deseja.
            Na década de 60, jornais que se afundavam em dívidas enfrentaram a crise trocando reportagens por matérias pagas. Hoje, não sabemos mais o que é jornalismo, o que é marketing. As coisas se misturaram de tal forma que, ao assistir uma novela você pode estar comprando um produto, um partido, uma ideologia. E ao assistir um telejornal você pode estar comprando uma telenovela, que te venderá outras coisas. Vivemos, assim, a totalmente despudorada mercantilização da informação. O jornalismo é um produto como qualquer outro, no Brasil de hoje. A notícia é vendida como filme de ação, suspense ou terror. O telejornal faz chamadas como as de qualquer telenovela ou filme, recortando os aspectos mais escabrosos das matérias, para chamar a atenção do ouvinte, e, então, usa estratégias de direção para provocar nele os mais inflados sentimentos. Se você assistir a todos os jornais durante o dia, à noite se perguntará se o mundo realmente ainda não acabou. Porque as más notícias são pinçadas Brasil afora para compor um cenário trágico de um país em que nada de bom se cria. E as boas são esquecidas ou delas se fala muito de passagem, para que não haja o risco de você, de repente, gostar do país em que vive ou ficar tão feliz que deixará de ser aquele ser carente que precisa buscar no consumo algum tipo de prazer. É assim que a TV planta em você um ódio irracional a tudo o que possa melhorar a vida das pessoas sem que, para isso, elas precisem consumir. É assim que tudo o que se afasta da lógica capitalista se transforma em inimigo a ser combatido ferrenhamente. É assim, por exemplo, que uma democracia social se transforma em "ditadura" e que todos os governantes de países socialistas se transformam em "líderes sanguinários".
            Movidos por extrema ganância, os donos das emissoras de TV não se importam com o que veiculam, desde que gere lucro. Não se importam minimamente com o mundo que estão criando. E inventaram a estranha teoria do "quanto pior, melhor". Inventaram que o "povo" gosta de porcaria. Que é preciso ser de baixo nível para agradar a maioria. Que a degradação do ser humano traz audiência. Mas, será mesmo? A impressão que tenho é de que a coisa se dá justamente em sentido contrário. É escolhendo a dedo o que há de pior na humanidade e reproduzindo incansavelmente que a TV se constitui em verdadeira fábrica de seres humanos degradados. A TV ensina as novas formas de golpes em detalhes. Explica o passo-a-passo. A TV noticia, descrevendo detalhadamente, crimes hediondos, cometidos por desequilibrados, coisa que sempre houve e sempre haverá, como se isso fosse a novidade da hora e como se precisássemos disso. A TV dá espaço a apresentadores que dão visibilidade ao pior tipo de cultura. Você pode ligar a TV num programa, às 9 horas da manhã, e dar de cara com uma mulher seminua dançando funk e até mesmo ver a apresentadora dançando Lepo Lepo e gesticulando grosseiramente para terminar, é claro, com a infeliz afirmação de que "o Brasil é isso". É mesmo??? Não o que eu frequento, sinceramente. A música que se divulga maciçamente na TV é o pagode, muitas vezes de letras de baixo calão. A maior parte dos programas de humor são de péssimo gosto, recheados de preconceito e conseguem atravessar longos anos no ar. O malfadado BBB, apresentado por esse homem por quem, algum dia, eu tive respeito, foi, a cada edição, recrutando gente de nível cada vez mais medíocre e cada vez mais disposta a se expor e às suas próprias misérias sem o menor pudor. A molecada assiste e se acostuma. É a terrível "acostumação" de que falava o pai do meu amigo. Depois de se acostumar, deixa de se indignar. Há pouca coisa que provoque indignação nos jovens de hoje, e isso é muuuito preocupante. Depois de deixar de se indignar, grande parte dessa juventude reproduz os estapafúrdios comportamentos que já considera normais de tanto ver. Na edição que está no ar uma garota transou sem camisinha embaixo do edredom com um "fulano" que conhecera dias antes e teve que pedir à produção uma pílula do dia seguinte. Lembro-me de ter visto, por acaso, uma cena daquele "A Fazenda" em que, em uma briga, dois participantes ficaram cara a cara cuspindo um no outro por minutos. Acho que nem o "Alien", de Ridley Scott, me causou tanto terror. Uma briga entre dois dragões de Komodo deve ser mais bonita. É assim que a educação e os hábitos da juventude vêm se degenerando em progressão geométrica.
            Enfim, acredito que você já tenha compreendido. A TV está te cozinhando aos poucos e você fica dentro da água quentinha achando até gostoso. E, quando menos percebe, está se autointitulando liberal, apesar de não ser rico, está gritando pela volta da ditadura, sem nem ao menos saber direito o que foi isso, está odiando política, sem saber sugerir qualquer outro caminho, está acreditando que precisa desesperadamente de coisas de que não precisa em absoluto, está desrespeitando seus pais, seus professores, seus companheiros... A TV te quer como sapão. Um sapão cozido. 

