domingo, 16 de junho de 2013

Alckmin - tiro no pé


           

 
            “De repente surge um movimento que vem da internet e tem sua dose de irracionalidade e incendeia milhares de jovens.” (Luis Nassif, entrevistando Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, sobre a atual onda de protestos).           

            Dilma estava com a popularidade a mil. Haddad assumiu e em menos de seis meses já deu mostras de enorme competência. De repente, um aumento de tarifa dentro do já previsto, abaixo da inflação, detona uma onda de protestos que se dá de forma desorganizada, constituída tanto por gente que age de forma democrática e racional, quanto por mal intencionados que agem irracionalmente, depredando, bagunçando, provocando tumultos e, pior, que não respondem à abertura que Haddad dá para a conversa, uma vez que nem ao menos uma liderança organizada têm. Gente que se alia a um movimento sem prestar muita atenção a que bandeira estão defendendo ou a exatamente o que estão combatendo. E que acaba se deixando usar por uma direita mal intencionada que, ao abusar do poder que tem, atinge Haddad e Dilma e, enfim, ao governo PT.            

            A ação da polícia nas últimas manifestações foi realmente revoltante, mas temos que nos perguntar o porquê disso. Nada como colocar uma polícia agressiva e repressora nas ruas, calando à força uma juventude que não tem uma cultura de participação política e que tenta um ensaio, para provocar uma revolta geral contra tudo e contra todos. Surgem, de repente, protestos sobre tudo aquilo que está entalado em nossas gargantas. Num contexto em que todos os dias nos envergonhamos por ter que engolir políticos que se mantêm a todo custo no governo, mamando nas tetas do povo, sem ao menos termos a oportunidade de deliberar diretamente sobre isso (vide Renan Calheiros), é natural que a violência policial detone uma verdadeira revolução. O povo quer se fazer ouvir, e deve querer. Mas é preciso se organizar para atuar em causa própria, e não acabar virando joguete na mão de uma direita que não aceita o bom andamento dos dez anos de governos pós-neoliberais no Brasil. Lula e Dilma são uma pedra no sapato de uma direita conservadora que não engole o fato de um trabalhador ter provocado uma verdadeira revolução no Brasil, ao inserir a classe menos favorecida em um contexto no qual nunca teve espaço. Para aqueles que, como Danuza Leão, sofrem desgraçadamente ao perceber que o porteiro de seu prédio já pode ir a Nova Iorque fazer comprinhas, Lula e Dilma são como uma bala que entalou na garganta e que tem que ser cuspida a todo custo, mesmo que para isso seja necessário usar de golpes baixos.            

            Quem se manifesta precisa estar muito bem organizado e informado para fazer valer seu protesto. Segundo Haddad, manifestantes abordaram motoristas de ônibus exigindo que se aliassem ao movimento, uma vez que não haviam tido aumento de salários. Ao que os motoristas se surpreendiam, pois sabiam que haviam tido, sim, aumento de 22% ao longo dos últimos 3 anos. Os manifestantes também desconsideraram o bilhete único, que, ao ser implantado, fez com que os R$3,20 passassem a representar uma passagem e meia, não apenas uma passagem. Faltou informação, foco e organização.  

            Walter Benjamin, pensador do começo do século XX, em seu texto “Experiência e pobreza”, fala sobre os resultados do inacreditável desenvolvimento tecnológico da época. Diz Benjamin que uma geração que usara bondes puxados por cavalos na primeira fase da vida se viu, na idade adulta, agredida com extrema violência por uma tecnologia que se desenvolvera em ritmo dramático, em função da destruição. A esse desenvolvimento tecnológico que deu ao homem um poder de destruição do próprio homem jamais antes imaginado, Benjamin se referirá como “uma nova forma de miséria”. A experiência das duas guerras mundiais do início do século empobreceu o homem a tal ponto que ele precisou começar novamente do nada. Isso foi resultado do imenso poder da tecnologia. Para Benjamin, a extrema valorização da racionalidade terminou por produzir a irracionalidade. 
 
