sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Liberdade, angústia e amor


           

            Certa vez, assistindo a uma palestra de José Thomaz Brum1, impressionou-me a resposta do palestrante a um rapaz que lhe perguntou sobre o sentido da morte na obra de E. M. Cioran2. Disse Thomaz Brum que lhe parecia que quando Cioran falava sobre a morte não estava falando da morte tal qual a conhecemos, mas de tudo aquilo que não vivemos. Que logo que despontamos para a adolescência começamos a perceber o quanto a vida é rica em possibilidades, mas mesquinha em realizações. E que era a essa defasagem que Cioran provavelmente se referia.   
            Algum tempo antes, eu lera um artigo de Gustavo Gitti3 em que ele colocava em questão exatamente essa discrepância entre a abundância com que a vida nos acena e a pouca vida que vivemos de fato. O foco central do texto eram os relacionamentos e Gitti usava um tom encorajador, estimulando o leitor a ser mais proativo na tentativa de realizar os próprios desejos. Defendia que todos queremos as mesmas coisas – atenção, carinho, amor - e que, portanto, devíamos ser mais corajosos na exposição de nossos sentimentos, e, enfim, mais transparentes e afetuosos.   
            Essa questão era recorrente nas minhas reflexões e imediatamente me identifiquei com as ideias do autor. Naquele momento, eu vinha protelando uma necessária conversa com um amigo, por temer sua reação à minha autoexposição. O texto de Gitti foi como um pontapé no traseiro, e me fez superar meus receios e ser clara. O que resultou numa enorme frustração, porque meu amigo não estava habituado a lidar com a clareza e menos ainda com a liberdade.  Assustou-se, e passamos por um período conturbado que, felizmente, foi superado.
            As pessoas em geral estão tão acostumadas a dissimular e restringir quando há afetividade em jogo, que o blefe e a imposição de regras rígidas muitas vezes são mais bem-vindos do que uma aposta sincera num exercício de liberdade. Afinal, como viver um relacionamento sem regrá-lo? Para a grande maioria, isso é verdadeiramente angustiante. E é assim que essa questão vira um bicho de sete cabeças, que a noção de uma vida plena acaba parecendo piada e que nós vivemos apenas um fiapo do que poderíamos viver, numa constante manutenção dessa defasagem entre vida possível e vida vivida.    
            Quando Thomaz Brum fala sobre as infinitas possibilidades com que a vida nos acena também está falando em liberdade e em coragem. Porque, se há tanta coisa para se viver, é preciso que tenhamos liberdade para fazer nossas escolhas e coragem pra vivê-las. Mas, me parece que quanto mais livres nos sentimos, mais numerosas e sedutoras são as possibilidades, mais nosso desejo se dispersa, confuso, provocando angústia e enfraquecendo nossa coragem, e mais nos frustramos por termos que abrir mão de muitas delas para viver apenas muito poucas.
            Há alguns dias, lendo um artigo de Luiz Felipe Pondé4, me deparo com uma citação que ele faz de Kierkegaard5. Diz Pondé que o filósofo dinamarquês afirma que “nós somos feitos de angústia” devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta.
            A associação de Kierkegaard entre liberdade e angústia me reportou de imediato à fala de Thomaz Brum, ao texto de Gitti e às minhas experiências pessoais.
            Recordei-me dos vários momentos da minha vida em que a angústia da liberdade foi neutralizada por uma restrição compulsória dessa liberdade. A maternidade e a amamentação, sem dúvida alguma, me presentearam com algo que posso dizer muito próximo do que imagino ser a “paz”. A convicção de que um serzinho indefeso precisava de mim para viver me agraciava com um foco raro em mim quando em situação de maior liberdade. É possível argumentar contra isso dizendo que o nascimento de filhos é um acontecimento feliz, e que talvez daí viesse a ausência de angústia. Mas também me senti menos angustiada nos momentos em que tive que abrir mão da minha vida por conta de acontecimentos tristes, como doenças na família. O desagrado pela gravidade da situação acabava sendo superado pelo sentido que ela trazia para a minha vida. Embora muitas vezes minha própria vida não fizesse muito sentido para mim, contraditoriamente, quando o bem-estar de alguém dependia de mim, esse sentido surgia. E, nesses momentos, pouco me importava que a vida do outro também não fizesse muito sentido. Minimizar o sofrimento alheio e dar um pouco de conforto a alguém carente fazia todo sentido. E isso, ao menos momentaneamente, me colocava dentro de uma redoma opaca, que me distanciava tanto dos sedutores chamados do mundo lá fora, que eles deixavam de ter importância, e perdiam o poder de me angustiar.   
         Infelizmente, essa prática do amor nem sempre tem como objeto um ser humano ou algo positivo. Há quem ame a tristeza, a dor, o ressentimento, o remorso ou a doença e nisso também encontre um escape para a angústia da liberdade. Em Breviário de Decomposição Cioran diz:

Quem sofre de um mal caracterizado não tem o direito de queixar-se: tem uma ocupação. Os grandes enfermos não se enfastiam jamais: a doença os preenche, como o remorso alimenta os grandes culpados. Pois todo sofrimento intenso sustenta um simulacro de plenitude e propõe à consciência uma realidade terrível, que esta não saberia eludir; [...] 6


  Uma cuidadosa passada de olhos ao nosso redor nos leva facilmente a concordar com Cioran. Muitas vezes a doença se torna uma espécie de bicho de estimação, e o enfermo encontra nela uma ocupação, um motivo para não se importar seriamente com mais nada, um refúgio. Acaba se criando uma relação de amor entre doente e doença. E esse amor parece justificar tudo, simulando um sentido para a vida.
            Se não é fácil encontrar um sentido maior e único para justificar nossa existência, a cada nova fase da vida inventamos novos sentidos. Solteiros inventam a paixão. Casais cuja paixão já arrefeceu inventam filhos para ter novamente a quem amar. Pais que perdem filhos em acidentes se engajam em campanhas de trânsito, para ter uma causa para amar. Workaholics mergulham no trabalho. E assim seguimos, nessa constante busca de algo ou alguém que preencha esse vazio de sentido e que faça nossa existência ter algum valor.
            Esse processo é doloroso, mas ficar lamentando a inexistência de um deus paternalista que nos dê isso de mão beijada pode ser uma grande perda de tempo. Se não somos como as plantas, que simplesmente “vivem”, e se podemos pensar, por que é que achamos que esse sentido já deveria estar dado ao nascermos?
            Pondé discorre sobre a falta de sentido da vida, mas desemboca no amor: “Somos um nada que ama”.            Sinceramente, não creio que sejamos um “nada”. Somos, sim, insignificantes perante a imensidão do universo. Mas acredito que isso se torne muito importante apenas para os antropocêntricos, que, ressentidos por não serem o motivo de todas as coisas, se travestem de humildes, levando essa insignificância ao extremo. Somos exatamente como tudo o que existe: um pedacinho, um quase invisível pedacinho. Mas um pedacinho que interage com todos os outros pedacinhos. E que ama. E que encontra na prática do amor um alívio para a angústia que a liberdade traz.
            Surpreende-me a paradoxal constatação de que só encontramos um pouco de serenidade quando restringimos voluntariamente nossa liberdade. É num exercício de liberdade que optamos pela não liberdade para, em alguns momentos, termos um pouco de paz, amando.  Seja lá quem ou o que for. 

Analú


1-  Doutor em Filosofia, professor da PUC-RJ e tradutor das principais obras de Cioran no Brasil.
2 - Cioran, Émile Michel (8 de abril de 1911, Răşinari, Sibiu, Austria-Hungary (hoje Romênia) – Paris, 20 de junho de 1995), filósofo romeno-francês.
3 - Filósofo e Pedagogo pela USP, autor do blog Não2Não1.
4 - Pondé, Luiz Felipe – “Meu irmão Kierkegaard” – Folha de São Paulo - 13/06/11.
5 - Kierkegaard, Søren Aabye (Copenhague, 5 de Maio de 1813 - Copenhague, 11 de Novembro de 1855) foi um filósofo e teólogo dinamarquês.
6 - Cioran, Émile Michel. Breviário de Decomposição.Tradução de José Thomaz Brum. Ed. Rocco. Rio de Janeiro, 1995. p.22.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Eu, pura aporia




Creio piamente
que nada é por acaso
e que tudo é contingente.
Divido-me o tempo todo
entre não acreditar em nada
e acreditar o tempo todo em tudo.
Zombo da existência de Deus
e lhe peço, em oração,
que me devolva a fé.
Esquerda e direita
me parecem igualmente
sedutoras e perigosas.
Estanco na esquina,
convictamente equivocada.
Noite e dia
em pacífica desordem
habitam em mim,
e constituem o que sou:
pura aporia.