                                                             Ana Lucia Sorrentino

Imagem: Google




sábado, 24 de janeiro de 2015

Je suis reprimida



            Desde a grande comoção causada pelos assassinatos dos jornalistas do Charlie Hebdo por fundamentalistas islâmicos que se sentiam ofendidos pelas charges que envolviam a figura de Maomé, a questão da liberdade de expressão não me sai da cabeça.  De repente um ataque terrorista totalmente previsível - os cartunistas do Charlie estavam sendo ameaçados disso há tempos - fez o mundo inteiro se horrorizar e sair em marcha pela liberdade de expressão e contra o terrorismo. Diga-se de passagem, o mesmo terrorismo que fez cerca de duas mil vítimas na Nigéria alguns dias antes. Vítimas que, aliás, não estavam provocando ninguém, apenas tentavam viver suas vidas.
             Se das vítimas da Nigéria pouco se falou, ao contrário, pelas da França se fez um grande espetáculo de autenticidade questionável, por envolver líderes de vários países que lançam mão de práticas terroristas ou as subsidiam quando assim lhes convém. Como podem líderes terroristas se dar as mãos para dizer ao mundo que são a favor da liberdade de expressão e contra o terrorismo?  Habermas teria um nome perfeito para isso: contradição performática.   
             Imediatamente após os assassinatos, como seria de se esperar, recrudesceu-se, na França, o cerco contra qualquer manifestação em favor dos fundamentalistas islâmicos. E um comediante francês que se mostrou simpático a um ataque contra um mercado judeu teve seu texto interpretado como apologia ao terrorismo e foi detido para ser submetido a um interrogatório. Ou seja: enquanto a França e o mundo se indignavam por doze jornalistas, milhares de vítimas de Baga eram ignoradas. Indignação seletiva. E enquanto a França tentava explicar ao mundo o quanto a liberdade de expressão lhe é cara, a própria França praticava restrições a essa liberdade. Liberdade de expressão relativa.
             Como acontece sempre nesta nossa grande vitrine mundial, onde só tem valor o que se pode vender, logo trataram de transformar a desgraça e a reivindicação de liberdade de expressão em uma afirmação de poder altamente rentável. Uma edição histórica do Charlie trouxe novamente Maomé, essa figura tão severamente sagrada para os islâmicos, e se esgotou quase que instantaneamente. "Nós podemos" - era a mensagem implícita. A Folha noticiou que já está programada uma nova tiragem de 3 milhões de cópias - a tiragem habitual era de 60 mil exemplares - e brevemente os engajados com a questão da liberdade poderão comprá-la aqui no Brasil.
           Enquanto a desgraça de muitos se transformava em lucro para outros, eu assistia aos noticiários tendo a impressão de que um assunto de extrema gravidade estava sendo tratado como brincadeira de criança.  Tipo birra mesmo. E ao fundo desse cenário de poderosos hipócritas encenando momentânea união em nome de algo que não praticam e nem permitem, rolavam tristes repercussões do episódio. Não sei, hoje, quantas pessoas já morreram por conta disso. Jamais negarei o direito à liberdade de expressão - embora eu não saiba exatamente o que é isso - e jamais considerarei aceitável que se mate em função de crenças religiosas. Como jamais considerarei aceitável que qualquer ser humano se julgue no direito de tirar a vida de outro, seja lá por que motivo for. Mas a questão é que não estamos falando de nada razoável. Não se pode esperar bom senso de fundamentalistas. E espera-se que pessoas que tenham algum amor à vida não os provoquem, por simples questão de autopreservação. E pela responsabilidade que devemos ter quando aquilo que fazemos pode repercutir em desgraça para muitos. Na verdade, creio que a liberdade de expressão em nada difere da liberdade, de uma forma geral. Ambas exigem responsabilidade. Todos as desejam, quase ninguém as experimenta e ninguém deixa de sofrer as consequências da sua prática.
           Certa vez, em uma aula de filosofia antiga, quando eu, inocentemente, me pus a falar sobre liberdade, meu professor me olhou assustado, como que me perguntando em que mundo eu estava, porque - disse ele - "não há liberdade". Demorei a compreender a extensão do que ele afirmara. Mas hoje me ocorre perguntar o mesmo aos festivos defensores da liberdade de expressão.  Porque a procuro pelos quatro cantos do mundo, pra ver se a consigo enxergar por inteiro, ao menos uma vez na vida. Mas, sinceramente, não estou sendo feliz nessa empreitada.