            De lá para cá, temos convivido com uma tecnologia que se impõe à força através da publicidade de forma tão agressiva, que a maior parte de nós se curva a ela sem muito questionamento. É claro que é fantástico podermos escrever, denunciar, mobilizar. Nunca tivemos tanta chance de gritar e de sermos ouvidos. Mas precisamos ter consciência de que estamos fazendo uso de instrumentos poderosos e de que, se é graças a eles que podemos nos informar, divulgar nossas ideias, formar opiniões e até mesmo organizar movimentos extremamente importantes para que o mundo caminhe para a frente, também é graças a eles que recebemos muita informação confusa, e, se não tomarmos cuidado, podemos encabeçar movimentos fundamentados em informação errônea, nos transformar em massa de manobra e promover o atraso. Isso é racionalidade produzindo irracionalidade.   

            Por fim, quero comentar que, embora seja possível teorizar sobre a forma ideal de se agir politicamente, há na política, como na vida, interessantes reviravoltas que parecem subverter qualquer planejamento e que me dão, às vezes, uma gostosa sensação de que vale a pena esperar pra ver. Um protesto que começou com a revolta por um aumento de R$0,20 nas passagens de ônibus, respondido pelo governo do estado com violência policial – e aqui precisamos lembrar que policiais são trabalhadores como todos nós, que cumprem ordens, mesmo que muitas vezes a contragosto, para continuar tendo o seu ganha-pão (seja isso válido ou não), está se transformando em uma enorme manifestação que pede a saída de Geraldo Alckmin. Tiro no pé. Bem feito. ;)
 

Ana Lucia Sorrentino
 

sábado, 20 de abril de 2013

Perspectiva



















Meu olhar me desencoraja
sinalizando que mais além
a larga alameda florida
finda em beco sem saída.
A experiência me assopra
que lhe dirija desdém.
Sigo em frente com coragem
e, passo a passo, abro passagem.
Então já não me detém
o que parecia findar.
Pois o fim nada mais era
senão o limite do meu pobre olhar.

                                               Ana Lucia Sorrentino



















































































 

sábado, 30 de março de 2013

Piva, a deselitização da filosofia e a desestigmatização da figura do ateu

        
 

