quarta-feira, 21 de março de 2012

Tão pouco ;)




Um sono bem dormido.
Um beijo de bom dia.
Um trabalho bem feito.
Comidinha gostosa,
em agradável companhia.
Sinceridade e harmonia.
Uma boa sesta,
e mais um fôlego.
Um desafio e
uma vitória.
Uma vaidadezinha
e uma boa história.
Missão cumprida.
Ter pra quem contar o dia,
escutar um pouco também.
Ter com quem se preocupar.
Aprender e ensinar.
Uma troca de sorrisos
e o descanso merecido.
Dia de folga:
um belo banho de sol!
Um cineminha ou teatro,
uma brisa na calçada.
Um lençol bem fresquinho
e uma bela gozada.
O livro na cabeceira,
luz do abajur apagada.
E a inevitável questão:  
se sou feliz com tão pouco, 
pra que tanta pensação?

Analú

21/03/2012

sábado, 17 de março de 2012

Joguetes





A vida às vezes brinca
difícil jogo de azar.
No tabuleiro do mundo
espalha um quebra-cabeças
de frágeis peças humanas,
que buscam se encaixar.
Numa tramoia do tempo,
as peças entram aos poucos. 
Algumas num tempo distante,
outras num tempo a chegar.
Noutra tramoia do espaço,
as peças se posicionam:
umas num canto longínquo,
outras bem perto, a esperar.
Por conta de tais tramoias,
durante toda uma vida
peças de encaixe perfeito
jamais irão se encaixar.
E essa paisagem vazada
será sempre um passatempo.
Dessa vida brincalhona
uma obra inacabada.