           Basta pensar em nossa jornada desde que começamos a balbuciar as primeiras palavras, quando a sociedade já nos indica claramente o que é "adequado" ou não, até a demência da velhice, que é quando, enfim, a vida nos dá um passe livre para a liberdade de expressão, uma vez que já não temos quase nada a perder e que ninguém mais leva a sério o que dizemos. Entre o início e o fim, estamos entrevados em relações hierárquicas que podem ser seriamente abaladas por excesso de transparência. Por sorte alguns de nós podem contar com um amigo de verdade ou um analista para, às vezes, lavar a alma sem sofrer grandes consequências. De resto, dizemos ou escrevemos o que pensamos e estamos sujeitos, sempre, ao julgamento alheio, à divulgação distorcida do que dissemos, a retaliações , a grandes aborrecimentos e também a processos, algumas vezes milionários. Dizemos, mesmo assim, porque somos corajosos. Mas há uma tentativa de repressão permanente. Experimente soltar um palavrão em alto e bom som em um ambiente masculino e receberá, de pronto, uma carimbada. Ou dizer ao seu rígido professor o quanto lhe considera medíocre. Ou explicar ao seu chefe que você está cansado de receber ordens de alguém menos capaz do que você. Experimente chamar, em um regime democrático, defensor da igualdade de direitos e da tolerância, um gordo de gordo, um negro de negro, um careca de careca, pra ver o que é tolerância. Experimente defender seu partido entre ferozes opositores. Diga claramente a um marido machista que você não o ama e não quer mais viver com ele. Você sabia que no Brasil, por conta de uma afirmação dessas, inúmeras mulheres ainda são assassinadas todos os dias? Pois é... os "fundamentalistas" não estão tão longe assim de nós não...  Haja coragem... É impossível não lembrar aqui de Nietzsche, em Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. O desejo de verdade do homem se dá em um sentido restrito. Ele fica feliz quando falsas verdades lhe fazem feliz. O homem quer e aceita as verdades que lhe sejam agradáveis.           
            Na vida real é muito mais provável encontrarmos personagens como o do advogado encenado por Jim Carrey no filme "O Mentiroso", cuja vida se torna um verdadeiro caos ao ver-se privado da possibilidade de mentir, do que esses personagens livres, que dizem o que bem entendem sem se importar com as consequências, como fingem acreditar existir os que se reuniram na manifestação na França. Se eles tivessem lido Bauman, compreenderiam quão pendular é a relação liberdade/segurança. Quanto mais liberdade, menos segurança. E vice-versa. Aliás, eu gostaria muito que eles me explicassem, afinal, o que é exatamente essa tal "liberdade de expressão". Porque, se eles a esbanjam, devo estar em outro mundo, porque o que sinto, sinceramente, é que je suis reprimida.