         Recentemente Paulo Jonas de Lima Piva (1), um muitíssimo querido professor de filosofia da Universidade São Judas Tadeu, esteve no Super Pop, programa da Luciana Gimenez na Rede TV, representando a ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, numa conversa miscelânica que tentava associar acontecimentos recentes, como a queda de um meteoro na Rússia e a renúncia do Papa, ao fim do mundo (2).
         Faço questão de frisar logo de início o quanto esse professor é querido para já no primeiro parágrafo deste texto dar uma martelada nietzscheana certeira nesse monstro pré-histórico que é o preconceito contra ateus. Ateus podem, sim, ser muito queridos e não há absolutamente NENHUMA justificativa para que se pense o contrário.
         Apesar do comportamento um tanto quanto estapafúrdio da apresentadora, a iniciativa foi louvável e Piva conseguiu usar de forma competente o pouco espaço que teve, deixando de lado a proposta sensacionalista inicial para esclarecer os equívocos que sempre rondam o ateísmo e a figura do ateu, provando que é possível aproveitar muito bem as “brechas da mídia conservadora” (nas palavras dele) em favor do esclarecimento.
         Durante cerca de uma hora um representante da igreja católica, um ufólogo, um sheik, um “especialista e pesquisador de ordens iniciáticas” - seja lá o que isso for -, um astrônomo e um ateu puderam estar num mesmo espaço mostrando seus diferentes pontos de vista, numa verdadeira lição de tolerância e respeito. Eventos como esse fazem o mundo caminhar para frente.
         Em fevereiro deste ano, quando aconteceu o Primeiro Encontro Nacional de Ateus e Agnósticos, em que Piva foi um dos palestrantes, o abordei para confessar meu estranhamento ao ver ateus organizando encontros e militando em favor do ateísmo, pois sempre me parecera que por sua característica autonomia intelectual eles prescindiam desse tipo de manifestação coletiva, tão própria das religiões. E ele me fez ver que nada há de estranho no fato de pessoas que compartilham das mesmas ideias desejarem estar juntas, debater, se confraternizar.  Percebi, então, que o ateu tem a mesma necessidade de pertencimento que qualquer um de nós tem, em maior ou menor grau, e que, talvez, para ele, seja ainda mais importante encontrar a sua turma, uma vez que ela é uma minoria e, pior, uma minoria estigmatizada.
         Basta um pouco de reflexão para que percebamos o que pode motivar um ateu a se manifestar publicamente em favor do ateísmo. Se pensarmos nas tantas barbáries cometidas pelos homens em nome de Deus, nos estragos que em pleno século XXI ainda fazem as hediondas guerras santas consequentes do fundamentalismo religioso, na manipulação e na exploração desmedidas que algumas religiões fazem de seus fiéis; se pensarmos no tanto de preconceito que se planta dentro das igrejas, em pregações que equivocadamente consideram a prática homossexual uma opção ou uma doença, que colocam a mulher em posição de submissão e que julgam e condenam sumariamente quem fez um aborto, já teremos justificativas suficientes para colocar em dúvida as tão propaladas virtudes da religião. Além disso, religiões trabalham com a fórmula “medo + culpa”, que quase sempre resulta em obediência cega, e promovem a não aceitação do que somos de fato, o que faz muita gente sofrer.
         Há aí muito mais do que “pequenos” motivos para que o ateu, sentindo-se liberto, deseje, num impulso altruísta, libertar quem ainda esteja preso aos grilhões da fé religiosa. Mesmo porque num mundo em que só alguns são livres, a liberdade não se realiza de fato.
          Também não é nada difícil compreender o desejo do ateu de vir a público não apenas para defender o ateísmo, mas para defender a si mesmo. As poucas vezes em que me perguntaram qual era a minha religião e eu respondi que eu era agnóstica, a perturbação criada pela minha resposta quase se solidificou no ar. As pessoas ficam constrangidas, sem saber o que dizer, e às vezes quase soltam um “sinto muito”.  Imagino a confusão interna que lhes acomete quando cruzam a ideia preconceituosa que têm do ateu com o que sou. Devem se perguntar: como é que pode, a Analú, essa pessoa do bem, agnóstica???
         Respondendo a um questionamento sobre religiosidade em uma de suas palestras, o respeitadíssimo médico e escritor Drauzio Varella relatou exatamente isso. Que muita gente que o admira não consegue compreender “como pode um homem tão bom não acreditar em Deus”. Que ser ateu parece invalidar, para essas pessoas, todas as boas ações que ele de fato fez. Que o olham como se ele fosse imoral, como se não respeitasse a vida. (3) É essa confusão que o senso comum faz que precisa ser definitivamente debelada.  
          A aparição de um filósofo ateu em um programa de TV e sua defesa da tolerância e do respeito ao pensamento alheio são exemplos que os ativistas ateus deveriam se empenhar em seguir. Porque nesse momento em que ateus estão conseguindo se organizar e expor publicamente seus argumentos, talvez mais importante do que metralhar a religião seja  a desestigmatização da figura do ateu. Só ateus que conseguirem respeitar e se fazer respeitar, penso eu, conseguirão desestruturar a argumentação religiosa sedimentada. Um discurso agressivo, ainda que fundamentado na razão, acaba, quase sempre, sendo um tiro no pé. O religioso tem uma resistência imensa a ouvir tudo o que destoa das pregações religiosas a que está habituado. E se a argumentação do ateu vier carregada de agressividade e ironia ou insinuar que o religioso é menos inteligente por acreditar em Deus, já haverá aí motivo suficiente para que todas as atenções se voltem contra o comportamento agressivo do ateu e sua argumentação racional seja totalmente ignorada.
