domingo, 1 de agosto de 2021

Borba Gato e a Cinemateca ou de como perpetuar a barbárie restaurando a estátua de um bandido e destruindo a Cultura

 




De sábado pra cá estou acompanhando atentamente a polêmica que nasceu a partir do ato contra a estátua de Borba Gato e me parece que, como era de se esperar, a tese em prol da “preservação da História” prevaleceu na grande mídia.

Isso me fez chegar à questão: queimar a estátua de Borba Gato não é História?

Fiquei me imaginando contando à minha neta, quando ela já tiver idade pra pensar junto comigo sobre essas coisas, que em certo sábado de 2021, quando ela tinha apenas 3 anos, enquanto milhares de pessoas em todos os cantos do Brasil enfrentavam o medo de se contaminar com um vírus perigosíssimo para ir às ruas pedir o impeachment de um presidente covarde, misógino, machista, racista, prevaricador, corrupto, adorador de torturadores, etcetcetc, em uma rua de São Paulo um pequeno grupo queimava uma estátua que representava muito de tudo isso, como que dizendo: não queremos mais tolerar tanta barbárie.

Se, à época de Borba Gato, houve quem julgasse legítimo homenageá-lo, isso está na História e é lá que deve ficar. Mas, evoluímos e ganhamos clareza quanto aos fatos e também quanto ao que é aceitável ou não e, para explicitar claramente isso - sim, porque sem atos “barulhentos” ninguém enxerga as ditas "minorias", que de minorias nada têm senão a própria invisibilidade perante o establishment -, um grupo de inconformados teve a coragem de incendiar a homenagem à barbárie.

A pergunta é: por que a cicatriz desse ato tem que ser apagada senão como um recado de que as minorias devem continuar invisíveis e de que a barbárie continua sendo validada? Por que, até hoje, andando pelas ruas de São Paulo, temos que cruzar com esse escárnio? Por que um país que sofre terrivelmente com o racismo, o machismo e a misoginia e onde mulheres morrem e são estupradas às pencas todos os dias deve manter plantada no meio da calçada uma estátua horrorosa em homenagem a um escravagista assassino e estuprador? Porque é “arte”? Ou porque o poder nessa plutocracia brasileira de 2021 é exercido por simpatizantes e quiçá praticantes de tudo que Borba Gato praticava?  

A estátua pegando fogo mandou a mensagem: estamos fartos de tolerar o intolerável. No mundo de hoje não há mais espaço nem nas ruas, nem nas nossas vidas, para “Borba Gatos” de pedra ou de carne e osso. Não queremos tropeçar nesse tipo de “patrimônio cultural”, que valida a barbárie, o primitivismo e tudo o que rejeitamos ferrenhamente. Porque ele estimula racistas, escravagistas, misóginos e estupradores a se julgarem dignos de homenagens e admiração e a acreditarem que podem ser como são. E não, NÃO PODEM. NÃO QUEREMOS MAIS TOLERÁ-LOS.

Nesse futuro em que me imaginei contando essa história à minha neta havia dois possíveis desfechos. No primeiro, eu lhe contaria, orgulhosa, que, depois dos debates provocados pelo ato, a estátua virara sucata para servir a outro propósito mais útil e que no chão, no local onde ela estivera plantada por excessivo tempo, haviam chumbado uma placa esclarecendo o motivo de sua retirada. E se minha neta quisesse ver como era a estátua, eu teria, para lhe mostrar, um sem número de registros virtuais e impressos que prescindiriam da permanência do monstro na calçada. E lhe contaria que as autoridades haviam decidido destruí-la porque ela não contribuía em nada para a criação de uma sociedade melhor, porque não se constrói nada de bom homenageando bandidos. E que, de qualquer forma, a quem interessasse, sempre haveria os livros de História. No segundo desfecho que imaginei possível, a estátua ainda estaria na calçada e eu poderia, com orgulho, mostrá-la toda chamuscada à minha neta e ler com ela a placa  que explicaria que as autoridades da época haviam considerado importante mantê-la  chamuscada para preservar simbolicamente o ato que em 2021 a incendiara em repúdio a tudo o que ela representava. Pensei na Bastilha se transformando em praça de grandes manifestações democráticas, pensei no muro de Berlim se transformando em mural de arte a céu aberto,  pensei no Pelourinho, em Salvador, se transformando em Centro de Cultura e de Resistência e imaginei esse tipo de ressignificação para o feio Borba Gato.  