                                                              
                                                                                Ana Lucia Sorrentino
 
 
 
           
 
 

 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Como o mundo cria e alimenta Bolsonaros?





         
          Não se iluda, eu não tenho a resposta. Mas a pergunta é recorrente em mim, e tentarei aqui alguma reflexão.  
         O que me intriga não é a legião de bolsonarinhos anônimos que vivem por aí, nos constrangendo com seu comportamento inadequado à civilização.  O que me intriga é que tipos como esse consigam se transformar em "alguém" que desfruta de uma situação relativamente confortável - excetuando seu provável desconforto interno pela convivência consigo mesmo -, que tem um lugar no mundo, e que consegue ser "aceito", com toda sua asquerosidade, por gente que, por não rejeitá-lo, alimenta sua estadia nesse planeta sem condená-lo ao ostracismo, à solidão, à penúria, ao fracasso total. Pior: que esse "alguém" se infle, consiga seguidores, defensores, eleitores (!!!) e uma peçonhenta visibilidade, que acaba por contaminar fracos de espírito, desavisados, equivocados ou até mesmo simples desgostosos desse nosso mundinho que está pra lá de deixar a desejar. 
            Eu sei - o mundo está cheio de gente horrível, de fatos medonhos, de crimes hediondos, de barbaridades... Também sei que, se alguém tem uma péssima ideia, mas grande espírito de liderança, sempre conseguirá angariar militantes para sua causa. Vide Hitler.  Estamos cansados de ver nos noticiários crimes bárbaros sendo cometidos por grupos que compartilham da mesma crueldade. Também estamos fartos de ver grupos políticos defendendo líderes retrógrados e conseguindo fazer barulho. O ser humano nos surpreende todos os dias, para o bem ou para o mal. Entretanto, ao menos para mim, soa muito diferente o fato de um psicopata conseguir comparsas para realizar um crime - o que se faz às escuras -, do fato de alguém com um comportamento totalmente estapafúrdio fazer uma escalada na vida pública, entre pessoas que deveriam prezar pela civilidade, em uma época como a nossa - que, definitivamente, não é mais a de Hitler -, em que absolutamente tudo o que se faz está exposto na mídia e sujeito ao julgamento alheio. Apesar de ver muita gente destilando ódio por aí, parece-me que o senso comum ainda deseja um mundo onde prevaleça o bem. Porque, afinal de contas, se essa máxima deixar de valer, a vida será inviável. E é então que um personagem controverso como Bolsonaro ganha espaço - ao apresentar soluções extremadas e simplistas para problemas extremamente complexos. Talvez o que, para mim, pareça um enorme mal - como a defesa da pena de morte ou a diminuição da maioridade penal, sem falar em sua defesa à ditadura -, para muitos, mais imediatistas, pode parecer um enorme bem.  Mas deixemos essa ambiguidade teórica no campo da teoria. A meu ver, o mais preocupante é que as teorias de Bolsonaro ganhem força e adeptos, apesar de sua postura pessoal absolutamente repreensível. Fotografada, filmada, exibida nas redes sociais, enfim: uma postura grosseira de um homem que mais parece um selvagem, que faz daquilo que tem de pior seu marketing pessoal, que não respeita o ser humano, nem seu ambiente de trabalho, nem as mais elementares regras da boa educação, e que se perde no tom da voz, no discurso e nas atitudes, contrárias a tudo o que se pode esperar de alguém que ocupe sua posição e até mesmo de qualquer cidadão comum. Que lógica pode sustentar a paradoxal crença em que um produtor do mal possa ter boas ideias para combatê-lo?