Analú
18/03/2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

Você e Deus



Quem começa a se interessar por filosofia logo percebe que Deus e o Amor são temas recorrentes nos textos filosóficos.
Em  “Amor”  André Comte Sponville, filósofo francês da atualidade, afirma ser esse assunto o mais interessante de todos. Contra os  que não concordam  com  essa ideia, Comte argumenta que, mesmo que não estejamos falando de amor, estamos sempre falando do amor que temos por algo ou por alguém. 
             Assim como o Amor,  Deus parece ser, senão o assunto mais interessante, um assunto quase sempre inevitável para os filósofos. Se ele não for o tema central da reflexão, acabará sendo a causa ou solução para quase  tudo  que não se consegue compreender ou assimilar.                                                      
            Muitas vezes a motivação primeira dos questionamentos filosóficos é um profundo sofrimento por conta de imposições religiosas baseadas em ideias fantasiosas sobre Deus. E não é raro que, na busca pelas suas verdades, o filósofo acabe se enroscando em suas próprias teorias e termine apelando para Deus.  Não é muito difícil entender o porquê disso.
Deus é uma daquelas verdades que encontramos prontas quando chegamos ao mundo. Recebemos essa ideia já elaborada  e  ao longo de toda a nossa vida,  tentaremos entendê-la e estabelecer com ela a melhor forma possível de relacionamento.
Mal aprendemos a pronunciar “mamãe”  e já estamos às voltas com “Papai do céu”.  Crescemos convivendo o tempo todo com  expressões como  “Vai com Deus, Deus é mais, Deus te acompanhe, Deus te ajude, Deus te Guie... Deus castiga. Deus sabe o que faz. Deus escreve certo por linhas tortas. Graças a Deus... Meu Deus!” – Como é que poderíamos conceber com facilidade a ideia de um mundo sem um criador?  
Com todo respeito, e pedindo aos filósofos de carteirinha que me perdoem, eu acho fantástico imaginar que Descartes tenha se torrado os miolos pra concluir que, se havia nele uma ideia de Deus, era porque o próprio Deus havia colocado essa ideia nele. Por acaso Descartes vivia em algum universo paralelo,  isolado de tudo e de todos?
À medida que vamos adquirindo autonomia, passamos a questionar as verdades preestabelecidas e a consequência disso é questionarmos também esse Deus que existiu desde sempre e que suscita tanta polêmica no mundo todo.
Enquanto muitos se contentam com um Deus herdado outros muitos, pelos mais variados motivos, começam a duvidar dele. Considero natural que em certas fases da vida nos sintamos crentes, enquanto que, em outras, fiquemos céticos. Mudar de opinião faz parte do nosso crescimento.
Muito longe de pretender aqui defender a existência ou não de um Deus, o que quero propor é que pensemos sobre as confusões que se criam em torno de Deus e da religião.
Ao longo do ano passado, em vários momentos, durante as aulas de Filosofia Antiga do curso que frequento, percebia-se uma inquietação de alguns alunos quando o professor tocava no nome de Deus. Eles se sentiam incomodados porque, por serem ateus, queriam evitar Deus a todo custo. Num certo momento  perguntaram ao professor se quando ele dizia “Deus” estava se referindo ao “Bem”.  Aquilo criou uma espécie de saia justa, porque ficou evidente que, a cada vez que o professor fosse usar o nome de Deus, se perguntaria o quanto estaria incomodando aqueles alunos ateus. Desnecessário isso. Será que esse alunos não poderiam simplesmente receber a mensagem e decodificá-la silenciosamente? Se para eles “Deus” significava “Bem”, a questão estava resolvida. Eles poderiam , por algum respeito aos alunos não ateus, deixar isso passar batido. Mas não. Havia ali uma enorme vontade de combater a Deus.
Certa noite, encontrei a seguinte frase na lousa: “Deus não existe e não faz falta”. E foi então que percebi claramente o quanto havia de ressentimento ali. E a partir desse momento começou a ficar claro para mim que a presença de Deus na vida do ateu é, muitas vezes,  algo muito forte. Talvez mais forte do que na vida daqueles que naturalmente aceitam Deus como uma verdade indubitável. Excetuando os ateus que simplesmente não acreditam e para quem isso não constitui problema, muitos ateus parecem ser, na verdade, ressentidos.  E se há ressentimento é porque havia uma expectativa que foi frustrada.
Pergunto: quem gerou essa expectativa? Ouso dizer que não foi Deus.  Se existe um Deus, decerto ele  nada tem a ver com as fantasias que os homens criam usando-o como justificativa para manipular o ser humano.
Por conta de tradições religiosas podemos crescer acreditando que Deus é um pai bondoso que jamais permitirá que o mal chegue até nós. Numa barganha que só a razão humana poderia arquitetar, ele nos pouparia da dor e satisfaria nossos desejos em troca de orações, louvores e, quem sabe  até de um dízimo. Em algum momento abrimos os olhos e percebemos que não há privilegiados e  que o mundo está cheio de dor e de mal. E nos decepcionamos profundamente com Deus. É comum nos depararmos com alguém que, de repente, coloca em dúvida a existência de Deus por conta da morte de um ente querido, ou porque percebeu, num estalo, que há injustiça no mundo. É interessante observar que os insights, na maior parte das vezes, se dão quando a desgraça nos toca bem de perto. Decepcionados, passamos a combater Deus, porque nos sentimos traídos.  Mas... pense bem: foi mesmo Deus que nos prometeu um mundo de maravilhas?