         Leandro Karnal, Doutor em História Social pela USP, costuma dizer em suas palestras que “a religião tem se comportado historicamente como chantilly: quanto mais se bate, mais cresce.” Diz Karnal que ao longo de toda a história das religiões, sempre que uma religião foi combatida ganhou mais força. (4)  Isso é um dado histórico, não é especulação. E é o que me faz crer que, nesse momento, talvez mais efetivo do que bater esse chantilly seja deixá-lo azedar.  Ateus e filósofos podem mostrar ao mundo que há estilos de vida mais saborosos e menos sofridos fora da religião, e que estes estilos não desconsideram a moral ou a ética. E podem, com argumentação racional, fazer com que as pessoas percebam que a moral independe da religião e que adultos devem ser capazes de deliberar sobre todas as questões com as quais se defrontam baseando-se em sua própria razão. O senso comum precisa desconstruir essa ideia preconceituosa de que o religioso é necessariamente um homem bom e o ateu necessariamente um homem mau. O mundo está cheio de religiosos de caráter duvidoso e de ateus virtuosos. Quem, em sã consciência, colocaria em dúvida as virtudes do sociólogo ateu Herbert de Souza, o já falecido “Betinho”, ativista dos direitos humanos e combatente da miséria?  
         Em outubro de 2012 me envolvi com a questão da demarcação das terras dos índios Guaraní-Kaiowás e resolvi me juntar aos movimentos que já aconteciam pelo Facebook. Pedi ajuda a alguns conhecidos e de pronto a recebi. Um amigo me ajudou a fazer a página do evento, outros me ajudaram a divulgá-la; um outro se propôs a fazer uma arte para a confecção de folhetos, e um último a imprimi-los em sua gráfica, gratuitamente. Eram todos ateus. Tenho visto muito isso. Enquanto religiosos vão a cultos louvar a Deus, ateus têm se preocupado e se envolvido em campanhas contra o desmatamento, contra a homofobia, contra o racismo, contra maus tratos aos animais, contra abusos de todas as espécies. Enfim: campanhas em prol de um mundo menos cruel. Por que esses ateus não podem ser considerados homens virtuosos?  
          Todas as vezes em que vejo um religioso perguntando a um ateu como ele estabelece seus próprios limites sem ter uma religião que o norteie, fico profundamente desconfiada.  Acredito ser muito mais fácil confiar em alguém que não precise de um Deus ou de uma religião para lhe impor limites ou regras do que em alguém que só se mantenha dentro do moralmente aceitável por temer as represálias de Deus. Acredito mais nos homens que autenticamente assumem suas fraquezas do que naqueles que se travestem de bonzinhos para caber no modelito cristão que dificilmente veste bem em homens de carne e osso. Como a gorducha linda a quem todos admiram, mas que vive frustrada por não caber nas minúsculas roupas que a ditadura da moda impõe, o cristão, por mais bem intencionado que seja, está sempre aquém de suas próprias expectativas, porque elas se baseiam numa perfeição rigorosa demais para o padrão humano. Homens são fracos, falíveis, e estão sempre tentando sobreviver num mundo difícil demais.
         Exista ou não um Deus, estejamos ou não próximos desse tão pouco provável  fim do mundo, pertençamos ou não a uma religião, o que todos nós precisamos é de compreensão e tolerância. A convivência pacífica é sinal de inteligência. Assim como é saudável que religiosos comecem a se abrir para os argumentos ateístas, acredito que também seja salutar aos ateus perceberem que alguns dos mais brilhantes pensadores da história da filosofia, embora se opusessem à religião - o que acredito ser a causa mais interessante -, tinham uma concepção própria de Deus, não o descartando por completo. Quem já leu Sêneca (5) ou Spinoza (6) sabe que é possível pensar em Deus sem imaginá-lo de barba branca e cajado na mão se ocupando das nossas mazelas particulares, falando em códigos de difícil compreensão através de textos inspirados e nos incutindo culpa. Se é ingenuidade acreditar na existência de Deus, também é ingenuidade a pretensão da verdade. E o respeito ao pensamento alheio deve estar acima das discordâncias. Vale lembrar uma frase de Voltaire (7) que cabe perfeitamente aqui: “Discordo daquilo que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de o dizeres”.
         Um doutor em filosofia pela USP, com passagem pela Sorbonne, ateu, se propor a ir a um programa popular para falar sobre assunto tão controverso é uma demonstração de falta de preconceito e de coragem. É preciso ter coragem para romper com padrões preestabelecidos e para se expor publicamente e é preciso não ter preconceito para combater o elitismo que vive assombrando o mundo da filosofia.
         Se a filosofia acadêmica se faz de história, de erudição, de citações, de notas de rodapé, a filosofia para a vida conjuga tudo isso com a atitude. Quando escrevemos sobre algo provocamos reflexões que podem ser, para alguns, extremamente profícuas. Mas quando vivemos aquilo em que acreditamos contaminamos todo o nosso entorno.  O pensamento filosófico precisa se infiltrar por todas as brechas possíveis para combater o preconceito, uma verdadeira ferrugem que corrói a sociedade. E isso não se faz apenas com o discurso, mas com a atitude. Parabéns, Piva.
                                                                  Ana Lucia Sorrentino
 Para entender melhor:

1 - PIVA, Paulo J. L. - Pós-doutor em filosofia pela FAPESP, autor dos livros Ateísmo e Revolta: os manuscritos do padre Jean Meslier  e O Ateu Virtuoso: materialismo e moral em Diderot, além de ter participação em algumas outras obras. É também um dos organizadores do livro Dez provas da inexistência de Deus e autor do blog "O Pensador da Aldeia". 

2 – Fonte:<  http://www.youtube.com/watch?v=hB2BX7nCDtA> - acesso em 30/03.2013

3 – Fonte: < http://www.youtube.com/watch?v=gnSzuRAkqQ0> - acesso em 30/03/2013

4 – Fonte: < http://www.youtube.com/watch?v=KsGYDTIWhF8> - acesso em 30/03/2013

5 – SÊNECA, Lucius Annaeus – (Córdoba, 4 a.C. – Roma, 65) foi um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano. Pensador estoico, sua obra literária e filosófica inspirou o desenvolvimento da tragédia na dramaturgia.

6 – SPINOZA, Baruch – (24/11/1632, Amsterdã – 21/02/1677, Haia) foi um dos grandes racionalistas do séc. XVII, dentro da chamada Filosofia Moderna. É considerado o fundador do criticismo bíblico moderno. 

7 – VOLTAIRE – François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire (Paris, 21/11/1694 – 30/05/1778) foi um escritor, ensaísta, deísta e filósofo iluminista francês.

 

                 

 

 

           

             

 

                       

 

 

 










































































































































































           
           
 
           
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sábado, 9 de março de 2013

O Valor do Silêncio


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                                                                                                                                                                    .


Ana Lucia Sorrentino

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Alerta aos jovens que pretendem ser médicos

   
  