           Quando, em determinadas situações, não combatemos o mal porque ele está além da nossa capacidade de combatê-lo - seja porque fisicamente distante de nós, seja porque não temos o menor poder sobre ele -, somos até capazes de perdoar a nós mesmos pela nossa inação.  Mas, e quando cruzamos cotidianamente com uma figura abominável e a toleramos sem ressalvas?  Eu tento imaginar a quantas pessoas essa criatura agrediu, ao longo de sua vida, verbal e fisicamente, ou simplesmente com a própria postura. E... no que deu tudo isso?  Eu não sei se ele foi admoestado por seus pais, eu não sei se ele foi expulso das escolas em que estudou, eu não sei se a mulher dele nunca o repudiou, nem sei se seus filhos nunca questionaram seu comportamento. Mas tudo isso não deveria ter acontecido? Não sei se teve ou tem amigos verdadeiros.  Mas sei que ele seguiu em frente e foi se mantendo no poder, cada vez provocando mais polêmica e a cada nova investida se mostrando mais descontrolado. Será que, em algum momento, esse homem quebrou a cara com seus relacionamentos pessoais? Ou será que TODOS com quem convive concordam com suas ideias?  Improvável, não? 
          Eu conheci cafajestes e me afastei deles. Nem sempre é fácil, e eles sempre encontram quem os acolha. Às vezes são tão fanfarrões que servem como bobos da corte, e as pessoas, em geral, adoram rir...  É um verdadeiro mistério o que estimula pessoas a se unirem. Nessa nossa pós-modernidade, normalmente os seres humanos não se importam muito com os valores morais, se usam como mercadorias, prestam favores uns aos outros, preenchem o enorme buraco que têm dentro de si com a presença alheia - seja ela agradável ou não -, se aborrecem mutuamente... e, infelizmente, não querem mais questionar o comportamento alheio. Isso dá trabalho. A pós-modernidade trouxe um componente de aceitação de tudo o que é diferente e parece ter esquecido que nem sempre o diferente é aceitável. O "diferente" que prega o atual discurso democrático de tolerância se refere a raças, religiões, crenças, posturas políticas, modos de vida. Mas está havendo uma confusão entre "tolerância" ao diferente - conceito que inclui o respeito ao próximo - e aceitação de tudo, sem questionamento - o que inclui aceitação do desrespeito ao próximo.
           Todas as vezes que nos calamos perante o desrespeito, o abuso, a falta de educação, enfim, perante ações que fazem nosso mundo mais feio, estamos sendo cúmplices. E, olha... o mundo está precisando desesperadamente se embelezar. Com a educação, com o respeito, com a gentileza, com o cuidado com o outro. 
            Se Bolsonaro chegou onde está - e pela sexta vez! - é porque uma legião de gente da mesma laia que ele o colocou ali. Porque não se pode negar que há quem pense como ele. Mas, antes disso, muita gente que cruzou seu caminho e o de seus eleitores os tolerou, fermentando esse nefasto substrato.  Eu não sei se por interesse, por covardia, por preguiça ou o quê. Sei que, se às vezes nossa voz é fraca demais para ser escutada pelos bárbaros, ao menos podemos lhes deixar falando sozinhos. Podemos privá-los da nossa companhia. Podemos nos negar a ser coniventes com sua deselegância. Podemos sair do ambiente quando eles entram. Podemos deixar sua vida mais triste e difícil. Podemos. E é por isso que assistir aos vídeos que mostram Bolsonaro barbarizando no Congresso me causa profundo horror, mais pela condescendência quase geral dos que ali estão do que por ele mesmo. Sei que uma parcela dos políticos se manifestou. Mas foi uma parcela muito, muito pequena... E todo o resto, rindo à meia boca, fingindo que não viu ou que não tem nada com isso, fazendo cara de paisagem? Alimentando, enfim, sua monstruosidade? São covardes? São tão horrendos quanto ele e se comprazem com seu discurso? Têm o rabo preso? Afinal, damos nosso voto pra que essa gente nos represente e depois precisamos constatar aterrorizados que há ali uma maioria que não consegue nem ao menos impor respeito dentro da casa em que trabalha? Se o Congresso é realmente representativo do povo que o elegeu, sua conivência com tudo de ruim que Bolsonaro representa significa que estamos muuuito mal. Ou começamos, por conta própria, a fazer algo pela educação em nosso país, ou estamos fritos.   
          