Vamos partir do pressuposto de que Deus exista. Se Deus é uma ideia de supremo BEM incrustada na vida das pessoas ao redor do mundo todo e, portanto, quase unanimidade, é concebível que em nome dele se promova a segregação e o desacordo?
Embora saibamos que o próprio conceito de Deus é criação do homem, podemos encontrar nele um sentido. Mas, é preciso ter em mente que tudo o que se fala a respeito de Deus é criação do homem. A fértil criatividade humana produziu  uma variedade enorme de religiões, cada qual com suas particularidades, defendidas com unhas e dentes por seus adeptos. Decorrem daí as intrigas e disputas religiosas, os  jogos de poder e o fundamentalismo, que não raro culminam em guerras. Você acha mesmo que Deus acharia bacana isso?  Cada religião pode forjar todo tipo de desculpa para justificar o injustificável.  O que é uma contradição inaceitável é que, em nome de Deus,  seres humanos fiquem se futricando e se aborrecendo, tentando fazer valer suas próprias convicções.
Há pouco tempo bati um longo papo com uma mãe de família que apanhara durante 24 anos de um marido desequilibrado. Essa mulher atravessara a vida desejando a separação para tentar, finalmente, ser feliz. Ela conseguiu. Assinou o divórcio como quem recebe uma carta de alforria. Mas, então, o pastor com quem costuma se orientar lhe disse com todas as letras que ela jamais poderia casar-se novamente, porque está escrito na Bíblia que uma mulher divorciada não tem direito a um novo casamento. Percebi nela uma enorme impotência para questionar tal condenação à infelicidade perpétua. Será mesmo que Deus condenaria alguém a viver uma vida apanhando e ainda lhe castigaria com a proibição de viver um novo amor? Afinal, Deus não gosta do amor? É concebível isso?
Outro dia alguém postou no facebook uma publicação sobre uma súbita implicância das lésbicas com crucifixos em lugares públicos. Seguiu-se ali uma enxurrada de comentários em que se percebia o quanto de confusão existe sobre ser Católico ou Cristão, ser o Brasil um país laico, sobre serem as lésbicas atéias... enfim, uma bagunça. Mas, abstraindo-se as opiniões pessoais, o que restava ali era uma disputa pela posse da razão. E uma agressividade. Mesmo que às vezes velada, uma grande agressividade. Em nome de Deus. 
Lembrei então de um vídeo em que Drauzio Varella dizia, com muita serenidade, que era ateu desde sempre, e que respeitava todos os religiosos, mas percebia uma grande violência dos religiosos contra os ateus. Como se ateus não pudessem ser homens de bem. São equívocos gerados pelas religiões.   
Todas as vezes que questionei os que defendem a Bíblia como verdade absoluta, perguntando-lhes, afinal, quem escreveu a Bíblia, a resposta que tive foi que foram homens inspirados por Deus. Pois é... mesmo que se aceite que a inspiração veio de Deus, o recado foi passado através da razão humana. 
Quando comento com religiosos sobre a dificuldade que tenho em compreender os textos bíblicos a resposta também é recorrente: é preciso de orientação para entender a fundo as mensagens bíblicas. Pois é... digo eu, novamente. Essa orientação virá de quem? De homens que interpretaram a Bíblia e que me orientarão de acordo com suas próprias interpretações, que, na verdade, não são muito próprias,  porque eles também tiveram uma orientação prévia. Ou seja: não escapamos da interpretação humana.
É assim, graças a interpretações humanas, e pelo não questionamento dessas interpretações, que vemos mulheres agoniadas se sentindo culpadas por desejar viver um novo amor. É assim que vemos grupos imensos cantando louvores motivados pela crença de que Deus ficará feliz com isso. É assim que mulheres estupradas ainda precisam passar por verdadeira tortura psicológica para fazer um aborto. É assim que relacionamos prazeres carnais à culpa. E é assim que, em lugar de nos regozijarmos com uma vida plena, passamos a vida nos debatendo entre aquilo que de fato sentimos e aquilo que as religiões pregam.
            E é assim que concluo que as religiões apequenam Deus e promovem a segregação. E que grande parte dos que se revoltam contra Deus está, na verdade, revoltada contra as religiões.
            Minha sugestão é que, já que a ideia de Deus é algo tão forte e plausível para muitos, e inadmissível, mas ainda assim muito forte, para outros, tentemos pensar nisso sem a interferência das interpretações religiosas.
            Podemos olhar o mundo à nossa volta, rever todo o percurso da nossa vida, sentir o que vai dentro de nosso coração, ouvir nossas próprias respostas e concluir algo. Sabendo, de antemão, que somos livres para repensar Deus enquanto vivermos.
            Porque, se há um Deus e se é importante para você compreendê-lo, isso é trabalho seu.
Isso é entre você e Deus.