Mas vejam só!!! Será mesmo que vou ter que contar à minha neta que houve uma polêmica, que os “intelectuais” do nosso país não deram conta e que, por fim, um empresário resolveu bancar sua restauração para perpetuar a homenagem à barbárie???

É INACREDITÁVEL o Brasil que estamos vivendo.

O incêndio na Cinemateca no final da semana, fruto do descaso criminoso do governo federal, reitera a constatação trazida pelo episódio da estátua. Estamos sendo governados por gente que não consegue superar a própria miséria moral e intelectual para entender que o ser humano é muito mais do que um tubo digestivo. É muito triste tudo isso.


                                                                                    Ana Lúcia Sorrentino


domingo, 17 de janeiro de 2021

Temos vacina, mas precisamos combater as excrescências da ditadura

 


 

 

Hoje foi dia de uma grande alegria – a primeira aplicação de vacina contra a Covid19 deu a largada para a vacinação – e de uma grande baixaria: o desgoverno Bolsonaro colocou Pazuello para dar uma coletiva no mesmo momento da coletiva de Doria, para nublá-la. Foi absolutamente nojento! Vamos esclarecer algumas coisas para possíveis desavisados?

Dória não é um santo, prima pelo marketing e está sim, visando as eleições de 2022. Mas isso não significa que possamos invalidar TODAS as ações dele. E, se nesse momento está usando a vacina para obter popularidade, que bom, porque isso beneficiará a todos nós. Se você não quiser votar nele em 2022, não vote, mas em relação a isso ele está fazendo um bom trabalho, em contrapartida ao péssimo trabalho, trabalho nenhum ou destrabalho que o desgoverno federal faz! E, a bem da verdade, o desgoverno Bolsonaro parece só estar agindo contra a Covid reagindo a Dória, seu objetivo é sempre atacá-lo, nunca salvar a população.

Já Pazuello é uma excrescência da ditadura, um general que deveria entender de logística e já provou que nem disso entende, vide a série de erros crassos que cometeu já no ministério. É um pau mandado cuja principal intenção é agradar seu chefe e passa muuuito longe da preocupação com a saúde da população. Quando o vejo nas coletivas franzindo o cenho e falando grosso sinto o mesmo asco que sinto ao ver aqueles vídeos antigos de generais da ditadura gritando com jornalistas para intimidá-los. E por que precisa intimidar? Porque faz um mau trabalho e mente e, portanto, não se sente seguro para ser questionado. Foi o que fez hoje, interrompendo a coletiva de Dória para evitar que brilhasse e disparando uma série de mentiras, entre elas a de que o que Doria está fazendo não é legal. Temos que esclarecer: Lewandowski proibiu o governo federal de “roubar” (sim, o termo é esse mesmo) as agulhas e seringas de SP alegando que "a incúria (negligência) do Governo Federal não pode penalizar a diligência (cuidado, zelo) da administração estadual, a qual tentou se preparar de maneira expedita para a atual crise sanitária."

Entre outras inúmeras falhas graves, Pazuello tem responsabilidade pelas mortes que acontecem por asfixia em Manaus agora, porque esteve lá, a mando do despresidente, para fazer propaganda da cloroquina, comprovadamente ineficaz contra a Covid,  e se esqueceu de voltar a  atenção ao abastecimento de ar dos hospitais. É preciso dizer mais alguma coisa? Sim, é preciso! Estamos em uma democracia e não é admissível termos que conviver com esses filhotes de ditadura que nos põem nervosos, a iniciar por sua postura autoritária incabível em 2021 e a terminar por sua extrema incompetência. E vale dar uma olhadinha na Wikipédia pra se atualizar sobre sua performance no ministério da saúde, mas também pra ter consciência do seu passado! Está lá: “Em 24 de novembro de 2005, o Site do Senado Federal  replicou a reportagem do Jornal do Brasil, com Título: "Do Quartel para o Ferro-velho". Segundo a publicação,  "Pode ser responsável pelo maior desvio de munição da História do Exército Brasileiro". O Ministro da Saúde Eduardo Pazuello era o Comandante do Depósito Central de Munição do Exército.”