                                                       
                                                                           Ana Lucia Sorrentino
       

                      
    

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Elite fantasmagórica


























Como os senhores de Hegel, 
servos de seus servos.
Dependentes do trabalho
e do olhar alheio,
é nas vitrines que buscam
o que lhes falta - recheio.
É na grife, na pose,
na posse.
No carro do ano
- prolongamento do pau -,
na pinta de rico,
na arrogância infernal.
Na bolsa Vuitton,
no erro no tom,
na fraca moral.
É no engano aristotélico
de achar-se melhor e mais
e querer que alguns lhes sejam
naturalmente serviçais.
É na pura insanidade
do viver só de vaidade,
manter-se só de fachada
e por dentro não ter é nada.
Vira-latas carentes,
imperialistas subservientes,
abanam o rabo
e lambem, em adoração,
os EUA e o mercado.
Sono de pílula,
sexo sem tesão,
glamour de fachada,
hipocrisia em profusão.
Muitas pseudo-aventuras
e nada, nada, nada,
absolutamente nada
de compaixão. 
                       Ana Lucia Sorrentino                                    






sábado, 25 de outubro de 2014

Reencontro

























E que a fortuna me venha

em insólita visita,
sorriso aberto, pra variar.
Que traga consigo um presente
para me presentear:
em simples anotação,
dia, hora e lugar.
Que eu vá despreparada,
que o despreparo faz parte,
e que à meia distância
eu já possa adivinhar:
ali sentada, quietinha,
minha vida a me esperar.
Que tenha compreendido
a distância, a ausência
e essa vontade imensa
de ver o bem triunfar.
Que me perdoe a inocência
e essa tamanha crença,
tanta fé a me mover.
Que me olhe toda cúmplice
e segure minha mão.
Perceberei como é linda
e sairei pra balada
dançando toda colada
à minha vida querida,
que não me esperou em vão.
                                                                           Ana Lucia Sorrentino
                                                                                  19/10/2014
  

sábado, 16 de agosto de 2014

Não foi bem assim


















Desconheci a propalada
leveza da infância
mergulhada em austera
familiar herança.  
Me  distraí em fugazes
promessas joviais
de aventuras,
amores e que tais.
Perdi o bonde pro porto seguro  
e grudei no visgo da necessidade,
joaninha alada
presa em teia de contrariedade.
Procurei em tudo que vivi
os conceitos que antes conheci,
e nada.
Sobrevivo,
ciscando no que me aparece,
e agora, vez ou outra,
acho tudo uma piada.
                                                                                              Ana Lucia Sorrentino

domingo, 27 de julho de 2014

Genocídio no terceiro milênio


Na noite deste sábado, manifestantes israelenses protestaram em Tel Aviv pelo fim do conflito           Foto: THOMAS COEX / AFP