 
                Alguns dias atrás, acompanhando um desses noticiários que só nos dão desgosto, surpreendi-me desgostosa além da conta. Três notícias consecutivas me deixaram tão, mas tão aborrecida, que de lá pra cá a ideia de escrever sobre isso vem me incomodando e, enfim, estou cedendo a ela. Porque, diante de alguns fatos que me levam a certas conclusões, mas contra os quais não sei como agir, o que me vem à mente é escrever. Talvez, escrevendo, eu consiga ao menos trazer à tona os absurdos que ficam camuflados no meio de tantos outros absurdos que vivemos no dia-a-dia como se nada fossem.
            A primeira notícia tratava de uma mulher que dera à luz dentro de um hospital público, no corredor, em frente à porta do banheiro, depois de esperar 13 horas pelo atendimento, em trabalho de parto. Detalhe: ela fora auxiliada pelos outros pacientes que estavam por ali, também esperando atendimento. Duas enfermeiras apareceram somente DEPOIS que o bebê já nascera.
            A segunda foi sobre a reivindicação de médicos que atendem por convênios de cobrar pelo tempo que tiverem que esperar durante o trabalho de parto. Ou seja: a gestante já paga um plano de saúde, mas, quando entrar em trabalho de parto, como este pode durar algumas horas, não contará com o acompanhamento do médico que acompanhou toda a sua gestação, exceto se pagar por isso à parte.
            A terceira falava sobre o número exagerado de cesarianas que ainda se faz no Brasil, mesmo sem necessidade. Imagino que todos que estejam lendo o meu post saibam da enorme diferença que existe entre um parto normal e uma cesariana. Para os que não sabem, grosso modo, em um parto normal o nenê vem ao mundo passando pelos estágios que naturalmente tem que passar para nascer, a produção de leite ocorre mais facilmente, a mãe se recupera muito mais rapidamente, e, salvo qualquer contratempo, logo ambos podem ir para casa, saindo da insalubridade do ambiente hospitalar. Já uma cesariana é uma cirurgia. A mãe sofre mais, o bebê nasce de supetão, a produção do leite, às vezes, é mais complicada, o desconforto é muito maior, a internação se prolonga, e os riscos aumentam.
            No entanto, apesar disso tudo, os médicos preferem fazer cesarianas. Questionada sobre isso, uma médica declarou, com todas as letras, a obviedade da situação. Na lógica comercial dela, é muito natural que os médicos assim procedam, uma vez que a cesariana é feita com hora marcada e leva menos tempo, o que garante o ganho do médico sem que ele tenha que passar horas esperando por um trabalho de parto. “Se o médico pode fazer três cesárias em um dia, e ganhar pelas três, por que deveria ele optar por realizar partos normais, se um parto normal pode ocupá-lo o dia todo?”
            Ou seja: o problema não é a segurança e tranquilidade da gestante, e não é a vida do bebê. O problema é o dinheiro. O objetivo dos médicos não é cuidar da vida humana, é ganhar dinheiro.
            Coincidente e muito infelizmente, nesse final de semana a irmã de uma amiga minha foi, em trabalho de parto, para o hospital. O que me relataram foi que o hospital estava uma bagunça, os médicos na correria, e, depois de um rápido atendimento, que, nas palavras dela, a fez sentir-se como uma cadela num pet shop (do que eu discordo um pouco, porque, talvez, uma cadela num pet shop seria muito mais bem atendida), concluíram que ela poderia voltar para casa, porque ainda não era a hora. Estranhamente, a medicaram com BUSCOPAN, que é um medicamento que qualquer mulher que menstrua sabe que suprime e alivia cólicas. Ou seja: é presumível que o médico que deveria fazer seu parto não estivesse disponível naquele momento e tenha resolvido adiar a hora em função de sua própria disponibilidade. Ela voltou para casa. E, quando foi novamente para o hospital e finalmente a internaram, havia passado da hora. A criança entrou em sofrimento e, horas depois do nascimento, morreu.
            Esse caso aconteceu mais perto de mim e eu estava consciente de toda a movimentação em torno dessa nova vida. Uma criança que vem ao mundo não é esperada apenas pelos seus pais. É esperada por toda a família, amigos, vizinhos... Nove meses não são nove dias. Toda a vida do casal passa a girar em torno daquela criança. Um acontecimento desses, de se esperar nove meses por um filho, reformatar a própria vida para recebê-lo com todo o amor e carinho que merece, pari-lo e perdê-lo horas depois é uma verdadeira desgraça para todos os envolvidos.
            E então? O que é que se pode fazer?