Analú

11/03/2012

Postagem original: 
http://gazzetadachapadadiamantina.blogspot.com/2012/03/voce-e-deus.html?spref=fb 

Imagem: www.deviantart.com

quinta-feira, 8 de março de 2012

"Despreocupe-se e pense no essencial"

Eu gostaria muito de viver em um mundo em que todos os dias fossem dedicados a todos nós e em que todos os seres humanos se respeitassem mutuamente, sem qualquer tipo de discriminação.
Mas, hoje é o Dia Internacional da Mulher e essa data não nasceu do nada. Infelizmente, ela é fruto de um evento histórico de extremo desrespeito a trabalhadoras.
Aqui vai o meu abraço carinhoso a todas as mulher
es.
E o meu conselho, parafraseando Marisa Monte:
"Despreocupe-se e pense no essencial." ;)
  http://www.youtube.com/watch?v=xF2OFkO2nns

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Filosofia, a vizinha bisbilhoteira de Literatura


                                                                
 











                                                       Para Germano Xavier, 
                                 o poeta por quem Literatura se apaixonou.      


 Estava Literatura a delirar, gostosamente jogada no sofá, sob um grosso cobertor felpudo. Bebericava um bom vinho e até suspirava, buscando no teto a doce imagem do jovem poeta com quem cruzara à tarde. Se enamorara. Conhecendo-se bem, via aí uma só possibilidade: a do amor.
            O encontro havia sido rápido, em condições inapropriadas, mas o rapaz levava na mão Alguma Poesia. Segurava Drummond com segurança e leveza e vez ou outra acariciava suavemente os relevos dourados da capa. Mas era na expressão do rosto, cheia de dignidade e mistério, que residia a sedução. Literatura sabia que se desvirginasse aquele olhar, encontraria lá no fundo um sem fundo de emoções. Sob a aparente quietude, experiente, ela vislumbrava um turbilhão de ânsias, dúvidas, medos, paixões.
            Embora Drummond já tivesse iniciado o processo, Literatura, fascinada por inventar, matutava engenhosamente qual estratégia usaria, qual o subterfúgio para chamar-lhe a atenção, quando o soar incômodo da campainha insiste em lhe trazer pro chão.    
            Aborrecida, joga o cobertor de lado e abre a porta pra barulhenta vizinha, que encontra em total estado de confusão. Pálida, magra, rabo-de-cavalo desgrenhado, olheiras profundas sob o vidro de garrafa de enormes óculos redondos, se apresenta como Filosofia e estica, trêmula, um pote vazio. Tão perturbada estivera durante o dia, tentando achar pelo em ovo, que esquecera de passar no mercado. Agora se via assim: dependente e carente, precisando desesperadamente de uma xícara de café bem doce e quente.
 Tanta rima em alguém que parecia tão prosa soou estranho à Literatura. Enfim, se o vício do café vinha acompanhado pelo do açúcar, não seria ela, ainda mais no estado em que se encontrava, a negar um pouco de doçura. Enche o pote, pedindo a  Deus que a vizinha importuna se vá logo e a deixe de novo a devanear.
            Mas... como toda boa bisbilhoteira, Filosofia, em vez de se ir com seu açúcar, avança pelo corredor e invade a sala, na desculpa de admirar o belo quadro,  na parede sobre o sofá.
            Literatura, vaidosa, se deixa envolver pelo interesse e admiração da nova amiga, e num arroubo de exibicionismo, louca pra falar do borbulhar de seus sentimentos, a convida ao vinho e até mesmo ao cobertor.
Filosofia não resiste à tentação. Afinal, pra quem esperava da noite um bule de café na solidão, estar sob um cobertor quentinho, inebriada pelo vinho e em companhia de tão sedutora Literatura a levava a imaginar que, enfim, os deuses haviam se lembrado de a presentear.
            Já meio alta, Literatura, viciada em intimidade, envereda por conversas pessoais e acaba por narrar em detalhes suas intenções em relação ao jovem poeta. Como o conhecera, o que ele lhe despertara, o que vinha matutando desde o primeiro minuto em que o encontrara.
Filosofia, já corada, escuta, atenta, interferindo apenas com pequenos gestos, olhares assustados e suspiros de admiração. Não teria coragem de se expor assim... de falar de seus próprios sentimentos, de se confessar apaixonada por um inocente rapaz a alguém que acabara de conhecer. Nem ao menos sabia se seria capaz de se apaixonar, nalgum dia... Tamanha autoexposição parecia, a Filosofia, verdadeira extravagância. De seu deserto íntimo, tentava imaginar como Literatura conseguia mergulhar tanto em tão recente sentimento e se perguntava se nalgum dia teria tal capacidade de entrega.