Analú

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A morte veio





E a morte veio.
Tardia,
mas, como de hábito,
corajosa e definitiva.
Varreu esperanças vãs,
escancarou janelas
e arejou corações mofados
por demasiada demora.
Como mãe enérgica
que põe ordem na casa,
acabou com a festa do sofrimento,
mandou a angústia embora,
determinou um descanso forçado,
e saiu, satisfeita,
por mais uma missão cumprida. 

Analú 
Imagem: www.deviantart.com

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Às avessas





Marquei um desencontro
comigo mesma
e, como de praxe,
me atrasei.
Deu tudo errado:
chegando lá,
eu me encontrei.

Analú

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Maturidade



Num susto me acomete
inesperado recato.
Um bem-vindo autoamor,
um quê de orgulho e vaidade.  
Súbita maturidade,
contrariando o esperado,
não vem aos poucos,
a cada ruga
ou fragilidade.
Vem de uma só vez, 
inteira e com gosto de novidade.
Me possui,
me traz cuidados comigo,
mitiga minhas verdades,  
e me imprime dignidade. 

Analú 

terça-feira, 31 de julho de 2012

Será mesmo preconceito imaginar que a filosofia é para uma elite?



          
            No artigo “A filosofia e as pessoas comuns”1 Gonçalo Armijos Palácios2, um defensor da filosofia acessível aos “mortais comuns”, discorre sobre o fato de ser a atividade filosófica uma atividade como todas as outras, para as quais podemos ter ou não talento. Palácios explica, com clareza coerente com as ideias que defende, que o que os filósofos fazem não é muito diferente do que o que todos nós fazemos quando precisamos “sair de uma enrascada pensando por nós mesmos”. Que assim como nem todos podem ser bons pintores ou cientistas, nem todos podem ser bons filósofos. E que ter habilidade para filosofar não insere o filósofo numa categoria especial de ser humano, pois a filosofia nada tem de “esdrúxulo, diferente ou místico”. Afirma que “o filosofar está mais próximo das pessoas comuns do que elas imaginam” e aponta como uma das causas dessa distância imaginada o preconceito. Por fim, esclarece a diferença entre ser um historiador da filosofia e ser um filósofo, a mesma que há entre ser um historiador da arte e um artista, ou entre ser um historiador das ciências e um cientista.
            Embora o texto de Palácios seja esclarecedor, sua afirmação de que “um problema que afasta as pessoas do ato de filosofar, certamente, é seguir acriticamente os muitos preconceitos que há sobre a filosofia” me incomodou um pouco. Essa afirmação, da forma como foi feita, parece jogar sobre o leitor comum toda a responsabilidade pelo tal “preconceito”.
             Ao terminar a leitura do texto, me ficou a pergunta: será mesmo? Será essa ideia que as pessoas têm de ser a filosofia atividade para “alguns escolhidos” puro preconceito?
            Vieram-me então à mente algumas situações vividas no curso de filosofia.
            Lembrei-me de que, em certo momento, no primeiro ano, numa aula de Introdução à Filosofia, questionei meu professor sobre a forma como alguns filósofos escrevem. Estávamos estudando um texto de Alain Badiou3 e a leitura era complicada a  ponto do professor nos dizer que, com certeza, não conseguiríamos compreender tudo, mas apreenderíamos algo, e isso já era importante.
            No meu questionamento já havia uma teoria própria, fruto do meu primeiro contato com os textos filosóficos. Eu achava que muitos filósofos faziam questão de escrever de forma complicada justamente para uma manutenção da filosofia como coisa de uma elite privilegiada, o que, talvez, fizesse com que se sentissem mais importantes do que as pessoas “comuns”. Meu professor não concordou inteiramente comigo, embora não discordasse de todo. Mas, disse que talvez os textos fossem difíceis porque a vida era difícil. Naquele instante, me curvei à autoridade do mestre. Talvez fosse realmente necessário recorrer a uma linguagem sofisticada para falar em profundidade sobre as questões complicadas da vida. Hoje já não sei se continuo pensando assim. A impressão que tenho é de que, se nossa intenção for realmente atingir as pessoas em geral, sempre será possível falar de forma simples, seja lá sobre o que for.
            Ainda no primeiro ano nossa turma foi convidada a assistir a uma palestra da área de filosofia da ciência. Não me recordo agora o nome do palestrante, bem como não me recordo de absolutamente nada do que ele disse. E por quê? Porque ele usou uma linguagem praticamente ininteligível. Estudantes de filosofia não tinham obrigação de entender em profundidade uma teoria científica, mas creio que para a maioria dos que estavam ali tenha sido quase impossível compreendê-la mesmo superficialmente, porque o palestrante foi incapaz de se comunicar de forma minimamente compreensível. Acabei me conformando em apreender o que fosse possível, assim como o meu professor sugerira ao lermos Badiou. Mas, saí da palestra com a nítida impressão de que se o palestrante tivesse um mínimo de interesse em transmitir algo, ele teria conseguido.