Aqui vão alguns links pra você ter ideia de quem é Pazuello e, quem sabe, ter mais força para gritar contra essa miséria que estamos vivendo: 

- Do quartel para o ferro-velho - Jornal do Brasil, 24/11/2005, Rio, p.A13

<https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/65677/noticia.htm?sequence=1&isAllowed=y>

- Biografia na Wikipédia: < Eduardo Pazuello – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)>

- Ministro da Saúde interino obrigou soldado a puxar carroça no lugar de cavalo em quartel Exclusivo: Ministro da Saúde interino obrigou soldado a puxar carroça no lugar de cavalo em quartel (diariodocentrodomundo.com.br)

Pra finalizar, gritemos! #ForaPazuelloincompetente #Impeachmentdebolsonarojá !!!!

Ana Lucia Sorrentino 


sábado, 24 de outubro de 2020

Elas e eles

Elas saíram às ruas, queimaram sutiãs, questionaram a ordem estabelecida. Espernearam, protestaram, reivindicaram direitos, igualdade, emprego, salário, voto. Batalharam, enfrentaram, conquistaram. Deixaram de servir só ao lar e também de se calar à forte presença do pai de família. Assumiram as contas, a casa, o mercado de trabalho, a profissão, os filhos, os pais idosos, irmãos frágeis, pets abandonados e tudo o que o mundo lhes impõe. Mostraram que podem ser ótimas em tudo o que fazem. Dentro, fora, aqui, além, acolá. São inteligentes, espertas, multifacetadas, multitarefas, interessadas, competentes, eficientes, fortes. Trabalhadoras. Estudiosas. Bonitas. Invadiram a política e, apesar de ainda serem poucas, dão de dez a zero nos quesitos honestidade, clareza, facilidade em se comunicar. Aprenderam a gritar entre trogloditas, pra se fazer ouvir e respeitar. Ganharam votos, visibilidade, credibilidade. Eles se fizeram de tontos pra não ir pra guerra. Reativos. Cederam ao que estavam absolutamente impossibilitados de resistir. Adequaram-se ao que era muito inadequado não se adequar. Ou fugiram. Alguns corajosos descobriram o lado bom disso tudo. Passaram a viver coisas que não viviam, conheceram afetos desconhecidos, desfrutam, privilegiados, de relacionamentos inteiros. Mas são raros. Os preguiçosos procuraram novas saídas, menos trabalhosas do que mudar. A nudez escancarada, nem mais vendida, mas publicada gratuitamente em quantidade industrial, parece tê-los desanimado... A agressividade de quem precisou aprender a se defender parece tê-los desencorajado... Encontram, com facilidade, em seus iguais ou na virtualidade - esse "quase" -, alternativas à tão dificultosa tarefa de lidar pessoalmente com o que muda o tempo todo, com o que se supera, com o que questiona, com o que se pode viver intensamente, mas que demanda coragem. Ah, essa virtualidade, coisa facilitadora para os relacionamentos... Uma só tecla - delete -, um só comando - bloqueio -, e as desavenças se resolvem "civilizadamente". Elas reagem às leis do mercado. Quanto mais rara a "mercadoria", mais cara. Não basta ser bela e competente para conseguir um companheiro. Não direi nem um "bom companheiro", porque já seria querer demais. E elas acreditam que precisam disso, porque desde o berço foi o que lhes ensinaram. Nos contos-de-fadas, nas histórias de princesas, nas brincadeiras de casinha... Não bastasse isso, a que meninas modernas até resistem, a sociedade volta seu olhar torto a toda solitária, a toda celibatária, a toda mulher que não pensa em ser mãe. Há, também entre elas, as corajosas. Mas para que uma mulher se sinta livre como os homens se sentem naturalmente é preciso ter muito, muito mais coragem do que eles. Até porque todo ato de liberdade, quando praticado por uma mulher, é sumariamente julgado pela sociedade. Já belas, elas ainda se enfeitam para atingir padrões que possam atrair a atenção de um raro macho alfa. Pode-se atribuir essa obstinação à natureza, à cultura, à publicidade... Talvez seja um fator a se considerar o fato de que, enquanto para eles, cultuar Onã é prática natural desde sempre, para muitas delas, por incrível que pareça, ainda é tabu. Mas, também, por incrível que pareça, muitas ainda consideram que ter um homem a tiracolo lhes confere um status mais elevado... Assim, andam sobre plataformas e agulhas pra alcançar a altura "adequada" e a elegância "necessária". Espremem seus seios em bojos emborrachados pra que seus colos fiquem lindamente estufados e seus mamilos devidamente escondidos. (Percebi recentemente que mamilos marcados sob blusas leves podem ser considerados ofensa pessoal, não só a homens, mas a mulheres!). Maquiam-se, camuflam-se, rejeitam sobremesas, sacrificam-se, gastam com tratamentos sofisticados, perdem a expressão com preenchimentos e botox, entram na faca, negam a própria idade... São capazes de contorcionismos para agradar à plateia enfadada... No frigir dos ovos, depois de tantas batalhas vencidas, ganham menos do que eles, nas mesmas funções. Enfrentam tripla jornada e estão sempre cansadas. São culpadas de todas as agressões de que são vítimas, de todos os fracassos familiares, por todos os filhos-problema. Correm, permanentemente, o risco de serem esculhambadas ou agredidas em praça pública por machistas rejeitados, sem que um cidadão, um policial, um anjo da guarda, tome suas dores e interceda a seu favor, covardes de carteirinha, sem pudor. São traídas, humilhadas, constrangidas, esbofeteadas, espancadas, estupradas, e assassinadas quando traem ou abandonam companheiros violentos. E, às que se negam a aceitar relacionamentos desiguais, ou se aborrecem com pavonices masculinas, quase sempre resta a solidão. Será que algum dia existiu mesmo o convívio amoroso entre homens e mulheres? Será que ainda é possível o gozo compartilhado, não só na cama, mas na vida? Desejos coincidentes, planos comuns, caminhos percorridos juntos, respeito, admiração e carinho? Será que a doçura do amor se perdeu irreversivelmente nesse mundo de competição e revanchismo, ou ainda tem jeito? Será que ainda poderemos escapar de todos os estereótipos modernos, sermos gente e não coisa a ser vendida, encontrar não só sexo selvagem, mas sentir prazer de verdade por estar com alguém? Ana Lucia Sorrentino