            O fato é que enquanto desenvolvia esse raciocínio, quase sem perceber, Filosofia se abandonava  à doce voz de Literatura. Aos poucos, a aflição do dia se desvanecia.  Desvencilha-se do apertado elástico do rabo- de-cavalo, desfaz-se dos sapatos e da tensão. Acomoda-se melhor, se serve de um pouco mais de vinho e percebe a figura da amiga ficar desfocada, seus lábios em movimentos mais lentos, a voz se distanciando. Envereda por um cochilo em que os sons se vestem de letras, e as letras dançam em harmoniosas frases de sedução. É o poeta, tão jovem, e suas mãos segurando um livro. A expressão cintilando de curiosidade. Seu sorriso comedido, a atenção focada. A paixão, invasiva, penetrando as palavras através do olhar do poeta e as palavras, atrevidas, penetrando o poeta...
            Embalada pelo sono, Filosofia sente a fina pele de Literatura empurrando suas pernas, procurando espaço. Ouve, longe, seus suspiros, talvez desejo de ar puro.
            Mas, tão possuída pelo sono estava Filosofia, e tanto lhe agradava aquele sono acompanhado, que pouco se importou com o desejo de liberdade da amiga.
Amanhece ao seu lado, e, ainda sonolenta, num susto, percebe-se apaixonada.  Sem desejar ir, se vai.
            Ao acordar, Literatura sente a sombra de Filosofia ainda pela casa. A taça vazia do vinho, o interesse enroscado ao cobertor, o elástico que lhe apertava as ideias jogado num canto qualquer. Guarda-o cuidadosamente, prevendo um retorno da amiga, que, com certeza, estranharia ter as próprias ideias circulando muito livremente.    
            Como era de se esperar, ao entardecer Filosofia vem em busca do elástico opressor.                                                       
           O primeiro encontro se dera por conta de alguma doçura. O segundo pelo esquecimento. O terceiro se daria por nenhum outro motivo senão o da já avançada paixão. E a cada dia, pílulas de novidades enchiam mais e mais de crescente interesse a já tão curiosa Filosofia. Porque o poeta fora fisgado e já tinha, com Literatura, todos os dias, um encontro marcado.  
            E se no primeiro momento Filosofia se apaixonara, a cada nova aventura amorosa da engenhosa amiga, sua paixão crescia. Um querer saber, um querer entender, um querer, talvez, ser, através da outra.
            Os encontros diários com o poeta vinham emprestando à Literatura um viço cada vez mais flagrante, e as pesquisas da curiosa amiga adicionavam a isso algo ainda mais instigante.  
E, se Filosofia vinha saber das carícias que Literatura trocava com o jovem rapaz, Literatura também não se furtava a tentar compreender as frustrações da amiga. Que lhe confidenciava coisas estranhas e tristes. Que se julgava incapaz de criar por si mesma, e que raramente dizia algo que não se baseasse em alguma aventura alheia. Que se enamorava muito, mas não se fixava nem entrava de cabeça. Que tinha dificuldade em se entregar. Que tomava, por precaução, um anticoncepcional que a tornava estéril e que, embora isso lhe frustrasse, lhe trazia alguma tranquilidade, pois sempre temera parir algo que lhe desse asas para voar.
Acontece, enfim, o previsível: Filosofia se vicia nos relatos de Literatura sobre os encontros com o novo amante. Nas descrições pormenorizadas de seu íntimo relacionamento. Na doçura de suas palavras ao falar do toque suave dos dedos gordinhos do poeta correndo por seus parágrafos. De seu hálito, invadindo suas páginas em suspiros prolongados sempre que se mostrava atrevida. De seus dentes, muito brancos e alinhados, em lindos sorrisos roubados. Das emoções, na partilha dos sentimentos, nas constatações de experiências similares. Do bater de seu coração, que se acelerava sempre que o provocava, perturbadora. De seu silêncio, um silêncio cheio de significados. E do desejo, um desejo pulsante de encontros infinitos, sem tréguas, sem pausas. Dos mergulhos profundos de um no outro. E do pesar, do imenso pesar no momento da separação diária.