            Já no segundo ano uma situação vivida na aula de ética me impressionou seriamente. Durante o estudo do livro Elementos de Filosofia Moral, de James Rachels4, iniciou-se uma discussão sobre homossexualidade, que acabou nos levando a um caso em evidência na imprensa naquele momento. O caso do cartunista Laerte5, que, vestido de mulher, fora flagrado usando um banheiro feminino. Nossa professora propôs nos dividirmos em grupos, cada qual defendendo uma posição diferente. Um grupo defenderia o direito de Laerte usar o banheiro feminino, o outro lhe negaria esse direito e um terceiro grupo se colocaria como relativista moral, defendendo que ambas as posições estavam certas, de acordo com seu próprio ponto de vista. A discussão que se seguiu foi absolutamente infrutífera no sentido de resolver um problema prático. O grupo que defendia o direito de Laerte usar o banheiro feminino apoiava sua defesa no direito à homossexualidade e no respeito às diferenças. O meu grupo defendia que Laerte não deveria usar o banheiro feminino, porque, embora se vestisse como mulher, e dissesse “se sentir mulher”, isso não fazia dele uma mulher, uma vez que tinha um corpo masculino e se relacionava sexualmente com mulheres. Embora o meu grupo concordasse com todos os argumentos a favor da liberdade na questão da sexualidade, o que desejávamos era que o outro grupo compreendesse que preferências sexuais não estavam em jogo ali. Não estávamos falando sobre a vida sexual de Laerte, mas sobre o uso de um banheiro público cujo espaço físico é projetado de forma diferente para homens ou mulheres. Quando tentei defender a ideia de que, para o senso comum, homem é aquele que tem pênis e mulher é aquela que tem vagina, isso caiu como absurdo. Porque, para filósofos, a sexualidade é algo que se constrói ao longo da vida e ter um pênis ou uma vagina é absolutamente irrelevante. Estávamos numa discussão filosófica e não podíamos colocar as coisas em termos tão simples. A discussão precisava manter um nível filosófico. Devíamos usar argumentos lógicos para derrubar a tese do outro grupo. No entanto, o banheiro público é usado pelas pessoas em geral. E na porta dos banheiros públicos há indicações de “ele” ou “ela”, não há nada do tipo: “se você se sente homem entre aqui” ou “se você se sente mulher entre aqui”.
            Enfim, nós, que defendíamos que Laerte deveria usar o banheiro masculino, fomos praticamente tachados de homofóbicos, o que não era, absolutamente, o caso. Estávamos vendo a situação de um ponto de vista prático, mas a filosofia parecia ignorar haver uma vida em sociedade, onde algumas regras são estabelecidas com o simples intuito de facilitar as coisas. Saí daquela aula me sentindo incompreendida e frustrada. Me ficou uma sensação de que filósofos não conseguem enxergar o que é simples. Pensei, naquele momento, que talvez filósofos não fossem, realmente, pessoas “comuns”. E me prometi me policiar para, estando dentro da filosofia, me esforçar para não me distanciar exageradamente da realidade e não perder o senso prático que a vida exige de nós o tempo todo.       
            Na verdade, não há como negar que o estudante de filosofia já chega à academia se sentindo um pouco “diferente” e, ouso dizer, desejando sê-lo. Vivemos num mundo em que se atribui maior valor à atividade intelectual do que à braçal e isso pode dar ao estudante de filosofia essa ilusão de ser alguém especial. Daí não é muito difícil concluir que, mesmo sem ter total consciência disso, seus movimentos se darão justamente no sentido de ser diferente, sem que se façam maiores esforços para que as próprias ideias, já mais buriladas e sofisticadas, sejam transmitidas de forma a serem compreendidas por todos. Ser incompreendido por ser difícil pode ser, para alguns filósofos, envaidecedor.
            E é justamente nesse desinteresse de alguns por ser acessível a todos que a filosofia sai prejudicada. Porque, se não formos acessíveis a todos, que mudanças poderemos promover no mundo?
            Um documentário sobre Simone de Beauvoir6 (Arquivo N)7 fala de uma carta que uma leitora agradecida lhe escreveu. No trecho reproduzido abaixo percebe-se bem a importância de Simone ter usado uma linguagem acessível:

Querida companheira e, ouso dizer, amiga. O seu livro ‘O Segundo Sexo’ me encantou. Eu li e reli muitas vezes e dei de presente a muitas pessoas e ainda darei a muitas outras. Sou uma operária que nem terminou os estudos. A senhora fez um bom trabalho. Me permito te mandar um beijo.


                            Todos, filósofos e não filósofos, sabemos e sentimos na pele as mudanças que Simone de Beauvoir promoveu no mundo todo.
            Imagino que o fato das “pessoas comuns” enxergarem a filosofia como algo distante delas não signifique exatamente que estejam seguindo acriticamente os preconceitos que já existem. Talvez signifique que a própria filosofia se faz hermética a ponto de desestimular o leitor comum a ir mais a fundo. E ela mesma cria essa mistificação, que depois atribui a preconceito das “pessoas comuns”.
            Afinal, o que são “pessoas comuns”? Somos todos pessoas comuns e todos temos na filosofia uma esperança de encontrar respostas para algumas questões que nos incomodam. Nós, hoje, não somos muito diferentes dos filósofos da antiguidade, que se perguntavam o que provocava os trovões. Nossas questões são outras, mas nosso desejo é o mesmo: através da razão, nos ver livres das superstições e crenças que emperram nossas vidas. E quando alguém tem alguma resposta libertadora, o que de melhor pode fazer é seguir o exemplo de Beauvoir, e ser acessível. Ela não teria provocado as mudanças que provocou se tivesse feito questão de ser difícil. E nenhum de nós conseguirá provocar mudança alguma falando a uma minoria de iniciados.
            O leitor quer respostas e se vai em busca delas através da filosofia, sem uma prévia orientação, muitas vezes se frustra ao se deparar com textos cuja leitura, de tão difícil, é quase impossível. É assim que não simplesmente adere a preconceitos já existentes, de forma acrítica, mas elabora seu próprio pós-conceito. Que se espalhará por aí, alimentando essa crença de que a filosofia é para seres humanos especiais, desestimulando o interesse das pessoas em geral e, infelizmente, contrariando esse bonito esforço de Palácios para desmistificar a filosofia.


2 - Gonçalo Armijos Palácios é doutor em filosofia pela Indiana University, professor da Universidade Federal de Goiás e autor do livro De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio (Editora da UFG).
3 - Alain Badiou nasceu em 1937 na cidade marroquina de Rabat. Autor de vasta e qualificada produção intelectual, é tido como um dos principais filósofos franceses da atualidade.
4 – James Rachels (Georgia, 1941 – 2003) foi um filósofo americano especializado em ética. Seus trabalhos são conhecidos por sua acessibilidade.
5 - Laerte Coutinho (São Paulo, 1951) é um dos principais quadrinistas do Brasil. Nos últimos anos, passou a chamar a atenção pelo abandono de seus personagens e pela prática do crossdressing.
6 - Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, (Paris, 1908 – 1986), foi escritora, filósofa existencialista e feminista francesa.
7 - Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=oX28Yp-KNoQ&feature=relmfu> acessado em 29/07/2012

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A Liberdade é Monogâmica







                   Firmei compromisso com a liberdade
                   e, de pronto, perdi a liberdade
                   de amasiar-me com qualquer outro alguém.
                   Com seu jeito serelepe,
                   promessas de grandes voos
                   e de muita novidade,
                   contraditoriamente
                   a liberdade é, das amantes,
                   a mais possessiva e monogâmica.
                   Ingenuamente pensei que teria liberdade.  
                   Hoje sei que me enganei.
                   Na verdade, a liberdade é que me tem. 

                  Analú
                  26/07/2012