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Receita de sucesso – de grátis

 

Não faça drama e aceite que tudo é natural.
A morte à espera lá fora, seus valores na sarjeta, o mal tornado banal.
Sua vida comandada por uma gente boçal, seus amigos mais queridos vendidos de baciada.
Nunca ninguém te disse que você não vale nada?
Pense bem, a culpa é sua. A vida é luta. Sem dor, sem ganho.
Entre na internet, inscreva-se num curso, agora eles ensinam até mudo a fazer discurso.
Pegue o seu fracasso e faça dinheiro!
Seja forte, toque a vida, coma e cague, você é um tubo. E cague e ande pra tudo. Pra tudo!
Se você é mulher, seja vadia. Ou pensa que vai poder passar a vida sem se vender?
Se é homem, seja canalha. Negue, minta, finja estar doente, se esconda, não responda, não tenha nunca nada a declarar.
Creia! Nunca vão te pegar!
Não tenha escrúpulo, nem vergonha. Chega dessa baboseira!
Invoque Deus, fique bravo, seja porco e imprudente. Barbarize frequentemente, que logo ninguém mais liga.
Desrespeite, desprestigie, desorganize, desestruture, desestabilize, cause intriga. Pratique a ignorância obstinadamente. Aos poucos ela se espalha e quem sabe, de repente, a vida te recompensa e você vira despresidente.

 

                                                                          Ana Lucia Sorrentino

 


domingo, 2 de agosto de 2020

Desistória

   

 

Eu escrevo esta desistória para que não se perca no nada, de onde veio e de onde, talvez, guarde alguma saudade. Temo que suma no vazio da memória. Nutre-me o ânimo pensar que, escrevendo-a, posso dela reter alguma beleza que, tivesse sido vivida, poderia ter. Escrevo pensando-a como uma não-desilusão, porque já foi gestada fadada a ser em vão. Não me foi permitido crer que viesse a acontecer, senão em minha fértil imaginação. Vivo, desde sempre, abortando gestações imaginárias. E não, não deixarei de engravidar. A ideia do inédito, à parte o descrédito que merece o mundo, me alimenta a alma e me permite atravessar esses áridos e inférteis desertos com alguma alegria. Está em mim. Brota. Floresce. Quero crer que em algum momento a vida possa, de fato, ser. Enquanto isso, sigo tecendo-a com fios do que não foi. Há nessa desistória personagens que poderiam ser lindos, não fossem tragados pela negação do belo. Há vontade, muita vontade, e uma imensa predisposição à compreensão e à cumplicidade. Há doçura, lealdade, há sentimentos nobres e olhares que entram pelas retinas e flecham, como um cupido, nossos corações já tão vividos. Que desistória bonita essa que nunca foi!... Causa-me um sentimento cujo nome ainda não existe essa impossibilidade de me sentir triste por saber que minha possível tristeza tem muito mais a ver com o que imaginei do que com o que de fato existe... Mas quando olho, assim tecida, a trama da minha vida, agrada-me encontrar tanta cor e tanta luz. Aqueles longos fios de tristeza dos inúmeros não-vividos não raro emprestaram real beleza e até mesmo alguma alegria aos tons tão pastéis de tudo...