            Acabei de ler um artigo* de Mauro Santayana respondendo à pra lá de infeliz afirmação do porta-voz da Chancelaria israelense, Yigal Palmor, de que o Brasil é um anão diplomático. Antes dele nosso assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, já havia se manifestado. 
            Apesar de ter achado ótimas as respostas de Santayana e de Marco Aurélio, fiquei com a sensação de que responder a essa enorme bobagem é dar voz a um Estado que não deveria mais ter voz, tal o nível de barbárie que está promovendo. Barbárie, aliás, só imaginável na época do Holocausto, quando o que se praticava contra os judeus em campos de concentração não chegava ao conhecimento de todos. Hoje o mundo assiste em tempo real o que está acontecendo. E mesmo assim, incrivelmente, está acontecendo. Porque a linguagem dos interesses comerciais fala mais alto do que tudo. Porque há quem forneça armamentos, munição e tecnologia para que isso seja possível. Porque a mídia se refere a uma guerra totalmente desigual como "conflito" e usa todos os eufemismos possíveis e incabíveis para a situação. Fico absolutamente estupefata ao escutar frases como "é preciso 'minimizar' as mortes de civis" vindo daqueles que têm interesse nessa guerra (EUA, falando claramente). Ou afirmações de que Israel tem que “ser mais moderado" na resposta ao Hamas. Essa institucionalização do assassinato me causa horror.
           Todos os dias estamos vendo fotos e vídeos do que está acontecendo com os palestinos. São civis, doentes, idosos e crianças explodidas, morrendo, perdendo pernas, braços e qualquer ilusão de que a vida valha a pena. E a mídia comenta com a maior naturalidade, raramente enfatizando o despropósito que é Israel ter quarenta e poucos mortos enquanto os mortos palestinos já passam de mil. Fico tentando imaginar como é viver em um lugar do qual não podemos fugir porque nosso algoz nos mantém presos para poder nos exterminar. E como é estar dentro de nossa casa e receber um “pequeno aviso”, através de uma “bombinha” de que em três minutos virá uma bomba de verdade, que acabará com a nossa vida. Nada diferente das câmaras de gás de Hitler.  
            Quando Bin Laden explodiu as Torres Gêmeas fiquei profundamente decepcionada, porque, quando mais jovem, jamais imaginara que entraríamos no terceiro milênio ainda enfrentando esse tipo de terror. Acreditava, como Hegel, por ingenuidade, é claro, que a humanidade evoluiria e que aprenderia a negociar diplomaticamente. Que, talvez, por experiências anteriores, os governantes compreenderiam que o caminho para um mundo melhor para todos seria a colaboração mútua. Que por algum milagre a inteligência prevaleceria, e que ser inteligente era atuar para o bem de todos. Que menina tola, não?
            Entendi hoje algo que os mais experientes me diziam e que eu me negava a entender: a inteligência não é necessariamente algo positivo. Ela pode atuar para o bem, mas também para o mal. O que, para mim, constitui desinteligência. A mesma história sobre a qual tão bem escreveram os filósofos da Escola de Frankfurt: a racionalidade pode, sim, produzir irracionalidade.
            Como se não bastasse o desgosto da própria guerra, ainda somos obrigados a cruzar, vez ou outra, com quem a defenda. No começo desse ano, discutindo com um professor sobre Auschwitz, comentei que, para mim, observando a realidade atual, um novo Holocausto era sempre uma iminência. Jamais pensei que estaria tão certa, e que essa iminência estava tão iminente... Tenho medo de gente que defende isso. Tenho medo de uma facção de brasileiros que critica sistematicamente o nosso governo tendo em mente apenas seus próprios e miseráveis interesses. Tenho medo dessa gente que não se importa com os mais humildes, que segrega, que esperneia ao perder privilégios, que lamenta não ter mais a quem escravizar. Tenho medo dessa gente sem caráter que adultera fotos e vídeos para criar factoides contra o nosso governo, sem a menor preocupação moral, apenas porque se sente incomodada com a promoção da igualdade. Porque é esse tipo de gente que, julgando-se melhor do que os demais, tem em si a semente desse tipo de mal, como foi o Holocausto e como é hoje o genocídio dos palestinos.
            O mundo poderia abrigar a todos, fossem todos realmente bem intencionados. Se em vez de guerras tivéssemos cada vez mais alianças, haveria, sim, e ninguém me convencerá do contrário, espaço para todos em um mundo sem fome e pacífico. Mas sempre haverá quem, talvez por uma natureza má, e por má fé, critique as alianças e promova a discórdia.
            E eu continuarei, até velhinha, como a menina “tola” que fui, a afirmar o que sempre afirmei: se a inteligência não promove o bem e a paz, a inteligência não é inteligência, é burrice. E é isso o que Israel está fazendo. Fundamentando-se em uma fábula bíblica para, sob o comando de Netanyahu, com a colaboração dos EUA e a conivência dos que se calam, praticar uma gigantesca burrice. Eu não concordo em absoluto que o Brasil seja um anão diplomático, mas tenho certeza de que Israel está sendo um gigante em burrice.   
                                                                                                      Ana Lucia Sorrentino
*http://www.viomundo.com.br/politica/santayana-porta-voz-de-israel-mostra-o-grau-de-cegueira-e-de-ignorancia-que-chegou-telaviv.html