Não foi preciso muito para que aquela que se julgava incapaz de se apaixonar se descobrisse duplamente apaixonada: por aquela que lhe relatava suas intimidades com o amante e pelo amante, cuja atenção  invejava.
Filosofia, ciumenta,  questionava Literatura pela imprudente bigamia. Como se atrevia a se entregar ao poeta e ao leitor, e sem culpa, sem remorso, sem qualquer ranço de pudor?
Literatura, paciente, tentava fazer com que Filosofia entendesse que nada havia de vergonhoso no que fazia. Era o poeta que lhe imprimia seus atributos mais caros. Era dele que lhe vinha a graça, a cadência, a intensidade. Era ele que a enriquecia com sentimentos confusos, rimas raras, esplendorosas imagens.  E o leitor, com sua admiração e fidelidade, lhe enchia de vaidade e dava sentido à sua vida. O poeta a paria, o leitor a consumia. E Literatura estava radiante, pois encontrara  os dois num só, e vinha se sentindo duplamente amada.
Que infinita agonia se apossou de Filosofia ao perceber que Literatura não mais se satisfaria com encontros públicos... Em uma conversa a portas muito fechadas Literatura confidenciou à amiga que encontros em agradáveis cafés já não lhe bastavam. Carícias leves, correr de dedos, olhares apaixonados sempre sob a vista de curiosos vinham deixando Literatura mais ansiosa a cada dia. Não. Ela queria o poeta ali, debaixo de seus lençóis. Queria que ele estremecesse aos seus sussurros, que navegasse em seus mistérios, que a desnudasse e se deixasse desnudar. Que a vasculhasse despudoradamente por todos os recantos, que se desgovernasse em suas entrelinhas mais sutis e que encontrasse nela alento para todos os desencantos da vida. Queria que ele pudesse, na intimidade de seu quarto, chorar aconchegado em seu peito, gemer juras de amor ao seu ouvido, gozar o mais puro gozo dos apaixonados. Que mergulhado nela, o poeta pudesse, enfim, esquecer por completo da realidade. Que ficassem longe, muito longe, todos os medos e todas as dúvidas. Que seu amor fosse a resposta para suas infinitas perguntas e que pudesse lhe trazer, enfim, alguma certeza.
Tão excitada estava Literatura, tão corada e possuída pela expectativa,  que nem percebia a palidez crescente da amiga enquanto lhe contava que o poeta lhe visitaria, ali mesmo, em sua casa, naquela noite. Que prepararia algo especial para o jantar, que haveria velas espalhadas por todos os ambientes, e que pretendia que a noite terminasse em sua cama. Separara alguns trechos de seus escritores preferidos, e seu plano era de que o poeta, bom leitor que é, os lêsse baixinho ao seu ouvido.
De repente, Filosofia se entrega a intensa vertigem e não fosse a amiga amparar-lhe nos braços, teria se estatelado de cara no chão. Segue-se então uma série de cuidados. Que sentasse confortavelmente no sofá, que respirasse fundo, que se acalmasse, que esperasse que já faria um chá... afinal, o que é que lhe perturbara tanto?
Depois de uma conversa cheia de reticências, rubores e aflições, firma-se um acordo. Generosa, Literatura não poderia deixar Filosofia minguar consumida pela curiosidade. Se era mesmo verdade o que lhe confessara sobre seu caráter parasitário, muito provavelmente, enquanto literatura estivesse fazendo amor com o poeta, Filosofia estaria sofrendo desgraçadamente no apartamento ao lado.
Não... embora às vezes fosse difícil e um tanto quanto sem graça, Filosofia não merecia isso...
Seria assim o combinado: caso mais à noite – e em todas as outras noites também – Filosofia se sentisse só e precisasse de um café, e percebesse ter esquecido de comprar açúcar, que viesse. A porta estaria sempre destrancada. Podia entrar e se servir. E... caso ouvisse gemidos de amor no fundo do corredor, se soubesse se aproximar pé ante pé, sem se fazer perceber, a porta do quarto estaria sempre entreaberta. Que fosse discreta.
Quanto ao receio de desagradar ao leitor e ao poeta com sua intrusão, Literatura sugeriu à amiga que deixasse por sua conta. Se já conhecia, ao menos um pouquinho, sua natureza, saber de alguém espreitando por uma fresta provavelmente seria mais um componente para aumentar-lhes o tesão.
E – conjecturou Literatura, sonhadora - quem sabe, nalgum dia, fizessem amor a quatro...



Analú
22/02/2012