 

    Eu escrevo esta desistória para que não se perca no nada, de onde veio e de onde, talvez, guarde alguma saudade. Temo que suma no vazio da memória. Nutre-me o ânimo pensar que, escrevendo-a, posso dela reter alguma beleza que, tivesse sido vivida, poderia ter. Escrevo pensando-a como uma não-desilusão, porque já foi gestada fadada a ser em vão. Não me foi permitido crer que viesse a acontecer, senão em minha fértil imaginação.
    Vivo, desde sempre, abortando gestações imaginárias. E não, não deixarei de engravidar. A ideia do inédito, à parte o descrédito que merece o mundo, me alimenta a alma e me permite atravessar esses áridos e inférteis desertos com alguma alegria. Está em mim. Brota. Floresce. Quero crer que em algum momento a vida possa, de fato, ser. Enquanto isso, sigo tecendo-a com fios do que não foi.
    Há nessa desistória personagens que poderiam ser lindos, não fossem tragados pela negação do belo. Há vontade, muita vontade, e uma imensa predisposição à compreensão e à cumplicidade. Há doçura, lealdade, há sentimentos nobres e olhares que entram pelas retinas e flecham, como um cupido, nossos corações já tão vividos. Que desistória bonita essa que nunca foi!...
    Causa-me um sentimento cujo nome ainda não existe essa impossibilidade de me sentir triste por saber que minha possível tristeza tem muito mais a ver com o que imaginei do que com o que de fato existe...
    Mas quando olho, assim tecida, a trama da minha vida, agrada-me encontrar tanta cor e tanta luz. Aqueles longos fios de tristeza dos inúmeros não-vividos não raro deram algum sentido, emprestaram real beleza e até mesmo alguma alegria aos tons tão pastéis de tudo...

           
                                                            Ana Lucia Sorrentino

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Aproximação

 

 

 

Há, entre corpos,

distância que se estreita pela intenção.

É no tempo,

na pausa,

no receio,

no toque que titubeia pressentindo a permissão.

É na delicadeza imposta pelo medo da rejeição

que o instinto se lapida e pode acontecer,

na calma,

o inusitado encontro de almas.


Ana Lucia Sorrentino

 

 

 

 

 

 


segunda-feira, 27 de julho de 2020

sábado, 11 de julho de 2020

Pequeno diário de uma semana intensa perambulando entre a morte e a vida - estou viva

Pequeno diário de uma semana intensa, perambulando entre a morte e a vida – estou viva


   




Pequeno diário de uma semana intensa, perambulando entre a morte e a vida – estou viva.
           