            No caos em que estamos vivendo, já tenho pouca esperança de que isso possa mudar. Mas, para sentir que estou fazendo um mínimo, eu gostaria de mandar um recado para os jovens que pretendem ser médicos.
            Hoje há muita informação. Vocês não devem entrar nessa carreira sem estar minimamente conscientes de como funciona o sistema de saúde nesse país. É claro que há certas coisas que somente no exercício da profissão vocês poderão vivenciar. Mas há muuuitas coisas sobre as quais vocês já podem se informar. Façam isso. Tentem perceber o que é esse mundo da saúde (que eu chamaria de mundo da doença), antes de entrar de cabeça nele. E, depois de perceberem muito bem como é que as coisas funcionam, perguntem-se se vocês querem seguir nessa profissão para ganhar dinheiro ou para cuidar do ser humano.
            É claro que todos precisamos de dinheiro para viver. É claro que ninguém quer trabalhar de graça. Mas se o seu objetivo for prioritariamente grana, por favor, faça outra coisa. Abra uma fábrica de chocolate, vá trabalhar no ramo da moda, produza qualquer coisa que você possa vender muito. Mas não vá trabalhar com vidas humanas se você não tem real amor por elas. Para ingressar nessa, você tem que estar consciente de que vai enfrentar infinitos problemas e que, se não puder ganhar o que deseja, o que é muito provável, brincar com a vida das pessoas para aumentar seus ganhos não vale.
            Médico que faz jus à profissão que abraçou fica, sim, ao lado de uma gestante por dez horas, se for preciso, para trazer uma criança saudável ao mundo, para ser cuidada por uma mãe feliz e equilibrada. Mesmo que, para isso, tenha que ganhar três vezes menos do que se fizesse partos como se estivesse em uma linha de produção.
            Dificilmente você ganhará o que merece. Sim, um médico, assim como um professor, merece ganhar muito. Mas, infelizmente, essa não é a nossa realidade. Então, se você não estiver disposto a dedicar muito tempo da sua vida para diminuir o sofrimento alheio, tendo nisso sua principal satisfação e sacrificando, na medida em que for necessário, seu próprio conforto material, não embarque nessa profissão.
            Infelizmente, são poucas as vezes que vejo médicos reivindicando melhorias no sistema de saúde. Suas reivindicações, quase sempre, são de melhoria de seu próprio salário. A classe médica me decepciona profundamente quando se adapta às condições que o sistema lhe oferece, sem questionar se ele é minimamente humano, correto, honesto e sem brigar pelos seus direitos de trabalhar de forma digna e pelos direitos do paciente.
            Sei que muitos médicos que talvez estejam lendo esse meu desabafo podem se sentir ofendidos. Sei que outros tantos terão mil argumentos para justificar sua própria negligência. Afinal, depois que se mergulha num sistema deteriorado, o normal é deteriorar-se com ele, não é? Eu não quero generalizar. Sei que há as moscas brancas, como alguns médicos que conheço e para os quais tiro o chapéu. Mas, infelizmente, eles não são maioria e digo isso sem medo de errar.
            E é exatamente por isso que eu quero dar esse alerta. Se você pretende vir a ser um médico, esteja certo de que é forte o suficiente para não se deteriorar junto com o sistema. Esteja certo de que terá forças para, se necessário, promover mudanças, reivindicar direitos, exigir condições dignas de trabalho, e até encabeçar movimentos, na busca de uma melhoria do sistema de saúde. Quem está ingressando, hoje, na medicina, tem que ter, além de vocação e talento, postura política. Porque se você simplesmente se sujeitar ao que está aí, você corre sério risco de sucumbir e transformar-se num desses comerciantes da saúde que hoje fazem cesárias em mulheres que poderiam ter partos normais, para ganhar mais. E, para mim, quem faz isso é bem capaz de estar, amanhã, traficando órgãos, porque, afinal, isso pode ser ainda mais lucrativo.
 
Ana Lucia Sorrentino
 
   
   

 
   

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sem volta




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Eu me queria como fui um dia,
quando ainda não sabia
coisas que depois vim a saber.
Eu me queria como antes de perceber
o que depois percebi,
sem nem ao menos querer.
Eu me queria como fui um dia:
inocente, crédula, pia.
Se a maturidade castiga
com a decepção do descrer,
a senilidade talvez seja
um indulto da natureza,
pelo envelhecer.
Custando a morte a chegar,
já fartos de aprender,
nela descansamos,
conseguindo, enfim, esquecer.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Analú
01/12/2012