            Sábado. Como nada é garantia de nada, uma estrada tranquila não foi garantia de uma viagem tranquila. Durante mais de seis horas estados internos desfavoráveis se sobrepuseram a condições externas favoráveis e me fizeram imaginar que eu poderia morrer liquidificada entre uma enxaqueca feroz e uma cruel crise de enjoo. E me renderam um domingo submerso em gatorade e solidão. Nada de que me arrependesse, uma vez que a intenção era nobre: estar presente no casamento de alguém muito querido. Celebrar o amor.
            Segunda. Missão cumprida. De tanto que me cuidei fiquei zerada. Fui pra festa feliz da vida. Nunca assisti a casamento tão lindo. O pé dentro da igreja já é garantia de choro sentido. O coral, um escândalo. Eu queria mesmo saber o que é que faz mulheres chorarem tanto em casamentos. Talvez seja a beleza da crença na ilusão, mesmo sabendo-a ilusão. Não sei... Depois do beijo, Beatles colocando a igreja abaixo. Todo mundo cantando “All we need is love” e em mim a convicção de que se é possível se duvidar de tudo, do poder do amor não duvido.
            Festa! Muita comida, muita bebida, muita gente bonita, muita emoção. Na pista, os jovens se entregavam à dança com despudor total. Me perguntei que diabos fizera com a minha vida compartilhando-a com um homem que nunca me tirara para dançar. Pra todo o resto eu poderia arrumar alguma desculpa, esfarrapada ou bem vestida, mas pra isso não. Como eu pudera não perceber o quanto podia ser lesivo ficar sem dançar por toda uma eternidade de 24 anos? Fiquei mastigando essa pergunta, junto com um pedacinho de bem-casado e com o cafezinho da saída, um pouco amargo.
            Terça. A opção por voltar de avião só encurtou o sofrimento, porque o céu carregado não ajudou em nada... Cheguei a Sampa meio que desmilinguida, mas pronta pra outra.
            Quarta. Eu só não sabia que essa outra viria tão rapidamente, e em sentido tão oposto. Depois da aula, ao ligar o celular, recebo uma mensagem de texto me avisando do velório de uma amiga querida. Saí da faculdade e fui ao encontro dela, mas ela já não estava lá. Só um caixão com um corpo sem vida.
            Percebi então que morrer não é como a quase-morte do enjoo que precede o vômito. Morrer é morrer. É sair de cena de vez. Olhando minha amiga, que já não estava lá, não vi vida alguma ali. Nem um fiapo. A não ser na dor dos que choravam à sua volta. Me vieram à mente as palavras de Epicuro, em sua carta a Meneceu, e tive que concordar com ele. A morte não é problema nosso, porque quando estamos ela não está e quando ela está já não estamos.  A morte é problema dos que ficam, porque eles é que terão que reorganizar suas vidas e superar a dor da saudade.
            Olhei em volta e, vendo o cansaço dos familiares, pensei na tirania da doença e no tanto de vida que essa triste exibicionista consome de todos os que se veem obrigados a conviver com ela. A morte, parece-me, pode ser uma grande amiga. Que imensa sorte é o imenso azar da morte pros que ficam e retomam suas vidas...
            Bateu-me então um enorme desarrependimento por todas as loucuras que fiz, fora de época, lixando-me pras regras e sem qualquer medo de vergonha ou vexame. Soubesse eu, mais jovem, o quanto perdemos de tempo acreditando em bobagens, mais jovem teria me desprendido delas.  
            Quinta. Acordei e chorei. Estudei e chorei. Fui pra prova com pepsamar na bolsa. Fiz o melhor que pude. Tive que escrever sobre Leibniz, e seu Deus criador do melhor dos mundos possíveis. Uma apelação mesmo... Pra mim, pura literatura. Aliás, se fosse literatura, poderia ser bem bonito...  

            Sexta. Ainda toda meio desconjuntada dou graças aos céus por já estar podendo comer melhor. Afinal, mais um casamento, mais uma festa, mais uma celebração de amor.  Me arrumo às pressas, sem me preocupar muito em estar maravilhosa, porque há tempos já deixei de lado a ilusão de ser a mais bonita da festa. Com simplicidade, faço boa figura. Vantagens que a idade traz.  O mais bonito desse casamento, sabe o que foi? Que o noivo abriu mão de casar com separação parcial de bens, o que é meio que uma regra hoje em dia. Nesse mundo tão selvagemente capitalista, tive a honra de assistir a um casamento em que o noivo simplesmente optou por casar com comunhão universal de bens, por estar casando com um amor de adolescência e acreditar que, realmente, estão juntos nessa vida. O cafezinho da saída teve até um gosto mais doce...
            Sábado. Obrigações. Compras. Sol. Música. Venho pela rua cantando “Encontro” junto com Gadú.

Olha só
Como a noite cresce em glória
E a distância traz
Nosso amanhecer
Deixa estar que o que for pra ser vigora
Eu sou tão feliz
Vamos dividir
Os sonhos
Que podem transformar o rumo da história
Vem logo
Que o tempo voa como eu
Quando penso em você... 

            Aumento o som, e venho sorrindo e chorando, toda misturada. Pelo tanto que me sinto viva e pelo tanto que morro sempre que não vivo o que desejo viver.  E me vem uma urgência, uma urgência infinda, uma sede enorme e um enorme pesar pelo sempre tão presente desacontecer.  
            Queria que não me escapasse tanta coisa por esses humanos dedos, tão finos e frágeis... 
           
                                                                                    Ana Lucia Sorrentino